2 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Quatro

Levou horas para que Elain usasse o charme nos empregados a fim de que agilmente fizessem as malas e partissem, cada um com uma bolsa de dinheiro para acelerar o processo. A Sra. L Laurent, embora tenha sido a última a partir, prometeu manter em segredo tudo que vira.
Eu não sabia onde Rhys, Cassian e Azriel esperavam, mas depois que a Sra. L Laurent subiu na carruagem entulhada com o resto dos empregados, em direção à cidade e ao transporte até onde quer que tivessem família, uma batida soou à porta.
Já escurecia, e o mundo do lado de fora estava espesso com tons de azul e branco e cinza e manchado de dourado quando abri a porta e os vi aguardando.
Nestha e Elain ocupavam a ampla sala de jantar — o espaço mais aberto da casa.
Ao olhar para Rhys, Cassian e Azriel, soube que acertara ao escolher a sala de jantar como local da reunião.
Eram enormes; selvagens, primitivos e antigos.
As sobrancelhas de Rhys se ergueram.
— A impressão que se tem é a de que disseram aos empregados que uma praga recaiu sobre a casa.
Abri a porta o bastante para deixá-los entrar, e depois rapidamente a fechei contra o
frio fustigante.
— Minha irmã Elain consegue convencer qualquer um a fazer qualquer coisa com alguns sorrisos.
Cassian soltou um assobio baixo quando se virou, observando o grande corredor da entrada, a mobília ornamentada, as pinturas. Tudo pago por Tamlin — inicialmente. Ele cuidara tão bem de minha família, mas a dele... Não quis pensar na família de Tamlin, assassinada por uma corte rival qualquer que fosse o motivo que ninguém jamais me explicou. Não agora que eu estava vivendo em meio a essa corte...
Ele fora bom; havia uma parte de Tamlin que era boa...
Sim. Ele me dera tudo de que eu precisava para me tornar eu mesma, para me sentir segura. E, quando conseguiu o que quis... parou. Tentou, mas não de verdade. Tamlin se deixou permanecer cego em relação ao que eu precisava depois de Amarantha.
— Seu pai deve ser um bom mercador — disse Cassian. — Já vi castelos com menos riquezas.
Vi que Rhys me observava, e havia uma pergunta silenciosa estampada em seu rosto.
— Meu pai está fora, a negócios... e participando de uma reunião em Neva sobre a ameaça de Prythian — respondi.
— Prythian? — indagou Cassian, se virando em nossa direção. — Não Hybern?
— É possível que minhas irmãs estejam enganadas, suas terras são estranhas a elas.
Simplesmente disseram “acima da muralha”. Presumi que achassem que fosse Prythian.
Azriel se aproximou com pés tão silenciosos quanto os de gatos.
— Se humanos estão cientes da ameaça, se reunindo para enfrentá-la, então isso pode nos dar uma vantagem quando entrarmos em contato com as rainhas.
Rhys ainda me observava, como se pudesse ver o peso que recaíra sobre mim desde que havíamos chegado. Na última vez que tinha estado naquela casa, eu era uma mulher apaixonada — um amor tão frenético e desesperado que voltei para Prythian, desci Sob a Montanha, como uma mera humana. Tão frágil quanto minhas irmãs agora me pareciam.
— Venha — disse Rhys, me oferecendo um aceno de cabeça sutil e compreensivo antes de gesticular para que eu liderasse o caminho. — Vamos fazer essas apresentações.
***
Minhas irmãs estavam paradas à janela, a luz dos lustres convidava o dourado nos cabelos a brilhar. Tão lindas e jovens e vivas — mas quando isso mudaria? Como seria falar com elas quando eu permanecesse dessa forma e a pele delas tivesse ficado fina como papel e enrugada, as costas, curvadas com o peso dos anos, as mãos brancas, cheias de sardas?
Eu mal estaria no início da existência imortal quando a delas seria apagada como uma vela diante de um sopro frio.
Mas eu poderia dar a Nestha e Elain alguns bons anos — anos seguros — até então.
Atravessei a sala, os três machos ficaram um passo atrás, e o piso de madeira estava tão brilhante e polido quanto um espelho sob nós. Eu tinha tirado a capa agora que os criados partiram, e foi para mim — não para os illyrianos — que minhas irmãs olharam primeiro. Para as roupas feéricas, a coroa, as joias.
