1 de fevereiro de 2017

Capítulo Trinta e Três

 Talvez eu estivesse a caminho de minha morte, mas não chegaria desarmada.
Apertei a faixa da aljava contra o peito e depois passei os dedos pelas penas das flechas, que despontavam acima de meu ombro. É claro que não havia flechas de freixo. Mas eu me viraria com o que conseguira encontrar espalhado pela mansão. Poderia ter levado mais, porém o peso das armas apenas me deteria, e não sabia usar a maioria mesmo. Então, levei uma aljava cheia, duas adagas na cintura e um arco preso sobre um dos ombros. Aquilo era melhor que nada, mesmo que eu estivesse enfrentando feéricos nascidos já sabendo matar.
Alis me guiou pelos bosques silenciosos e pelas encostas, parando de vez em quando para ouvir, para mudar nosso curso. Eu não queria saber o que ela ouvia ou farejava ali fora, não quando tal quietude tinha encoberto a terra. Fique com o Grão-Senhor, dissera o Suriel. Fique com ele, apaixone-se por ele, e tudo seria acertado. Se eu tivesse ficado, se tivesse admitido o que sentia... nada daquilo teria acontecido.
O mundo foi uniformemente preenchido pela noite, e minhas pernas doíam devido às encostas íngremes das colinas, mas Alis continuou; sem sequer olhar para trás para ver se eu a seguia.
Eu estava começando a imaginar se deveria ter levado mais que um dia de provisões quando paramos no vale entre duas colinas. O ar estava frio; muito mais frio que o ar no topo da colina, e estremeci quando meus olhos recaíram sobre a abertura fina de uma caverna. De modo algum aquela era a entrada... não quando aquele mural retratava Sob a Montanha no centro de Prythian. Estava a semanas de viagem ainda.
— Todas as estradas escuras e deprimentes levam até Sob a Montanha — disse Alis, tão baixo que sua voz era como o farfalhar de folhas. Ela apontou para a caverna. — É um antigo atalho, certa vez considerado sagrado, porém não mais.
Aquela era a caverna que Lucien ordenara que o Attor não utilizasse naquele dia. Tentei dominar minha tremedeira. Amava Tamlin e iria ao fim do mundo para consertar as coisas, para salvá-lo, mas, se Amarantha era pior que o Attor... se o Attor não era seu mais desprezível cupincha... se até mesmo Tamlin a temia...
— Imagino que esteja arrependida de sua impulsividade agora.
Endireitei o corpo.
— Eu vou libertá-lo.
— Terá sorte se ela oferecer uma morte rápida a você. Terá sorte se sequer for levada até Amarantha. — Eu devia ter ficado pálida, porque Alis contraiu os lábios e me deu um tapinha no ombro. — Vou dizer algumas regras para que se lembre, menina — falou Alis, e nós duas olhamos para a entrada da caverna. A escuridão fedia à entrada, envenenando o ar fresco da noite. — Não beba o vinho, não é como o que tomamos no Solstício, e fará mais mal que bem. Não faça acordos com ninguém, a não ser que sua vida dependa disso, e, mesmo então, considere se vale a pena. E, acima de tudo: não confie em uma alma lá dentro, nem mesmo em seu Tamlin. Seus sentidos são seu maior inimigo; eles estarão esperando para traí-la.
Lutei contra a vontade de tocar uma de minhas adagas, então assenti em agradecimento em vez disso.
— Tem um plano?
— Não — admiti.
— Não espere que esse aço ajude em nada — falou Alis, olhando para minhas armas.
— Não espero. — Eu a encarei, mordendo a parte interior do lábio.
— Havia outra parte da maldição. Uma que não posso contar. Mesmo agora, meus ossos doem só de mencioná-la. Uma parte que você precisará descobrir... sozinha, uma parte que ela... ela... — Alis engoliu em seco ruidosamente. — Que ela ainda não quer que você saiba se eu não consigo contar — arquejou Alis. — Mas mantenha... mantenha os ouvidos atentos, menina. Preste atenção ao que ouve.
Toquei o braço de Alis.
— Eu vou. Obrigada por me trazer. — Por desperdiçar horas preciosas quando aquela sacola de mantimentos, para ela, para os meninos, dizia o suficiente sobre aonde iria.
Alis deu sua risada de corvo.
— É um dia raro quando uma pessoa agradece por você guiá-la até a morte. — Se eu pensasse por muito tempo no perigo, poderia perder a coragem, com ou sem Tamlin. Ela não estava ajudando. — Desejo sorte a você, mesmo assim — acrescentou Alis.
— Depois que os buscar, se você e seus sobrinhos precisarem de um lugar para onde fugir — falei —, então atravesse a muralha. Vá até a casa de meu pai. — Eu disse a ela o lugar. — Chame Nestha, minha irmã mais velha. Ela sabe quem você é, sabe de tudo. Vai abrigá-los como puder.
