1 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Nove

Inventar histórias sobre meu tempo com tia Ripleigh requeria um esforço mínimo: lia para ela diariamente, ela me instruía sobre bons modos deitada na cama, e eu cuidei dela até que morresse durante o sono, duas semanas antes, deixando a fortuna para mim.
E que fortuna tremenda: os baús que me acompanharam não continham apenas roupas; muitos deles estavam repletos de ouro e joias. Não joias lapidadas, mas pedras enormes e brutas que pagariam por milhares de propriedades.
Meu pai estava atualmente fazendo o inventário daquelas joias; ele se trancou no escritório que dava para o jardim onde me encontrava sentada ao lado de Elain, na grama. Pela janela, observava meu pai curvado sobre a escrivaninha, com uma pequena balança diante de si, conforme pesava um rubi bruto do tamanho de um ovo de pata. Tinha os olhos atentos de novo e se movia com um propósito, vibrante, como eu não via desde a ruína. Até mesmo o mancar tinha melhorado; fora milagrosamente curado por algum tônico e uma oração que um estranho curandeiro itinerante dera a ele, de graça. Eu seria eternamente grata a Tamlin apenas por essa bondade.
Os ombros curvados e os olhos baixos e enevoados tinham sumido. Meu pai sorria abertamente, gargalhava prontamente e mostrava carinho por Elain, que, por sua vez, retribuía o carinho por ele. Nestha, no entanto, estava silenciosa e observadora, dando a Elain respostas não mais extensas que uma ou duas palavras apenas.
— Estes bulbos — falou Elain, apontando com a mão enluvada para um aglomerado de flores roxas e brancas — vieram dos campos de tulipas do continente. Papai diz que, na próxima primavera, ele vai me levar para vê-los. Diz que, quilômetro após quilômetro, não há nada além dessas flores. — Elain deu tapinhas no solo rico e escuro. O pequeno jardim sob a janela era dela: cada flor e arbusto tinham sido escolhidos e plantados por suas mãos; Elain não deixava que mais ninguém cuidasse dele. Até mesmo aparar as ervas daninhas e regar, ela fazia sozinha.
Embora os criados ajudassem a carregar as pesadas latas de água, admitiu Elain. Ela teria ficado maravilhada, provavelmente teria chorado, ao ver os jardins com os quais eu me acostumara, as flores que floresciam eternamente, na Corte Primaveril.
— Você deveria vir comigo — continuou Elain. — Nestha não irá, pois diz que não quer arriscar a travessia pelo mar, mas você e eu... Ah, nós nos divertiríamos, não é?
Olhei para ela de esguelha. Minha irmã estava sorrindo, contente — mais linda que eu jamais a vira, mesmo com o simples vestido de jardinagem, feito de musselina. As bochechas estavam coradas sob o chapéu de abas grandes.
— Acho... que gostaria de ver o continente — falei.
E era verdade, percebi. Havia tanto do mundo que eu não vira, que nem mesmo pensara em visitar. Nem mesmo conseguira sonhar em visitar.
— Fico surpresa por estar tão ansiosa por ir na próxima primavera— falei. — Não é bem no meio da estação? — A estação das damas da sociedade, que tinha terminado poucas semanas antes, aparentemente, cheia de festas e bailes e almoços e fofoca, fofoca, fofoca. Elain me contara tudo a respeito no jantar da noite anterior, mal reparando que fizera um esforço para engolir minha comida. Quase tudo nela era igual: a carne, o pão, os vegetais, mas, mesmo assim... eram como cinzas em minha boca em comparação com o que eu havia consumido em Prythian. — E fico surpresa por não ter uma fila de pretendentes à porta, implorando sua mão.
Elain corou, mas mergulhou a pequena pá na terra para ceifar a erva daninha.
— Sim, bem... sempre haverá outras estações. Nestha não quer comentar, mas esta estação foi meio... estranha.
— Como assim?
Ela fez um gesto com os ombros magros.
— As pessoas agiram como se todos estivéssemos doentes por oito anos, ou como se tivéssemos viajado para um país distante, não como se estivéssemos a poucas aldeias de distância, naquele chalé. Podíamos pensar que tínhamos sonhado a coisa toda, o que aconteceu conosco durante aqueles anos. Ninguém disse uma palavra a respeito.
— Achou que diriam? — Se nós fôssemos tão ricos quanto aquela casa sugeria, haveria subitamente muitas famílias dispostas a ignorar a mancha de nossa pobreza.
— Não, mas me fez... desejar aqueles anos de volta, mesmo com a fome e o frio. Esta casa parece tão grande às vezes, e papai está sempre ocupado, e Nestha... — Elain olhou por cima do ombro, para onde minha irmã mais velha estava, ao lado de uma amoreira retorcida, olhando para a extensão plana de nossas terras. Ela mal falara comigo na noite anterior, também não dissera nada durante o café da manhã. Fiquei surpresa quando Nestha se juntou a nós do lado de fora, mesmo que tivesse ficado perto das árvores o tempo todo. — Nestha não terminou a estação. Ela não me contou por quê. Começou a recusar todos os convites. Mal fala com alguém, e fico arrasada quando meus amigos nos visitam, porque ela os deixa tão desconfortáveis quando os encara daquele jeito característica... — suspirou Elain. — Talvez você pudesse falar com ela.
