1 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Seis

No dia seguinte, Lucien se juntou a nós para o almoço — que foi o café da manhã para todos nós. Desde que eu reclamara do tamanho desnecessário da mesa, tínhamos passado a comer em uma versão bastante reduzida. Lucien ficava esfregando as têmporas enquanto comia, em um silêncio incomum, e contive um sorriso ao perguntar:
— E onde você estava ontem à noite?
O olho de metal de Lucien se semicerrou em minha direção.
— Fique sabendo que enquanto vocês dois dançavam com os espíritos, eu estava preso na patrulha da fronteira. — Tamlin fingiu uma tosse, e Lucien acrescentou: — Com companhia. — Ele me deu um sorriso maliciosa — De acordo com os boatos, vocês dois só voltaram depois do amanhecer.
Olhei para Tamlin, mordendo o lábio. Eu tinha praticamente flutuado até a cama naquela manhã, mas o olhar de Tamlin observava meu rosto, como se procurando por qualquer pontada de arrependimento, de medo. Ridículo.
— Você mordeu meu pescoço na Noite da Fogueira — falei, sussurrando. — Se posso encará-lo depois daquilo, alguns beijos não são nada.
Ele apoiou os antebraços na mesa quando se inclinou para mais perto de mim.
— Nada? — Os olhos de Tamlin recaíram sobre meus lábios. Lucien se mexeu desconfortavelmente na cadeira, murmurando que o Caldeirão o poupasse, mas o ignorei.
— Nada — repeti, um pouco distante, observando a boca de Tamlin mexer, tão ciente de cada movimento que ele fazia, me ressentindo da mesa entre nós. Eu quase conseguia sentir o calor do hálito dele.
— Tem certeza? — murmurou Tamlin, com tanta determinação e voracidade que fiquei feliz por estar sentada. Ele poderia ter meu corpo bem ali, sobre aquela mesa. Eu queria as mãos grandes de Tamlin percorrendo minha pele nua, queria seus dentes roçando meu pescoço, queria sua boca sobre mim.
— Estou tentando comer — disse Lucien, e pisquei, perdendo o fôlego. — Mas agora que tenho sua atenção, Tamlin — disparou ele, embora o Grão-Senhor estivesse olhando para mim de novo, me devorando com os olhos. Mal conseguia ficar parada na cadeira, mal suportava as roupas arranhando minha pele quente demais. Com algum esforço, Tamlin olhou de volta para o emissário.
Lucien se mexeu na cadeira.
— Não quero ser o portador de notícias muito ruins, mas meu contato na Corte Invernal conseguiu enviar uma carta para mim. — Lucien tomou fôlego para se acalmar, e imaginei se ser emissário também significava ser mestre-espião. E pensei por que ele se dava o trabalho de dizer aquilo em minha presença. O sorriso sumiu imediatamente do rosto de Tamlin. — A praga — falou Lucien, baixinho. — Ela abateu duas dúzias de suas crianças. Duas dúbias, todas se foram. — Ele engoliu em seco. — Simplesmente... extinguiu a magia delas e, depois, destruiu suas mentes. Ninguém na Corte Invernal pôde fazer nada, ninguém conseguiu impedir depois que a praga se concentrou nelas. O luto deles é... imensurável. Meu contato diz que outras cortes estão sendo atingidas seriamente, embora a Corte Noturna, é claro, consiga permanecer ilesa. Mas a praga parece estar enviando sua maldade para este lado, mais para o sul a cada ataque.
Todo o calor, toda a alegria incandescente foi drenada de mim, como sangue descendo pelo ralo.
—A praga pode... pode mesmo matar as pessoas? — Consegui dizer. Crianças. Tinha matado... crianças, como alguma tempestade de escuridão e morte. E, se crianças eram tão raras quanto Alis alegara, a perda de tantas seria mais devastadora do que eu poderia imaginar.
Os olhos de Tamlin estavam sombrios, e ele balançou a cabeça devagar... como se tentasse afastar de dentro de si o luto e o choque por aquelas mortes.
— A praga é capaz de nos ferir de modos que você... — Tamlin ficou de pé tão rapidamente que a cadeira virou. Ele projetou as garras e grunhiu para a porta aberta, os caninos longos e reluzentes.
A casa, em geral cheia do farfalhar de saias e da conversa de criados, tinha ficado silenciosa.
Não o silêncio carregado da Noite da Fogueira, mas um silêncio trêmulo, que me fez querer correr para debaixo da mesa. Ou apenas começar a correr.
Lucien xingou e sacou a espada.
