1 de fevereiro de 2017

Capítulo Vinte e Cinco

Tamlin foi chamado para uma das fronteiras horas depois de eu ter encontrado aquela cabeça — onde e por que, não me disse. Mas entendi mesmo o que ele não contou: a praga estava vindo de outras cortes, e diretamente para a nossa.
Tamlin dormiu por lá — era a primeira noite que ele passara longe —, mas mandou Lucien para me informar que estava vivo. Lucien enfatizou esta última palavra tantas vezes que tive uma péssima noite de sono, mesmo que uma pequena parte de mim tivesse ficado surpresa por Tamlin ter se importado em me avisar sobre o próprio bem-estar. Eu sabia... eu sabia que seguia um caminho que provavelmente terminaria com meu coração mortal despedaçado, mesmo assim... Mesmo assim, não pude evitar. Não conseguia desde aquele dia com os nagas. Mas ver aquela cabeça... os jogos que aquelas cortes faziam, com as vidas das pessoas tal qual fichas em um tabuleiro... Precisei de força de vontade para manter a comida no estômago sempre que pensava a respeito.
No entanto, apesar da malícia que se aproximava, acordei no dia seguinte ao som de um alegre violino e, quando olhei pela janela, vi o jardim decorado com laços e serpentinas. Nas colinas distantes, vi fogueiras sendo montadas, e mastros sendo erguidos. Quando perguntei a Alis — cujo povo, eu aprendera, se chamava urisk —, ela simplesmente respondeu:
— Solstício de Verão. A principal celebração costumava ser na Corte Estival, mas... as coisas estão diferentes. Então, agora temos uma aqui também. Você irá.
Verão; nas semanas em que eu estava pintando e jantando com Tamlin, e perambulando pelo território da corte ao seu lado... o verão tinha chegado. Será que minha família ainda acreditava de verdade que eu estava visitando uma tia havia muito perdida? O que faziam da vida? Se era solstício, então haveria uma pequena reunião no centro da aldeia; nada religioso, é claro, embora os Filhos dos Abençoados pudessem aparecer para tentar converter os jovens, mas apenas um pouco de comida compartilhada, cerveja doada da única taverna, e talvez algumas danças de quadrilha. A única coisa a celebrar era uma folga dos longos dias de verão, plantando e arando. Pelas decorações espalhadas pela propriedade, eu podia ver que aquilo seria muito maior... muito mais animado.
Tamlin permaneceu sumido pela maior parte do dia. A preocupação me corroía, mesmo enquanto eu pintava um rápido retrato livre das serpentinas e dos laços no jardim. Talvez fosse mesquinho e egoísta, considerando a praga que retornava, mas eu também esperava silenciosamente que o solstício não exigisse os mesmos rituais da Noite da Fogueira; não me permiti pensar demais no que faria, se Tamlin tivesse um rebanho de lindas feéricas enfileiradas para ele.
Somente no fim da tarde ouvi a voz grave de Tamlin e a gargalhada estrondosa de Lucien ecoarem pelos corredores, até meu quarto de pintura. Alívio fez meu peito se acalmar, mas, quando corri para encontrá-los, Alis me puxou escada acima. Ela tirou minhas roupas manchadas de tinta e insistiu que eu colocasse um vestido esvoaçante, de chiffon, azul como centáureas. Ela deixou meus cabelos soltos, mas entremeou uma grinalda de flores selvagens rosas, brancas e azuis no topo de minha cabeça.
Eu poderia ter me sentido infantil com ela, mas nos meses em que estivera ali, meus ossos marcados e as feições esqueléticas tinham sido preenchidos. Eu tinha agora o corpo de uma mulher. Passei as mãos pelas curvas fluidas e suaves de minha cintura e dos quadris. Nunca achei que sentiria nada além de músculos e ossos.
— Pelo Caldeirão. — Lucien assobiou quando desci as escadas. — Ela parece realmente feérica.
