2 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Um

Congelei, o anel estava agora no bolso de meu casaco. Ela terminara a última música; talvez começasse outra.
Talvez.
A roca ficou mais lenta.
Recuei um passo na direção da porta. Depois, outro.
Mais e mais devagar, cada rotação da antiga roca era mais longa que a anterior.
Apenas dez passos até a porta.
Cinco.
A roda girou uma última vez, tão devagar que consegui ver cada um dos raios do aro.
Dois.
Virei para a porta quando ela esticou subitamente a mão branca, segurando a roda e parando-a de vez.
A porta diante de mim se fechou com um clique.
Disparei para a maçaneta, mas não havia maçaneta.
Janela. Vá até a janela...
— Quem está em minha casa? — disse a Tecelã, baixinho.
Medo — medo bruto e total — se chocou contra mim, e lembrei. Lembrei como era ser humana e indefesa e fraca. Lembrei de como era querer lutar para sobreviver, estar disposta a fazer qualquer coisa para continuar respirando...
Cheguei à janela ao lado da porta. Selada. Nenhum trinco, nenhuma abertura.
Apenas vidro que não era vidro. Sólido e impenetrável.
A Tecelã virou o rosto em minha direção.
Lobo ou rato, não fazia diferença, porque eu não passava de um animal, avaliando minha chance de sobreviver.
Sobre o corpo jovem e esguio, sob os cabelos pretos lindos, a pele da Tecelã era cinzenta — enrugada e flácida e seca. E onde olhos deveriam brilhar havia pútridos buracos pretos. Os lábios tinham murchado e virado nada além de linhas profundas e escuras ao redor de um buraco cheio de cotocos pontiagudos de dentes... como se a Tecelã tivesse mastigado ossos demais.
E soube que ela mastigaria meus ossos se eu não saísse.
O nariz da Tecelã — talvez um dia tivesse sido bonito, agora estava afundando no rosto — se dilatou quando ela farejou em minha direção.
— O que você é? — perguntou a Tecelã, com uma voz muito jovem e meiga.
Sair... sair, eu precisava sair...
Havia outro caminho.
Um caminho suicida e inconsequente.
Não queria morrer.
Não queria ser devorada.
Não queria entrar naquela doce escuridão.
A Tecelã se levantou do banquinho.
E eu soube que meu tempo emprestado tinha acabado.
— O que é como todos — ponderou a Tecelã, dando um passo gracioso em minha direção —, mas é diferente de todos?
Eu era um lobo.
E mordia quando encurralada.
Disparei para a única vela que queimava sobre a mesa no centro da sala. E a atirei contra a parede de fios tecidos — contra todos aqueles rolos deprimentes e sombrios de tecido. Corpos tecidos, peles, vidas. Que se libertassem.
Fogo irrompeu, e o grito da Tecelã foi tão cortante que achei que minha cabeça poderia se despedaçar; achei que meu sangue poderia ferver nas veias.
A Tecelã disparou para as chamas, como se pudesse apagá-las com aquelas impecáveis mãos brancas, e a boca de dentes pútridos estava aberta e gritava como se não houvesse nada além de inferno negro dentro de si.
Disparei para a lareira apagada. Para a lareira e a chaminé acima.
Espaço apertado, mas largo o bastante para mim.
Não hesitei quando segurei a borda da lareira e me impulsionei para cima, com os braços trêmulos. Força imortal: ela só me levava até certo ponto, e eu tinha ficado tão fraca, tão desnutrida.
Tinha deixado que eles me tornassem fraca. Cedera àquilo como um cavalo selvagem perfeitamente domado.
Os tijolos manchados de fuligem estavam soltos, eram irregulares. Perfeitos para subir.
Mais rápido; eu precisava ser mais rápida.
Mas meus ombros se arranhavam nos tijolos, e fedia ali dentro, como carniça e cabelo queimado, e havia uma camada de óleo na pedra, tal gordura cozida...
Os gritos da Tecelã foram interrompidos quando eu estava na metade da chaminé, a luz do sol e as árvores eram quase visíveis, cada fôlego era quase um soluço.
Levei a mão ao tijolo seguinte, e as unhas se quebraram quando me impulsionei tão violentamente que meus braços urraram em protesto contra a pedra que se espremia ao meu redor e...
Eu estava entalada.
Entalada enquanto a Tecelã sibilava de dentro da casa:
— Que ratinho está subindo minha chaminé?
