1 de fevereiro de 2017

Capítulo Trinta e Dois

Eu me dei um minuto — apenas um minuto— para me ajoelhar nos escombros do saguão de entrada.
Então, me levantei devagar, com o cuidado de não espalhar o vidro estilhaçado, a madeira ou... o sangue. Havia gotas por todo lado, junto a pequenas poças e borrões nas paredes esburacadas.
Mais uma floresta, eu disse a mim mesma. Mais um conjunto de rastros.
Devagar, me movi pelo chão, seguindo a informação restante. Fora uma luta violenta — e pelos vestígios de sangue, a maior parte dos danos à casa fora feita durante a luta, e não depois. O vidro quebrado e as pegadas iam e vinham da frente e dos fundos da casa, como se o lugar todo tivesse sido cercado. Os intrusos precisaram forçar a entrada pela porta da frente; tinham destruído completamente as que davam para o jardim.
Nenhum corpo, eu repetia para mim mesma. Não havia corpos, nem muito sangue. Eles tinham de estar vivos. Tamlin tinha de estar vivo.
Porque se estivesse morto...
Esfreguei o rosto, inspirando e estremecendo. Não me permitiria ir tão longe. Minhas mãos tremeram quando parei diante das portas da sala de jantar, ambas mal presas pelas dobradiças.
Não sabia dizer se o dano se devia à explosão de Tamlin depois da chegada de
Rhysand no dia anterior à minha partida ou se outra pessoa o havia causado. A mesa gigante estava em pedaços, as janelas, estilhaçadas, as cortinas, em frangalhos. Mas nenhum sangue; não havia sangue ali. E pelas impressões nos cacos de vidro...
Avaliei o rastro pelo chão. Tinha sido remexido, mas eu conseguia distinguir dois rastros diferentes — grandes e paralelos — que vinham de onde a mesa estivera. Como se Tamlin e Lucien estivessem sentados ali quando o ataque acontecera, e tivessem saído sem lutar.
Se eu estava certa... então, eles estavam vivos. Segui os passos até a porta, me agachando por um momento para entender os cacos revirados, a terra e o sangue. Eles tinham sido encontrados ali... por vários conjuntos de pegadas. E seguiram para o jardim...
Ouvi estalos de cacos no fim do corredor. Saquei a faca de caça e me abaixei mais na sala de jantar, procurando um lugar para me esconder. Mas tudo estava em pedaços. Sem outra opção, rastejei para trás da porta aberta. Levei uma das mãos à boca para evitar respirar alto demais, e olhei pela fenda entre a porta e a parede.
Alguém mancou para a sala e farejou. Eu só conseguia ver as costas, cobertas por um manto simples, a altura mediana... Para me encontrar, a pessoa só precisava fechar a porta. Eu estava presa. Talvez, se a pessoa entrasse mais na sala de jantar, eu conseguisse sair de fininho, mas, para isso, precisaria deixar meu esconderijo. Talvez ela apenas olhasse em volta e partisse.
A figura farejou de novo, e meu estômago se apertou. Ela conseguia sentir meu cheiro. Ousei olhar melhor, esperando encontrar uma fraqueza, um ponto para enfiar a faca se as coisas chegassem a esse ponto.
A figura se virou devagar em minha direção.
Berrei, e a figura soltou um gritinho esganiçado quando empurrei a porta.
— Alis.
Ela me olhou boquiaberta, a mão no coração, o vestido marrom de sempre rasgado e sujo, o avental desaparecera. Não estava ensanguentada; não tinha nada, exceto por um leve mancar para poupar o tornozelo direito conforme correu até mim, a pele de casca de árvore se tomara branca como bétula.
— Você não pode estar aqui. Alis observou minha faca, o arco e a aljava. — Recebeu ordens para ficar longe.
— Ele está vivo?
— Sim, mas...
Meus joelhos falharam com a descarga de alívio.
— E Lucien?
— Vivo também. Mas você não estará se não sair daqui agora.
— Conte o que aconteceu, conte tudo. — Fiquei de olho na janela, ouvindo a mansão e a propriedade ao redor. Não havia nenhum som.