Eu estava ocupada demais avaliando Tamlin — procurando por um ferimento, qualquer sinal de sangue ou marcas que a praga poderia ter deixado — para agradecer a Lucien pelo elogio. Mas Tamlin estava limpo, quase radiante, totalmente desarmado... e sorrindo para mim. O que quer fosse que havia enfrentado deixara-o sem marcas.
— Você está linda — murmurou Tamlin, e algo no tom suave me fez querer ronronar.
Endireitei os ombros, sem querer deixar que Tamlin visse o quanto suas palavras ou sua voz, ou seu simples bem-estar, me afetavam. Ainda não.
— Fico surpresa por poder participar esta noite.
— Infelizmente para você e seu pescoço — replicou Lucien —, esta noite será apenas uma festa.
— Você fica acordado à noite, pensando em todas as respostas espirituosas para o dia seguinte?
Lucien piscou um olho para mim, e Tamlin riu e me ofereceu o braço.
— Ele está certo — disse o Grão-Senhor. Eu estava ciente de cada centímetro de onde ele tocava, dos músculos fortes sob a túnica verde. Tamlin me levou até o jardim, e Lucien seguiu. — O solstício celebra o equilíbrio entre dia e noite, é um momento de neutralidade, quando todos podem soltar os cabelos para simplesmente desfrutar do fato de serem feéricos; não Grão-Feéricos ou feéricos, apenas nós e nada mais.
— Então, tem cantoria, dança e bebida em excesso — acrescentou Lucien, caminhando ao meu lado. — E flertes — acrescentou ele, com um sorriso malicioso.
De fato, eu estava intensa e desejosamente ciente do corpo de Tamlin roçando contra o meu, mas o Grão-Senhor apenas segurou meu braço mais forte conforme caminhamos para o jardim e para os campos além dele.
O sol estava começando a descida final quando chegamos ao planalto no qual as festividades aconteceriam. Tentei não encarar os feéricos reunidos, mesmo que eu fosse encarada por eles. Nunca tinha visto tantos em um só lugar, pelo menos não sem o encantamento escondendo-os de mim. Agora que meus olhos estavam abertos para a visão, os vestidos exóticos e as silhuetas e os corpos esguios, delineados e coloridos e formados de um jeito tão estranho e tão diferente, eram uma maravilha de se contemplar. No entanto, a pequena novidade que minha presença ao lado do Grão-Senhor oferecia logo passou... com a ajuda de um grunhido baixo de Tamlin, que os fez se dissiparem para cuidar da própria vida.
Mesa após mesa de comida tinham sido alinhadas no limite do planalto, e me perdi de Tamlin enquanto esperava na fila para encher um prato, fazendo o melhor para não parecer que era seu brinquedinho humano. A música começou perto da gigante fogueira fumacenta; violinos e tambores e instrumentos alegres, que me fizeram bater os pés na grama. Iluminada e feliz e ao ar livre, aquela era a irmã alegre da sanguinária Noite da Fogueira.
Lucien, é claro, era mestre em desaparecer quando eu precisava dele, então, comi o quanto pude de bolo de morango, torta de maçã e torta de mirtilo — nada diferente das gostosuras de verão do mundo mortal —, sozinha sob uma figueira coberta com lanternas de seda e fitas brilhantes.
Não me importei com a solidão; não quando estava ocupada demais contemplando o modo como as lanternas e as fitas brilhavam, as sombras que projetavam. Talvez fossem o tema de minha próxima pintura.
Ou talvez eu fosse pintar os feéricos etéreos que começavam a dançar. Havia tantos ângulos e cores neles. Imaginei se algum teria sido o modelo ou o pintor cujo trabalho estava exposto na galeria.
Só me movi para pegar algo para beber. O planalto ficou mais cheio à medida que o sol afundava na direção do horizonte. Do outro lado das colinas, outras fogueiras e festas começavam, e a música destas chegava durante as ocasionais pausas em nossa comemoração. Eu estava me servindo de um cálice de espumante dourado quando Lucien finalmente surgiu atrás de mim, olhando por cima de meu ombro.