Eu tinha espaço o suficiente para abaixar o olhar conforme o rosto pútrido da Tecelã surgiu na base da chaminé.
Ela colocou aquela mão branco-leitosa na borda, e percebi como o espaço entre nós era pequeno.
Minha cabeça se esvaziou.
Fiz força contra a chaminé, mas ela não cedeu.
Eu morreria ali. Seria arrastada para baixo por aquelas lindas mãos e destroçada e devorada. Talvez enquanto ainda estivesse viva, ela colocaria aquela boca horrível em minha carne e mastigaria e rasgaria e morderia e...
Pânico sombrio me sufocou, e eu estava, de novo, presa sob uma montanha próxima, em uma trincheira enlameada, o Verme de Middengard disparava contra mim.
Eu mal escapei, mal...
Não conseguia respirar, não conseguia respirar, não conseguia respirar...
As unhas da Tecelã roçaram contra o tijolo conforme ela deu um passo para cima.
Não, não, não, não, não...
Chutei e esperneei contra os tijolos.
— Achou que poderia roubar e fugir, ladrão?
Eu teria preferido o Middengard. Teria preferido aqueles dentes imensos e afiados aos cotocos irregulares da Tecelã...
Pare.
A palavra veio da escuridão de minha mente.
E a voz era minha.
Pare, disse ela — eu disse.
Respire.
Pense.
A Tecelã se aproximou, tijolos se desfizeram em suas mãos. Ela subiria como uma aranha, como se eu fosse uma mosca na teia...
Pare.
E aquela palavra calou tudo.
Eu a disse sem pronunciar.
Pare, pare, pare.
Pense.
Eu tinha sobrevivido ao Verme — sobrevivido a Amarantha. E tinha recebido dons.
Dons consideráveis.
Como força.
Eu era forte.
Golpeei com a mão a parede da chaminé, o mais baixo que alcancei. A Tecelã sibilou quando os destroços desceram como chuva. Golpeei com o punho de novo, concentrando aquela força.
Eu não era um bicho de estimação, não era uma boneca, não era um animal.
Era uma sobrevivente e era forte.
Não seria frágil ou indefesa de novo. Não seria, não poderia ser destruída. Domada.
Bati com o punho nos tijolos diversas vezes, e a Tecelã parou.
Parou por tempo bastante para que o tijolo que eu tinha soltado deslizasse livremente para a palma de minha mão expectante.
E para que eu atirasse o tijolo contra o rosto horrível e assustador com o máximo de força que consegui.
Osso foi esmagado, e a Tecelã rugiu, sangue negro jorrou. Mas choquei os ombros contra as laterais da chaminé e a pele rasgou sob minha roupa de couro. Continuei em frente, adiante e adiante, até que eu fosse pedra quebrando pedra, até que nada e ninguém me segurasse e eu estivesse escalando a chaminé.
Não ousei parar, não quando cheguei à abertura e me impulsionei para fora, caindo às cambalhotas no telhado de sapê. Que não era de sapê, de modo algum.
Era de cabelo.
E com toda aquela gordura que cobria a chaminé... toda aquela gordura agora reluzindo em minha pele... os cabelos grudaram em mim. Em punhados e mechas e tufos. Bile subiu em minha garganta, mas a porta da frente se escancarou e um grito se seguiu.
Não — por ali não. Não para o chão.
Para cima, para cima e para cima.
Um galho de árvore pendia baixo e próximo, e corri com dificuldade por aquele telhado horroroso, tentando não pensar em quem e no que eu estava pisando, o que se agarrava a minha pele, a minhas roupas. Um segundo depois, saltei para o galho que me esperava, me agarrando às folhas e ao musgo conforme a Tecelã gritava:
— ONDE VOCÊ ESTÁ?
Mas eu estava correndo pela árvore; correndo até outra árvore próxima. Saltei de galho em galho, mãos expostas se arranhando na madeira. Onde estava Rhysand?
Para mais e mais longe eu disparei, e os gritos da Tecelã me perseguiam, embora ficassem cada vez mais distantes.
Onde você está, onde você está, onde você está...
Então, acomodado em um galho na árvore diante de mim, com um braço jogado sobre a beirada, Rhysand disse, com voz arrastada:
— Que diabos você fez?
Parei subitamente, sem fôlego. Achei que meus pulmões pudessem mesmo estar sangrando.
