2 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Nove

Apesar da noite fria, todas as lojas estavam abertas conforme caminhamos pela cidade. Músicos tocavam nas pequenas praças, e o Palácio de Linhas e Joias estava lotado de fregueses e artistas, Grão-Feéricos e feéricos inferiores. Mas continuamos além deles, até o próprio rio, a água tão tranquila que as estrelas e as luzes se misturavam na superfície escura, como um laço de fita vivo de eternidade.
Os cinco não tinham pressa conforme passeávamos por uma das amplas pontes de mármore que se estendia pelo rio Sidra, frequentemente seguindo adiante, ou se detendo para conversar uns com os outros. Pelas lanternas decoradas que ladeavam a ponte, luzes feéricas projetavam sombras douradas nas asas dos três machos, emoldurando as garras no topo de cada uma.
Os assuntos das conversas variavam entre as pessoas que conheciam, partidas e times esportivos dos quais eu jamais ouvira falar (aparentemente, Amren era a cruel e obsessiva torcedora de um deles), novas lojas, música que tinham ouvido, clubes de que gostavam... Nenhuma menção a Hybern ou às ameaças que enfrentávamos — sem dúvida por discrição, mas eu tinha a sensação de que também era porque, naquela noite, naquele tempo que passávamos juntos... eles não queriam a intromissão daquela presença terrível e horrorosa. Era como se todos fossem apenas cidadãos comuns... até mesmo Rhys. Como se não fossem as pessoas mais poderosas da corte, talvez de toda
Prythian. E ninguém, simplesmente ninguém na rua parava, empalidecia ou corria.
As pessoas ficavam espantadas, talvez, um pouco intimidadas, mas... não tinham medo. Aquilo era tão incomum que fiquei em silêncio, apenas observando-os: o mundo deles. A normalidade que cada um lutava tanto para preservar. Contra a qual eu um dia me revoltara, da qual me ressentira.
Mas não havia lugar como aquele no mundo. Não tão sereno. Tão amado pelo povo e pelos governantes.
O outro lado da cidade estava ainda mais lotado, com mecenas em roupas elegantes indo aos muitos teatros pelos quais passamos. Eu jamais tinha visto um teatro antes... nem vira uma peça, ou um concerto ou uma sinfonia. Em nossa cidade em ruínas, tínhamos, no máximo, músicos e menestréis; hordas de pedintes lamuriando-se em instrumentos improvisados, no pior dos casos.
Caminhamos ao longo da margem do rio, passando por lojas e cafés, e música fluía de dentro dos lugares. E pensei — mesmo ficando para trás em relação aos outros, com as mãos enluvadas enfiadas nos bolsos do sobretudo azul pesado — que os sons daquilo tudo talvez fossem a coisa mais linda que eu já ouvira: as pessoas, o rio, a música; o tilintar dos talheres nos pratos, o arrastar das cadeiras puxadas e empurradas; os gritos de vendedores ambulantes oferecendo suas mercadorias conforme passavam.
Quanto eu tinha perdido naqueles meses de desespero e torpor?
Mas não mais. O sangue vital de Velaris ressoava em mim, e, em raros momentos de silêncio, podia jurar que ouvia o mar quebrando, arranhando os penhascos distantes.
Por fim, entramos em um pequeno restaurante à margem do rio, construído no nível mais baixo de um prédio de dois andares; o espaço era decorado de verde e dourado, e mal era grande o suficiente para todos nós. E três pares de asas illyrianas.
Mas a dona os conhecia e beijou cada um na bochecha, até mesmo Rhysand. Bem, exceto por Amren, para quem a dona fez uma reverência antes de correr de volta à cozinha e nos mandar sentar na grande mesa que ficava metade dentro e metade fora da fachada aberta. A noite estrelada estava fria, e o vento farfalhava as palmeiras em vasos, posicionadas com muito cuidado ao longo do parapeito do passeio à margem do rio. Sem dúvida haviam sido enfeitiçadas para que não morressem no inverno — assim como o calor do restaurante evitava que o frio perturbasse a nós ou a qualquer daqueles que comiam ao ar livre, na beira do rio.
Então, as bandejas de comida começaram a brotar, assim como o vinho e a conversa,
e comemos sob as estrelas ao lado do rio. Eu jamais tinha experimentado comida assim: quente, exótica, temperada, picante. Era como se a comida não preenchesse apenas meu estômago, mas aquele buraco constante em meu peito também.