Alis segurou meu braço e me puxou da sala. Ela não falou enquanto corríamos pelos corredores vazios e silenciosos demais; todos destruídos e ensanguentados, mas... sem corpos. Ou tinham sido arrastados para fora, ou... não me permiti imaginá-lo quando entramos na cozinha.
Um incêndio tinha chamuscado o enorme cômodo, que quase não passava de cinzas e pedras escurecidas. Depois de farejar e ouvir, em busca de algum sinal de perigo, Alis soltou meu braço.
— O que está fazendo aqui?
— Precisava voltar. Achei que algo estivesse errado, não podia ficar longe. Precisava ajudar.
— Ele avisou a você que não voltasse — disparou Alis.
— Onde ele está?
Alis cobriu o rosto com as mãos longas e ossudas, as pontas dos dedos se agarrando à borda superior da máscara, como se estivesse tentando arrancá-la do rosto. Mas a máscara permaneceu, e Alis suspirou quando abaixou as mãos de casca de árvore.
— Ela o levou — respondeu Alis, e meu sangue gelou. — Ela o levou para sua corte, sob a Montanha.
— Quem? — Mas eu já sabia a resposta.
— Amarantha — sussurrou Alis, e olhou de novo pela cozinha, como se tivesse medo de invocar a mulher caso dissesse seu nome.
— Por quê? E quem é ela... o que é ela? Por favor, por favor, apenas me conte... apenas me diga a verdade.
Alis estremeceu.
— Quer a verdade, menina? Então, aqui está: ela o levou por causa da maldição, porque sete anos vezes sete tinham passado, e ele não destruíra sua maldição. Ela convocou todos os Grão-Senhores para sua corte desta vez, para que assistam enquanto ela o destrói...
— O que ela... q-que maldição? — gaguejei. Uma maldição, a maldição que ela havia colocado naquele lugar. Uma maldição que eu sequer vira.
— Amarantha é a Grã-Rainha desta terra. A Grã-Rainha de Prythian — sussurrou Alis, os olhos arregalados com alguma lembrança horrível.
— Mas os sete Grão-Senhores governam Prythian igualmente. Não há Grã Rainha.
— Assim costumava ser, como sempre foi. Até cem anos atrás, quando ela surgiu nestas terras, uma emissária de Hybern. — Alis pegou uma grande sacola que devia ter deixado à porta. Já estava quase cheia do que pareciam ser roupas e mantimentos.
Enquanto ela começava a se mexer pela cozinha destruída, reunindo facas e qualquer comida que tivesse restado, pensei na informação dada pelo Suriel, sobre um rei feérico cruel, por séculos ressentido com o Tratado que fora forçado a assinar, e que enviara seus comandantes mais letais para se infiltrar nos reinos e nas cortes feéricas, para ver se eles sentiam o mesmo; para ver se poderiam considerar reclamar as terras humanas para si. Eu me recostei contra as paredes manchadas de fuligem.
— Ela foi de corte em corte — continuou Alis, que girou uma maçã na mão conforme a inspecionava, decidiu que era boa o bastante e, então, enfiou-a na sacola — seduzindo Grão-Senhores com conversas sobre mais negócios entre Hybern e Prythian, mais comunicação, mais compartilhamento de bens. A Flor que Não Desbota, era como a chamavam. E, durante cinquenta anos, ela viveu aqui, como uma cortesã não ligada a nenhuma corte, fazendo retratações, alegava ela, pelas próprias ações e as ações de Hybern durante a Guerra.
— Então ela lutou na Guerra contra os mortais?
Alis parou de recolher coisas.