— Você — sibilei.
Mas Rhys ergueu um dedo aos lábios e atravessou até mim; ele pegou minha cintura com uma das mãos e apoiou minha nuca na outra quando nos levou embora...
Para Velaris. Para logo acima da Casa do Vento.
Descemos em queda livre, e não tive fôlego para gritar conforme suas asas apareceram, estendendo-se, e Rhysand fez uma curva, deslizando com firmeza... passando direto pelas janelas abertas do que só podia ser uma sala de guerra. Cassian estava ali, no meio de uma discussão com Amren sobre alguma coisa.
Os dois congelaram quando pousamos no piso vermelho.
Havia um espelho na parede atrás dos dois, e me olhei de relance, o bastante para saber por que os dois estavam boquiabertos.
Meu rosto estava arranhado e ensanguentado, e eu, coberta de poeira e gordura — gordura cozida — e pó de argamassa, com os cabelos grudados pelo corpo, e eu cheirava...
— Você tem cheiro de churrasco — constatou Amren, encolhendo-se um pouco.
Cassian afrouxou a mão com que envolvera a faca de luta na coxa.
Eu ainda estava ofegante, ainda tentava tomar fôlego. Os cabelos que se grudavam em mim arranhavam e faziam cócegas e...
— Você a matou? — perguntou Cassian.
— Não — respondeu Rhys por mim, recolhendo as asas tranquilamente. — Mas considerando o quanto a Tecelã estava gritando, estou doido para saber o que a querida Feyre fez.
Gordura; eu estava com gordura e cabelo de gente em mim...
Vomitei por todo o chão.
Cassian xingou, mas Amren gesticulou com a mão e o vômito sumiu imediatamente... junto da sujeira em mim. Mas eu conseguia sentir o fantasma da Tecelã ali, os resquícios de pessoas, a argamassa daqueles tijolos...
— Ela... me detectou de alguma forma. — Eu consegui dizer, apoiando-me contra a grande mesa e limpando a boca no ombro das vestes de couro. — E trancou as portas e as janelas. Então, precisei escalar pela chaminé. Fiquei entalada — acrescentei, quando Cassian ergueu as sobrancelhas. — E, quando ela tentou subir, eu lhe joguei um tijolo na cara.
Silêncio.
Amren olhou para Rhysand.
— E onde estava você?
— Esperando, longe o bastante para que ela não me detectasse.
Grunhi para ele.
— Eu precisava de uma ajuda.
— Você sobreviveu — disse Rhys. — E encontrou uma forma de se salvar. — Pelo brilho severo nos olhos, eu soube que Rhysand tinha ciência do pânico que quase me matou, fosse pelos escudos mentais que esqueci de erguer, ou por qualquer que fosse a anomalia em nosso laço. Ele tomou ciência... e deixou que eu o sentisse.
Porque aquilo quase tinha me matado, e eu não seria útil a Rhysand se isso acontecesse quando importasse de verdade... com o Livro. Exatamente como ele dissera.
— Era esse o objetivo — disparei. — Não apenas esse anel idiota. — Levei a mão ao bolso e bati com o anel na mesa. — Ou minhas habilidades, mas se eu conseguiria controlar o pânico.
Cassian xingou de novo, os olhos fixos naquele anel.
Amren sacudiu a cabeça, e camadas de cabelos pretos se agitaram.
— Cruel, mas eficiente.
Rhys apenas disse:
— Agora você sabe. Que pode usar suas habilidades para caçar nossos objetos e, assim, encontrar o Livro na Corte Estival e se cuidar.
— Você é desprezível, Rhysand — disse Cassian, baixinho.
Rhys apenas recolheu as asas com um ruído gracioso.
— Você faria o mesmo.
Cassian deu de ombros, como se dissesse que sim, faria.
Olhei para minhas mãos, minhas unhas estavam ensanguentadas e quebradas. E falei para Cassian:
— Quero que me ensine... a lutar. Para ficar forte. Se a oferta para treinar ainda estiver de pé.
Cassian ergueu as sobrancelhas e não se deu o trabalho de olhar para Rhys em busca de aprovação.
— Vai me chamar de desprezível bem rápido se treinarmos. E não sei nada sobre treinar humanos, não sei o quão frágeis seus corpos são. Eram, quero dizer — acrescentou Cassian, encolhendo o corpo. — Vamos descobrir.
— Não quero que minha única opção seja fugir — falei.
