2 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte

Rhysand nos atravessou para uma floresta mais velha, mais alerta que em qualquer lugar em que eu tivesse estado.
As faias retorcidas se entrelaçavam bem próximas umas das outras, manchadas e cobertas tão completamente de musgo e líquen que era quase impossível ver a casca abaixo.
— Onde estamos? — Respirei fundo, mal ousando sussurrar.
Rhys manteve as mãos casualmente ao alcance das armas.
— No coração de Prythian, há um território grande e vazio que divide o norte e o sul. No centro dele está nossa montanha sagrada.
Meu coração estava acelerado, e me concentrei nas passadas entre samambaias, musgos e raízes.
— Esta floresta — prosseguiu Rhys — fica na ponta leste desse território neutro. Aqui não há Grão-Senhor. Aqui, a lei é feita por quem é mais forte, mais cruel, mais ardiloso. E a Tecelã da Floresta está no topo da cadeia alimentar.
As árvores rangeram, embora não houvesse brisa para movê-las. Não, o ar ali era sufocante e velho.
— Amarantha não acabou com eles?
— Amarantha não era tola — argumentou Rhys, a expressão sombria. — Ela não tocou nessas criaturas ou perturbou a floresta. Durante anos, tentei encontrar formas de manipulá-la para que cometesse esse erro tolo, mas ela jamais mordeu a isca.
— E agora nós a estamos perturbando, por um simples teste.
Rhys riu, e o som ecoou pelas pedras cinzentas espalhadas pela floresta como se fossem bolas de gude.
— Cassian tentou me convencer ontem à noite a não trazer você. Achei que fosse até me socar.
— Por quê? — Eu mal o conhecia.
— Quem sabe? Ele provavelmente está mais interessado em trepar com você que em protegê-la.
— Você é um porco.
— Você poderia, sabe... — disse Rhys, segurando o galho de uma faia fina para que eu passasse por baixo. — Se precisasse avançar no relacionamento em um sentido físico, tenho certeza de que Cassian ficaria mais que feliz em ajudar.
Pareceu um teste. E me deixou tão irritada que cantarolei:
— Então diga a ele para vir a meu quarto esta noite.
— Se você sobreviver ao teste.
Parei no alto de uma pequena pedra coberta de líquen.
— Você parece feliz com a ideia de que não sobreviverei.
— Pelo contrário, Feyre. — Rhys caminhou até onde eu parei, na pedra. Eu estava quase na altura de seus olhos. A floresta ficou ainda mais silenciosa... as árvores pareciam se aproximar, como se para ouvir cada palavra. — Informarei a Cassian que você está... aberta aos avanços dele.
— Bom — respondi. Um fragmento de ar, como se fosse vácuo, me empurrou, algo como um lampejo de noite. Aquele poder em meus ossos e sangue se agitou em resposta.
Fiz menção de saltar da pedra, mas Rhys segurou meu queixo; o movimento foi rápido demais para que eu o detectasse. As palavras pareciam carícias letais quando Rhys falou:
— Gostou de me ver ajoelhado diante de você?
Eu sabia que Rhys conseguia ouvir meu coração quando este acelerou em um ritmo estrondoso. Dei a ele um sorrisinho de raiva, libertando o queixo e saltando da pedra. Poderia ter mirado os pés de Rhys. E ele poderia ter saído do caminho apenas o bastante para evitar que eu pisasse em seus pés.
— Não é só para isso que vocês machos servem mesmo? — Mas as palavras saíram contidas, quase sem fôlego.
O sorriso de Rhys em resposta evocou lençóis de seda e brisas com cheiro de jasmim à meia-noite.
Aquele era um limite perigoso: um no qual Rhysand me obrigava a caminhar para evitar que eu pensasse no que estava prestes a enfrentar, em quanto eu estava devastada por dentro.
Raiva, aquele... flerte, irritação... Rhys sabia que eram minhas muletas.
O que eu estava prestes a encontrar, então, devia ser realmente perturbador se ele queria que eu entrasse irritada — pensando em sexo, em qualquer coisa menos na Tecelã da Floresta.
— Boa tentativa — admiti, a voz rouca. Rhysand apenas deu de ombros e saiu andando com arrogância para as árvores adiante.
Canalha. Sim, fora para me distrair, mas...
Disparei atrás de Rhys o mais silenciosamente possível, determinada a derrubá-lo e dar um soco em sua coluna, mas Rhys ergueu a mão quando parou diante de uma clareira.
Um pequeno chalé branco com telhado de sapê e uma chaminé quase aos pedaços estava no centro. Comum... quase mortal. Havia até mesmo um poço, o balde estava apoiado na borda de pedra, e lenha fora empilhada debaixo de uma das janelas do chalé.
Nenhum ruído ou luz do lado de dentro; nem mesmo fumaça subia da chaminé.
Os poucos pássaros na floresta ficaram em silêncio. Não totalmente, mas para manter o canto ao mínimo. E... ali.
