2 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Dois

Na manhã seguinte, ainda não haviam chegado notícias da Corte Estival; então, Rhysand cumpriu com a decisão de nos levar ao reino mortal.
— O que se usa, exatamente, nas terras humanas? — perguntou Mor, de onde estava jogada ao pé de minha cama. Para alguém que alegava ter saído para beber e dançar até sabia a Mãe quando, ela parecia injustamente animada. Cassian e Azriel, resmungando e se encolhendo durante o café da manhã, pareciam ter sido atropelados por carruagens. Repetidas vezes. Alguma pequena parte de mim se perguntou como seria sair com eles; ver o que Velaris poderia oferecer à noite.
Vasculhei as roupas em meu armário.
— Camadas — respondi. — Eles... cobrem tudo. O decote pode ser um pouco ousado dependendo do evento, mas... todo o resto é escondido sob saias e anáguas e bobagens.
— Parece que as mulheres estão acostumadas a não precisar correr, ou lutar. Não me lembro de ser dessa forma há quinhentos anos.
Parei em um conjunto turquesa com detalhes dourados: elegante, alegre, majestoso.
— Mesmo com a muralha, a ameaça da invasão de feéricos permaneceu, então... certamente roupas práticas teriam sido necessárias para fugir, para lutar contra qualquer um que atravessasse. Imagino o que mudou. — Peguei a blusa com a calça para aprovação dela.
Mor apenas assentiu — sem comentar, como Ianthe poderia ter feito, sem intervenção beatífica.
Afastei esse pensamento e a lembrança do que ela tentara fazer com Rhys, e continuei:
— Hoje em dia, a maioria das mulheres se casa, tem filhos e, então, planeja o casamento dos filhos. Algumas das pobres podem trabalhar nos campos, e algumas poucas são mercenárias ou soldados de aluguel, mas... quanto mais ricas, mais restritos se tornam a liberdade e o papel delas. Era de se pensar que dinheiro compraria a habilidade de fazer o que se quisesse.
— Alguns dos Grão-Feéricos — argumentou Mor, puxando um fio do bordado de minha cama — são assim.
Passei para trás do biombo para tirar o roupão que vestira momentos antes de ela entrar para me fazer companhia enquanto me preparava para nossa jornada do dia.
— Na Corte dos Pesadelos — continuou Mor, aquela voz ficou baixa e um pouco fria mais uma vez — fêmeas são... um prêmio. Nossa virgindade é preservada e, depois, vendida ao lance mais alto, qualquer que seja o macho que dê mais vantagem a nossas famílias.
Continuei me vestindo, apenas para me dar algo a fazer enquanto o horror do que eu começava a suspeitar percorria meus ossos e meu sangue.
— Eu nasci mais forte que qualquer um em minha família. Mesmo os machos. E não podia esconder, porque eles sentiam o cheiro, da mesma forma que você consegue sentir o cheiro do herdeiro de um Grão-Senhor antes de ele chegar ao poder. O poder deixa uma marca, um... eco. Quando eu tinha 12 anos, antes de sangrar, rezava para que isso quisesse dizer que nenhum macho me aceitaria como esposa, que eu escaparia daquilo que minhas primas mais velhas tinham suportado: casamentos sem amor, às vezes, violentos.
Vesti a blusa por cima da cabeça e abotoei os punhos de veludo antes de ajustar as esvoaçantes mangas turquesa no lugar.
— Mas então comecei a sangrar alguns dias depois de fazer 17 anos. E assim que meu primeiro sangue desceu, meu poder despertou com força total, e até mesmo aquela montanha maldita tremeu ao nosso redor. Mas, em vez de ficarem horrorizadas, todas as famílias poderosas da Cidade Entalhada me viram como uma égua premiada. Viram aquele poder e quiseram que fosse procriado nas respectivas linhagens, diversas vezes.
— E seus pais? — Consegui dizer, colocando os pés nos sapatos azul meia-noite. Deveria ser o fim do inverno nas terras mortais, a maioria dos sapatos seria inútil. Na verdade, o conjunto que eu usava seria inútil, exceto enquanto eu ficasse do lado de fora, encasacada.
— Minha família ficou exultante de alegria. Poderiam escolher uma aliança com qualquer das outras famílias governantes. Minhas súplicas por uma opinião no assunto não foram ouvidas.