— Sua história é lenda entre nosso povo; lenda e pesadelo. Ela era a general mais letal do rei de Hybern, lutou nas linhas de frente, massacrando humanos e qualquer Grão-Feérico ou feérico que ousasse defendê-los. Mas tinha uma irmã mais nova, Clythia, que lutou ao seu lado e que era tão cruel e desprezível quanto Amarantha... até que se apaixonou por um guerreiro mortal. Jurian. — Alis expirou e estremeceu. —Jurian comandava exércitos humanos poderosos, mas Clythia mesmo assim o procurava secretamente, ainda o amava com uma intensidade irrefreável. Parecia cega demais para perceber que Jurian a usava a fim de conseguir informações sobre as forças de Amarantha. Esta suspeitava disso, mas não conseguiu persuadir Clythia a deixá-lo, e não conseguiu matá-lo, pois isso causaria muita dor à irmã. — Alis emitiu um estalo com a língua e começou a abrir os armários, verificando seu interior saqueado. — Amarantha se deliciava com tortura e morte, mas amava a irmã o suficiente para permanecer fiel a ela.
— O que aconteceu? — sussurrei.
— Ah, Jurian traiu Clythia. Depois de meses suportando ser seu amante, ele conseguiu a informação de que precisava e, então, torturou e matou Clythia, crucificando-a com freixo para que não conseguisse se mover enquanto ele o fazia. Jurian deixou os pedaços de Clythia para que Amarantha os encontrasse. Dizem que a ira de Amarantha poderia ter derrubado os céus caso o rei não a proibisse de revidar. Mas Amarantha e Jurian tiveram seu confronto final mais tarde, e, desde então, Amarantha odeia humanos com uma raiva que não se pode imaginar. — Alis encontrou o que parecia ser um jarro de conservas e acrescentou-o à sacola.
— Depois que os dois lados firmaram o Tratado — disse Alis, agora verificando as gavetas —, ela massacrou os próprios escravos, em vez de libertá-los. — Fiquei pálida. — Mas, séculos depois, os Grão-Senhores acreditaram em Amarantha quando ela alegou que a morte da irmã a havia mudado.
Principalmente porque ela abriu o comércio entre nossos dois territórios. Os Grão-Senhores jamais souberam que aqueles mesmos navios que transportavam mercadorias de Hybern também traziam o exército pessoal dela. O rei de Hybern não sabia também. Mas todos logo descobrimos que, durante aqueles cinquenta anos em que esteve aqui, ela decidira que queria Prythian para si, para começar a reunir poder e usar nossas terras como base para algum dia destruir seu mundo de uma vez por todas, com ou sem a bênção do rei de Hybern. Então, há 49 anos, ela atacou.
“Amarantha sabia, sabia que mesmo com o exército pessoal, jamais conseguiria conquistar os sete Grão-Senhores com o volume de suas tropas, ou com seu poder apenas. Mas também era esperta e cruel, e esperou até que confiassem nela por completo, até fazerem um baile em sua homenagem, e, naquela noite, ela colocou uma poção roubada do livro de feitiços do rei de Hybern no vinho de todos. Depois que beberam, os Grão-Senhores ficaram prostrados, sua magia, exposta, e ela roubou seus poderes de onde se originavam, de dentro do corpo, colheu os poderes como se estivesse pegando uma maçã do galho, deixando os Grão-Senhores com apenas os elementos mais básicos da própria magia. Seu Tamlin, o que você viu aqui, era uma sombra do que costumava ser, do poder que costumava dominar. E com o poder dos Grão Senhores tão reduzido, Amarantha tomou controle de Prythian em questão de dias. Durante 49 anos, temos sido seus escravos. Durante 49 anos, ela tem se demorado, esperando pelo momento certo para quebrar o Tratado e tomar suas terras, e todos os territórios humanos além delas."
Desejei que tivesse um banquinho, um banco, uma cadeira sobre a qual eu pudesse desabar. Alis bateu a última gaveta e saiu mancando para a despensa.
— Agora eles a chamam de a Ardilosa; ela, que aprisionou os sete Grão Senhores e construiu seu palácio sob a montanha sagrada, no coração de nossa terra. — Alis parou diante da porta da despensa e cobriu o rosto de novo, respirando para se acalmar.
A montanha sagrada; aquele pico careca e monstruoso que eu vira no mural da biblioteca, tantos meses antes.
— Mas... a doença nas terras... Tamlin tinha dito que a praga levara seu poder...