— Eu não beberia isso se fosse você.
— Ah? — falei, franzindo a testa para o líquido frisante.
— Vinho feérico no solstício — sugeriu Lucien.
— Hmm — falei, cheirando. Não fedia a álcool. Na verdade, tinha cheiro de verões passados deitada na grama, me banhando em lagos frios. Jamais tinha cheirado algo tão fantástico.
— Estou falando sério — disse Lucien, quando levei o copo aos lábios, minhas sobrancelhas erguidas. — Lembra da última vez que você ignorou meu aviso? — Ele me cutucou no pescoço.
— Também lembro de você me contando que amoras de bruxa eram inofensivas, e a seguir eu estava quase delirante e tropeçando — falei, lembrando daquela tarde, algumas semanas antes. Tive alucinações durante horas, e Lucien riu até cair, tanto que Tamlin o empurrou no espelho d'água. Afastei o pensamento. Hoje, apenas neste dia, eu tinha deixado os cabelos soltos. Hoje era dia de deixar a precaução de lado. De esquecer a praga que pairava nos limites da corte, ameaçando meu Grão-Senhor e suas terras. Onde estava Tamlin, afinal? Se houvera alguma ameaça, certamente Lucien teria ficado sabendo, certamente teriam cancelado a comemoração.
— Bem, é sério desta vez — avisou Lucien, e tirei meu cálice do seu alcance. — Tam me estriparia se a visse bebendo isso.
— Sempre cuidando dos próprios interesses — falei, e fiz questão de virar o conteúdo da taça.
Foi como se milhões de fogos de artifício explodissem dentro de mim, enchendo minhas veias com brilho de estrelas. Ri alto, e Lucien resmungou.
— Humana tola — sibilou ele. Agora, o encantamento de Lucien tinha cessado. Os cabelos ruivos queimavam como metal quente, e o olho vermelho estava incandescente como uma forja infinita. Aquilo era o que eu retrataria a seguir.
— Vou pintar você — decidi, e dei uma risadinha, uma risadinha mesmo, quando as palavras saíram.
— Que o Caldeirão me cozinhe e me frite — murmurou Lucien, e eu ri de novo. Antes que ele pudesse me impedir, virei outra taça de vinho feérico. Era a coisa mais gloriosa que eu já provara. Ele me libertou de amarras que eu sequer sabia que existiam.
A música se tornou um canto de sereia. A melodia era como um ímã, e eu era impotente contra sua atração. Tudo era lindo e cheio de promessas. Aproveitei a umidade da grama sob meus pés descalços. Nem mesmo percebi que tinha perdido os sapatos.
O céu era um turbilhão de ametista, safira e rubi derretidos, todos escoando para uma poça final de ônix. Eu queria nadar nele, queria me banhar nas cores e sentir as estrelas brilhando entre meus dedos.
Tropecei, piscando, e me vi parada no limite da roda de dança. Um grupo de músicos tocava os instrumentos feéricos, e oscilei onde estava enquanto observava os feéricos dançando, circundando a fogueira. Aquilo não era uma dança formal. Era como se estivessem tão soltos quanto eu. Livres. Eu os amava por aquilo.
— Droga, Feyre — disse Lucien, segurando meu cotovelo. — Quer que eu me mate tentando evitar que você empale sua pele mortal em outra pedra?
— O quê? — falei, me virando para Lucien. O mundo inteiro girou comigo, delicioso e hipnotizante.
— Idiota — xingou Lucien, quando olhou para meu rosto. — Idiota bêbada.
O ritmo acelerou. Eu queria estar na música, queria pegar carona naquela velocidade e me entremear nas notas. Eu conseguia sentir a música ao meu redor, como uma coisa viva que respirava, cheia de maravilhas, alegria e beleza.