Uma estranha; essa parte de mim era agora estranha para elas.
Então, elas observaram os machos alados... ou dois deles. As asas de Rhys tinham sumido, e as roupas de couro haviam sido substituídas pelo casaco preto elegante e calça.
Minhas irmãs enrijeceram o corpo ao ver Cassian e Azriel, ao verem aquelas poderosas asas recolhidas rentes aos corpos fortes, as armas, e, depois, os rostos arrasadoramente lindos de todos os três machos.
Elain, para seu crédito, não desmaiou.
E Nestha, por sua vez, não sibilou para os feéricos. Ela apenas deu um passo nada sutil para a frente de Elain e escondeu a mão fechada em punho atrás do vestido simples e elegante de cor ametista. O movimento não passou despercebido por meus companheiros.
Parei a um bom metro de distância, dando a minhas irmãs espaço a fim de respirarem em uma sala que subitamente foi privada de ar. Eu disse aos machos:
— Minhas irmãs, Nestha e Elain Archeron.
Não pensava no sobrenome de minha família, não o usava havia anos e anos. Porque, mesmo quando eu tinha me sacrificado e caçado por eles, não queria o nome de meu pai — não quando se sentava diante de uma lareira e nos deixava passar fome. Deixava que eu caminhasse sozinha no bosque. Parara de usar o sobrenome no dia em que matei aquele coelho e senti o sangue manchar minhas mãos, da mesma forma que o sangue daqueles feéricos as maculara anos mais tarde, como uma tatuagem invisível.
Minhas irmãs não fizeram reverência. Seus corações batiam freneticamente, até mesmo o de Nestha, e o cheiro de terror envolvia minha língua...
— Cassian — falei, inclinando a cabeça para a esquerda. Então, me virei para a direita, grata porque aquelas sombras não podiam ser vistas em lugar algum quando falei: — Azriel. — Fiz uma meia-volta. — E Rhysand, Grão-Senhor da Corte Noturna.
Rhys também se contivera, percebi. A noite que ondulava dele, a graciosidade sobrenatural e o poder estrondoso. Mas ao encarar aqueles olhos violeta salpicados de estrelas, ninguém jamais poderia confundi-lo com qualquer coisa que não fosse extraordinária.
Ele fez uma reverência para minhas irmãs.
— Obrigado pela hospitalidade... e pela generosidade — disse Rhysand, com um sorriso caloroso. Mas havia algo tenso ali.
Elain tentou devolver o sorriso, mas fracassou.
E Nestha apenas olhou para os três e, depois, para mim e disse: — O cozinheiro deixou jantar na mesa. Deveríamos comer antes que esfrie. — Ela não esperou que eu concordasse antes de sair andando, bem para a cabeceira da mesa de cerejeira polida.
— É um prazer conhecê-los — disse Elain, a voz rouca, antes de correr atrás de Nestha, e as saias de seda do vestido cobalto farfalharam sobre os tacos do piso.
Cassian fez uma careta conforme as seguimos, as sobrancelhas de Rhys estavam erguidas, e Azriel parecia mais inclinado a se misturar à sombra mais próxima e evitar completamente aquela conversa.
Nestha esperava à cabeceira da mesa, uma rainha pronta para fazer a corte. Elain tremia na cadeira de madeira entalhada e estofada à esquerda dela.
Fiz um favor a todos e ocupei a cadeira à direita de Nestha. Cassian reivindicou o assento ao lado de Elain, a qual segurou o garfo com força, como se pudesse empunhá-lo contra o feérico; Rhys passou para o assento ao meu lado, e Azriel se sentou do outro lado de Rhysand. Um leve sorriso se abriu na boca de Azriel quando ele reparou os dedos de Elain com as articulações esbranquiçadas naquele garfo, mas se manteve calado, concentrando-se, em vez disso, como Cassian sutilmente tentava fazer, em ajustar as asas ao redor de uma cadeira humana. Maldito Caldeirão. Devia ter lembrado. Embora duvidasse de que qualquer um deles gostasse se eu agora trouxesse dois banquinhos.