— Leve Feyre para a janela, perto das cortinas — grunhiu Tamlin para Lucien, sem tirar os olhos das portas abertas. A mão de Lucien segurou meu cotovelo, me arrastando para fora da cadeira.
— O que... — comecei, mas Tamlin grunhiu de novo, o som ecoando pela sala. Peguei uma das facas da mesa e deixei que Lucien me levasse até a janela, onde ele me empurrou contra as cortinas de veludo. Queria perguntar por que não se dera o trabalho de me esconder atrás delas, mas o feérico com a máscara de raposa apenas pressionou as costas contra mim, me prendendo entre ele e a parede.
O odor de magia subiu por minhas narinas, e, embora a espada de Lucien estivesse apontada para o chão, ele a segurou com mais força, o que fez os nós de seus dedos ficarem brancos. Magia... um encantamento. Para me esconder, para me tornar parte de Lucien; invisível, escondida pela magia e pelo cheiro do feérico. Olhei por cima do ombro dele para Tamlin, que inspirou fundo, e retraiu as garras e as presas. Seu boldrié de facas apareceu do nada sobre o peito. Mas Tamlin não sacou nenhuma quando ajeitou a cadeira e se sentou nela, limpando as unhas. Como se nada estivesse acontecendo.
Mas alguém estava vindo, alguém terrível a ponto de assustá-los; alguém que iria querer me ferir se soubesse que eu estava ali.
Lembrei da voz sibilante do Attor. Havia criaturas piores que ele, dissera Tamlin. Piores que os nagas, e que o Suriel, e que o Bogge também.
Passos ecoaram do corredor. Equilibrados, vagando casualmente.
Tamlin continuou limpando as unhas, e, diante de mim, Lucien assumiu uma posição que fazia parecer que ele olhava pela janela. O som dos passos ficou mais alto... ouvia-se o raspar de botas nos azulejos de mármore. E, então, ele surgiu.
Sem máscara. Ele, como o Attor, pertencia a outra coisa. A outra pessoa.
E pior... eu o havia encontrado antes. Ele me salvara daqueles três feéricos na Noite da Fogueira.
Com passos graciosos demais, felinos demais, ele se aproximou da mesa de jantar e parou a poucos metros do Grão-Senhor. Era exatamente como eu me lembrava, com as roupas elegantes e opulentas, envoltas em gavinhas da noite: uma túnica ébano bordada a ouro e prata, calça escura e botas pretas na altura dos joelhos. Eu não tinha ousado pintá-lo; e agora sabia que jamais teria coragem.
— Grão-Senhor — cantarolou o estranho, inclinando a cabeça levemente. Não se tratava de uma reverência.
Tamlin permaneceu sentado. De costas para mim, eu não lhe conseguia ver o rosto, mas a voz de Tamlin trazia uma promessa de violência quando ele falou:
— O que quer, Rhysand?
Rhysand sorriu — um sorriso muito bonito, de partir o coração—e levou a mão ao peito.
— Rhysand? Vamos lá, Tamlin. Não o vejo há 49 anos e você começa a me chamar de Rhysand? Apenas meus prisioneiros e meus inimigos me chamam assim. — O sorriso se alargou quando Rhysand terminou, e algo em sua expressão se tornou feral e mortal, mais do que eu jamais vira em Tamlin. Rhysand se virou, e prendi a respiração quando ele olhou para Lucien. — Máscara de raposa. Apropriado para você, Lucien.
— Vá para o inferno, Rhys — disparou Lucien, e o estranho gargalhou.
- É sempre um prazer lidar com a ralé — ironizou ele, e se virou para Tamlin de novo. Eu ainda não estava respirando. — Espero não ter interrompido.
— Estávamos no meio do almoço — disse Tamlin, a voz desprovida do calor com o qual eu havia me acostumado. A voz do Grão-Senhor. Ela revirava meu estômago.
— Estimulante — ronronou Rhysand.
— O que está fazendo aqui, Rhys? — indagou Tamlin, ainda sentado.
— Eu queria ver você. Saber como estava indo. Se recebeu meu presentinho.
— Seu presente era desnecessário.
— Mas foi um bom lembrete da época em que nos divertíamos, não foi? — Rhysand emitiu um estalo com a língua e avaliou a sala. — Quase meio século entocado em uma mansão no campo. Não sei como conseguiu. Mas — continuou ele, encarando Tamlin de novo — você é um desgraçado tão teimoso que isto deve ter parecido um paraíso comparado a Sob a Montanha. Imagino que seja. Fico surpreso, no entanto: 49 anos, e nenhuma tentativa de se salvar, ou salvar suas terras. Mesmo agora que as coisas estão ficando interessantes de novo.