Ela é a doença nestas terras — disparou Alis, abaixando as mãos e entrando na despensa. — Não há praga além dela. As fronteiras estavam desabando porque ela as destruiu. Achou divertido enviar criaturas para atacar nossas terras, para testar que força ainda restava a Tamlin.
Se a praga era Amarantha, então a ameaça ao reino humano... Ela era a ameaça ao reino humano.
Alis saiu da despensa, os braços cheios de diversas raízes comestíveis.
— Poderia ter sido você a pessoa que a impediria. — Os olhos de Alis estavam sobre mim, e ela exibiu os dentes. Eram assustadoramente afiados. Alis enfiou os nabos e as beterrabas na sacola. — Você poderia tê-lo libertado, e seu poder, caso não ignorasse seu coração. Humanos — disparou Alis.
Perdi o fôlego.
— Eu... eu... — Ergui as mãos, expondo as palmas para ela. — Eu não sabia.
— Não podia saber — disse Alis amargamente, com uma risada ríspida, como a de um corvo, quando ela entrou na despensa de nova — Era parte da maldição de Tamlin.
Minha cabeça ficou zonza e encostei com mais força contra a parede.
— O que era? — Lutei contra o tom de voz agudo. — Qual era a maldição? O que ela fez com ele?
Alis tirou jarros de especiarias que restavam na prateleira da despensa.
— Tamlin e Amarantha se conheciam de antes, a família dele tinha laços antigos com Hybern. Durante a Guerra, a Corte Primaveril se aliou a Hybern para manter os humanos escravizados. Então o pai dele, que era um senhor obstinado e cruel, era muito próximo do rei de Hybern, de Amarantha. Tamlin, quando criança, costumava acompanhá-lo em viagens para Hybern. E foi assim que conheceu Amarantha.
Tamlin certa vez me dissera que lutaria para proteger a liberdade de alguém... que nunca permitiria a escravidão. Será que era apenas por vergonha do próprio legado, ou porque ele... de alguma forma sentira na pele como era ser escravizado?
— Amarantha, por fim, cresceu e passou a desejar Tamlin, a cobiçá-lo com o coração cruel. Mas Tamlin tinha ouvido as histórias de outros sobre a Guerra e sabia o que Amarantha, o pai dele e o rei de Hybern tinham feito com feéricos e humanos. O que ela fizera com Jurian, como punição pela morte da irmã. Ele estava desconfiado quando Amarantha veio para cá, apesar das tentativas dela de levá-lo para cama, e manteve distância, até o momento em que Amarantha roubou seus poderes. Lucien... Lucien foi enviado até Amarantha, como emissário de Tamlin, para tentar negociar a paz entre eles.
Bile subiu até minha garganta.
— Ela se recusou, e... Lucien disse a Amarantha que voltasse para o esgoto de onde tinha rastejado. Ela arrancou o olho de Lucien como punição. Arrancou o olho com a própria unha, e deixou a cicatriz em seu rosto. Amarantha enviou Lucien de volta tão ensanguentado que Tamlin... O Grão-Senhor vomitou quando viu o amigo.
Eu não podia me permitir imaginar em que estado Lucien ficara, então, se tinha feito Tamlin vomitar.
Alis bateu na máscara, e o metal tilintou sob as unhas.
— Depois disso, ela deu um baile de máscaras Sob a Montanha para si mesma. Todas as cortes estavam presentes. Uma festa, dissera Amarantha, para se retratar pelo que fizera com Lucien; um baile de máscaras para que ele não precisasse revelar a cicatriz horrorosa no rosto. A Corte Primaveril inteira deveria ir, até mesmo os criados, e usar máscaras, para honrar os poderes de transformação de Tamlin, dissera Amarantha. Ele estava disposto a tentar acabar com o conflito sem mortes, e concordou em ir, em levar todos nós.
Pressionei as mãos contra a parede de pedra atrás de mim, aproveitando a frieza, a imobilidade.
Parando no meio da cozinha, Alis apoiou a sacola, agora cheia de comida e mantimentos.