Mor escapara, lembrei a mim mesma. Mor escapara e agora vivia com pessoas que se importavam com ela, que a amavam.
— O resto da história — disse Mor, quando saí de trás do biombo — é longo e terrível, e contarei outra hora. Vim aqui dizer que não vou com você... para o mundo mortal.
— Pelo modo como tratam mulheres?
Os intensos olhos castanhos estavam brilhantes, mas calmos.
— Quando as rainhas vierem, estarei lá. Quero ver se reconheço algum de meus amigos mortos há tanto tempo em seus rostos. Mas... não acho que eu conseguiria... me comportar com nenhuma das outras.
— Rhys disse a você que não fosse? — perguntei, tensa.
— Não — respondeu Mor, rindo com escárnio. — Ele tentou me convencer a ir, na verdade. Disse que eu estava sendo ridícula. Mas Cassian.... ele entende. Nós dois convencemos Rhys ontem à noite.
Minhas sobrancelhas se ergueram levemente. Por isso tinham saído e se embebedado, sem dúvida. Para manipular o Grão-Senhor por meio do álcool.
Mor deu de ombros para a pergunta não formulada em meus olhos.
— Cassian ajudou Rhys a me salvar. Antes que qualquer um deles tivesse posição hierárquica para fazê-lo. Para Rhys, ser pego daria em uma pequena punição, talvez um pouco de isolamento social. Mas Cassian... ele arriscou tudo para se certificar de que eu ficasse longe daquela corte. E ele ri disso, mas acredita que é um bastardo nascido em posição inferior, que não é digno da patente ou da vida que tem aqui. Não faz ideia de que vale mais que qualquer outro macho que eu tenha conhecido naquela corte, e fora dela. Ele e Azriel, quero dizer.
Sim. Azriel, que se mantinha afastado, cujas sombras o seguiam e pareciam sumir na presença de Mor. Abri a boca para perguntar a respeito de sua história com ele, mas o relógio soou 10 horas. Hora de partir.
Meus cabelos foram arrumados antes do café da manhã em uma coroa trançada no alto da cabeça, com um pequeno diadema de ouro — decorado com lápis-lazúli. Brincos combinando pendiam tão baixo que tocavam as laterais de meu pescoço, e peguei as pulseiras de ouro retorcido que haviam sido deixadas na cômoda, colocando uma em cada pulso.
Mor não fez comentários... e eu sabia que, se não vestisse nada além de roupa íntima, ela teria me dito que a usasse com autoridade. Virei para Mor.
— Gostaria que minhas irmãs a conhecessem. Talvez não hoje. Mas, se algum dia tiver vontade...
Ela inclinou a cabeça.
Esfreguei a nuca.
— Quero que ouçam sua história. E saibam que há uma força especial... — Conforme falei, percebi que precisava ouvir, conhecê-la também. — Uma força especial é necessária para suportar tais provações sombrias e dificuldades... E permanecer benevolente e gentil. Ainda disposta a confiar... e a se aproximar dos outros.
A boca de Mor se contraiu, e ela piscou algumas vezes.
Fui até a porta, mas parei com a mão na maçaneta.
— Desculpe se não fui tão acolhedora com você quanto você foi comigo quando cheguei à Corte Noturna. Eu estava... estou tentando aprender como me ajustar.
Uma forma patética e pouco articulada de explicar como eu estava destruída.
Mas Mor saiu da cama, abriu a porta para mim e falou:
— Há dias bons e ruins para mim... mesmo agora. Não deixe que os dias ruins vençam.
***
Aquele, ao que tudo indicava, seria, de fato, mais um dia ruim.
Com Rhys, Cassian e Azriel prontos para partir — Amren e Mor permaneceriam em Velaris para governar a cidade e planejar nossa inevitável viagem até Hybern —, só me restou uma escolha: com quem voar.
Rhys nos atravessaria para fora da costa, bem na linha invisível em que a muralha dividia nosso muro. Havia uma fenda na magia, a cerca de 700 metros da praia... pela qual voaríamos.
