1 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Um

Tudo a respeito do estranho irradiava graça sensual e naturalidade. Grão Feérico, sem dúvida. Os curtos cabelos pretos reluziam como as penas de um corvo, destacando a pele clara e os olhos azuis, tão profundos que pareciam violeta mesmo à luz da fogueira. Eles brilharam com interesse enquanto o estranho me olhava.
Por um momento, não dissemos nada. Obrigada não parecia dar conta do que ele fizera por mim, mas algo a respeito do modo como o Grão-Feérico ficava de pé, totalmente imóvel, a noite parecendo se aproximar mais dele, me fez hesitar ao falar... me fez querer correr na direção oposta.
Ele também não estava de máscara. Era de outra corte, então.
Um meio sorriso surgiu, brincalhão, em seus lábios sensuais.
— O que uma mulher mortal faz aqui, na Noite da Fogueira? — A voz do feérico foi como o ronronado de um amante, me fazendo estremecer, acariciando cada músculo e osso e nervo.
Dei um passo atrás.
— Minhas amigas me trouxeram.
O rufar dos tambores estava se intensificando, chegando a um clímax que eu não entendia. Fazia tanto tempo desde que vira um rosto exposto que parecesse vagamente humano. As roupas dele — todas pretas, todas requintadas — eram justas o bastante para que eu visse o quanto parecia magnífico. Como se tivesse sido moldado da própria noite.
— E quem são suas amigas? — Ele sorria para mim, como um predador avaliando a presa.
— Duas moças — menti de novo.
— Os nomes delas? — Ele deu mais um passo, enfiando as mãos nos bolsos. Recuei um pouco mais e fiquei de boca fechada. Será que tinha trocado três monstros por algo muito pior?
Quando ficou evidente que eu não responderia, ele riu.
— De nada — disse o feérico. — Por ter salvado você.
Fiquei com raiva de sua arrogância, mas recuei outro passo. Estava perto o bastante da fogueira, daquela pequena caverna na qual os feéricos se reuniam, para chegar lá se corresse. Talvez alguém sentisse pena de mim, talvez Lucien ou Alis estivessem ali.
— É estranho que uma mortal seja amiga de duas feéricas — ponderou ele, e começou a me circundar. Eu podia ter jurado que gavinhas da noite estrelada formaram um rastro atrás dele. — Humanos não costumam morrer de medo de nós? E você não deveria, aliás, ficar do seu lado da muralha?
Eu estava morrendo de medo dele, mas não deixaria que soubesse.
— Eu as conheço minha vida inteira. Jamais tive nada a temer delas. O feérico parou de circundar para me avaliar. Ele agora estava entre mim e a fogueira... e minha rota de fuga.
— No entanto, trouxeram você para o Grande Rito e a abandonaram.
— Elas foram buscar bebidas — falei, e seu sorriso se ampliou. O que quer que eu tivesse dito, me delatou. Eu vi os criados levando a comida, mas... talvez não estivesse ali.
Ele sorriu para mim por mais um segundo. Eu jamais vira alguém tão lindo — e nunca sentira tanto alarmes de aviso na cabeça por causa disso.
— Creio que ainda falta muito tempo para a hora das bebidas — disse ele, se aproximando mais. — Pode levar um tempo para que elas voltem. Posso acompanhá-la para algum lugar enquanto isso? — Ele tirou a mão do bolso para oferecer o braço.
Tinha conseguido afugentar aqueles feéricos sem erguer um dedo.
— Não — respondi, a língua enrolada e pesada.
O feérico indicou a depressão, os tambores, com a mão.
— Aproveite o Rito, então. Tente ficar longe de problemas. — Seus olhos brilharam com a sugestão de que ficar longe de problemas significava ficar muito, muito longe dele. Mas eu tinha tantas perguntas e, embora pudesse ter sido o maior risco que eu já assumira, perguntei:
— Então você não faz parte da Corte Primaveril?
Ele voltou-se para mim, cada movimento exótico e entrelaçado com um poder letal, mas fiquei parada conforme ele me dava um sorriso preguiçoso.
— Pareço ser parte da Corte Primaveril? — As palavras estavam salpicadas da arrogância que apenas um imortal poderia alcançar. Ele riu baixo. — Não, não sou parte da nobre Corte Primaveril. E sou feliz por isso. — Ele indicou o rosto, no qual uma máscara poderia estar.
Eu deveria ter ido embora, ter fechado a boca.
— Por que está aqui, então?
Os olhos incríveis do homem pareceram brilhar... com um toque tão mortal que recuei um passo.