— Depois que todos estavam reunidos, ela alegou que a paz poderia ser alcançada se Tamlin se unisse a ela como amante e consorte. Mas, quando Amarantha tentou tocá-lo, Tamlin se recusou a permitir que se aproximasse. Não depois do que ela fizera com Lucien. Ele disse, diante de todos naquela noite, que preferiria levar uma humana para a cama, preferiria se casar com uma humana, que tocar Amarantha. Ela poderia ter relevado caso Tamlin não tivesse dito depois que a própria irmã de Amarantha preferira a companhia de um humano à dela, que a própria irmã tinha escolhido Jurian em vez de Amarantha.
Encolhi o corpo, já sabendo o que Alis diria quando ela apoiou as mãos nos quadris e continuou.
— Você pode adivinhar como Amarantha tomou isso. Mas ela disse a Tamlin que estava com humor generoso, disse a ele que daria a chance de quebrar o feitiço que lançara a fim de roubar-lhe o poder.
“Tamlin cuspiu no rosto de Amarantha, e ela gargalhou. Disse que ele tinha sete vezes sete anos antes que Amarantha o reclamasse, antes que ele tivesse de se juntar a ela Sob a Montanha. Se quisesse quebrar a maldição, precisaria encontrar uma humana disposta a se casar com ele. Mas não qualquer garota, uma humana com gelo no coração, com ódio por nosso povo. Uma garota humana disposta a matar um feérico. — O chão tremeu sob mim, e fiquei grata pela parede na qual estava encostada. — Pior, o feérico que ela matasse precisava ser um dos homens de Tamlin, enviados para o outro lado do muro por ele, como cordeiros para o abatedouro. A garota só poderia ser trazida para cá a fim de ser cortejada caso matasse um de seus homens em um ataque não provocado, caso o matasse apenas por ódio, exatamente como Jurian fizera com
Clythia... Assim, ele poderia entender a dor da irmã de Amarantha.”
— O Tratado...
— Aquilo foi uma mentira. Não havia previsão daquilo no Tratado. Você pode matar tantos feéricos inocentes quanto quiser e jamais sofrer as consequências. Você simplesmente matou Andras, sentinela de Tamlin, enviado pelo Grão Senhor como o sacrifício daquele dia. — Andras estava procurando uma cura, dissera Tamlin. Não para uma praga mágica, mas uma cura para salvar Prythian de Amarantha, uma cura para a maldição.
O lobo... Andras apenas... me encarara antes de eu o matar. Deixou que eu o matasse. Para que aquela cadeia de eventos tivesse início, para que Tamlin pudesse ter a chance de quebrar o feitiço. E, se Tamlin tinha enviado Andras para o outro lado do muro, sabendo que ele poderia muito bem morrer... Ah, Tamlin.
Alis parou a fim de pegar uma faca de manteiga, retorcida e dobrada, e, devagar, com cuidado, esticou a lâmina.
— Foi uma piada cruel, uma punição inteligente para Amarantha. Vocês humanos odeiam e temem tanto os feéricos que seria impossível, impossível que a mesma garota que matasse um feérico a sangue frio se apaixonasse por outro. Mas o feitiço sobre Tamlin só poderia ser quebrado se ela fizesse exatamente isso, antes que os 49 anos tivessem terminado, se a garota dissesse a ele que o amava sinceramente, de coração. Amarantha sabe que humanos se preocupam com beleza, e, por isso, prendeu as máscaras aos nossos rostos, ao rosto dele, para que fosse mais difícil encontrar uma garota disposta a olhar além da máscara, além da natureza feérica, para a alma abaixo. Depois, ela nos aprisionou, para que não pudéssemos dizer uma palavra sobre a maldição. Nem uma. Mal podíamos contar para você coisas sobre nosso mundo, sobre nosso destino. Ele mesmo não podia contar a você, nenhum de nós podia. As mentiras sobre a praga eram o melhor que podia fazer, o melhor que todos podíamos fazer. Se eu consigo contar agora, significa que, para ela, tudo acabou.
