1 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Oito

Não houve muito alvoroço com minhas malas e as despedidas. Fiquei um pouco surpresa quando Alis me vestiu em uma roupa muito diferente de minhas vestimentas habituais — com babados, sufocante e apertada em todos os lugares errados. Alguma moda mortal entre os ricos, sem dúvida. O vestido era composto de camadas de seda rosa-claro, delineada com renda branca e azul clara. Alis completou o figurino com um casaco curto e leve de linho branco, as lapelas arrematadas em rosa-chá. Sobre minha cabeça, ela apoiou um pequeno chapéu marfim absurdo, obviamente para decoração. Eu até esperava que uma sombrinha viesse com o modelito.
Falei isso para Alis, que estalou a língua.
— Você não deveria me dar um adeus choroso?
Ajeitei as luvas de renda; inúteis e finas.
— Não gosto de despedidas. Se pudesse, apenas sairia, sem dizer nada.
Alis me olhou por um bom tempo.
— Também não gosto.
Caminhei até a porta, mas apesar de não querer, falei:
— Espero que consiga se juntar a seus sobrinhos de novo em breve.
— Aproveite sua liberdade. — Foi tudo o que Alis disse.
No primeiro andar, Lucien deu um risinho ao me ver.
— Essas roupas são o suficiente para me convencer de que jamais gostaria de entrar no reino humano.
— Não sei se o reino humano saberia o que fazer com você — retruquei.
O sorriso de Lucien estava vacilante; os ombros, tensos, quando lançou um olhar afiado por cima do meu, para onde Tamlin esperava diante de uma carruagem dourada. Quando ele se voltou para mim, aquele olho de metal se semicerrou.
— Achei que fosse mais esperta que isso.
— Adeus para você também — disparei. Amigo mesmo. Não foi minha escolha, ou minha culpa, eles terem escondido a maior parte do conflito de mim. Mesmo que eu não pudesse fazer nada contra aquela praga, ou contra as criaturas, ou contra Amarantha, quem quer que fosse ela.
Lucien balançou a cabeça, a cicatriz marcante contra o sol forte, e saiu andando até Tamlin, apesar do grunhido de aviso do Grão-Senhor.
— Você nem mesmo vai dar a ela mais alguns dias? Apenas alguns, antes de enviá-la de volta para aquele esgoto humano? — indagou Lucien.
— Isso não está aberto a discussão — disparou Tamlin, apontando para a casa. — Vejo você no almoço.
Lucien o encarou por um momento, cuspiu no chão e então disparou escada acima. Tamlin não o repreendeu.
Eu poderia ter refletido mais a respeito das palavras de Lucien, poderia ter gritado em resposta, mas... Senti um vazio no peito quando encarei Tamlin diante da carruagem dourada, minhas mãos suadas dentro das luvas.
— Lembre do que eu disse a você — falou Tamlin. Assenti, ocupada demais memorizando as linhas de seu rosto para responder. Será que estava falando do que achei que ele tinha dito na noite anterior? Sobre me amar? Eu me mexi, desconfortável, já sofrendo nas pequenas sapatilhas brancas em que Alis enfiara meus pobres pés. — O reino mortal permanece seguro para você, para sua família. — Assenti, imaginando se ele teria cogitado me persuadir a até mesmo deixar nosso território, a velejar para o sul, mas Tamlin entendia que eu teria me recusado a ficar tão longe da muralha, dele. Que voltar para minha família era o máximo de distância que eu me permitiria.
— Minhas pinturas... elas são suas — falei, incapaz de pensar em algo melhor para expressar como eu me sentia, como me afetava ser enviada para longe, e o quanto me apavorava a carruagem que se erguia atrás de mim.
Tamlin ergueu meu queixo com um dedo.
— Verei você de novo.
Ele me beijou, e me afastei rápido demais. Engoli em seco, lutando contra a queimação nos olhos. Amo você, Feyre.
Virei antes que minha visão ficasse embaçada, mas Tamlin estava imediatamente ali para me ajudar a entrar na carruagem. Pela porta aberta, ele me observou ocupar o assento, o rosto uma máscara de tranquilidade.
— Pronta?