— Porque todos os monstros foram libertados de suas jaulas esta noite, não importa a que país pertençam. Então, posso perambular por onde quiser até o alvorecer.
Mais charadas e perguntas a serem respondidas.
— Aproveite o Rito — repeti, o mais inexpressivamente possível.
Corri de volta ao vale, ciente demais do fato de que estava dando as costas a ele. Eu estava feliz por me perder na multidão que seguia pela trilha até a caverna, ainda esperando que chegasse o momento, qualquer que fosse ele.
Quando parei de tremer, olhei em volta, para os feéricos reunidos. A maioria deles ainda usava máscaras, mas havia alguns, como aquele estranho letal e aqueles três feéricos horríveis, que não usavam máscara alguma. Eram feéricos sem lealdade ou membros de outras cortes. Eu não conseguia distinguir. Enquanto avaliava a multidão, meus olhos encontraram aqueles de um feérico mascarado do outro lado da trilha. Um era vermelho e brilhava tão forte quanto seus cabelos ruivos. O outro era... de metal. Pisquei no mesmo momento que ele, e depois seus olhos se arregalaram. Ele sumiu, e, um segundo depois, alguém agarrou meu cotovelo e me puxou para fora da multidão.
— Perdeu a noção? — gritou Lucien, por cima dos tambores. Seu rosto estava pálido como um fantasma. — O que está fazendo aqui?
Nenhum dos feéricos reparou que nós — estavam todos encarando a trilha intensamente — estávamos longe da caverna.
— Eu queria... — comecei, mas Lucien xingou violentamente.
— Idiota! — gritou ele para mim, e depois olhou para trás, para onde os outros feéricos encaravam. — Tola humana inútil. — Sem mais uma palavra, ele me jogou por cima do ombro, como se eu fosse um saco de batatas.
Apesar de eu me debater, e de meus gritos de protesto, apesar das exigências de que ele pegasse minha égua, Lucien segurou firme, e, quando me dei o trabalho de erguer o olhar, reparei que ele estava correndo — rápido. Mais rápido que qualquer coisa deveria ser capaz de se mover. Aquilo me deixou tão enjoada que fechei os olhos, e não parei até o ar ficar mais frio e mais calmo, e os tambores soarem distantes.
Lucien quase me jogou no chão do corredor da mansão, e, quando me equilibrei, vi seu rosto, tão pálido quanto antes.
— Sua mortal burra — disparou Lucien. — Ele não disse a você que ficasse em seu quarto? — Lucien olhou por cima do ombro, na direção das colinas, onde os tambores ficaram tão altos e rápidos que era como uma tempestade.
— Aquilo dificilmente era algo...
— Aquilo sequer foi a cerimônia! — Somente então vi o suor no rosto de Lucien, e o brilho de pânico em seus olhos. — Pelo Caldeirão, se Tam a visse lá...
— E daí? — falei, gritando também. Odiava me sentir como uma criança desobediente.
— É o Grande Rito, pelo Caldeirão! Ninguém contou a você o que é? — Meu silêncio foi resposta o suficiente. Eu quase conseguia ver o rufar dos tambores pulsando contra a pele dele, chamando Lucien para que se juntasse novamente à multidão. — A Noite da Fogueira marca o início oficial da primavera, em Prythian e no mundo mortal — explicou Lucien. — Embora as palavras fossem calmas, elas vacilaram levemente.
Eu me recostei contra a parede do corredor, me obrigando a demonstrar uma casualidade que não sentia. — Aqui, nossas plantações dependem da magia que regeneramos em Calanmai, esta noite.
Enfiei as mãos nos bolsos da calça. Tamlin dissera algo semelhante dois dias antes. Lucien estremeceu, como se afastando um toque invisível.
— Fazemos isso ao conduzir o Grande Rito. Cada um dos sete Grão-Senhores de Prythian realizam isso todo ano, pois sua magia vem da terra e retorna a ela no fim, é um “toma lá, dá cá”.
— Mas o que é? — perguntei, e Lucien emitiu um estalo com a língua.
— Esta noite, Tam vai permitir... que uma magia grandiosa e terrível entre no corpo dele — disse Lucien, encarando as fogueiras distantes. — A magia vai tomar conta de sua mente, do corpo, da alma, e vai transformá-lo no Caçador. Vai preenchê-lo com um único propósito: encontrar a Donzela. Da cópula dos dois, a magia será libertada e se espalhará pela terra, onde regenerará a vida para o ano que chega.
Meu rosto ficou quente, e lutei contra a vontade de demonstrar desconforto.