A dona — uma fêmea magra de pele negra e lindos olhos castanhos — estava ao lado de minha cadeira, conversando com Rhys sobre o último carregamento de especiarias que chegara aos Palácios.
— Os mercadores estavam dizendo que os preços podem subir, Grão-Senhor, principalmente se os boatos sobre o despertar de Hybern forem verdadeiros.
No fim da mesa, senti a atenção dos demais se desviar para nós, mesmo conforme continuavam falando.
Rhys se recostou na cadeira, girando a taça de vinho.
— Encontraremos uma forma de evitar que os preços subam muito.
— Não se preocupe, é claro — disse a dona, retorcendo um pouco os dedos. — É só... é tão bom ter tantas especiarias disponíveis de novo... agora que... as coisas estão melhores.
Rhys deu um sorriso gentil para a feérica, aquele que fazia com que ele parecesse mais jovem.
— Eu não me preocuparia tanto... não quando eu gosto tanto de sua comida.
A dona sorriu, corando, e olhou para onde eu tinha virado o corpo na cadeira para observá-la.
— Está do seu gosto?
A felicidade em seu rosto, a satisfação que apenas um dia de trabalho árduo, fazendo algo que se ama, pode dar, aquilo me atingiu como uma pedra.
Eu... eu me lembrei de que já me sentira daquela forma. Depois de pintar da manhã até a noite. Certa vez, era tudo que eu queria para mim. Olhei para os pratos e, depois, de volta para a mulher e falei:
— Vivi no reino mortal e vivi em outras cortes, mas jamais provei comida assim.
Comida que me faz sentir... desperta.
Aquilo pareceu tão idiota quanto me senti quando o disse, mas não conseguia pensar em outra forma de dizê-lo. Mas a dona assentiu como se entendesse e apertou meu ombro.
— Então, vou trazer uma sobremesa especial — disse ela, e foi até a cozinha.
Eu me virei para o prato, mas vi que Rhysand me olhava. Seu rosto parecia mais suave, mais contemplativo do que eu jamais o vira; a boca, levemente aberta.
Ergui as sobrancelhas. O quê?
Rhysand me deu um sorriso arrogante e se aproximou para ouvir a história que Mor contava sobre...
Esqueci do que ela falava quando a dona voltou com uma grande taça de metal cheia de líquido negro e a colocou diante de Amren.
A imediata de Rhys não tocara no prato, mas remexera um pouco a comida como se estivesse realmente tentando ser educada. Quando viu a taça que foi colocada diante de si, Amren ergueu as sobrancelhas.
— Não precisava fazer isso.
A dona fez um gesto com os ombros esbeltos.
— Está fresco e quente, e precisávamos da besta para o assado de amanhã mesmo.
Tive uma sensação terrível de que sabia o que havia ali dentro.
Amren girou a taça, o líquido escuro transbordou pelas laterais como vinho, e então ela o bebeu.
— Você temperou muito bem. — Sangue brilhou nos dentes de Amren.
A dona fez uma reverência.
— Ninguém deixa meu estabelecimento com fome — disse ela, antes de ir embora.
De fato, quase pedi que Mor me rolasse para fora do restaurante quando terminamos e Rhys pagou a conta, apesar dos protestos da dona. Meus músculos doíam graças ao treinamento mais cedo na floresta mortal, e, em algum momento durante a refeição, cada parte de mim usada para derrubar Rhys na neve começou a doer.
Mor esfregou o estômago em círculos preguiçosos conforme paramos ao lado do rio.
— Quero sair para dançar. Não conseguirei dormir tão cheia. O Rita’s fica logo no fim da rua.
Dançar. Meu corpo gemeu em protesto e olhei em volta em busca de um aliado para matar aquela ideia ridícula.
Mas Azriel... Azriel falou, com os olhos totalmente voltados para Mor:
— Estou dentro.
— É claro que está — resmungou Cassian, franzindo a testa para ele. — Não precisa partir ao alvorecer?
A testa franzida de Mor agora copiava a de Cassian... como se tivesse percebido onde e o que ele faria no dia seguinte. Então, Mor falou para Azriel:
— Não precisamos...
— Eu quero — cortou Azriel, encarando Mor por bastante tempo.
Ela desviou o olhar, virou para Cassian e disse:
— Vai ousar se juntar a nós, ou tem planos de admirar seus músculos no espelho?
Cassian riu com escárnio, entrelaçou o braço com o de Mor e a levou pela rua.