— Feyre, pare — ordenou Lucien, e me segurou de novo. Eu estava dançando para longe, meu corpo ainda ondulava na direção do som.
— Pare você. Pare de ser tão sério — rebati, afastando-o. Eu queria ouvir a música, queria ouvi-la assim que saísse dos instrumentos. Lucien xingou quando comecei a me mover.
Saltei entre os dançarinos, girando a saia do vestido. Os músicos mascarados sentados não me olharam quando saltei diante eles, dançando sem sair daquele lugar. Não havia nenhuma amarra, nenhum limite — apenas eu e a música, dançando e dançando. Eu não era feérica, mas era parte daquela terra, e a terra era parte de mim, e eu ficaria feliz de dançar sobre ela pelo resto da vida.
Um dos músicos ergueu o rosto do violino, e meus olhos se arregalaram.
Suor reluziu na coluna forte formada pelo pescoço dele quando o músico apoiou o queixo na madeira escura do instrumento. Ele enrolou as mangas da camisa, revelando os músculos delineados nos antebraços.
Ele mencionou certa vez que gostaria de ser um menestrel itinerante se não fosse um guerreiro ou um Grão-Senhor — agora que eu o ouvia tocar, soube que ele poderia ter feito uma fortuna com aquilo.
— Desculpe, Tam — disse Lucien ofegante, surgindo do nada. - Eu a deixei sozinha por um momento em uma das mesas de comida, e, logo depois que a alcancei, ela estava bebendo o vinho e...
Tamlin não parou de tocar. Os cabelos dourados estavam encharcados de suor, ele parecia maravilhosamente lindo... embora eu não pudesse ver a maior parte do rosto. Tamlin me lançou um sorriso feral enquanto eu dançava sem sair diante dele.
— Eu cuido dela — murmurou Tamlin por cima da música, e eu fiquei extasiada, apressando os passos de dança. — Vá se divertir. — Lucien sumiu.
— Não preciso de um guardião! — Eu queria girar e girar e girar.
— Não, não precisa — concordou Tamlin, sem nem uma vez se perder enquanto tocava. O arco do violino dançava sobre as cordas. Os dedos de Tamlin eram firmes e fortes e longos, sem sinal daquelas garras que eu deixara de temer... — Dance, Feyre — sussurrou ele.
Então, dancei.
Eu me soltei, como um pião girando e girando, e não sabia com quem dançava ou qual era a aparência deles, apenas que eu tinha me tornado a música e o fogo e a noite, e não havia nada que pudesse me deter.
Durante todo o tempo, Tamlin e seus músicos tocavam uma música tão alegre que não achei que o mundo pudesse conter toda aquela felicidade. Ziguezagueei em direção a ele, meu senhor feérico, meu protetor e guerreiro, meu amigo, e dancei diante de Tamlin. Ele sorriu para mim, e não parei de dançar quando Tamlin se levantou da cadeira e se ajoelhou diante de mim na grama, oferecendo um solo de violino para mim.
Música apenas para mim... um presente. Ele continuou tocando, os dedos ágeis e firmes sobre as cordas do violino. Meu corpo ondulava como uma cobra, inclinei a cabeça para trás, para o céu, e deixei que a música de Tamlin preenchesse todo o meu corpo.
Senti uma pressão na cintura e fui puxada para os braços de alguém e, depois, jogada de volta para a roda de dança. Gargalhei tanto que achei que fosse explodir, e, quando abri os olhos, vi Tamlin me girando e girando.
Tildo se tornou um borrão de cor e som, e ele era o único objeto ali, me puxando de volta para a sanidade, para meu corpo, que brilhava e queimava em todos os lugares que Tamlin tocava.
Eu estava cheia de raios de sol. Era como se eu jamais tivesse experimentado o verão antes, como se jamais soubesse quem estava esperando para surgir daquela floresta de gelo e neve. Não queria que aquilo terminasse; eu jamais queria deixar o alto daquela colina.