Baixo, vindo do lado de dentro do chalé, havia um murmúrio belo e constante.
Talvez fosse o tipo de lugar no qual eu pararia caso estivesse com sede ou com fome, ou precisando de abrigo para a noite.
Talvez fosse essa a armadilha.
As árvores ao redor da clareira, tão próximas que os galhos quase arranhavam o telhado de sapê, podiam muito bem ser as barras de uma jaula.
Rhys inclinou a cabeça na direção do chalé, fazendo uma reverência com uma graciosidade dramática.
Entrar, sair; não fazer barulho. Encontrar qualquer que seja o objeto e roubá-lo de baixo do nariz de uma pessoa cega.
E então correr como nunca.
Terra coberta de musgo marcava o caminho até a porta da frente, já entreaberta. Um pedaço de queijo. E eu era o rato tolo prestes a cair na armadilha.
Com os olhos brilhando, Rhys articulou, sem emitir som: Boa sorte.
Fiz um gesto vulgar para ele e, devagar, em silêncio, segui para a entrada.
A floresta parecia monitorar cada um de meus passos. Quando olhei para trás, Rhys havia sumido.
Ele não disse se interferiria caso eu estivesse em perigo mortal. Provavelmente deveria ter perguntado.
Evitei folhas e pedras, entrando em um ritmo de movimento do qual alguma parte de meu corpo — alguma parte que não tinha nascido dos Grão-Senhores — se lembrava.
Era como acordar. Era essa a sensação.
Passei pelo poço. Não havia um grão de terra, nenhuma pedra fora do lugar. Uma armadilha perfeita, linda, avisou aquela parte mortal. Uma armadilha projetada de uma época em que humanos eram presos, e que, agora, estava disposta para um tipo de jogo mais esperto, imortal.
Eu não era mais presa, decidi, ao me aproximar com cuidado daquela porta.
E não era um rato.
Eu era um lobo.
Ouvi sob o portal cuja rocha estava gasta, como se muitas, muitas botas tivessem passado por ali — e talvez jamais tivessem passado de volta. As palavras da canção se tornaram claras agora, a voz era doce e bela como a luz do sol em um córrego:
“Era uma vez duas irmãs que saíram para brincar,
 Foram ver os navios do pai partirem para velejar...
E quando chegaram à beira do mar
A mais velha correu à mais nova empurrar.”
Uma voz melíflua para uma música antiga e terrível. Eu já a ouvira antes... um pouco diferente, mas cantada por humanos ignorantes de que vinha de bocas feéricas.
Ouvi mais um momento, tentando escutar mais alguém. Mas havia apenas o clangor e o estampido de algum tipo de aparelho, e a música da Tecelã.
“Às vezes a afundar, às vezes a nadar,
Até que enfim, na represa do moleiro, o cadáver veio parar.”
Meu fôlego estava preso no peito, mas continuei respirando regularmente — direcionando o ar para a boca com respirações silenciosas. Abri a porta devagar, apenas alguns centímetros.
Nenhum rangido; nenhuma reclamação das dobradiças enferrujadas. Tratava-se de outro pedaço da linda armadilha: ela praticamente convidava os ladrões. Olhei para dentro quando a porta se abriu o suficiente.
Uma grande sala principal, com uma pequena porta fechada ao fundo. Prateleiras do chão ao teto cobriam as paredes, cheias de bricabraques: livros, conchas, bonecas, ervas, cerâmica, sapatos, cristais, mais livros, joias... Do teto e das vigas de madeira pendiam todo tipo de correntes, pássaros mortos, vestidos, laços, pedaços de madeira retorcidos, cordões de pérolas...
Uma loja de quinquilharias — de alguma acumuladora imortal.
E aquela acumuladora...
Na sombra do chalé havia uma grande roca, rachada e desgastada pelo tempo.
E diante daquela roca antiga, de costas para mim, estava a Tecelã.
Os cabelos espessos eram do mais exuberante tom de ônix, descendo em cascata até a cintura fina conforme ela trabalhava na roca, e mãos brancas como neve alimentavam o aparelho e puxavam o fio ao redor de um fuso afiado como um espinho.
Ela parecia jovem; o vestido cinza era simples, mas elegante, brilhando levemente à luz fraca da floresta que entrava pelas janelas conforme a mulher cantava com uma voz que parecia ouro reluzente:
“E ao esterno dela, que fim ele deu?
Fez uma viola, um instrumento seu.
O que ele fez com os dedos tão pequenos?
Fez tarraxas para a viola, nada menos.”
A fibra com que a Tecelã alimentava as rodas era branca — macia. Como lã, mas... Eu sabia, com aquela parte humana que me restava, que não era lã. Eu sabia que não queria saber de que criatura tinha vindo, quem ela tecia.