— Vou pelas bebidas, babaca. Nada de dança.
— Graças à Mãe. Você quase destruiu meu pé da última vez que tentou.
Foi difícil não encarar Azriel enquanto ele observava os dois subirem a rua, de braços dados, discutindo a cada passo. As sombras se reuniram em volta de seus ombros, como se estivessem de fato sussurrando para Azriel, protegendo-o, talvez. Seu peito largo se expandiu com uma respiração profunda que fez as sombras dispararem, e, depois, ele começou uma caminhada casual e graciosa atrás dos dois. Se Azriel iria com eles, então, qualquer desculpa que eu pudesse dar para não ir...
Voltei meus olhos suplicantes para Amren, mas ela desaparecera.
— Ela foi buscar mais sangue nos fundos para levar para casa — disse Rhys ao meu ouvido, e me arrepiei toda. A risada de Rhys pareceu quente contra meu pescoço. — Depois, vai direto até o apartamento para se entupir.
Tentei não estremecer quando me virei para Rhys.
— Por que sangue?
— Não parece educado perguntar.
Franzi a testa para ele.
— Você vai dançar?
Rhys olhou por cima de meu ombro para os amigos, que estavam quase no topo da rua íngreme; algumas pessoas paravam a fim de cumprimentá-los.
— Prefiro andar até em casa — disse Rhys, por fim. — Foi um dia longo.
Mor se virou no alto da rua, as roupas roxas flutuando ao redor do corpo ao vento do inverno, e ergueu uma sobrancelha louro-escura. Rhys sacudiu a cabeça, e ela gesticulou com a mão, ao que se seguiram gestos breves de Azriel e de Cassian, o qual recuou para falar com o irmão de guerra.
Rhys indicou a frente.
— Vamos? Ou está com frio demais?
Consumir sangue com Amren nos fundos do restaurante parecia mais atraente, mas sacudi a cabeça e comecei a andar ao lado de Rhys conforme seguimos o rio, na direção da ponte.
Absorvi a cidade com a mesma fome com que Amren tinha entornado o sangue temperado, e quase tropecei ao ver o reflexo de cor na água.
O Arco-Íris de Velaris brilhava como um punhado de joias, como se a tinta que tivessem usado nas casas tomasse vida ao luar.
— Esta é minha vista preferida da cidade — confessou Rhys, parando ao parapeito de metal que percorria o passeio do rio e olhando para o quarteirão dos artistas. — Também era o preferido de minha irmã. Meu pai costumava precisar arrastá-la aos chutes e gritos para fora de Velaris, de tanto que ela amava a cidade.
Procurei a resposta certa para a tristeza silenciosa naquelas palavras. Mas, como uma tola inútil, apenas perguntei:
— Então, por que suas casas ficam do outro lado do rio? — Encostei no parapeito, observando os reflexos do Arco-Íris ondulando na superfície do rio, como se fossem peixes coloridos lutando contra a corrente.
— Porque eu queria uma rua calma, para poder visitar esta balbúrdia sempre que quisesse e ainda assim ter um lar ao qual me recolher.
— Poderia ter simplesmente reorganizado a cidade.
— Por que diabo eu mudaria alguma coisa a respeito deste lugar?
— Não é isso o que Grão-Senhores fazem? — Meu hálito se condensava diante de mim na noite fria. — O que querem?
Rhysand observou meu rosto.
— Tem muitas coisas que quero fazer e não posso.
Não tinha percebido o quanto estávamos próximos.
— Então, quando compra joias para Amren, é para se manter nas graças dela, ou porque vocês estão... juntos?
Rhys deu uma gargalhada.
— Quando eu era jovem e burro, certa vez a convidei para minha cama. Amren riu até ficar rouca. As joias são apenas porque gosto de comprá-las para uma amiga que trabalha muito para mim, e me protege sempre que preciso. Permanecer em suas graças é um bônus.
Nada daquilo me surpreendia.
— E você não se casou com ninguém.
— Tantas perguntas hoje. — Encarei Rhys até que ele suspirou. — Tive amantes, mas jamais me senti tentado a convidar uma delas a compartilhar a vida comigo. E, sinceramente, acho que se tivesse perguntado, todas teriam dito que não.
— Achei que elas estariam lutando umas com as outras para conquistar sua mão. — Como Ianthe.