A música encerrou, e, puxando fôlego, olhei para a lua: estava quase descendo. Suor escorreu por cada parte de meu corpo.
Tamlin, também ofegante, pegou minha mão.
— O tempo passa mais rápido quando se está bêbado com vinho feérico.
— Não estou bêbada — falei, dando um riso de deboche. Ele apenas riu e me levou para longe da dança. Apertei os calcanhares no chão quando nos aproximamos do círculo de luz da fogueira. — Estão começando de novo — falei, apontando para os dançarinos que se reuniam diante dos músicos, que já haviam descansado.
Ele se aproximou, e o hálito de Tamlin acariciou minha orelha quando ele sussurrou:
— Quero mostrar algo melhor a você.
Parei de protestar. Tamlin me levou para longe da colina, seguindo o luar. Qualquer que fosse o caminho que tivesse escolhido, Tamlin o fez por consideração a meus pés descalços, pois somente a grama macia amortecia meus passos. Logo, até mesmo a música se dissipou, e fui deixada apenas com o suspiro das árvores à brisa noturna.
— Aqui — falou Tamlin, parando na beira de um amplo campo. A mão dele se deteve em meu ombro enquanto admirávamos a paisagem.
A grama alta se movia como água conforme o restante do luar dançava sobre ela.
— O que é? — sussurrei, mas Tamlin levou o dedo aos lábios e me pediu que olhasse.
Durante alguns minutos, nada aconteceu. Então, do lado oposto do campo, dezenas de formas reluzentes flutuaram pela grama, pouco mais do que miragens de luar. Depois, a cantoria começou.
Era uma voz coletiva, mas existia nas formas feminina e masculina; dois lados da mesma moeda, cantando um para o outro em um chamado e uma resposta. Levei a mão ao pescoço à medida que a música aumentava de volume e eles dançavam. Fantasmagóricos e etéreos, valsavam pelo campo, não passavam de fiapos esguios de luar.
— O que são?
— Fogos-fátuos, espíritos de ar e luz — respondeu Tamlin, baixinho. — Vieram celebrar o solstício.
— São lindos.
Seus lábios roçaram meu pescoço quando Tamlin murmurou contra minha pele:
— Dance comigo, Feyre.
— Mesmo? — Eu me virei e vi que meu rosto estava a centímetros do dele.
Tamlin deu um sorriso preguiçoso.
— Mesmo. — Como se eu não passasse de ar, Tamlin me puxou para uma dança fluida. Eu mal me lembrava dos passos que tinha aprendido na infância, mas Tamlin compensou com sua graciosidade feral, sem hesitar, sempre sentindo qualquer tropeço antes que eu o desse, conforme dançávamos pelo campo cheio de espíritos.
Eu estava tão livre quanto um tufo de sementes de dente-de-leão, e Tamlin era o vento que me guiava pelo mundo.
Ele sorriu para mim, e me vi sorrir de volta. Não precisava fingir, não precisava ser nada além do que era bem ali, sendo girada pelo campo, os fogos fátuos dançando ao nosso redor, como dezenas de luas.
Nossa dança desacelerou, e ficamos de pé ali, nos abraçando, enquanto oscilávamos à música dos espíritos. Tamlin apoiou o queixo em minha cabeça e acariciou meu cabelo, os dedos roçando a pele exposta de meu pescoço.
— Feyre — sussurrou ele em minha cabeça. Tamlin fez meu nome soar lindo. — Feyre — sussurrou ele de novo, não como uma pergunta, mas simplesmente como se gostasse de dizê-lo.
Tão rapidamente quanto surgiram, os espíritos sumiram, levando a música consigo. Pisquei. As estrelas estavam sumindo, e o céu ficara roxo-acinzentado.
O rosto de Tamlin estava a centímetros do meu.
— É quase alvorecer.
