1 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte

Depois de um jantar tenso, durante o qual Tamlin mal falou comigo ou com Lucien, acendi todas as velas do quarto para afastar as sombras.
Não saí no dia seguinte, e, quando me sentei para pintar, o que surgiu em minha tela foi uma criatura alta, esquelética e cinzenta, com orelhas de morcego e imensas asas membranosas. O focinho estava aberto, como se rugisse, revelando fileira após fileira de presas conforme saltava para o voo. Enquanto eu pintava, podia ter jurado que senti um hálito que fedia a carniça, que o ar sob as asas da criatura sussurrava promessas de morte.
O produto final foi tão aterrorizante que precisei colocar a pintura no fundo do quarto, e fui persuadir Alis a me deixar ajudar com a preparação da comida da Noite da Fogueira, na cozinha. Qualquer coisa para evitar o jardim, onde o Attor poderia aparecer.
O dia da Noite da Fogueira — Calanmai, como Tamlin o chamara — chegou, e não vi Tamlin ou Lucien o dia todo. Conforme a tarde se transformou em crepúsculo, me vi novamente nas vias principais da casa. Nenhum dos criados com rosto de pássaro aparecia por perto. A cozinha estava vazia, tanto de pessoas quanto da comida que estavam preparando, havia dois dias. Tambores soaram.
Os rufares vinham de longe; além do jardim, depois do parque de caça, dentro da floresta além. Eram profundos, invasivos. Uma única batida, seguida por duas chamadas em resposta. Uma convocação.
Parei às portas do jardim, olhando a propriedade conforme o céu era coberto por tons de laranja e vermelho. A distância, no alto das colinas íngremes que levavam ao bosque, algumas fogueiras tremeluziam, fumaça escura pintava o céu de rubi — as fogueiras apagadas que eu vira dois dias antes. Não convidada, lembrei a mim mesma. Não convidada para qualquer que fosse a festa que fizera com que todos os feéricos da cozinha tagarelassem e rissem entre si.
Os tambores ficaram mais rápidos... mais altos. Embora eu tivesse me acostumado com o cheiro de magia, meu nariz ficou irritado com o crescente odor pungente do metal, mais forte do que eu já havia sentido. Dei um passo adiante e, então, parei, segurando o portal. Deveria voltar para dentro. Atrás de mim, o sol poente manchava os azulejos pretos e brancos do piso do corredor com um tom reluzente de tangerina, e minha longa sombra parecia pulsar com a batida dos tambores.
Mesmo o jardim, geralmente zumbindo com a orquestra dos próprios habitantes, tinha se calado para ouvir os tambores. Havia uma corda... amarrada a meu estômago, que me puxava na direção daquelas colinas, ordenando que eu seguisse, que ouvisse os tambores feéricos...
Eu poderia ter feito exatamente isso se Tamlin não tivesse surgido no final do corredor.
Ele estava sem camisa, apenas o boldrié sobre o peito musculoso. O punho da espada reluzia dourado à luz do sol que esmaecia, e os topos emplumados das flechas estavam manchados de vermelho conforme despontavam acima de seu ombro largo. Encarei Tamlin, e ele me observou de volta. O guerreiro encarnado.
— Aonde vai? — Consegui dizer.
— É Calanmai— declarou Tamlin, simplesmente. — Preciso ir. — Ele indicou com o queixo as fogueiras e os tambores.
— Fazer o quê? — perguntei, olhando para o arco na mão dele. Meu coração ecoou os tambores do lado de fora, escalonando para uma batida mais selvagem.
Os olhos verdes estavam sombrios sob a máscara com moldura dourada.
— Como Grão-Senhor, preciso participar do Grande Rito.
— O que é o Grande...
— Vá para seu aposento — grunhiu Tamlin, e olhou para as fogueiras. — Tranque as portas, monte uma armadilha, faça o que faz.
— Por quê? — indaguei. A voz do Attor sibilou em minha memória. Ele dissera algo sobre um ritual bastante feérico, que diabo era? Pelas armas, devia ser brutal e violento, principalmente se a forma animal de Tamlin não era arma o bastante.
— Simplesmente faça o que falei. — Seus caninos começaram a se alongar. Meu coração começou a palpitar. — Não saia até chegar a manhã.
Mais fortes, mais rápidos os tambores bateram, e os músculos no pescoço de Tamlin se contraíram, como se ficar parado fosse doloroso para ele.
— Vai para a batalha? — sussurrei, e Tamlin soltou uma risada baixa.