— Esta noite, Tam não será o feérico que você conhece — continuou Lucien. — Ele sequer saberá o próprio nome. A magia vai consumir tudo nele, exceto por aquele comando mais básico, e a necessidade.
— Quem... quem é a Donzela? — Consegui perguntar.
Lucien riu com deboche.
— Ninguém sabe até chegar a hora. Depois que Tam caçar o cervo branco e matá-lo para a oferenda sacrificial, vai abrir caminho até aquela caverna sagrada, onde encontrará a trilha cheia de fêmeas feéricas esperando para serem escolhidas como suas parceiras para esta noite.
— O quê?
Lucien gargalhou.
— Sim... todas aquelas fêmeas feéricas ao seu redor eram fêmeas para Tamlin escolher. É uma honra ser escolhida, mas são os instintos dele que a selecionam.
— Mas você estava lá... e outros feéricos machos. — Meu rosto queimou tanto que comecei a suar. Era por isso que aqueles três feéricos terríveis estavam lá, e acharam que, somente por minha presença, eu ficaria feliz em seguir os planos deles.
— Ah. — Lucien riu. — Bem, Tam não é o único que tem o direito de realizar o rito esta noite. Depois que fizer a escolha, estamos livres para nos misturar. Embora não seja o Grande Rito, nossos flertes esta noite também ajudarão a terra. — Lucien afastou aquela mão invisível uma segunda vez, e seus olhos recaíram sobre as colinas. — Tem sorte por eu tê-la encontrado quando o fiz, no entanto — disse Lucien baixinho. — Porque ele teria sentido seu cheiro, e reclamado você, mas não teria sido Tamlin quem a levaria para aquela caverna. — Os olhos dele encontraram os meus, e um calafrio percorreu meu corpo. — E não acho que você teria gostado. Esta noite não é para fazer amor.
Engoli a náusea.
— Eu preciso ir—falou Lucien, olhando para as colinas. — Preciso voltar antes que ele chegue à caverna... pelo menos para tentar controlá-lo quando sentir seu cheiro e não conseguir encontrá-la na multidão.
Fiquei enojada — ao pensar em Tamlin me forçando. Mas ao ouvir que... alguma parte feral dele me queria... Minha respiração doeu.
— Fique no quarto esta noite, Feyre — aconselhou Lucien, caminhando para as portas do jardim. — Não importa quem venha bater, mantenha a porta trancada. Não saia até de manhã.
***
Em algum momento, cochilei enquanto estava sentada na penteadeira. Acordei assim que os tambores pararam. Um silêncio de estremecer percorreu a casa, e os pelos em meus braços se arrepiaram quando a magia passou por mim, ondulando.
Embora não quisesse, pensei na provável fonte da magia e corei, mesmo quando meu peito se apertou. Olhei para o relógio. Tinha passado das duas da manhã.
Bem, ele certamente se demorara com o ritual, o que significava que a garota devia ser linda e encantadora, e apelava aos instintos dele.
Imaginei se ela havia ficado feliz por ter sido escolhida. Provavelmente. Fora até a colina por vontade própria. E, afinal de contas, Tamlin era um Grão-Senhor, aquilo era uma grande honra. E imaginei que Tamlin fosse bonito. Terrivelmente bonito. Embora eu não pudesse ver a parte superior de seu rosto, os olhos eram finos, e a boca linda, curvada e carnuda. E havia o corpo dele, que era... era... sibilei e fiquei de pé.
Encarei minha porta, a armadilha que preparara. Como era absurdo; como se pedaços de corda e madeira pudessem me proteger dos demônios na terra dele.
Como precisava fazer algo com as mãos, cuidadosamente desmontei a armadilha. Então, destranquei a porta e caminhei para o corredor.
Que dia sagrado ridículo. Absurdo. Que bom que humanos os haviam abandonado.
Cheguei à cozinha vazia, engoli metade do pão, uma maçã e uma tartelete de limão. Beliscava um biscoito de chocolate conforme caminhava para meu pequeno quarto de pintura. Precisava tirar algumas das imagens furiosas da mente, mesmo que precisasse pintar à luz de velas.
Estava prestes a virar o corredor quando uma figura alta e masculina surgiu diante de mim. O luar da janela aberta lhe tornava a máscara prateada, e os cabelos dourados — soltos e coroados com folhas de louro — reluziam.
— Vai a algum lugar? — perguntou ele. A voz não era totalmente desse mundo.
Contive um estremecimento.
— Lanchinho da madrugada—falei, e estava muito alerta para cada movimento, cada respiração minha à medida que me aproximava dele.
