2 de fevereiro de 2017

Capítulo Trinta e Quatro

Ainda bem que nenhum ruído veio do quarto fechado. E nenhum som foi emitido naquela noite, quando acordei sobressaltada de um pesadelo em que era girada em um espeto e não conseguia me lembrar de onde estava.
O luar dançava no mar além de minhas janelas abertas, e havia silêncio, muito silencio.
Uma arma. Eu era uma arma para encontrar aquele livro, para impedir que o rei quebrasse a muralha, a fim de impedir o que quer que ele tivesse planejado para Jurian e para a guerra que poderia destruir meu mundo. Que poderia destruir aquele lugar... e um Grão-Senhor que poderia muito bem subverter a ordem das coisas.
Por um segundo, senti falta de Velaris, senti falta das luzes e da música e do Arco-íris. Senti falta do calor aconchegante do solar para me acolher do inverno frio, senti falta... de como tinha sido fazer parte da pequena unidade deles.
Talvez envolver as asas ao meu redor e me escrever bilhetes tivessem sido as formas de Rhys de garantir que sua arma não se quebraria para sempre.
Tudo bem... era justo. Nós não devíamos nada um ao outro além das promessas de trabalhar e de lutar juntos.
Ele ainda podia ser meu amigo. Companheiro; o que quer que aquela coisa entre nós fosse. O fato de ele levar alguém para a cama não mudava essas coisas.
Fora apenas um alívio pensar que, por um momento, Rhysand poderia ser tão solitário quanto eu.
***
Não tive coragem de sair do quarto para tomar café, de ver se Rhys voltara.
De ver quem ele levaria para o café da manhã.
Não tinha mais nada a fazer, disse a mim mesma que ficaria na cama até minha visita na hora do almoço com Tarquin. Então, fiquei ali até que os criados viessem, pedissem desculpas por me perturbar e começassem a ir embora. Eu os impedi, disse que tomaria banho enquanto limpavam o quarto. Eles foram educados — talvez nervosos — e apenas assentiram conforme fiz o que havia dito.
Eu me demorei no banho. E, por trás da porta trancada, deixei que aquela semente do poder de Tarquin saísse, primeiro fazendo a água subir da banheira, e depois moldando pequenos animais e criaturas com ela.
Era o mais próximo de transformação que eu me permitira chegar. Contemplar como eu poderia me dar formas animalescas apenas me deixava trêmula, enjoada. Podia ignorar aquilo, ignorar aquele ocasional arranhar de garras em meu sangue durante um tempo.
Eu fazia borboletas de água voarem pelo cômodo quando me dei conta de que estava na banheira havia tanto tempo que o banho tinha esfriado.
Como na noite anterior, Nuala atravessou as paredes vinda de onde quer que ela estivesse hospedada no palácio, e me vestiu, de alguma forma alerta a quando eu deveria estar pronta. Cerridwen, contou Nuala, tirara o palito mais curto e estava cuidando de Amren. Não tive coragem de perguntar sobre Rhys também.
Nuala escolheu verde-mar ressaltado por ouro rosa, cacheou e então trançou meus cabelos em uma trança grossa e larga que brilhava com toques de pérola. Se Nuala sabia por que eu estava lá, o que faria, não disse. Mas tomou cuidado especial com meu rosto, colorindo meus lábios com rosa-cereja e salpicando minhas bochechas com o mais leve blush. Eu podia parecer inocente, encantadora... não fosse pelos olhos azul-cinzentos.
Mais vazios que na noite anterior, quando me admirei no espelho.
Eu vira o suficiente do palácio para encontrar o lugar em que Tarquin dissera para encontrá-lo antes de darmos boa-noite. O salão principal ficava em um andar intermediário; o local de encontro perfeito para aqueles que moravam nos pináculos acima e aqueles que trabalhavam sem ser vistos ou ouvidos abaixo.
Aquele andar abrigava todas as diversas salas de conselho, salões de baile, salões de jantar e quaisquer outros salões que pudessem ser necessários para visitantes, eventos, reuniões. O acesso aos andares residenciais dos quais eu tinha vindo era vigiado por quatro soldados em cada escada: todos me observaram com cautela conforme eu esperava contra uma pilastra de concha por seu Grão-Senhor. Imaginei se Tarquin podia sentir que eu estava brincando com seu poder na banheira, que o pedaço de si que ele entregara estava agora ali e obedecia a mim.