Ele ergueu a mão como se para tocar meu braço. Mas abaixou antes que seus dedos pudessem roçar o tecido de minha túnica.
— Fique em seus aposentos, Feyre.
— Mas eu...
— Por favor. — Antes que eu pudesse pedir que Tamlin reconsiderasse a decisão de não me levar, ele saiu correndo. Os músculos poderosos em suas costas se transformaram conforme Tamlin saltou pelo curto lance de escadas e disparou pelo jardim, ligeiro e ágil como um cervo. Em segundos, ele sumira.
***
Fiz conforme ordenado, embora logo tivesse percebido que me trancara no quarto sem haver jantado. E, com os tambores incessantes e as dezenas de fogueiras que se acendiam nas colinas distantes, não consegui parar de caminhar de um lado para outro do cômodo, olhando para fora, na direção das fogueiras que queimavam ao longe.
Fique em seus aposentos.
Mas uma voz selvagem, travessa, que entremeava os rufares, sussurrava o contrário. Vá, dizia a voz, me tentando. Vá ver.
Às 22 horas, eu não aguentava mais. Segui os tambores.
Os estábulos estavam vazios, mas Tamlin me ensinara a montar sem sela nas últimas semanas, e minha égua branca logo trotava pelo caminho. Não precisava guiá-la; ela também seguiu a atração dos tambores e subiu a primeira das colinas.
Fumaça e magia pairavam, fortes, no ar. Escondida no manto encapuzado, abri a boca quando me aproximei da primeira fogueira gigante no alto da colina. Havia centenas de Grão-Feéricos sorrindo, mas eu não conseguia discernir nenhuma das feições além das várias máscaras que usavam. De onde tinham vindo... onde viviam se pertenciam à Corte Primaveril, mas não moravam na mansão? Quando tentava me concentrar em algo específico em seus rostos, tudo virava um borrão de cores. Eram mais sólidos quando os focava pelo canto do olho, mas, se eu virasse para encará-los, encontrava sombras e cores rodopiantes.
Era magia; algum tipo de encantamento lançado em mim, a fim de evitar que eu os visse claramente, assim como minha família fora enfeitiçada. Eu teria ficado furiosa, teria considerado voltar à mansão, caso os tambores não tivessem ecoado por meus ossos e aquela voz selvagem não tivesse me chamado.
Apeei da égua, mas fiquei perto dela conforme segui pela multidão, as distintas feições humanas escondidas nas sombras do capuz. Rezei para que a fumaça e os incontáveis aromas de diferentes Grão-Feéricos e feéricos fossem o bastante para cobrir meu cheiro humano, mas verifiquei a fim de me certificar de que levava as duas facas comigo mesmo assim, conforme me movia mais para dentro da comemoração.
Embora um conjunto de percussionistas tocasse de um lado da fogueira, os feéricos se agrupavam em um fosso entre duas colinas próximas. Deixei a égua amarrada a uma figueira solitária no topo de um monte e segui os feéricos, aproveitando a batida do tambor à medida que ela ressoava através da terra e para as solas de meus pés. Ninguém olhou duas vezes em minha direção.
Quase escorreguei na encosta íngreme enquanto entrava na vala. Em uma ponta, a boca de uma caverna se abria para uma encosta macia. O exterior havia sido adornado com flores e galhos e folhas, e eu conseguia distinguir o início de um chão coberto de pele logo após a abertura da caverna. O que aguardava além não era visível, pois a câmara fazia uma curva depois da entrada, mas a luz de fogueiras dançava nas paredes.
O que estivesse ocorrendo dentro da caverna — ou o que estivesse prestes a acontecer — era o foco dos feéricos à medida que eles, sombreados, alinhavam-se de cada lado da longa trilha até o evento. O caminho entremeava as depressões entre as colinas, e os Grão-Feéricos oscilavam onde estavam, movendo-se ao ritmo dos tambores cujas batidas ressoavam em meu estômago.
Observei-os balançando, e então me mexi, desconfortável. Eu tinha sido banida daquilo? Parecia inofensivo. Avaliei a área iluminada por fogueiras, tentando olhar além do véu da noite e da fumaça. Não vi nada interessante, e nenhum dos feéricos mascarados me deu qualquer atenção. Permaneciam na trilha, mais e mais chegavam a cada minuto. Algo definitivamente parecia prestes a acontecer — fosse o que fosse o Grande Rito.