Pensei em dizer a Elain que Nestha e eu não tínhamos uma conversa civilizada havia anos, mas então Elain acrescentou:
— Ela foi visitar você, sabia?
Pisquei, o sangue gelando.
— O quê?
— Bem, ela só ficou fora uma semana e disse que a carruagem quebrou antes da metade do caminho, e que foi mais fácil voltar. Mas você não saberia, pois jamais recebeu nenhuma de nossas cartas.
Olhei para Nestha, parada sob os galhos, a brisa de verão farfalhando a saia de seu vestido. Será que tinha ido me ver e voltara por causa de algum feitiço que Tamlin tivesse jogado sobre ela?
 Voltei as costas para o jardim e surpreendi Elain me encarando.
— O quê?
Elain balançou a cabeça e voltou para as ervas daninhas.
— É que você parece tão... diferente. E também soa diferente.
De fato, eu não acreditei em meus olhos quando passei pelo espelho de um corredor na noite anterior. Meu rosto ainda estava igual, mas havia um... brilho nele, um tipo de luz reluzente que era quase indetectável. Eu sabia, sem dúvida, que era por causa do período em Prythian, que toda aquela magia tinha, de alguma forma, passado para mim. Eu temia o dia em que se dissipasse para sempre.
— Aconteceu alguma coisa na casa da tia Ripleigh? — perguntou Elain. — Você... conheceu alguém?
Dei de ombros e puxei uma erva daninha próxima.
— Apenas boa comida e descanso.
Os dias se passaram. A sombra dentro de mim não clareou, e até mesmo pensar em pintar era terrível. Em vez disso, passei a maior parte do tempo com Elain em seu pequeno jardim. Estava feliz ao ouvi-la falar de todos os botões e as flores, sobre os planos de plantar outro jardim perto da estufa, talvez uma horta, se conseguisse aprender o suficiente sobre isso nos próximos meses. Elain tinha ganhado vida ali, e sua alegria era contagiante. Não havia um criado ou jardineiro que não sorrisse para ela, e até mesmo o grosseiro cozinheiro-chefe encontrava desculpas para levar pratos de biscoitos e tortas a Elain, em diversos momentos do dia. Eu fiquei maravilhada com aquilo, na verdade... que aqueles anos de pobreza não tivessem arrancado aquela luz de Elain. Talvez enterrado um pouco, mas ela era generosa, amável e gentil; uma mulher que eu tinha orgulho de conhecer, de chamar de irmã.
Meu pai terminou de contar minhas joias e o ouro; eu era uma mulher extraordinariamente rica. Investi uma pequena parte nos negócios dele e, quando olhei para a grandiosa soma restante, pedi que juntasse várias sacolas de dinheiro e parti.
A mansão ficava a apenas 5 quilômetros do chalé, e a estrada era familiar. Não me importei quando a bainha do vestido ficou coberta de lama do caminho encharcado. Era tranquilo; poucas carruagens passavam por ele. Eu gostava de ouvir o vento nas árvores e o suspiro da grama alta. Embora não fosse nem de perto tão lindo quanto Prythian, à medida que me perdia bem longe nas lembranças, conseguia me imaginar caminhando ao lado de Tamlin naquele bosque.
Não tinha motivo para acreditar que o veria tão cedo, mas ia dormir toda noite rezando para que eu acordasse e estivesse em sua mansão, ou que recebesse uma mensagem me convocando para o lado de Tamlin. Pior que minha decepção por tal coisa não ter acontecido era o medo rastejante e permanente de que Tamlin estava em perigo... de que Amarantha, quem quer que fosse, o ferisse por algum motivo.
Amo você. — Eu quase conseguia ouvir as palavras, quase o ouvia dizê-las, quase via a luz do sol reluzindo nos cabelos dourados de Tamlin e no verde deslumbrante de seus olhos. Quase sentia o corpo de Tamlin pressionado contra o meu, os dedos brincando em minha pele.
Cheguei a uma curva na estrada pela qual eu conseguia caminhar no escuro, e ali estava.
Muito pequeno; o chalé era muito pequeno. O antigo jardim de flores de Elain era um emaranhado selvagem de ervas daninhas e flores, e as marcas de proteção ainda estavam gravadas no portal de pedra. A porta da frente — despedaçada e quebrada da última vez que a vi — tinha sido substituída, mas uma das janelas circulares tinha rachado. O interior estava escuro, a terra, intocada.
Tracei o caminho invisível que tinha tomado através da grama alta todas as manhãs, desde nossa porta até a estrada, e depois cruzando o campo de colinas, até o limite daquelas árvores. A floresta... minha floresta.
Parecera tão assustadora certa vez; tão letal e faminta e cruel. Agora, parecia apenas... simples. Normal.
Olhei para aquela casa triste e escura — o lugar que fora uma prisão. Elain disse que sentia falta, e imaginei o que ela via quando olhava para o chalé. Se não via uma prisão, mas um abrigo; o abrigo de um mundo que possuía tão pouco bem, mas Elain tentara encontrá-lo mesmo assim, ainda que parecesse tolice ou inútil para mim.
Ela vira aquele chalé com esperança; eu o vira com nada além de ódio. E sabia qual de nós tinha sido mais forte.

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