Suspirei pelo nariz e tirei as tampas de várias travessas e panelas. Salmão cozido com aneto e limão da estufa, purê de batatas, frango assado com beterraba e nabo da cave, e um guisado de ovos, carne de caça e alho-poró. Comida da estação; o que tinha sobrado no fim do inverno.
Coloquei comida no prato, e os sons de minhas irmãs e meus companheiros fazendo o mesmo preencheram o silêncio. Dei uma mordida e contive minha reação.
Certa vez, aquela comida seria exuberante e saborosa.
Agora, era como cinzas em minha boca.
Rhys comia o frango sem hesitar. Cassian e Azriel o faziam como se não tivessem desfrutado de uma refeição havia meses. Talvez por serem guerreiros, por lutar em guerras, tivessem a habilidade de enxergar a comida como força... e de deixar de lado o sabor.
Vi que Nestha me observava.
— Tem algo errado com nossa comida? — perguntou ela, simplesmente.
Eu me obriguei a dar outra mordida, cada movimento de meu maxilar era um esforço.
— Não. — Engoli e entornei um belo gole d’água.
— Então não pode mais comer comida normal, ou é boa demais para ela? — Uma pergunta e um desafio.
O garfo de Rhys tilintou no prato. Elain emitiu um ruído baixo de nervosismo.
E, embora Nestha tivesse me deixado usar a casa, embora tivesse tentado atravessar a muralha por mim e tivéssemos concordado em uma trégua frágil, o tom, o nojo e a reprovação...
Coloquei a mão espalmada na mesa.
— Posso comer, beber, trepar e lutar tão bem quanto antes. Até melhor.
Cassian engasgou com a água. Azriel se moveu na cadeira, posicionando-se para se colocar entre nós se fosse preciso.
Nestha soltou uma risada baixa.
Mas pude sentir o gosto de fogo na boca, pude ouvi-lo rugindo nas veias e...
Senti um puxão súbito, sólido na ligação, e escuridão tranquilizadora entrando em mim, meu temperamento, meus sentidos, acalmando aquele fogo...
Comecei a erguer os escudos mentais. Mas eles estavam intactos.
Rhys nem mesmo piscou para mim antes de dizer a Nestha:
— Se algum dia vier a Prythian, vai descobrir por que nossa comida tem um gosto tão diferente.
Nestha olhou para ele com superioridade.
— Tenho pouco interesse em algum dia pôr os pés em suas terras, então, vou acreditar em sua palavra.
— Nestha, por favor — murmurou Elain.
Cassian observava Nestha, e havia um brilho em seus olhos que eu só podia interpretar como um guerreiro se vendo diante de um novo e interessante oponente.
Então, pela Mãe, Nestha voltou a atenção para Cassian, reparando naquele brilho... e no que este significava.
— O que está olhando? — perguntou ela, grunhindo.
As sobrancelhas de Cassian se ergueram... agora com pouco interesse.
— Alguém que deixou a irmã mais nova arriscar a vida todos os dias no bosque enquanto não fazia nada. Alguém que deixou que uma criança de 14 anos entrasse naquela floresta tão perto da muralha. — Meu rosto começou a ficar morno e abri a boca. Não sei o que diria. — Sua irmã morreu... morreu para salvar meu povo. Ela está disposta a fazer isso de novo para proteger você da guerra. Então, não espere que eu fique sentado aqui de boca fechada enquanto você a despreza por uma escolha que sua irmã não pôde fazer... e ainda insulta meu povo no processo.
Nestha não moveu um cílio enquanto observava as belas feições, o tronco musculoso. Então, se virou para mim. Ignorando completamente Cassian.
O rosto dele se tornou quase selvagem. Era um lobo caçando uma corça... apenas para encontrar um felino selvagem vestindo a pele da corça.
A voz de Elain falou quando ela observou a mesma coisa e rapidamente disse a Cassian:
— É... é muito difícil, entende, aceitar. — Percebi que o metal escuro do anel dela... era ferro. Embora eu tivesse dito a elas que ferro era inútil, ali estava. O presente da família odiadora de feéricos do futuro marido. Elain lançou um olhar de súplica para Rhys, e depois para Azriel, com um medo tão mortal envolvendo as feições, seu cheiro. — Somos criados assim. Ouvimos histórias de seu povo cruzando a muralha para nos ferir. Nossa própria vizinha, Clare Beddor, foi levada, a família foi assassinada...