— Não há nada a ser feito — admitiu Tamlin, a voz baixa.
Rhysand se aproximou de Tamlin, cada movimento era sutil como seda. Sua voz tornou-se um sussurro; uma carícia erótica de som que fez minhas bochechas esquentarem.
— É uma pena que você precise suportar tal fardo, Tamlin, e uma pena ainda maior que esteja tão resignado a esse destino. Pode ser teimoso, mas isso é patético. Como é diferente o Grão-Senhor, do cruel líder da tropa de guerra de séculos atrás.
Lucien se irritou.
— O que você sabe sobre qualquer coisa? Você é apenas a vadia de Amarantha.
— Posso ser a vadia dela, mas não sem motivos. — Encolhi o corpo quando a voz dele assumiu um tom afiado. — Pelo menos não passei meu tempo entre as cercas vivas e as flores enquanto o mundo virava um inferno.
A espada de Lucien se ergueu levemente.
— Se acha que isso é tudo o que tenho feito, vai descobrir em breve que não.
— Pequeno Lucien. Você certamente deu o que falar quando mudou para a
Primaveril. É muito triste ver sua linda mãe em luto perpétuo por ter perdido você.
Lucien apontou a espada para Rhysand.
— Cuidado com essa boca suja.
Rhysand gargalhou... a gargalhada de um amante, baixa e suave e íntima.
— Isso são modos de se falar com um Grão-Senhor de Prythian?
Meu coração parou. Era por isso que aqueles feéricos tinham fugido na Noite da Fogueira. Lutar com ele teria sido suicídio. E pelo modo como a escuridão parecia irradiar de Rhysand, como aqueles olhos violentos queimavam que nem estrelas...
— Vamos lá, Tamlin — falou Rhysand. — Não deveria repreender seu lacaio por falar comigo desse jeito?
— Não incentivo hierarquia em minha corte — respondeu Tamlin.
— Ainda? — Rhysand cruzou os braços. — Mas é tão divertido quando eles se curvam. Imagino que seu pai jamais tenha se dado o trabalho de lhe ensinar.
— Esta não é a Corte Noturna — ciciou Lucien. — E você não tem poder aqui, portanto, vá embora. A cama de Amarantha está ficando fria.
Tentei não respirar alto demais. Rhysand... fora ele quem enviara aquela cabeça. Como um presente. Encolhi o corpo. Seria na Corte Noturna que aquela mulher, aquela Amarantha, estava também?
Rhysand deu um riso de escárnio e depois avançou contra Lucien, rápido demais para que eu acompanhasse com meus olhos humanos, grunhindo na cara dele. Lucien me pressionou contra a parede com as costas, com tanta força que contive o grito quando fui esmagada contra a madeira.
— Eu matava no campo de batalha antes de você sequer ter nascido grunhiu Rhysand. Então, tão rapidamente quanto viera, ele recuou, casual e distraidamente. Não, eu jamais ousaria pintar aquela graciosidade sombria e imortal, nem em cem anos. — Além do mais — disse Rhysand, colocando as mãos nos bolsos. — Quem você acha que ensinou seu amado Tamlin o requinte das espadas e das fêmeas? Não pode mesmo acreditar que ele aprendeu tudo nos campos de batalha do pai.
Tamlin esfregou as têmporas.
— Deixe isso para outra hora, Rhys. Vai me ver de novo em breve.
Rhysand passeou em direção à porta.
— Ela já está se preparando para você. Considerando seu estado atual, acho que posso relatar com certeza que você já foi vencido e vai reconsiderar a oferta. — A respiração de Lucien travou quando Rhysand parou à mesa. O Grão Senhor da Corte Noturna passou o dedo pelo encosto de minha cadeira... um gesto casual. — Estou ansioso para ver seu rosto quando você...
Rhysand avaliou a mesa.
Lucien ficou imóvel como um galho, me pressionando com mais força contra a parede. A mesa ainda estava posta para três, meu prato pela metade estava bem diante dele.
— Onde está seu convidado? — perguntou Rhysand, baixinho, erguendo meu cálice e cheirando-o antes de apoiá-lo de novo sobre a mesa.
— Eu o mandei embora quando pressenti sua chegada — mentiu Tamlin, friamente.
Rhysand agora encarava o Grão-Senhor, e o rosto perfeito ficou desprovido de emoção antes de as sobrancelhas se levantarem. Um lampejo de animação — talvez até descrença — percorreu suas feições, mas Rhysand virou a cabeça para Lucien. Magia preencheu minhas narinas, e encarei Rhysand com puro terror conforme seu rosto se contorcia de ódio.