Tarquin surgiu de uma das salas adjacentes quando o relógio soou 14 horas... seguido por meus companheiros.
O olhar de Rhys me percorreu, reparando nas roupas que obviamente eram em honra de meu anfitrião e de seu povo. Reparando que não o encarei nem a Cresseida quando olhei apenas para Tarquin e Amren ao lado de Rhys — Varian agora caminhava até os soldados próximos às escadas — e dei aos dois um sorriso inexpressivo, de lábios fechados.
— Você está bonita hoje — elogiou Tarquin, inclinando a cabeça.
Nuala, ao que parecia, era uma espiã espetacular. A túnica cor de chumbo de Tarquin era ressaltada pelo mesmo tom de verde-mar que minhas roupas. Poderíamos muito bem estar vestindo roupas do mesmo conjunto. Supus que, com os cabelos castanho alourados e a pele pálida, eu era seu oposto perfeito.
Consegui sentir Rhys me avaliando.
Eu o afastei. Talvez mandasse um cachorro de água atrás de Rhys depois — e deixasse que lhe mordesse a bunda.
— Espero que não esteja interrompendo — disse eu a Amren.
Amren fez um gesto com os ombros magros, aquele dia vestidos em cinza como as lajotas do calçamento.
— Estávamos terminando um debate bastante acalorado sobre armadas e quem poderia estar no comando de uma frente unificada. Sabia — disse Amren — que antes de se tornarem tão grandiosos e poderosos, Tarquin e Varian lideravam a frota de Nostrus?
Varian, a alguns metros, enrijeceu o corpo, mas não se virou.
Encarei Tarquin.
— Não mencionou que era um marinheiro. — Foi um esforço parecer intrigada, como se nada me incomodasse.
Tarquin esfregou o pescoço.
— Planejava contar durante nosso passeio. — Ele estendeu o braço. — Vamos?
Nenhuma palavra; eu não dissera uma palavra a Rhysand. E não estava prestes a começar conforme dei o braço a Tarquin e falei, para nenhum deles em especial:
— Vejo vocês depois.
Algo roçou contra meu escudo mental, o estremecer de algo sombrio, poderoso.
Talvez um aviso para que tomasse cuidado. Embora parecesse muito com a emoção sombria e tremeluzente que me assombrara; tanto que dei um passo para mais perto de Tarquin. E, então, lancei um sorriso bonito e banal para o Grão-Senhor da Corte Estival, um que não dirigia a ninguém havia muito tempo.
Aquele toque de emoção ficou silencioso do outro lado de meus escudos.
Que bom.
***
Tarquin me levou a um salão de joias e tesouros tão amplo que fiquei boquiaberta por um bom minuto. Um minuto que usei para verificar as prateleiras em busca de qualquer lampejo de sensação — alguma coisa que desse a mesma sensação do macho ao meu lado, como o poder que eu tinha conjurado na banheira.
— E esta é... é apenas uma das salas do tesouro? — O salão fora escavado bem no interior do castelo, atrás de uma pesada porta de chumbo que só se abria quando Tarquin colocava a mão nela. Não ousei me aproximar o suficiente da tranca para ver se podia funcionar com meu toque, com a assinatura forjada dele.
Uma raposa no galinheiro. Era isso o que eu era.
Tarquin soltou uma gargalhada.
— Meus ancestrais eram uns canalhas gananciosos.
Sacudi a cabeça, caminhando até as prateleiras embutidas na parede. Pedra sólida, nenhuma forma de invadir, a não ser que eu escavasse um túnel pela própria montanha. Ou se alguém me atravessasse. Embora ali provavelmente houvesse feitiços semelhantes àqueles do solar e da Casa do Vento.
Caixas transbordando joias e pérolas e gemas brutas, ouro empilhado em baús tão altos que se derramava no piso de paralelepípedo. Trajes de armadura ornamentados montavam guarda contra uma parede; vestidos tecidos de teias de aranha e luz estelar estavam apoiados uns contra os outros. Havia espadas e adagas de todos os tipos. Mas nenhum livro. Nenhum.
— Conhece a história por trás de cada artigo?
— De alguns — respondeu Tarquin. — Não tive muito tempo para aprender sobre tudo.
Que bom; talvez ele não soubesse sobre o Livro, não sentisse sua falta.
Eu me virei.
— Qual é a coisa mais valiosa aqui?