Um corpo nu empalado à parede. Partido. Morto. Pregado ali durante meses.
Rhys encarava o prato. Sem se mover. Sem piscar.
Ele revelara a Amarantha o nome de Clare — apesar de saber que eu tinha mentido a respeito daquilo.
— É tudo muito confuso — continuou Elain.
— Posso imaginar — disse Azriel. Cassian lançou um olhar de raiva para ele. Mas a atenção de Azriel estava em minha irmã, um sorriso educado e calmo estampava seu rosto. Os ombros de Elain relaxaram um pouco. Imaginei se o mestre-espião de Rhys costumava obter a informação por meio do comportamento frio como pedra, tanto quanto por ser furtivo e das sombras.
Elain se sentou um pouco mais ereta quando disse a Cassian:
— E quanto à caça de Feyre durante aqueles anos, não é só a negligência de Nestha a culpada. Estávamos com medo e não tínhamos recebido nenhum treinamento, e tudo tinha sido levado, e falhamos com ela. Nós duas.
Nestha não disse nada, manteve as costas rígidas.
Rhys me deu um olhar de aviso. Segurei o braço de Nestha, atraindo a atenção dela para mim.
— Podemos simplesmente... começar de novo?
Quase consegui sentir o gosto de seu orgulho se acumulando nas veias, gritando para que Nestha não cedesse.
Cassian, maldito fosse, deu um sorriso provocador para minha irmã.
Mas Nestha apenas sibilou:
— Tudo bem. — E voltou a comer.
Cassian observou cada mordida que Nestha deu, cada movimento da garganta dela conforme ela engolia.
Eu me obriguei a limpar o prato, ciente da atenção de Nestha para minha comida.
Elain falou para Azriel, talvez os dois únicos civilizados ali:
— Pode mesmo voar?
Azriel soltou o garfo, piscando. Talvez pudesse até dizer que tinha ficado envergonhado.
— Sim. Cassian e eu somos de uma raça de feéricos chamados illyrianos. Nascemos ouvindo a canção do vento — respondeu ele.
— Isso é muito lindo — disse Elain. — Mas não é... assustador? Voar tão alto?
— Às vezes é — respondeu Azriel. Cassian desviou a atenção irredutível de Nestha por tempo o bastante para assentir. — Se for pego em uma tempestade, se a corrente descer. Mas somos tão bem-treinados que o medo some antes de largarmos as fraldas. — No entanto, Azriel não fora treinado até muito depois disso. Você se acostuma com o vocabulário, dissera ele mais cedo. Com que frequência precisava se lembrar de usar tais palavras? Será que “nós” e “nosso” tinham um gosto tão estranho na língua dele quanto tinham na minha?
— Vocês parecem Grão-Feéricos — interrompeu Nestha, a voz como uma lâmina afiada. — Mas não são?
— Apenas os Grão-Feéricos que se parecem com eles — falou Cassian, gesticulando com a mão para mim e para Rhys — são Grão-Feéricos. Todo o resto, qualquer outra diferença, e marcam você como o que eles gostam de chamar de feéricos “inferiores”.
Rhysand falou, por fim:
— Virou um termo usado pela praticidade, mas mascara uma história longa e sangrenta de injustiças. Muitos feéricos inferiores se ressentem do termo... e desejam que todos sejamos chamados da mesma coisa.
— E com razão — ponderou Cassian, bebendo água.
Nestha me observou.
— Mas você não era Grã-Feérica, não no início. Então, como a chamam? — Eu não consegui sentir se foi uma alfinetada.
— Feyre é quem ela escolher ser — respondeu Rhys.
Nestha agora observava todos nós, erguendo os olhos para aquela coroa. Mas falou:
— Escrevam suas cartas para as rainhas agora. Amanhã, Elain e eu iremos à cidade enviá-las. Se as rainhas vierem até aqui — acrescentou Nestha, lançando um olhar gélido para Cassian —, sugiro se prepararem para preconceitos muito mais profundos que os nossos. E contemplem como planejam tirar todos nós dessa confusão, caso as coisas deem errado.