— Você ousa me enfeitiçar? — grunhiu Rhysand, os olhos violeta queimando enquanto encararam os meus. Embora a barreira mágica tivesse sumido, Lucien me pressionou com mais força contra a parede.
A cadeira de Tamlin rangeu quando foi empurrada para trás. Ele se levantou, as garras prontas, mais mortais que qualquer das facas presas a seu corpo.
O rosto de Rhysand se tornou uma máscara de fúria contida enquanto ele encarava e encarava meu rosto.
— Lembro de você — ronronou Rhysand. — Parece que ignorou meu aviso de ficar longe de problemas. — Ele se virou para Tamlin:
— Quem, diga-me, é sua convidada?
— Minha prometida — respondeu Lucien.
— Ah? E eu aqui pensando que você ainda estava de luto por sua amante plebeia depois de tantos séculos — disse Rhysand, caminhando em minha direção. A luz do sol não refletiu nos fios metálicos de sua túnica, como se fugisse da escuridão que pulsava de Rhysand.
Lucien cuspiu aos pés de Rhysand e colocou a espada entre nós.
O sorriso envolto em veneno de Rhysand aumentou.
— Se tirar sangue de mim, Lucien, aprenderá com que rapidez a vadia de Amarantha pode fazer toda a Corte Outonal sangrar. Principalmente sua linda Senhora.
A cor sumiu do rosto de Lucien, mas ele se manteve firme. Foi Tamlin quem respondeu.
— Abaixe a espada, Lucien.
Rhysand passou os olhos sobre mim.
— Eu sabia que você gostava de baixar o nível com suas amantes, Lucien, mas nunca pensei que chegaria a brincar com lixo mortal. — Meu rosto queimou. Lucien estava trêmulo, se por ódio ou medo ou tristeza, eu não sabia dizer. — A Senhora da Corte Outonal ficará muito triste quando souber do filho mais novo. Se eu fosse você, manteria esse novo bichinho de estimação bem longe de seu pai.
— Saia, Rhys — ordenou Tamlin, de pé a alguns metros atrás do Grão-Senhor da Corte Noturna. Mesmo assim, ele não fez menção de atacar, apesar das garras e de Rhysand ainda se aproximar de mim. Talvez uma batalha entre dois Grão-Senhores pudesse demolir a mansão até as fundações, e deixar para trás apenas pó. Ou talvez, se Rhysand fosse mesmo o amante daquela mulher, a retaliação por tê-lo ferido fosse severa demais. Principalmente com o acréscimo do fardo de enfrentar a praga.
Rhysand afastou Lucien como se ele fosse uma cortina.
Não havia nada entre nós agora, e o ar estava cortante e frio. Mas Tamlin permaneceu onde estava, e Lucien nem mesmo piscou quando Rhysand, com um cuidado assustador, pegou a faca de minhas mãos e a jogou quicando pela sala.
— Aquilo não a ajudaria em nada mesmo — disse Rhysand para mim. — Se fosse esperta, sairia gritando e correndo deste lugar, desta gente. É espantoso que ainda esteja aqui, na verdade. — Minha confusão devia estar estampada no rosto, pois Rhysand deu uma risada alta. — Ah, ela não sabe, sabe?
Estremeci, incapaz de encontrar palavras ou coragem.
— Você tem segundos, Rhys — avisou Tamlin. — Segundos para sair.
— Se eu fosse você, não falaria comigo assim.
Contra minha vontade, meu corpo se esticou, cada músculo ficou rígido, meus ossos se repuxaram. Era magia, mas de um tipo mais forte. Poder que se agarrou a tudo dentro de mim e tomou o controle: mesmo meu sangue fluía para onde ele queria.
Eu não conseguia me mover. Certa mão invisível, com garras nas pontas, arranhou minha mente. E eu soube... um empurrão, um deslize daquelas garras mentais, e quem eu era deixaria de existir.
— Solte-a — falou Tamlin, fervilhando, mas não avançou. Um tipo de pânico tinha tomado seus olhos, e Tamlin olhou de mim para Rhysand. — Basta.
— Eu tinha me esquecido de que as mentes humanas são tão fáceis de estilhaçar quanto cascas de ovos — falou Rhysand, e percorreu um dedo pela base de minha garganta. Estremeci, meus olhos queimavam. — Olhe como ela é um deleite, olhe como está tentando não gritar de terror. Seria rápido, prometo.
Se eu ainda tivesse qualquer fio de controle sobre o corpo, teria vomitado.