— Correr — interrompeu Amren — a manteve viva hoje.
Eu a ignorei.
— Quero saber como lutar para escapar. Não quero precisar esperar que ninguém me resgate. — Encarei Rhys e cruzei os braços. — Bem? Provei minha capacidade?
Mas Rhysand apenas pegou o anel e acenou com a cabeça em agradecimento.
— Era o anel de minha mãe. — Como se aquilo fosse toda a explicação e todas as respostas que ele me devia.
— Como o perdeu? — indaguei.
— Não perdi. Minha mãe me deu para guardar; depois, tomou-o de volta quando cheguei à maturidade, e deu à Tecelã para que o guardasse.
— Por quê?
— Para que eu não o desperdiçasse.
Incoerências e idiotices e... eu queria um banho. Queria silêncio e um banho. A necessidade dessas coisas me atingiu com tanta força que meus joelhos cederam.
Mal olhei para Rhys antes que ele segurasse minha mão, estendesse as asas e disparasse voando comigo pelas janelas. Descemos em queda livre durante cinco estrondosas e selvagens batidas de meu coração antes de Rhysand atravessar comigo até meu quarto, na casa da cidade. Um banho quente já estava preparado. Cambaleei até ele, e exaustão me atingiu como um golpe físico quando Rhys falou:
— E quanto a treinar seus outros... dons?
Através do vapor que subia da banheira, falei:
— Acho que você e eu nos destruiríamos.
— Ah, nós com certeza nos destruiremos. — Rhysand se encostou à porta do banheiro. — Mas não seria divertido de outra forma. Considere nosso treinamento agora oficialmente parte de suas obrigações de trabalho comigo. — Um gesto com o queixo.
— Vá em frente... tente passar por meus escudos.
Eu sabia de quais ele falava.
— Estou cansada. O banho vai esfriar.
— Prometo que estará tão quente quanto agora em alguns momentos. Ou, se você dominou seus dons, pode conseguir cuidar disso sozinha.
Franzi a testa, mas dei um passo na direção de Rhysand, e depois, outro — obrigando-a ceder um passo, dois, para dentro do banheiro. A gordura e o cabelo agora imaginários se agarravam a mim, me lembravam do que Rhys havia feito...
Eu o encarei, aqueles olhos violeta brilhavam.
— Você sente, não é? — falou Rhysand, por cima do canto e do gorjeio dos pássaros do jardim. — Seu poder, espreitando sob a pele, ronronando em seu ouvido.
— E daí se eu sentir?
Um gesto de ombros.
— Estou surpreso por Ianthe não cortar você em um altar para ver como é esse poder por dentro.
— Qual, precisamente, é seu problema com ela?
— Acho que as Grã-Sacerdotisas são uma perversão do que um dia foram... um dia prometeram ser. Ianthe está entre as piores.
Um nó se revirou em meu estômago.
— Por que diz isso?
— Passe por meus escudos e mostrarei a você.
Então, aquilo explicava a mudança de assunto. Uma provocação. Isca.
Encarar Rhys... Eu me permiti cair naquilo. Permiti imaginar aquela linha entre nós: um pouco de luz entrelaçada... E ali estava seu escudo mental, na outra ponta do laço. Negro e sólido e impenetrável. Não tinha como entrar. Como eu tinha deslizado por ele antes... Não fazia ideia.
— Já cansei de testes por hoje.
Rhys percorreu os 60 centímetros entre nós.
— As Grã-Sacerdotisas se entocaram em algumas cortes: Crepuscular, Diurna e Invernal, principalmente. Elas se entrincheiraram tanto que seus espiões estão por toda parte, os seguidores são quase fanáticos com devoção. Mesmo assim, durante aqueles cinquenta anos, elas fugiram. Permaneceram escondidas. Eu não ficaria surpreso se Ianthe tentasse se assentar na Corte Primaveril.
— Está querendo me dizer que são todas vilãs de coração sombrio?
— Não. Algumas, sim. Algumas têm compaixão, são altruístas e sábias. Mas há aquelas que são apenas hipócritas... Embora sejam essas aquelas que sempre parecem as mais perigosas para mim.
— E Ianthe?
Uma faísca sábia nos olhos de Rhys.
Ele realmente não me contaria. Seguraria aquilo diante de mim como um pedaço de carne...
Disparei. Às cegas, selvagemente, mas lancei o poder a toda por aquela linha entre nós.