— Pensando em roubar?
Contive uma risada.
— Fazer essa pergunta não me tornaria uma péssima ladra?
Miserável, mentirosa duas-caras: era isso que fazer essa pergunta me tornava.
Tarquin me observou.
— Eu diria que estou olhando para a coisa mais valiosa aqui.
Não fingi o rubor nas bochechas.
— Você é... muito encantador.
O sorriso de Tarquin era suave. Como se sua posição ainda não tivesse destruído a compaixão que tinha. Eu esperava que jamais destruísse.
— Sinceramente, não sei qual é a coisa mais valiosa daqui. Essas são todas heranças inestimáveis de minha casa.
Caminhei até uma prateleira, observando. Um colar de rubis estava disposto em uma almofada de veludo — cada um dos rubis tinha o tamanho de um ovo de tordo. Seria preciso uma mulher e tanto para usar aquele colar, para dominar as gemas e não o contrário.
Em outra prateleira, um colar de pérolas. Depois, safiras.
E em outra... um colar de diamantes negros.
Cada uma das pedras negras era um mistério... e uma resposta. Cada uma delas estava dormente.
Tarquin se aproximou por trás de mim, olhando por cima de meu ombro para o que tinha atiçado meu interesse. O olhar passou para meu rosto.
— Leve.
— O quê? — Eu me virei para ele.
Tarquin passou a mão na nuca.
— Como um agradecimento. Por Sob a Montanha.
Peça agora... peça o Livro em vez disso.
Mas isso exigiria confiança, e... por mais bondoso que fosse, ele era um Grão Senhor.
Tarquin tirou a caixa do local em que repousava e fechou a tampa antes de entregá-la para mim.
— Você foi a primeira pessoa que não riu de minha ideia de acabar com as barreiras de classe. Mesmo Cresseida debochou quando contei a ela. Se não aceitar o colar por nos salvar, então aceite por isso.
— É uma boa ideia, Tarquin. Mas você não precisa me recompensar pelo fato de eu valorizar sua ideia.
Ele sacudiu a cabeça.
— Apenas leve.
Seria um insulto a ele se eu me recusasse... então, fechei as mãos em volta da caixa.
— Vai combinar com você na Corte Noturna — comentou Tarquin.
— Talvez eu fique aqui e ajude você a revolucionar o mundo.
A boca de Tarquin se contraiu para o lado.
— Uma aliada no norte seria útil.
Seria por isso que ele me levara até ali? Por que me dera o presente? Não tinha percebido o quanto estávamos sozinhos ali embaixo, que eu estava no subterrâneo, em um lugar que poderia ser facilmente selado...
— Não tem nada a temer de mim — assegurou Tarquin, e me perguntei se meu cheiro seria tão evidente. — Mas estou falando sério, você consegue... ter influência sobre Rhysand. E ele é notoriamente difícil de lidar. Consegue o que quer, tem planos sobre os quais não conta a ninguém até depois de ter completado, e não pede desculpas por nada. Seja emissária dele no mundo humano, mas seja também a nossa. Viu minha cidade. Tenho mais três assim. Amarantha destruiu todas quase imediatamente depois de assumir. Tudo que meu povo quer agora é paz e segurança, e jamais precisar olhar por cima do ombro de novo. Outros Grão-Senhores me contaram a respeito de Rhys e me avisaram com relação a ele. Mas Rhys me poupou Sob a Montanha. Brutius era meu primo, e tínhamos forças reunidas em todas as cidades para atacar Sob a Montanha. Eles o pegaram saindo de fininho pelos túneis para se encontrar com essas forças. Rhys viu isso na mente de Brutius, sei que viu. Mas mentiu para Amarantha e a desafiou quando esta deu a ordem para transformar meu primo em um fantasma vivo. Talvez fosse pelos planos próprios dele, mas sei que foi um gesto de misericórdia. Ele sabe que sou jovem, e inexperiente, e me poupou. — Tarquin sacudiu a cabeça, mais para si mesmo. — Às vezes acho que Rhysand... acho que ele pode ter sido a vadia de Amarantha para poupar todos nós de sua total atenção.
Eu não trairia nada do que sabia. Mas suspeitei que Tarquin pudesse ver em meus olhos... a tristeza ao pensar naquilo.