— Vamos levar isso em consideração — respondeu Rhys, tranquilamente.
— Presumo que vão querer passar a noite — continuou Nestha, nada impressionada com nenhum de nós.
Rhys me olhou, uma pergunta silenciosa. Poderíamos facilmente partir, os machos encontrariam o caminho para casa no escuro, mas... Muito em breve, talvez, o mundo virasse um inferno. Falei:
— Se não incomodar muito, então sim. Partiremos amanhã depois do café.
Nestha não sorriu, mas Elain se iluminou.
— Que bom. Acho que alguns quartos já estão arrumados...
— Precisaremos de dois — interrompeu Rhys, silenciosamente. — Adjacentes, com duas camas cada.
Franzi a testa para ele.
Rhys explicou para mim:
— A magia é diferente do outro lado da muralha. Então, nossos escudos, nossos sentidos, podem não funcionar bem. Não vou arriscar. Principalmente em uma casa com uma mulher prometida a um homem que deu a ela um anel de noivado de ferro.
Elain corou um pouco.
— Os... os quartos que têm duas camas não são adjacentes — murmurou ela.
Suspirei.
— Nós moveremos as coisas. Não tem problema. Este aqui — acrescentei, com um olhar de raiva na direção de Rhys — só está ranzinza porque é velho e passou da hora de dormir.
Rhys riu, a ira de Cassian se dissipou o bastante para que ele sorrisse, e Elain, ao reparar que Azriel relaxara como prova de que as coisas não estavam, de fato, prestes a dar errado, ofereceu um sorriso próprio também.
Nestha apenas ficou de pé, uma pilastra esguia de aço, e falou, para ninguém em especial:
— Se terminamos de comer, esta refeição acabou.
E foi isso.
***
Rhys escreveu a carta por mim, Cassian e Azriel interromperam com correções, e levamos até meia-noite para fazer um rascunho que todos concordamos ser impressionante, caloroso e ameaçador o bastante.
Minhas irmãs lavavam a louça enquanto trabalhávamos, e tinham se despedido para se recolher horas antes, mencionando onde poderíamos encontrar nossos quartos.
Cassian e Azriel dividiriam um; Rhys e eu, o outro.
Franzi a testa ao ver a grande cama de hóspedes quando Rhys fechou a porta atrás de nós. A cama era grande o bastante para dois, mas eu não a dividiria. Virei para Rhys.
— Não vou...
Madeira bateu no carpete, e uma pequena cama surgiu ao lado da porta. Rhys se deitou nela, tirando as botas.
— Nestha é encantadora, aliás.
— Ela é... é uma criatura singular — admiti. Talvez fosse a coisa mais bondosa que eu poderia dizer a seu respeito.
— Faz alguns séculos desde que alguém tira Cassian do sério com tanta facilidade.
Uma pena que provavelmente matariam um ao outro.
Parte de mim estremeceu diante do caos que os dois causariam se decidissem parar de brigar.
— E Elain — falou Rhys, suspirando ao remover a outra bota — não deveria se casar com o filho daquele senhor, não por uma dezena de motivos, o menor deles é o fato de que você não será convidada para o casamento. Embora talvez isso seja bom.
— Isso não é engraçado — ciciei.
— Pelo menos não precisa mandar um presente também. Duvido que o sogro ouse aceitar.
— Você tem muita coragem ao insultar minhas irmãs quando seus amigos têm a mesma quantidade de melodrama. — As sobrancelhas de Rhys se ergueram em uma pergunta silenciosa. Ri com deboche. — Ah, então não reparou na forma como Azriel olha para Mor? Ou como ela às vezes o observa, o defende? E como os dois fazem um trabalho tão bom permitindo que Cassian sirva de amortecedor entre eles na maior parte do tempo?
Rhys me encarou.
— Sugiro manter essas observações para si.
— Acha que sou uma fofoqueira enxerida? Minha vida já é bem miserável como está, porque iria espalhar essa miséria para aqueles ao redor também?
— É miserável? Sua vida, quero dizer. — Uma pergunta cautelosa.
— Não sei. Tudo está acontecendo tão rápido que não sei o que sentir. — Fui mais sincera do que eu tinha sido em um bom tempo.