Alis colocou a faca no bolso.
— Assim que ela o amaldiçoou, diariamente Tamlin mandava um dos homens para o outro lado da muralha. Para os bosques, fazendas, todos disfarçados de lobos para que fosse mais provável que um dos seus os quisesse matar. Quando eles voltavam, vinham com histórias de garotas humanas que corriam e gritavam e imploravam, que sequer erguiam a mão. Quando eles não voltavam, a ligação de Tamlin com eles, como senhor e mestre, dizia a ele que tinham sido mortos por outros. Caçadores humanos, mulheres mais velhas, talvez. Por dois anos ele os enviou, dia após dia, precisando escolher quem atravessava a muralha. Quando restava apenas uma dúzia deles, Tamlin ficou tão arrasado que parou. Cancelou tudo. E, desde então, ele ficou aqui, defendendo as fronteiras conforme o caos e a desordem reinavam nas outras cortes dominadas por Amarantha. Os outros Grão-Senhores revidaram também. Há quarenta anos, ela executou três deles e a maioria das suas famílias por terem se unido contra ela.
— Uma revolta? Que cortes? — Estiquei o corpo, me afastando um passo da parede. Talvez pudesse encontrar aliados entre eles para me ajudar a salvar Tamlin.
— A Corte Diurna, a Corte Estival, a Corte Invernal. E não, não foi tão longe ao ponto de ser considerada uma revolta. Amarantha usou os poderes dos Grão Senhores para nos aprisionar à terra. Então, os senhores rebeldes tentaram pedir a ajuda dos outros territórios feéricos usando como mensageiros os humanos que fossem tolos o suficiente para entrar em nossas terras, a maioria deles jovens mulheres que nos adoravam como deuses.
Os Filhos dos Abençoados. Tinham mesmo cruzado a muralha, mas não para serem noivas. Eu estava chocada demais pelo que tinha ouvido para ficar triste por eles, sentir ódio por eles.
— Mas Amarantha pegou todos antes que deixassem este litoral — continuou Alis — e... pode imaginar como a coisa terminou para aquelas garotas. Depois, quando Amarantha já havia também massacrado os Grão-Senhores rebeldes, os sucessores destes ficaram apavorados demais para desafiar sua ira de novo.
— E onde eles estão agora? Podem viver nas próprias terras como Tamlin?
— Não. Ela os mantém, e a suas cortes inteiras, sob a Montanha, onde pode atormentá-los como quiser. Outros... aos outros, caso jurem aliança, caso se curvem e sirvam a ela, Amarantha permite um pouco mais de liberdade para ir e vir de Sob a Montanha conforme quiserem. Nossa corte só teve permissão de ficar aqui até que acabasse a maldição de Tamlin, mas... — Alis estremeceu.
— É por isso que escondeu seus sobrinhos, para mantê-los longe disto — falei baixinho, olhando para a sacola cheia aos pés de Alis.
Ela assentiu, e, quando seguiu até a mesa virada, eu me mexi para ajudar, e nós duas grunhimos por causa do peso.
— Minha irmã e eu servíamos na Corte Estival, e ela e o parceiro estavam entre aqueles executados por despeito assim que Amarantha invadiu. Peguei os meninos e fugi antes que Amarantha arrastasse todos para Sob a Montanha. Vim para cá... porque era o único lugar que tinha para ir, e pedi que Tamlin escondesse meus meninos. Ele os escondeu e, quando implorei que ele me deixasse ajudar, de qualquer forma, mesmo que pouco, Tamlin me deu um posto aqui, dias antes do baile de máscaras que pôs esta coisa desprezível em meu rosto. Então, estou aqui há quase cinquenta anos, observando enquanto as garras de Amarantha se apertavam no pescoço de Tamlin.
Colocamos a mesa de pé de novo, e nós duas ofegamos um pouco ao nos inclinarmos sobre ela.