— Casar comigo significa uma vida com um alvo nas costas, e, se houvesse filhos, então, uma vida sabendo que seriam caçados desde que fossem concebidos. Todos sabem o que aconteceu com minha família... e meu povo sabe que, além de nossas fronteiras, somos odiados.
Ainda não conhecia a história toda, mas perguntei:
— Por quê? Por que são odiados? Por que manter em segredo a verdade sobre este lugar? É uma pena que ninguém saiba a respeito dele, do bem que fazem aqui.
— Houve um tempo em que a Corte Noturna era uma Corte de Pesadelos e era governada da Cidade Escavada. Há muito tempo. Mas um antigo Grão-Senhor teve uma visão diferente e, em vez de permitir que o mundo visse o território vulnerável em um momento de mudança, selou as fronteiras e deu um golpe, eliminando os piores dos cortesãos e dos predadores, construindo Velaris para os sonhadores, estabelecendo comércio e paz.
Os olhos de Rhys se iluminaram, como se ele pudesse espiar o passado e ver aquilo.
Com aqueles dons incríveis, não me surpreenderia.
— Para preservá-la — continuou Rhys —, ele a manteve em segredo, assim como seus filhos, e os filhos deles. Há muitos feitiços na própria cidade, conjurados por ele e pelos herdeiros, que fazem com que aqueles que negociam aqui não consigam contar nossos segredos, e os tornam habilidosos em mentir para poder manter a origem das mercadorias, os navios, ocultos do resto do mundo. Dizem os boatos que aquele antigo Grão-Senhor colocou o próprio sangue vital sobre as pedras e o rio para manter esse feitiço eterno.
“Mas, pelo caminho, apesar das melhores intenções, a escuridão cresceu de novo... não tão ruim quanto fora um dia... Mas ruim o bastante para que houvesse uma divisão permanente em minha corte. Permitimos que o mundo veja a outra metade, que a tema, para que jamais adivinhem que este lugar floresceu aqui. E permitimos que a Corte dos Pesadelos continue, alheia à existência de Velaris, porque sabemos que, sem eles, algumas cortes e alguns reinos podem nos atacar. E invadir nossas fronteiras para descobrir muitos, muitos segredos que guardamos dos outros Grão-Senhores e de outras cortes ao longo dos milênios.”
— Então, realmente, nenhum dos outros sabe? Nas outras cortes?
— Nenhuma alma. Não vai encontrá-la em um único mapa, ou mencionada em livro algum além daqueles escritos aqui. Talvez estejamos perdendo por sermos tão contidos e isolados, mas... — Rhys gesticulou para a cidade ao nosso redor. — Meu povo não parece sofrer muito por isso.
De fato, eles não sofriam. Graças a Rhys e a seu Círculo Íntimo.
— Está preocupado com a ida de Az às terras mortais amanhã?
Rhysand tamborilou com o dedo contra o parapeito.
— É claro que estou. Mas Azriel se infiltrou em lugares muito mais perturbadores que algumas cortes mortais. Ele acharia minha preocupação um insulto.
— Ele gosta do que faz? Não a espionagem. O que ele fez com o Attor hoje.
Rhys suspirou.
— É difícil saber, e ele jamais me contará. Já vi Cassian destruir oponentes e depois vomitar as tripas no fim da carnificina, e, às vezes, até ficar de luto por eles. Mas Azriel...
Cassian tenta, eu tento, mas acho que a única pessoa que consegue fazer com que ele admita qualquer sentimento é Mor. E somente quando ela o importuna ao ponto em que até mesmo a paciência infinita de Azriel se esgota.
Sorri um pouco.
— Mas ele e Mor, eles nunca...?
— Isso é entre eles... e Cassian. Não sou burro ou arrogante o suficiente para me colocar no meio.
O que eu certamente seria se metesse o nariz na vida deles.
Caminhamos em silêncio pela ponte lotada até o outro lado do rio. Meus músculos estremeceram diante das colinas íngremes entre nós e a casa.
Estava prestes a implorar a Rhys que me levasse voando para casa quando ouvi trechos de música que vinha de um grupo de artistas do lado de fora de um restaurante.
Minhas mãos ficaram inertes ao lado do corpo. Uma versão reduzida da sinfonia que tinha ouvido naquele calabouço frio, quando estava tão perdida para o terror e o desespero que alucinei... alucinei enquanto aquela música entrava em minha cela... e impedia que eu me destruísse.
E mais uma vez, a beleza da melodia me atingiu, as camadas, o ritmo, a alegria e a paz.