O peito exposto de Tamlin estava pintado com espirais azuis de tinta de ísatis, e, pelos borrões na tinta, eu sabia exatamente onde ele havia sido tocado. Tentei não reparar que os borrões desciam para além de seu tronco musculoso.
Eu estava prestes a continuar meu caminho quando Tamlin me agarrou, tão rápido que não vi nada até que ele estivesse me segurando contra a parede. O biscoito caiu da minha mão quando ele agarrou meus pulsos.
— Senti seu cheiro — sussurrou ele, o peito pintado subindo e descendo muito perto do meu. — Procurei por você, e você não estava lá.
Ele fedia a magia. Quando olhei nos seus olhos, resquícios de poder brilhavam ali. Nenhuma bondade, nada daquele humor sarcástico e das repreensões gentis. O Tamlin que eu conhecia tinha ido embora.
— Solte — falei, o mais calma que pude, mas as garras dele se projetaram, se enterrando na madeira acima de minhas mãos. Ainda inebriado pela magia, ele estava semisselvagem.
— Você me deixou louco — grunhiu Tamlin, e o som ressoou pelo meu pescoço, pelos meus seios, até que eles doessem. — Procurei por você, e você não estava lá. Quando não a encontrei — disse ele, aproximando o rosto do meu, até que nossas respirações se misturassem —, fui obrigado a escolher outra.
Não conseguia escapar. Não estava tão certa de que queria.
— E ela me pediu para não ser carinhoso — grunhiu Tamlin, os dentes brilhando ao luar. Ele levou os lábios a minha orelha. — Eu teria sido carinhoso com você, no entanto. — Estremeci ao fechar os olhos. Cada centímetro de meu corpo se tencionou quando as palavras ecoaram por mim. — Eu faria com que gemesse meu nome o tempo todo. E eu teria me demorado muito, muito mesmo, Feyre. — Tamlin disse meu nome como uma carícia, e o hálito morno fez cócegas em minha orelha. Minhas costas se arquearam levemente.
Tamlin puxou as garras da parede, e meus joelhos falharam quando ele me soltou. Segurei a parede para evitar afundar no chão, para evitar agarrar Tamlin... para bater ou acariciar, eu não sabia. Abri os olhos. Ele ainda sorria; sorria como um animal.
— Por que eu deveria querer as sobras de alguém? — falei, fazendo menção de empurrar Tamlin para longe. Ele segurou minhas mãos de novo e mordeu meu pescoço.
Gritei quando os dentes de Tamlin se cravaram no ponto macio onde meu pescoço encontrava o ombro. Não conseguia me mover, não conseguia pensar, e meu mundo se reduziu à sensação dos lábios e dos dentes dele contra minha carne. Tamlin não furou minha pele, mas mordeu para me manter presa. A pressão do seu corpo contra o meu, o duro e o macio, me fez enxergar vermelho, ver relâmpagos, me fez roçar os quadris contra os dele. Eu deveria odiá-lo, odiá-lo por aquele ritual idiota, pela fêmea com quem estivera aquela noite...
A mordida de Tamlin ficou mais leve, e sua boca acariciou os pontos em que os dentes estiveram. Tamlin não se moveu — apenas ficou naquele ponto, beijando meu pescoço. Intencional, territorial e preguiçosamente. Calor latejava entre minhas pernas, e, conforme Tamlin prendia o corpo contra o meu, contra cada ponto desejoso, um gemido escapou de meus lábios.
Tamlin se afastou. O ar pareceu dolorosamente frio contra minha pele livre, e eu ofegava sob seu olhar.
— Jamais me desobedeça de novo — falou Tamlin, a voz como um ronronar grave que ricocheteou por meu corpo, despertando tudo e acalentando tudo a reboque.
Então, reconsiderei suas palavras e estiquei o corpo. Tamlin sorriu para mim daquele jeito selvagem, e minha mão acertou a cara dele.
— Não me diga o que fazer — sussurrei, a palma da mão doendo. — E não me morda como uma besta enfurecida.
Tamlin deu uma risada amarga. O luar lhe deixava os olhos da cor das folhas à sombra. Mais... eu queria a rigidez do corpo de Tamlin esmagando o meu; eu queria a boca e seus dentes, e a língua em minha pele nua, em meus seios, entre minhas pernas. Em todo lugar; eu queria Tamlin em todo lugar. Eu estava me afogando naquele desejo.
Suas narinas se dilataram quando Tamlin sentiu meu cheiro — sentiu o cheiro de cada pensamento tórrido e voraz que latejava em meu corpo, meus sentidos. Ele exalou com uma lufada poderosa.

Tamlin grunhiu uma vez, baixo, frustrado e cruel, antes de sair andando.

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Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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