— Ele tentou — falou Alis. — Mesmo com os espiões de Amarantha, ele tentou encontrar formas de quebrar a maldição, de fazer qualquer coisa contra ela, a fim de não precisar enviar os homens de novo, para que fossem mortos por humanos. Tamlin achou que, se a garota humana o amasse de verdade, então trazê-la para cá a fim de libertá-lo seria outra forma de escravidão. E Tamlin achou que, se de fato se apaixonasse por ela, Amarantha faria de tudo para destruir a garota, como a irmã dela fora destruída. Então, Tamlin passou décadas se recusando a fazer aquilo, a sequer arriscar. Mas, neste inverno, faltando meses, ele simplesmente... perdeu a cabeça. Enviou os últimos homens além da muralha, um a um. E eles estavam dispostos, tinham implorado para ir, durante muitos anos. Tamlin estava desesperado para salvar seu povo, desesperado o suficiente para arriscar as vidas dos próprios homens, arriscar a vida da garota humana a fim de nos salvar. Depois de três dias, Andras finalmente esbarrou em uma garota humana no meio de uma clareira, e você o matou com ódio no coração.
Mas eu havia falhado. E, ao fazer aquilo, condenara todos.
Eu condenara cada pessoa naquela propriedade, condenara a própria Prythian.
Estava feliz por me apoiar contra a borda da mesa... caso contrário, teria caído no chão.
— Você poderia ter quebrado o feitiço — grunhiu Alis, aqueles dentes afiados a meros centímetros de meu rosto. — Só precisava ter dito que o amava, dito que o amava com sinceridade, com todo o seu inútil coração humano, e o poder dele teria sido libertado. Sua garota burra, burra.
Não era surpresa que Lucien tivesse se ressentido de mim, mas ainda tolerara minha presença; não era surpresa que ele tivesse ficado tão amargamente desapontado quando parti, que tivesse discutido com Tamlin para que ele me deixasse ficar mais.
— Desculpe — falei, os olhos queimando.
Alis deu um riso de escárnio.
— Diga isso a Tamlin. Ele só tinha três dias depois que você partiu antes do fim dos 49 anos. Três dias, e libertou você. Ela veio até aqui, com os seguidores, no exato momento em que os sete anos vezes sete acabaram, e o pegou, com a maior parte da corte, e os levou para Sob a Montanha, para serem seus súditos. Criaturas como eu são inferiores demais para ela, embora ela não deixe de nos assassinar por diversão.
Tentei não visualizar a cena.
— Mas e quanto ao rei de Hybern, se ela conquistou Prythian para si e lhe roubou os feitiços, então ele a vê como insubordinada ou aliada?
— Se o relacionamento está abalado, o rei não fez menção de punir Amarantha. Durante 49 anos, ela manteve estas terras em suas garras. Pior, depois que os Grão-Senhores caíram, todos os seres cruéis de nossas terras, aqueles terríveis demais até para a Corte Noturna, se juntaram a ela como em rebanho. Ainda o fazem. Amarantha lhes ofereceu asilo, mas sabemos, sabemos que ela está montando um exército, lentamente aguardando o momento de lançar um ataque contra o mundo mortal, armada com os feéricos mais letais e cruéis de Prythian e de Hybern.
— Como o Attor — falei, horror e pesar revirando meu estômago, e Alis assentiu. — No território humano — falei —, rumores dizem que mais e mais feéricos têm passado pela muralha para atacar humanos. E, se nenhum feérico pode atravessar a muralha sem a permissão dela, então isso só pode significar que Amarantha está permitindo esses ataques.
E, se eu estava certa a respeito do que tinha acontecido com Clare Beddor e sua família, então Amarantha ordenara aquilo também.
Alis limpou uma sujeira que eu não consegui ver na mesa sobre a qual estávamos apoiadas.
— Eu não ficaria surpresa se ela tivesse enviado seus lacaios para o reino humano a fim de investigar suas forças e fraquezas em antecipação à destruição que um dia espera causar.
Aquilo era pior, muito pior do que eu havia pensado quando avisei a Nestha e minha família para que ficassem alertas e partissem ao menor sinal de problemas. Senti enjoo ao pensar em que tipo de companhia Tamlin teria, enjoo ao pensar nele tão desesperado, tão tomado pela culpa e pelo luto por precisar sacrificar sentinelas e jamais poder me contar... E ele havia me libertado. Permitirá que todos os sacrifícios, que o sacrifício de Andras fosse em vão.