Porque, na prateleira diretamente em frente à Tecelã, havia cones e mais cones de fios: de todas as cores e texturas. E, na prateleira adjacente a ela, havia carreiras e metros daquele fio tecido — tecido, percebi, no imenso tear quase escondido na escuridão próxima à lareira. O tear da Tecelã.
Eu tinha vindo em dia de fiar; será que ela estaria cantando se eu tivesse vindo em dia de tecer? Pelo cheiro estranho, encharcado de medo que vinha daqueles rolos de tecido, eu já sabia a resposta.
Um lobo. Eu era um lobo.
Entrei no chalé, atenta aos objetos espalhados no chão de terra. Ela continuou trabalhando, a roda girando tão alegremente, tão destoante de sua horrível música:
“E o osso do nariz dela, que fim levou?
Para a viola, um cavalete ele entalhou.
E com as veias tão azuis, o que ele fez?
Cordas para a viola, dessa vez.”
Observei a sala, tentando não ouvir a letra.
Nada. Senti... nada que pudesse me puxar na direção de um objeto em especial. Talvez fosse uma benção se, de fato, não fosse eu aquela a procurar o Livro... se aquele dia não fosse o início do que certamente se tornaria uma série de desventuras.
A Tecelã ficou curvada ali, trabalhando.
Verifiquei as prateleiras, o teto. Tempo emprestado. Eu estava usando tempo emprestado, e ele estava quase acabando.
Será que Rhys me mandara em uma missão impossível? Talvez não houvesse nada ali. Talvez esse objeto tivesse sido levado. Seria típico de Rhys fazer isso. Me provocar até que eu fosse para a floresta, para ver que tipo de coisas poderiam fazer meu corpo reagir.
E talvez eu me ressentisse de Tamlin o suficiente naquele momento para aproveitar aquele flerte mortal. Talvez eu fosse tão monstruosa quanto a fêmea que tecia diante de mim.
Mas, se eu era um monstro, então supus que Rhys também o fosse.
Rhysand e eu éramos iguais — sem contar o poder que ele me dera. Seria adequado que Tamlin me odiasse também depois que percebesse que eu tinha partido de verdade.
Eu senti algo então... como um tapinha no ombro.
Virei, mantendo um olho na Tecelã e o outro na sala conforme percorria com os olhos o labirinto de mesas e porcarias. Como um farol, um trecho de luz envolto no meio sorriso, o objeto me atraiu.
Oi, ele pareceu dizer. Veio por fim me reivindicar?
Sim... sim, eu queria dizer. Mesmo quando parte de mim desejou que fosse o contrário.
A Tecelã cantava atrás de mim:
“Que fim deu ele aos olhos dela, tão cintilantes?
A viola adornam, brilhantes.
E aquela língua tão áspera, aonde foi parar?
V irou o novo arado e desatou a falar.”
Segui aquela pulsação... na direção da prateleira que ocupava a parede ao lado da lareira. Nada. E nada na segunda. Mas na terceira, logo acima da direção de meus olhos... Ali.
Eu quase conseguia sentir o cheiro salgado e cítrico de Rhysand. O Entalhador de Ossos estava certo.
Fiquei na ponta dos pés para examinar a prateleira. Um velho abridor de cartas, livros de couro que eu não queria tocar ou cheirar; um punhado de avelãs, uma coroa embaçada de rubi e jaspe e...
Um anel.
Um anel de fios entrelaçados de ouro e prata, adornado com pérolas e encrustado com uma pedra do mais profundo e sólido azul. Safira... mas diferente. Eu jamais vira uma safira como aquela, nem mesmo nos escritórios de meu pai. Aquele... Eu podia jurar que à luz pálida, as linhas de uma estrela de seis pontas irradiavam pela superfície redonda e opaca.
Rhys... aquilo tinha a marca de Rhysand.
Ele me mandara até ali em busca de um anel?
A Tecelã cantava:
“Então falou a corda aguda,
Oh, distante está meu pai, o rei.”
Observei a Tecelã por mais um segundo, medindo a distância entre a prateleira e a porta aberta. Se pegasse o anel, eu poderia sair em um segundo. Rápida, silenciosa, calma.
“Então falou das cordas a segunda,
Oh, distante está minha mãe, a rainha.”
Abaixei a mão na direção de uma das facas presa a minhas coxas. Quando voltasse para Rhys, talvez o esfaqueasse no estômago.
Com a mesma rapidez, a lembrança de sangue imaginário cobriu minhas mãos. Eu sabia como seria cravar a adaga na pele e nos ossos e na carne de Rhys. Sabia como o sangue escorreria, como ele gemeria de dor...
Afastei o pensamento, mesmo enquanto sentia o sangue daqueles feéricos ensopando aquela minha parte humana que não morrera e não pertencia a ninguém, exceto a meu eu miserável.
“Então das três cordas o conjunto falou,
Distante está a irmã que me afogou.”
Minha mão se acalmou como um último e agonizante fôlego quando tirei o anel da prateleira.

A Tecelã parou de cantar.

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