— Sei que devo olhar para você — falou Tarquin — e ver que ele a transformou em um bicho de estimação, em um monstro. Mas vejo bondade em você. E acho que isso reflete mais a ele do que a qualquer outra coisa. Acho que mostra que você e ele podem ter muitos segredos...
— Pare — disparei. — Apenas... pare. Sabe que não posso contar nada. E não posso prometer nada. Rhysand é Grão-Senhor. Só sirvo a sua corte.
Tarquin olhou para o chão.
— Perdoe-me se fui direto. Ainda estou aprendendo a jogar os jogos dessas cortes...
para a tristeza de meus conselheiros.
— Espero que jamais aprenda a jogar os jogos dessas cortes.
Tarquin me encarou, o rosto cauteloso, um pouco triste.
— Então, me permita fazer uma pergunta direta. É verdade que deixou Tamlin porque ele a trancafiou em casa?
Tentei bloquear a lembrança, o terror e a dor de meu coração se partindo. Mas assenti.
— E é verdade que você foi salva do confinamento pela Corte Noturna?
Assenti de novo.
Tarquin falou:
— A Corte Primaveril é minha vizinha ao sul. Tenho laços tênues com eles. Mas a não ser que me seja perguntado, não mencionarei que esteve aqui.
Ladra, mentirosa, manipuladora. Não merecia me aliar a ele.
Mas fiz uma reverência em agradecimento.
— Mais alguma sala de tesouro para me mostrar?
— Ouro e joias não são impressionantes o suficiente? E quanto a seu olho de mercadora?
Dei um tapinha na caixa.
— Ah, consegui o que queria. Agora, estou curiosa para ver quanto vale sua aliança.
Tarquin riu, o som ecoou na pedra e nas riquezas ao redor.
— Não estava mesmo com vontade de ir a minhas reuniões dessa tarde.
— Que jovem Grão-Senhor inconsequente e selvagem.
Tarquin me ofereceu o braço de novo, dando um tapinha no meu conforme me levava da câmara.
— Sabe, acho que também pode ser muito fácil amar você, Feyre. E mais fácil ser seu amigo.
Eu me obriguei a virar o rosto, timidamente, quando Tarquin selou a porta atrás de nós, colocando a palma da mão aberta no espaço acima da maçaneta. Ouvi o clique das trancas deslizando para o lugar.
Tarquin me levou para outros salões sob o palácio, alguns cheios de joias, outros com armas, outros com roupas de eras há muito passadas. Ele me mostrou um cheio de livros, e meu coração deu um salto — mas não havia nada ali. Nada além de couro e poeira e silêncio. Nenhuma gota de poder que desse a sensação do macho ao meu lado; nenhuma indicação do livro de que eu precisava.
Tarquin me levou para um último salão, cheio de caixas empilhadas cobertas com lençóis. E, enquanto eu olhava para as obras de arte que esperavam além da porta aberta, falei:
— Acho que já vi o bastante por hoje.
Tarquin não fez perguntas ao selar de novo a câmara e me acompanhar de volta aos andares superiores tumultuados e ensolarados.
Devia haver outros lugares em que o Livro poderia estar guardado. A não ser que fosse em outra cidade.
Eu precisava encontrá-lo. Logo. Rhys e Amren só poderiam estender os debates políticos por um tempo limitado antes de precisarmos partir. Eu só rezava para que o encontrasse rápido o suficiente... e não me odiasse mais do que já odiava.
***
Rhysand estava deitado em minha cama como se fosse o dono desta.
Olhei uma vez para as mãos cruzadas atrás da cabeça, as longas pernas jogadas sobre a beira do colchão e trinquei os dentes.
— O que você quer? — Bati a porta alto o suficiente para enfatizar o tom afiado nas palavras.
— Flertar e dar risadinhas com Tarquin não adiantou nada, suponho?
Atirei a caixa na cama ao lado de Rhys.
— Diga você.
O sorriso hesitou quando ele se sentou e abriu a tampa.
— Isso não é o Livro.
— Não, mas é um lindo presente.
— Quer que eu compre joias para você, Feyre, então peça. Mas, considerando seu guarda-roupa, achei que estivesse ciente de que tudo é comprado para você.
Não tinha percebido, mas falei:
— Tarquin é um bom macho, um bom Grão-Senhor. Deveria simplesmente pedir a ele a porcaria do Livro.
Rhys fechou a tampa.
— Então ele a enche de joias e despeja mel em seus ouvidos e agora você se sente mal?