Nestha o faria mesmo, eu sabia, mesmo que Alis e os meninos a apavorassem. Ela os manteria em segurança. Alis deu um tapinha em minha mão.
— Fique viva — disse ela.
Olhei para Alis uma última vez e, depois, para o céu noturno que se estendia sobre nós, e para o verde profundo das colinas. Da cor dos olhos de Tamlin.
Entrei na caverna.
Os únicos ruídos eram minha respiração ofegante e o estalar de minhas botas nas pedras. Tropeçando pelo escuro gelado, prossegui. Eu me mantive próxima à parede, e minha mão logo ficou dormente à medida que a pedra fria e úmida feria minha pele. Dei passos pequenos, com medo de algum poço invisível que pudesse me lançar aos tropeços para a ruína.
Depois do que pareceu uma eternidade, um feixe de luz laranja cortou a escuridão. E então vieram as vozes.
Sibilando e vociferando, eloquentes e guturais; uma cacofonia irrompendo no silêncio, como um fogo de artifício. Pressionei o corpo contra a parede da caverna, mas os sons passaram e diminuíram.
Caminhei de fininho em direção à luz, piscando para afastar minha cegueira quando encontrei a fonte: uma leve fissura na rocha. Ela se abriu para uma passagem subterrânea grosseiramente escavada e iluminada por tochas. Fiquei às sombras, meu coração disparado no peito. A rachadura na caverna era grande o suficiente para que uma pessoa se espremesse a fim de passar; e parecia tão afiada e áspera que obviamente não era muito usada. Um olhar para a terra não revelou nenhuma trilha, nenhum sinal de que qualquer outra pessoa tenha usado aquela entrada. O corredor além dela estava livre, mas se curvava, obscurecendo minha visão.
Agradeci a Tamlin por me dar a visão feérica, que me permitia enxergar através da maioria dos encantamentos, mas lembrei do aviso de Alis e não confiei em meus ouvidos, não quando feéricos podiam ser tão silenciosos quanto gatos. Os corredores estavam mortalmente silenciosos.
Mesmo assim, precisava sair daquela caverna... Tamlin estava ali já havia semanas. Precisava descobrir onde Amarantha o aprisionara. E esperava não esbarrar com ninguém no processo. Matar animais e os naga tinha sido uma coisa, mas matar outros...
Respirei fundo várias vezes, me preparando. Era como caçar. Mas os animais eram feéricos. Feéricos que poderiam me torturar infinitamente... me torturar até que eu implorasse pela morte. Me torturar do modo como atormentaram aquele feérico da Corte Estival cujas asas haviam sido arrancadas.
Não me permiti pensar naqueles cotocos ensanguentados enquanto passava de fininho pela minúscula fenda, encolhendo a barriga para me espremer. Minhas armas rasparam contra a pedra, e encolhi o corpo ao ouvir o chiado de pedrinhas que caíam. Continue em frente, continue em frente. Disparando pelo corredor aberto, pressionei o corpo contra uma reentrância na parede oposta. Ela não oferecia muita cobertura.
Arrastei o corpo pela parede, parando à curva do corredor. Aquilo era um erro; apenas um idiota iria até lá. Eu podia estar em qualquer lugar na corte de Amarantha. Alis deveria ter me dado mais informações. Eu deveria ter sido esperta o bastante para perguntar. Ou suficientemente esperta para pensar em outra forma — qualquer forma, menos aquela.
Arrisquei um olhar pela curva e quase solucei, frustrada. Havia outro corredor, escavado na pedra pálida da montanha, ladeado por tochas. Não havia nenhum ponto sombreado para eu me esconder, e, do outro lado, minha visão se obscurecia mais uma vez por uma curva acentuada. Eu estava totalmente descoberta. Podia muito bem ser uma corça faminta, arrancando a casca de uma árvore em uma clareira.
Mas os corredores estavam silenciosos; até mesmo as vozes que eu tinha ouvido mais cedo haviam sumido. E, se ouvisse alguém, poderia correr de volta para a abertura daquela caverna. Poderia parar e fazer o reconhecimento do território durante um tempo, reunir informações, descobrir onde estava Tamlin...
Não. Uma segunda oportunidade talvez não chegasse tão cedo. Eu precisava agir agora. Se parasse por muito tempo, jamais reuniria coragem de novo. Fiz menção de virar a curva.
Dedos longos e ossudos envolveram meu braço, e fiquei rígida.
Um rosto encouraçado, pontudo e cinza apareceu em meu campo visual, e as presas prateadas reluziram quando ele sorriu para mim.
— Oi — sibilou a coisa. — O que algo como você está fazendo aqui?
Eu conhecia aquela voz. Ela ainda assombrava meus pesadelos.

Então, fiz de tudo para evitar gritar quando suas orelhas de morcego se esticaram, e percebi que estava diante do Attor.

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