Tamlin sabia que, se eu ficasse, correria o risco de sofrer a ira de Amarantha, mesmo que o libertasse.
— Nem mesmo consigo me proteger deles, do que está acontecendo em Prythian... Mesmo que tivéssemos chance contra a praga... eles caçariam você, ela encontraria uma forma de matá-la.
Lembrei daquele esforço patético de me elogiar quando cheguei — e, depois, ele desistiu daquilo, de qualquer tentativa de me conquistar quando eu pareci tão desesperada para partir, para jamais falar com ele. Mas Tamlin se apaixonou por mim apesar daquilo, soubera que eu o amara, e me libertara com poucos dias restantes. Ele me colocou à frente de toda a corte, à frente de toda Prythian.
— Se Tamlin fosse libertado, se ele tivesse os poderes restaurados — falei, encarando uma parte escurecida da parede —, ele conseguiria destruir Amarantha?
— Não sei. Ela enganou os Grão-Senhores usando a inteligência, não a força. Magia é algo específico, que segue regras, e Amarantha as manipulou bem demais. Ela mantém os poderes deles trancados dentro de si, como se não pudesse usá-los, ou pudesse acessar muito pouco deles, pelo menos. Amarantha tem os próprios poderes fatais e, se tiver de lutar...
— Mas ele é mais forte? — perguntei, entrelaçando as mãos.
— Ele é um Grão-Senhor — respondeu Alis, como se aquilo fosse argumento suficiente. — Mas nada disso importa agora. Tamlin deverá ser escravo dela, e todos deveremos usar estas máscaras até que ele concorde em ser o amante de Amarantha, e, mesmo assim, jamais recuperará os poderes por completo. E Amarantha jamais permitirá que aqueles que estão Sob a Montanha partam.
Eu me afastei da mesa e estiquei os ombros.
— Como chego a Sob a Montanha?
Alis emitiu um estalo com a língua.
— Não pode ir até Sob a Montanha. Nenhum humano que vai jamais volta.
Fechei o punho com tanta força que minhas unhas arranharam minha pele.
— Como. Chego. Lá.
— Isso é suicídio; ela vai matar você, mesmo que chegue perto o bastante para vê-la.
Amarantha tinha enganado Tamlin; ela o ferira muito. Ferira muito todos eles.
— Você é humana — continuou Alis, ficando de pé também. — Sua pele é fina como papel.
Amarantha também devia ter levado Lucien; Amarantha tinha arrancado o olho de Lucien e o deixara com aquela cicatriz. Será que a mãe de Lucien sentia tristeza por ele?
— Você estava cega demais para ver a maldição de Tamlin — continuou Alis. — Como espera enfrentar Amarantha? Vai piorar as coisas.
Amarantha tinha levado tudo que eu queria, tudo que eu finalmente ousara desejar.
— Mostre o caminho — falei, a voz hesitante, mas não com lágrimas.
— Não — disse Alis, passando a sacola por cima do ombro. — Vá para casa. Levo você até a muralha. Não há o que ser feito agora. Tamlin vai permanecer escravo para sempre, e Prythian ficará sob o domínio de Amarantha. Foi isso que o Destino quis, assim decidiu o Curso do Caldeirão.
— Não acredito em Destino. Muito menos acredito em um Caldeirão ridículo.
Alis balançou a cabeça de novo, os cabelos castanhos selvagens eram como lama reluzente à luz fraca.
— Me leve até ela — insisti.
Se Amarantha rasgasse minha garganta... pelo menos eu morreria fazendo algo por ele, pelo menos morreria tentando consertar a destruição que não tinha evitado, tentando salvar o povo que eu havia condenado. Pelo menos Tamlin saberia que eu estava fazendo aquilo por ele, e que eu o amava.
Alis me observou por um momento antes de seu olhar se suavizar.
— Como quiser.

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