Assenti, mesmerizada pela visão dele, pelo cheiro e pela sensação de Tamlin me abraçando. Estendi a mão para tocar sua máscara. Estava tão fria, apesar de a pele estar corada sob ela. Minha mão tremeu, e minha respiração acelerou quando acariciei a pele do maxilar de Tamlin. Era macia... e quente.
Os lábios úmidos dele, a respiração tão irregular quanto a minha. Os dedos de Tamlin se contraíram contra a base de minha coluna, e deixei que ele me puxasse para perto — até que nossos corpos se tocassem, e o calor dele passasse para mim.
Precisei inclinar a cabeça para trás para ver seu rosto. A boca de Tamlin estava em algum lugar entre um sorriso e um esgar.
—O que foi? — perguntei, e apoiei a mão em seu peito, me preparando para afastar o corpo. Mas a outra mão de Tamlin passou para baixo de meu cabelo, detendo-se na base de minha nuca.
— Estou pensando que talvez beije você — disse ele, baixinho, determinado.
— Então beije. — Corei diante da própria ousadia.
Mas Tamlin apenas deu aquela risada rouca e se inclinou.
Os lábios dele tocaram os meus... testando, macios e quentes. Tamlin recuou um pouco, e abri os olhos. Ele ainda me encarava, e eu encarei de volta quando ele me beijou de novo, mais forte, mas nada como havia feito com o meu pescoço. Tamlin recuou mais intensamente dessa vez e me olhou.
— É só isso? — indaguei, e ele riu e me beijou vorazmente.
Minhas mãos envolveram o pescoço de Tamlin, puxando-o para perto, esmagando meu corpo contra o dele. Suas mãos percorreram minhas costas, brincando com meu cabelo, segurando minha cintura, como se ele não conseguisse tocar o suficiente de meu corpo de uma só vez.
Tamlin soltou um gemido grave e se afastou.
 — Venha — disse ele, beijando minha testa. — Vamos perder se não formos agora.
— Vai ser melhor que os fogos-fátuos? — perguntei, mas Tamlin beijou minhas bochechas, meu pescoço e, por fim, meus lábios. Eu o segui para as árvores, pelo mundo que se acendia infinitamente. A mão de Tamlin estava firme e imóvel em volta da minha quando passamos pela névoa baixa e ele me ajudou a subir uma colina exposta que estava escorregadia com orvalho.
Nos sentamos no alto da colina, e escondi o sorriso quando Tamlin passou o braço em volta de meus ombros, me puxando para perto. Apoiei a cabeça contra seu peito, e Tamlin brincou com as flores em minha grinalda.
Em silêncio, olhamos para a extensão ondulante e verde.
O céu mudou para lilás, e as nuvens foram preenchidas com luz rosa. Então, como um disco tremeluzente abundante e claro demais para ser descrito, o sol deslizou para cima do horizonte e cobriu tudo de dourado. Foi como ver o mundo nascer, e éramos as únicas testemunhas.
O braço de Tamlin se apertou ao meu redor, e ele beijou o alto da minha cabeça. Recuei e ergui o olhar para ele.
O ouro nos olhos de Tamlin, cintilando com o sol nascente, tremeluziu.
— O que houve?
— Meu pai me disse uma vez que eu deveria deixar que minhas irmãs imaginassem uma vida melhor, um mundo melhor. E eu disse a ele que tal coisa não existia. — Percorri o polegar sobre a boca de Tamlin, maravilhada, e balancei a cabeça. — Eu jamais entendi, porque eu não podia... não podia acreditar que fosse sequer possível. — Engoli em seco, abaixando a mão. — Até agora.
A garganta de Tamlin oscilou. Seu beijo dessa vez foi intenso e completo, demorado e determinado.
Deixei que o alvorecer entrasse em mim, que crescesse a cada movimento dos lábios e cada carícia da língua forte de Tamlin contra a minha. Lágrimas surgiram sob minhas pálpebras.

Foi o momento mais feliz da minha vida.

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