Nunca haviam tocado aquela música Sob a Montanha — nunca aquele tipo de música. E eu jamais ouvi música na cela, exceto por aquela vez.
— Você — sussurrei, sem tirar os olhos dos músicos tocando tão habilidosamente que até mesmo os fregueses soltaram os garfos nos cafés próximos. — Você mandou aquela música para minha cela. Por quê?
A voz de Rhysand estava rouca.
— Porque estava se partindo. E não pude encontrar outra forma de salvá-la.
A música se desenvolveu e aumentou. Eu vira um palácio no céu quando alucinei, um palácio entre o pôr do sol e o alvorecer... uma casa de pilastras de pedra da lua.
— Eu vi a Corte Noturna.
Rhys me olhou de esguelha.
— Não enviei aquelas imagens para você.
Não me importava.
— Obrigada. Por tudo... pelo que fez. Naquela época... e agora.
— Mesmo depois da Tecelã? Depois dessa manhã com minha armadilha para o Attor?
Minhas narinas se dilataram.
— Você estraga tudo.
Rhys sorriu, e não reparei se as pessoas observavam quando ele deslizou um braço sob minhas pernas e nos lançou para o céu.
Eu poderia aprender a amar aquilo, percebi. O voo.
***
Eu estava lendo na cama, ouvindo o ruído alegre da fogueira morna de bétula que queimava na lareira diante da luminária do quarto, quando virei a página do livro e um pedaço de papel caiu.
Dei uma olhada no papel creme e na letra e me sentei, reta.
No papel, Rhysand tinha escrito:
Posso ser um galanteador sem-vergonha, mas pelo menos não tenho um temperamento terrível. Você deveria vir cuidar de meus ferimentos de nossa briga na neve. Estou todo cheio de hematomas graças a você.
Algo estalou contra a cabeceira, e uma caneta rolou pelo mogno polido. Sibilando, eu a peguei e rabisquei:
Vá lamber seus ferimentos e me deixe em paz.
O papel sumiu.
Ele ficou um tempo sumido — bem mais do que deveria ter levado para escrever as poucas palavras que surgiram no papel quando retornou.
Eu preferiria que você lambesse meus ferimentos para mim.
Meu coração bateu, mais e mais rápido, e um estranho tipo de agitação percorreu minhas veias quando li a frase diversas vezes. Aquilo era um desafio.
Fechei os lábios para evitar sorrir quando escrevi:
Lamber você onde, exatamente?
O papel sumiu antes que eu conseguisse completar a pontuação.
A resposta de Rhys demorou. Então:
Onde quiser me lamber, Feyre.
Eu gostaria de começar com “Em todos os lugares”, mas posso escolher, se for necessário.
Escrevi de volta:
Espero que minha língua seja melhor que a sua. Lembro como você era horrível nisso Sob a Montanha.
Mentira. Rhys lambera minhas lágrimas quando eu estava a segundos de me destruir.
Ele fizera isso para me manter distraída — me manter com raiva. Porque o ódio era melhor que sentir nada; porque ira e ódio eram o combustível duradouro na escuridão infinita de meu desespero. Da mesma forma que aquela música evitou que eu quebrasse.
Lucien fora tratar de minhas feridas algumas vezes, mas ninguém arriscara tanto para me manter não apenas viva, mas tão mentalmente intacta quanto eu pudesse ficar considerando as circunstâncias. Exatamente como Rhys estava fazendo nas últimas semanas: me provocando, implicando comigo para manter o vazio longe. Exatamente como ele fazia agora.
Eu estava sob pressão, dizia o bilhete seguinte de Rhysand. Se quiser, ficaria mais que feliz em provar que está errada. Já me disseram que sou muito, muito bom com a língua.
Apertei os joelhos e escrevi de volta: Boa noite.
Um segundo depois, o bilhete dele dizia:
Tente não gemer alto demais quando sonhar comigo. Preciso de meu sono de beleza.
Eu me levantei, joguei o bilhete no fogo e fiz um gesto vulgar para ele.
Podia ter jurado que uma gargalhada ecoou pelo corredor.
***
Não sonhei com Rhys.
Sonhei com o Attor, as garras em mim, me agarrando enquanto eu era socada.
Sonhei com a risada sibilante e com seu fedor terrível.
Mas dormi a noite inteira. E não acordei uma só vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
Encontrou algum erro gramatical ou de formatação? Comente :D