Não, não, eu não estava pronta, não depois da noite anterior, não depois de todos aqueles meses. Mas assenti. Se Rhysand voltasse, se aquela Amarantha fosse mesmo uma ameaça a ponto de eu não passar de mais um corpo para Tamlin defender... Eu precisava ir.
Ele fechou a porta, me selando do lado de dentro com um clique que ecoou em meu corpo. Tamlin se inclinou para dentro pela janela aberta para acariciar minha bochecha — e eu podia jurar que senti o coração se partir. O cocheiro estalou o chicote.
Os dedos de Tamlin roçaram minha boca. A carruagem disparou quando os seis cavalos brancos começaram a trotar. Mordi o lábio para evitar que ele estremecesse.
Tamlin sorriu para mim uma última vez.
— Amo você — disse ele, e se afastou.
Eu deveria dizer — deveria dizer aquelas palavras, mas elas ficaram presas em minha garganta, porque... Por causa do que ele precisava enfrentar, porque talvez não me encontrasse de novo, apesar da promessa, porque... além de tudo aquilo, ele era um imortal, e eu envelheceria e morreria. E talvez Tamlin tivesse sido sincero no momento, e talvez a noite anterior houvesse sido tão marcante para ele quanto fora para mim, mas... eu não me tornaria um fardo para Tamlin. Eu não me tornaria outro peso sobre seus ombros.
Então, não falei nada conforme a carruagem se moveu. E não olhei para trás quando passamos pelos portões da mansão em direção à floresta.
Quase tão rápido quanto a carruagem entrou no bosque, a faísca de magia entrou em minhas narinas e caí em um sono profundo. Fique furiosa quando acordei, imaginando por que aquilo tinha sido necessário, mas o ar estava cheio dos estalos tempestuosos de cascos contra uma trilha de pedra. Esfregando os olhos, mirei pela janela e vi um caminho íngreme, ladeado por iridáceas e cercas vivas cônicas. Nunca tinha estado ali.
Absorvi o máximo de detalhes que consegui quando a carruagem parou diante de um palacete de mármore branco e telhados esmeralda — quase tão grande quanto a mansão de Tamlin.
Os rostos dos criados que se aproximaram não eram familiares, e mantive uma expressão neutra enquanto segurava a mão do cocheiro e saí da carruagem.
Humano. Ele era completamente humano, com as orelhas arredondadas, o rosto rechonchudo, as roupas.
Os outros criados também eram humanos; todos estavam inquietos, diferentemente da total tranquilidade com que os Grão-Feéricos se comportavam. Eram criaturas imperfeitas, sem graciosidade, feitas de terra e sangue.
Os criados me olhavam, mas se mantinham afastados — encolhendo-se. Será que eu parecia tão grandiosa? Estiquei o corpo ao ver o borrão de movimento e cor que irrompeu das portas da frente.
Reconheci minhas irmãs antes que me vissem. Elas se aproximaram da carruagem, alisando os vestidos refinados. Pude ver as testas se enrugarem diante da carruagem dourada.
Aquela sensação partida, de vazio no peito, se intensificou. Tamlin dissera que cuidara de minha família, mas aquilo...
Nestha falou primeiro, fazendo uma reverência acentuada. Elain a copiou.
— Bem-vinda a nosso lar — cumprimentou Nestha, um pouco inexpressiva, os olhos voltados para o chão. Senhora...
Soltei uma risada cortante.
— Nestha—falei, e ela ficou rígida. Gargalhei de novo. — Nestha, não reconhece a própria irmã?
Elain arquejou.
— Feyre? — Ela estendeu a mão para mim, mas parou. — O que aconteceu com tia Ripleigh, então? Ela está... morta?
Essa era a história, lembrei; que eu tinha partido para cuidar de uma tia distante e rica. Assenti devagar. Nestha observou minhas roupas e a carruagem, e as pérolas que se entrelaçavam em seus cabelos castanho-dourados reluziram à luz do sol.
— Ela deixou a fortuna para você — constatou Nestha, inexpressiva. Não foi uma pergunta.
— Feyre, devia ter nos contado! —criticou Elain, ainda arquejando. —Ah, que horror, e você precisou suportar a perda dela sozinha, pobrezinha. Papai ficará arrasado por não ter conseguido prestar homenagem.