Voltei pela encosta da colina e parei perto de uma fogueira, no limite das árvores, observando os feéricos. Estava prestes a reunir coragem para perguntar a um feérico inferior o que se passava — um criado com máscara de pássaro, como Alis —, que tipo de ritual estava para acontecer, quando alguém segurou meu braço e me virou.
Pisquei para os três estranhos, espantada, enquanto olhava os rostos de feições demarcadas — livres de máscaras. Eles pareciam Grão-Feéricos, mas havia algo levemente diferente a seu respeito, algo mais alto e mais esguio que Tamlin ou Lucien... algo mais cruel nos olhos negros e infinitos. Feéricos, então.
Aquele que segurava meu braço sorriu, revelando dentes levemente pontudos.
— Fêmea humana — murmurou ele, percorrendo os olhos por mim. — Não vemos uma como você faz tempo.
Tentei puxar o braço de volta, mas ele segurou meu cotovelo com força.
— O que quer? — indaguei, mantendo a voz calma e fria.
Os dois feéricos ao lado dele sorriram para mim, e um segurou meu outro braço — no momento em que tentei pegar a faca.
— Só um pouco de diversão na Noite da Fogueira — disse um deles, estendendo a mão pálida, longa demais, para afastar uma mecha de meu cabelo. Virei a cabeça para longe e tentei me afastar do toque, mas o feérico segurou firme. Nenhum dos feéricos perto da fogueira reagiu, nenhum se deu o trabalho de olhar.
Se eu gritasse por ajuda, será que alguém responderia? Será que Tamlin responderia? Eu não daria tanta sorte assim de novo... provavelmente tinha usado a parte que me cabia com os nagas.
Puxei os braços com força. O aperto deles se intensificou, até doer, e os feéricos mantiveram minhas mãos bem longe das facas. Os três se aproximaram, bloqueando-me dos demais. Olhei em volta, procurando qualquer aliado. Havia mais feéricos sem máscaras ali agora. Os três feéricos riram, um barulho baixo e chiado que percorreu meu corpo. Não percebi o quanto estava longe de todos... o quanto tinha me aproximado do limite da floresta.
— Me deixem em paz — falei, mais alto e com mais raiva que esperava, considerando a tremedeira deflagrada em meus joelhos.
— Uma frase ousada para uma humana durante o Calanmai—disse aquele que segurava meu braço esquerdo. As fogueiras não refletiam em seus olhos. Era como se engolissem a luz. Pensei nos nagas cuja aparência exterior horrível combinava com os corações pútridos. De alguma forma, aqueles feéricos lindos e etéreos eram bem piores. — Depois que o Rito for feito, vamos nos divertir, não vamos? Um achado, que achado, encontrar uma fêmea humana aqui.
Exibi os dentes para ele.
— Tire as mãos de mim — falei, alto o suficiente para que todos ouvissem.
Um deles passou a mão pela lateral de meu corpo, os dedos ossudos pressionando minhas costelas, meus quadris. Recuei, apenas para me chocar contra o terceiro, que passou os longos dedos entre meus cabelos e se aproximou. Ninguém olhou; ninguém reparou.
— Pare — ordenei, mas as palavras saíram como um arquejo engasgado conforme eles começaram a me empurrar para o limite das árvores, na direção da escuridão. Eu empurrei e me debati contra eles; os feéricos apenas sibilaram. Um deles me empurrou, e cambaleei, me soltando. O chão brotou embaixo de mim, e levei a mão às facas, mas mãos fortes me seguraram sob os ombros antes que eu conseguisse sacá-las ou cair na grama.
Eram mãos fortes — quentes e largas. Nada como os dedos pontiagudos e ossudos dos três feéricos que ficaram completamente calados quando alguém me colocou de pé com cuidado.
— Aí está você. Estava a sua procura — falou uma voz masculina grave e sensual, que eu jamais ouvira. Mas mantive os olhos nos três feéricos, me preparando para fugir quando o homem atrás de mim se colocou a meu lado e passou um braço despreocupado em volta de meu ombro.
Os três feéricos inferiores empalideceram, os olhos escuros se arregalaram.
— Obrigado por encontrá-la para mim — agradeceu meu salvador, sutil e educado. — Aproveitem o Rito. — Havia um tom afiado o bastante sob as últimas palavras para fazer com que os feéricos enrijecessem o corpo. Sem mais comentários, eles correram de volta às fogueiras.
Saí da proteção do braço de meu salvador e me virei para agradecer.
Diante de mim estava o homem mais lindo que eu já vira.

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