— Ela tem os pensamentos mais deliciosos sobre você, Tamlin — disse Rhysand. — Imaginou como seria a sensação de seus dedos nas coxas dela, e entre elas também. — Rhysand riu. Mesmo enquanto ele proferia meus pensamentos mais íntimos, mesmo enquanto eu queimava com indignação e vergonha, ainda tremia diante de seu controle sobre minha mente. Rhysand se virou para o Grão-Senhor. — Estou curioso: por que ela imagina se seria tão bom se você mordesse o seio dela do modo como mordeu o pescoço?
— Solte-a. — O rosto de Tamlin estava contorcido com um ódio tão feral que incitou um tipo diferente, mais profundo, de terror em mim.
— Se serve de consolo — confidenciou Rhysand a ele —, ela teria sido a mulher certa para você, e você poderia ter se libertado. Um pouco tarde, no entanto. Ela é mais teimosa que você.
Aquelas garras invisíveis preguiçosamente acariciaram minha mente de novo... e depois sumiram. Desabei no chão, me enroscando sobre os joelhos, enquanto recuperava tudo o que eu era, enquanto tentava evitar chorar, gritar, esvaziar meu estômago no chão.
— Amarantha vai gostar de acabar com ela — observou Rhysand para Tamlin. — Quase tanto quanto vai gostar de observar você enquanto a destrói, pedaço por pedaço.
Tamlin estava congelado, seus braços — as garras — pendendo inertes nas laterais do corpo. Eu jamais o vira daquela forma.
— Por favor! — Foi tudo o que Tamlin disse.
— Por favor o quê? — falou Rhysand, gentil e persuasivo, como um amante.
— Não conte a Amarantha sobre ela — pediu Tamlin, a voz falhando.
— E por que não? Como a vadia de Amarantha — respondeu ele, com um olhar na direção de Lucien —, eu deveria contar tudo.
— Por favor. — Tamlin conseguiu dizer, como se fosse difícil respirar.
Rhysand apontou para o chão, e seu sorriso se tornou cruel.
— Implore, e vou considerar não contar a Amarantha.
Tamlin se ajoelhou e fez uma reverência com a cabeça.
— Mais baixo.
Tamlin encostou a testa no chão, as mãos deslizando sobre piso na direção das botas de Rhysand. Eu poderia ter chorado de ódio ao ver Tamlin ser forçado a se curvar para alguém, diante da visão de meu Grão-Senhor tão humilhado. Rhysand apontou para Lucien.
— Você também, garoto raposa.
O rosto de Lucien estava sombrio, mas ele se ajoelhou e, depois, levou a testa ao chão. Desejei ter a faca que Rhysand jogara longe, ter alguma coisa com que matá-lo.
Parei de tremer por tempo o suficiente para ouvir Rhys falar de novo.
— Está fazendo isso por você, ou por ela? — ponderou ele, e depois deu de ombros, como se não estivesse obrigando um Grão-Senhor de Prythian a se curvar. — Está desesperado demais, Tamlin. É desconcertante. Tornar-se Grão Senhor deixou você tão entediante.
— Vai contar a Amarantha? — perguntou Tamlin, mantendo o rosto no chão.
Rhysand deu um risinho de deboche.
— Talvez conte, talvez não.
Com um lampejo de movimento rápido demais para que eu detectasse, Tamlin ficou de pé, com as presas perigosamente próximas do rosto de Rhysand.
— Deixe disso — falou Rhysand, emitindo um estalo com a língua e empurrando devagar Tamlin para o lado, com apenas uma das mãos. — Não com uma dama presente. — Seus olhos se voltaram para meu rosto. — Qual é seu nome, querida?
Dar a ele meu nome — e o nome de minha família — só causaria mais dor e sofrimento. Ele poderia muito bem encontrar minha família e arrastá-la para Prythian para torturá-la, apenas para se divertir. Mas poderia arrancar o nome de minha mente se eu hesitasse muito. Com a mente vazia e calma, disparei o primeiro nome que me veio à cabeça, o de uma amiga de minhas irmãs, da aldeia, com quem eu jamais tinha falado, e cujo rosto eu não lembrava.
— Clare Beddor. — Minha voz não passou de um arquejo.
Rhysand se voltou para Tamlin, inabalado pela proximidade do Grão-Senhor.
— Bem, isso foi divertido. A maior diversão que tive em eras, na verdade. Estou ansioso para vê-los, os três, sob a Montanha. Darei lembranças a Amarantha.
Então, Rhysand sumiu — como se tivesse entrado em uma falha no mundo —, deixando nós três sozinhos em um silêncio terrível, trêmulo.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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