Coisas tão... tão simples: parentes morrendo e fortunas herdadas, e prestar homenagem aos mortos. Mesmo assim... mesmo assim... um peso que eu não percebi que ainda carregava sumiu quando vi que aquilo era tudo com o que tinham de se preocupar; aquelas eram as coisas que importavam para elas agora.
— Por que está tão calada? — perguntou Nestha, mantendo-se longe. Eu tinha me esquecido de como seus olhos eram atentos, como eram frios. Nestha fora forjada de outro modo, de algo mais duro e mais forte que osso e sangue. Ela era tão diferente dos humanos ao nosso redor quanto eu me tornara.
— Eu... fico feliz ao ver como nossas fortunas melhoraram. — Consegui dizer. — O que aconteceu? — O cocheiro, encantado para parecer humano, sem máscara à vista, começou a descarregar as malas, entregando-as aos criados. Eu não sabia que Tamlin me enviara com pertences.
Elain sorriu.
— Não recebeu nossas cartas? — Ela não se lembrava... ou talvez jamais soubesse, então, que eu não as conseguiria ler. Quando balancei a cabeça, Elain reclamou da inutilidade do serviço de correio e depois falou: — Ah, não vai acreditar! Quase uma semana depois que você partiu para cuidar de tia Ripleigh, um estranho apareceu à porta e pediu que papai investisse dinheiro para ele! Papai hesitou porque a oferta era boa demais, mas o estranho insistiu, então papai aceitou. Ele nos deu um baú de ouro só por concordar! Em um mês, dobramos o investimento do homem, e, então, o dinheiro começou a chover. E sabe o que mais? Todos aqueles navios que tínhamos perdido foram encontrados em Bharat, com os lucros de papai!
Tamlin... Tamlin fizera aquilo por eles. Ignorei o vazio crescente em meu peito.
— Feyre, você parece tão chocada quando ficamos — disse Elain, me dando o braço. — Entre. Vamos mostrar a casa! Não temos um quarto decorado para você, porque achamos que ficaria com a pobre e idosa tia Ripleigh durante meses, mas temos tantos quartos que pode dormir em um diferente a cada noite se quiser!
Olhei por cima do ombro para Nestha, que me observava com o rosto cauteloso e inexpressivo. Então, ela não se casara com Tomas Mandray no fim das contas.
— Papai vai provavelmente desmaiar quando a vir — tagarelava Elain, dando tapinhas em minha mão conforme me acompanhava até a porta principal. — Ah, talvez ele dê uma festa em sua homenagem também!
Nestha caminhava atrás de nós, uma presença silenciosa que nos perseguia. Não queria saber o que ela estava pensando. Não tinha certeza se deveria ficar furiosa ou aliviada por terem se virado tão bem sem mim; e se Nestha pensava o mesmo.
Ferraduras estalaram, e a carruagem começou a descer a entrada; para longe de mim, de volta a meu verdadeiro lar, de volta a Tamlin. Precisei de toda a força de vontade para evitar correr atrás dela.
Ele disse que me amava, e eu tinha sentido a verdade das palavras com nosso amor, e ele me mandara para longe a fim de me manter segura; ele me libertara daquele tratado para me manter segura. Porque qualquer que fosse a tempestade prestes a cair em Prythian, era cruel o suficiente para que até mesmo um Grão Senhor não conseguisse enfrentá-la. Eu precisava ficar; ficar ali era uma atitude sábia. Mas não conseguia combater a sensação, como uma sombra escurecendo dentro de mim, de que tinha cometido um erro muito, muito grande ao partir, não importava quais fossem as ordens de Tamlin. Fique com o Grão-Senhor, dissera o Suriel. Esse fora seu único comando.

Afastei o pensamento da mente quando meu pai chorou ao me ver, e realmente ordenou que fosse feito um baile em minha homenagem. E embora eu soubesse que a promessa que um dia eu fizera a minha mãe tinha sido cumprida, embora soubesse que estava realmente livre dela e que minha família estaria para sempre assistida... aquela sombra crescente, extensa, envolveu meu coração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
Encontrou algum erro gramatical ou de formatação? Comente :D