Mas parada naquele corredor, todos em roupas de couro de guerra e eu enroscada
em um casaco pesado com forro de pele, olhei uma vez para Rhys e senti aquelas mãos nas coxas de novo. Senti como tinha sido olhar dentro de sua mente, sentir o ódio frio de Rhys, sentir Rhys... se defender, defender seu povo, os amigos, usando o poder e as máscaras em seu arsenal. Rhysand vira e suportara coisas tão... tão inomináveis, e, no entanto... as mãos dele em minhas coxas eram suaves, o toque era como...
Não me deixei terminar o pensamento quando falei:
— Vou voar com Azriel.
As expressões de Rhys e Cassian insinuavam que eu tinha declarado o desejo de passear por Velaris totalmente nua, mas o encantador de sombras apenas fez uma reverência com a cabeça e disse:
— É claro.
E isso, ainda bem, foi o fim do assunto.
Rhys atravessou Cassian primeiro, e voltou um segundo depois para buscar Azriel e eu.
O mestre-espião esperava em silêncio. Tentei não parecer desconfortável demais quando ele me pegou nos braços, e aquelas sombras que sussurravam para Azriel acariciaram meu pescoço, minha bochecha. Rhys franzia um pouco a testa, e eu apenas lhe lancei um olhar afiado e disse:
— Não deixe o vento estragar meu cabelo.
Rhys riu, segurou o braço de Azriel, e todos sumimos em um vento escuro.
Estrelas e escuridão, as mãos cobertas de cicatrizes de Azriel se fechando com força ao redor de mim, meus braços entrelaçados em seu pescoço, preparando-se, esperando, contando...
Então, luz do sol ofuscante, vento rugindo, um mergulho cada vez mais baixo...
Depois, uma guinada, subimos direto. O corpo de Azriel era quente e firme, embora aquelas mãos agredidas fossem cuidadosas quando ele me pegou. Nenhuma sombra nos seguiu, como se Azriel as tivesse deixado em Velaris.
Abaixo, adiante, atrás, o amplo mar azul se estendia. Acima, fortalezas de nuvens se arrastavam, e à esquerda... um borrão escuro no horizonte. Terra.
Terra da Corte Primaveril.
Imaginei se Tamlin estava na fronteira com o mar oeste. Ele uma vez indicara que havia problemas ali. Será que podia me sentir, nos sentir agora?
Não me permiti pensar nisso. Não quando senti a muralha.
Como humana, não passava de um escudo invisível.
Como feérica... não conseguia vê-la, mas conseguia ouvir os estalos de poder... o cheiro pungente que envolvia minha língua.
— É repulsivo, não é? — indagou Azriel, a voz baixa quase engolida pelo vento.
— Posso ver por que você... nós fomos detidos por ela por tantos séculos — admiti. Cada batida de meu coração nos levava mais perto daquela sensação descomunal e nauseante de poder.
— Vai se acostumar... com o vocabulário — disse Azriel. Eu me segurava a ele com tanta força que não conseguia ver seu rosto. Observei a pequena mudança dentro do Sifão de safira em vez disso, como se fosse o grande olho de alguma besta semiadormecida de um deserto congelado.
— Não sei bem onde me encaixo — admiti, talvez apenas porque o vento estivesse gritando ao nosso redor e Rhys já tivesse atravessado à frente, para onde a forma escura de Cassian voava, além da muralha.
— Estou vivo há quase cinco séculos e meio, e não tenho muita certeza disso também — retrucou Azriel.
Tentei afastar o rosto para interpretar aquela expressão linda e fria, mas Azriel me segurou com mais força, um aviso silencioso para que eu me preparasse.
Como Azriel sabia onde estava a fenda, eu não tinha ideia. Tudo parecia igual para mim: céu aberto invisível.
Mas senti a muralha quando passamos por ela. Senti quando avançou contra mim, como se transtornada por termos passado, senti o poder irradiar e tentar fechar aquela fenda, mas falhar... Então, saímos.
O vento estava gelado, e a temperatura, tão baixa que me tirou o fôlego. Aquele vento fustigante parecia, de alguma forma, menos vivo que o ar da primavera que tínhamos deixado para trás.
Azriel se inclinou, virando na direção da costa, onde Rhys e Cassian agora faziam uma varredura da terra. Estremeci na capa forrada de pele, agarrando-me ao calor de Azriel.
Ultrapassamos uma praia de areia na base de penhascos brancos, e terra plana e nevada com florestas devastadas pelo inverno se estendiam além deles.
As terras humanas.

Meu lar.

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