E gritei quando ele se chocou contra os escudos interiores de Rhysand, reverberando dentro de mim, como se eu tivesse me chocado fisicamente contra algo.
Rhys riu, e eu vi faíscas.
— Admirável... descuidada, mas um esforço admirável.
Um pouco ofegante, eu fervilhava.
Mas ele disse:
— Apenas como teste... — E pegou minha mão. O laço ficou tenso, aquela coisa sob minha pele pulsava e...
Havia escuridão e a sensação colossal de Rhysand do outro lado de sua barricada mental de preto adamantino. Aquele escudo se estendia eternamente, o produto de meio milênio sendo caçado, atacado, odiado. Rocei a mão, mentalmente, contra aquela muralha.
Como um felino das montanhas arqueando-se ao toque, a muralha pareceu ronronar... e, então, relaxou a guarda.
A mente de Rhys se abriu para mim. Uma antecâmara, ao menos. Um único espaço que ele abrira, para me deixar ver...
Um quarto entalhado de obsidiana; uma cama imensa com lençóis de ébano, grande o bastante para acomodar asas.
E sobre ela, deitada com nada além da própria pele, estava Ianthe.
Recuei, percebendo que era uma memória e que Ianthe estava na cama dele, na corte dele sob aquela montanha, os seios fartos firmes contra o frio...
— Tem mais — disse a voz de Rhys, de longe, conforme eu me debatia para me afastar. Mas minha mente se chocou contra o escudo, o outro lado deste. Rhysand tinha me prendido lá dentro...
— Você me deixou esperando — reclamou Ianthe.
A sensação de madeira dura entalhada, pressionada contra minhas costas — contra as costas de Rhysand — conforme ele se inclinou contra a porta do quarto.
— Saia.
Ianthe fez um biquinho, dobrou o joelho e abriu mais as pernas, oferecendo-se a ele.
— Eu vejo como me olha, Grão-Senhor.
— Você vê o que quer ver — disse ele, ou nós. A porta se abriu ao lado de Rhys. — Saia.
Os lábios da sacerdotisa se contraíram timidamente.
— Soube que gosta de brincadeiras. — A mão esguia de Ianthe desceu, tracejando a pele além do umbigo. — Acho que vai perceber que sou uma companheira de brincadeiras interessante.
Ira gélida tomou conta de mim — dele — quando Rhys debateu os méritos de estatelar Ianthe contra as paredes, e o quanto isso seria inconveniente. Ela o encurralava incessantemente — perseguia os outros machos também. Azriel se fora na noite anterior por causa disso. E Mor estava a um comentário de partir o pescoço de Ianthe.
— Achei que sua lealdade estivesse com outras cortes. — A voz de Rhysand era tão fria. A
voz do Grão-Senhor.
— Minha lealdade está com o futuro de Prythian, com o verdadeiro poder nesta terra. — Os dedos deslizaram entre as pernas e pararam. O arquejo de Ianthe pareceu partir o quarto quando Rhysand lançou uma gavinha de poder em disparada contra ela, prendendo aquele braço na cama, longe do corpo dela. — Sabe o que uma união entre nós poderia fazer por Prythian, pelo mundo? — perguntou Ianthe, ainda devorando Rhys com os olhos.
— Quer dizer para você mesma.
— Nossos filhos poderiam dominar Prythian.
Uma diversão cruel percorreu Rhysand.
— Então quer minha coroa... e que eu banque o reprodutor?
Ela tentou contorcer o corpo, mas o poder de Rhys a conteve.
— Não vejo mais ninguém digno da posição.
Ianthe seria um problema — agora e mais tarde. Rhys sabia disso. Mate-a agora, acabe com a ameaça antes que comece, encare a ira de outras Grã-Sacerdotisas, ou... veja o que acontece.
— Saia de minha cama. Saia de meu quarto. E saia de minha corte.
Ele afrouxou o poder para permitir que Ianthe o fizesse.
Os olhos da feérica ficaram mais sombrios, e Ianthe ficou de pé com um movimento viperino, sem se incomodar com as roupas, jogadas sobre a poltrona preferida de Rhysand. Cada passo na direção dele fazia com que os generosos seios de Ianthe oscilassem. Ela parou a quase 30 centímetros.
— Você não faz ideia do que posso fazer com que sinta, Grão-Senhor.
Ianthe estendeu a mão para Rhys, bem entre as pernas dele.