— Ele quer sua aliança, desesperadamente. Quer confiar em você, contar com você.
— Bem, Cresseida tem a impressão de que o primo é bastante ambicioso; então, eu tomaria o cuidado de ler as entrelinhas do que ele diz.
— Ah, é? Ela disse isso a você antes, durante ou depois que a levou para a cama?
Rhys ficou de pé com um movimento gracioso e lento.
— É por isso que você não quis me olhar? Porque acha que trepei com ela por informações?
— Informações ou por seu prazer, não me importa.
Rhys deu a volta na cama, e não me movi, mesmo quando ele parou a pouco menos de um palmo entre nós.
— Ciúmes, Feyre?
— Se estou com ciúmes, então você tem ciúmes de Tarquin e o mel que ele derrama.
Rhysand mostrou os dentes.
— Acha que gosto de precisar flertar com uma fêmea solitária para conseguir informações sobre sua corte, sobre seu Grão-Senhor? Acha que me sinto bem comigo mesmo ao fazer isso? Acha que gosto de fazer isso para que você tenha espaço para manipular Tarquin com seus sorrisos e olhos lindos, para conseguirmos o Livro e irmos para casa?
— Você pareceu se divertir muito ontem à noite.
O grunhido de Rhysand saiu baixo, cruel.
— Não a levei para a cama. Cresseida queria, mas nem mesmo a beijei. Eu a levei para beber na cidade, deixei que falasse sobre a vida, as pressões, e a levei de volta ao quarto e não passei da porta. Esperei por você no café da manhã, mas você dormiu até tarde. Ou me evitou, aparentemente. E tentei olhar em seus olhos essa tarde, mas foi tão eficiente em me afastar totalmente.
— Foi isso que o deixou irritado? Que eu o afastei, ou que foi tão fácil para Tarquin se aproximar?
— O que me irritou — disse Rhys, com a respiração um pouco irregular — foi que você sorriu para ele.
O resto do mundo se dissipou em névoa quando as palavras foram absorvidas.
— Está com ciúmes.
Rhysand sacudiu a cabeça, caminhou até a pequena mesa contra a parede mais afastada e bebeu um copo de um líquido âmbar. Ele apoiou as mãos na mesa, os músculos poderosos das costas estremeceram sob a camisa quando a sombra daquelas asas lutou para tomar forma.
— Ouvi o que você disse a ele — revelou Rhys. — Que achava que seria fácil se apaixonar por ele. E foi sincera.
— E daí? — Foi a única coisa que pensei em dizer.
— Fiquei com ciúmes... disso. Porque não sou... esse tipo de pessoa. Para ninguém.
A Corte Estival sempre foi neutra; só mostrou coragem durante aqueles anos Sob a Montanha. Poupei a vida de Tarquin porque tinha ouvido falar que ele queria a igualdade entre Grão-Feéricos e feéricos inferiores. Estou tentando fazer isso há anos. Sem sucesso, mas... eu só o poupei por isso. E Tarquin, com sua corte neutra... jamais precisará se preocupar com o fato de alguém ter de fugir porque a ameaça contra a vida da pessoa, contra a vida dos filhos dela, sempre existirá. Então, sim, senti ciúmes dele, porque será sempre fácil para ele. E Tarquin jamais saberá o que é olhar para o céu à noite e desejar.
A Corte de Sonhos.
As pessoas que sabiam que havia um preço, e um que valia a pena pagar, por aquele sonho. Os guerreiros bastardos, os mestiços illyrianos, o monstro preso em um lindo corpo, a sonhadora nascida em uma corte de pesadelos... E a caçadora com alma de artista.
E talvez porque fosse a coisa mais vulnerável que ele tinha dito para mim, talvez fosse a ardência em meus olhos, mas caminhei até onde Rhys estava, no pequeno bar. Não olhei para ele quando peguei o decantador com líquido âmbar e me servi de um dedo, enchendo o copo dele em seguida.
Mas encarei Rhys quando brindei com ele, o cristal dos copos tilintou nítida e alegremente por cima do barulho do mar que quebrava abaixo, e falei:
— Às pessoas que olham para as estrelas e desejam, Rhys.
Ele pegou o copo com um olhar tão intenso que me perguntei por que tinha me dado o trabalho de corar para Tarquin.
Rhys brindou com o copo contra o meu.
— Às estrelas que ouvem e aos sonhos que são atendidos.

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