— Hmm. Talvez depois que voltarmos para casa, eu devesse dar um dia de folga a você.
— Quanta consideração, meu senhor.
Rhys riu com deboche, desabotoando o casaco. Percebi que estava com todas as minhas roupas finas — e sem nada usável para dormir.
Com um estalo dos dedos de Rhys, meu pijama e roupas íntimas exíguas sugiram na cama
— Não pude decidir qual pedaço de renda eu queria que você vestisse; então, trouxe algumas opções.
— Porco — disparei, pegando as roupas e seguindo para o banheiro adjacente.
O quarto estava morno quando voltei; Rhys ocupava a cama que tinha conjurado de onde quer que fosse, e toda a luz tinha sumido, exceto pelas brasas estalando na lareira.
Até mesmo os lençóis pareciam mornos quando me deitei neles.
— Obrigada por aquecer a cama — falei, na escuridão.
Rhys estava de costas para mim, mas eu o ouvi claramente quando ele falou:
— Amarantha jamais me agradeceu por isso.
Todo o calor se dissipou.
— Ela não sofreu o suficiente.
Nem perto, pelo que tinha feito. Comigo, com ele, com Clare, com tantos outros.
Rhys não respondeu. Em vez disso, comentou:
— Não achei que aguentaria aquele jantar.
— O que quer dizer? — Rhys estivera bastante... calmo. Contido.
— Suas irmãs têm boa intenção, ou uma delas tem. Mas ao vê-las, sentadas àquela mesa... Não percebi que me atingiria com tanta força. O quanto você era jovem. O quanto elas não a protegeram.
— Eu me saí muito bem.
— Nós devemos a elas nossa gratidão por nos deixarem usar esta casa — disse Rhysand, baixinho. — Mas vai levar um bom tempo até que eu consiga olhar para suas irmãs sem querer berrar com elas.
— Parte de mim sente o mesmo — admiti, me aninhando nos cobertores. — Mas, se não tivesse entrado naquele bosque, se elas não tivessem me deixado ir sozinha... você ainda estaria escravizado. E talvez Amarantha agora estivesse preparando as forças para destruir estas terras.
Silêncio. Então...
— Vou pagar um salário a você, sabe. Por tudo isso.
— Não precisa. — Mesmo que... mesmo que eu não tivesse nenhum dinheiro.
—Todo membro de minha corte recebe um. Já existe uma conta bancária em Velaris para você, onde seus ganhos serão depositados. E tem linhas de crédito na maioria das lojas. Assim, se não tiver o suficiente consigo quando estiver fazendo compras, pode mandar a conta para a Casa.
— Eu... você não precisava fazer isso. — Engoli em seco. — E quanto exatamente vou receber todo mês?
— O mesmo que os outros. — Sem dúvida um salário generoso, talvez generoso demais. Mas Rhys subitamente perguntou: — Quando é seu aniversário?
— Preciso continuar contando meus aniversários? — Ele apenas esperou. Suspirei.
— É no Solstício de Inverno.
Rhys parou.
— Isso foi há meses.
— Mmmhmm.
— Você não... Não me lembro de vê-la comemorar.
Pelo laço, pela minha mente confusa e desprotegida.
— Não contei a ninguém. Não queria uma festa quando já tinha toda aquela comemoração acontecendo. Aniversários parecem insignificantes agora mesmo.
Rhys ficou em silêncio por um longo minuto.
— Você realmente nasceu no Solstício de Inverno?
— É tão difícil de acreditar? Minha mãe alegava que eu era tão retraída e estranha porque tinha nascido na noite mais longa do ano. Uma vez ela tentou fazer meu aniversário em outro dia, mas esqueceu de fazer isso no ano seguinte... provavelmente havia uma festa mais útil que precisava planejar.
— Agora sei a quem Nestha puxou. Sinceramente, é uma pena não podermos ficar mais, ao menos para ver quem sobrevive: ela ou Cassian.
— Eu aposto em Nestha.
Uma risada baixa percorreu meus ossos; um lembrete de que Rhysand certa vez apostou em mim. Fora o único Sob a Montanha que apostou dinheiro que eu derrotaria o Verme de Middengard.
— Eu também — disse ele.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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