O poder de Rhysand se prendeu ao redor dos dedos de Ianthe antes que ela conseguisse agarrá-lo.
Ele esmagou o feixe de poder, girando-o.
Ianthe gritou. Ela tentou recuar, mas o poder de Rhys congelou a sacerdotisa onde estava; tanto poder, tão facilmente controlado, acumulando-se ao redor de Ianthe, contemplando se acabaria com sua existência, como uma víbora observando um rato.
Rhys se aproximou para sussurrar ao ouvido de Ianthe:
— Nunca mais me toque. Nunca mais toque em outro macho de minha corte. — O poder de Rhys partiu ossos e tendões, e Ianthe gritou de novo. — Sua mão vai se curar — disse Rhysand, recuando um passo. — Da próxima vez que tocar em mim ou qualquer um em minhas terras, vai descobrir que o restante de você não terá a mesma sorte.
Lágrimas de dor escorreram pelo rosto da fêmea, e o efeito foi anulado pelo ódio que iluminava seus olhos.
— Vai se arrepender disso — sibilou Ianthe.
Rhysand riu baixinho, a risada de um amante, e um lampejo de poder atirou Ianthe, de bunda no chão, no corredor. As roupas seguiram um segundo depois. Então, a porta bateu.
Como tesouras cortando um laço esticado, a memória foi partida, o escudo atrás de mim caiu, e cambaleei para trás, piscando.
— Regra um — disse Rhys, os olhos brilhavam com o ódio àquela lembrança. — Não entre na mente de alguém a não ser que mantenha o caminho aberto. Um daemati pode deixar a mente se abrir para você, e então a fechar dentro dela, transformá-la em escrava.
Um calafrio percorreu minha espinha quando pensei nisso. Mas o que Rhys me mostrara...
— Regra dois — disse ele, com o rosto severo como pedra. — Quando...
— Quando foi isso? — disparei. Eu conhecia Rhys bem o bastante para não duvidar da veracidade. — Quando isso aconteceu entre vocês?
O gelo permanecia em seus olhos.
— Há cem anos. Na Corte dos Pesadelos. Permiti que ela visitasse depois de implorar durante anos, insistindo que queria formar laços entre a Corte Noturna e as sacerdotisas. Eu ouvira boatos sobre a natureza de Ianthe, mas ela era jovem e inexperiente, e esperava que talvez uma nova Grã-Sacerdotisa pudesse, de fato, ser a mudança de que a ordem precisava. Pelo visto, Ianthe já tinha sido muito bem treinada por algumas das irmãs menos benevolentes.
Engoli em seco, meu coração batia forte.
— Ela... ela não agiu assim na...
Lucien.
Lucien a odiara. Fizera alusões vagas e cruéis sobre não gostar dela, sobre ter sido abordado por ela...
Eu ia vomitar. Será que ela... será que o perseguira daquela forma? Será que ele... será que fora forçado a dizer que sim por causa da posição de Ianthe?
E se eu voltasse para a Corte Primaveril um dia... Como conseguiria convencer Tamlin a dispensá-la? E se, agora que eu tinha partido, ela estivesse...
— Regra dois — continuou Rhys, por fim. — Esteja pronta para ver coisas de que pode não gostar.
Apenas cinquenta anos depois, Amarantha viera. E fizera com Rhys exatamente aquilo por que ele quisera matar Ianthe. E ele permitiu que acontecesse. Para mantê-los seguros. Para proteger Azriel e Cassian dos pesadelos que o perseguiriam para sempre, de aturarem mais dor do que haviam sofrido quando crianças...
Ergui a cabeça para perguntar mais. Porém, Rhys sumira.
Sozinha, tirei as roupas, lutando contra as fivelas e os laços que ele prendera em mim — quando fora? Uma hora ou duas antes?
Senti como se uma vida tivesse se passado. E agora eu era uma rastreadora de Livro diplomada, ao que parecia.
Melhor que uma esposa anfitriã de festas e geradora de pequenos Grão-Senhores. O que Ianthe queria me tornar... para servir quaisquer que fossem suas motivações secretas.
O banho estava mesmo quente, conforme Rhys prometera. E remoí o que ele tinha me mostrado, vi aquela mão diversas vezes se estender na direção das pernas de Rhys, a ousadia e a arrogância do gesto... 
Afastei a lembrança, e a água da banheira ficou subitamente fria.

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Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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