2 de fevereiro de 2017

Capítulo Trinta e Cinco

Dois dias se passaram. Cada momento era um número de malabarismo entre a verdade e as mentiras. Rhys se certificou de que eu não fosse convidada para as reuniões que ele e Amren convocaram para distrair meu gentil anfitrião, o que me deu tempo para vasculhar a cidade em busca de qualquer sinal do Livro.
Mas não muito ansiosamente; não muito avidamente. Eu não podia parecer intrigada demais conforme percorresse as ruas e as docas, não podia fazer muitas perguntas tendenciosas às pessoas que encontrasse, a respeito dos tesouros e das lendas de Adriata. Mesmo quando acordei, ao alvorecer, me obriguei a esperar até uma hora razoável antes de sair pela cidade, me obriguei a tomar um banho demorado para secretamente praticar aquela magia de água. E embora moldar animais de água hora após hora tivesse se tornado entediante... era fácil para mim. Talvez por causa da proximidade com Tarquin, talvez por causa de qualquer que fosse a afinidade com a água que já estivesse em meu sangue, minha alma — embora eu certamente não estivesse em posição para perguntar.
Depois que o café da manhã foi finalmente servido e consumido, me certifiquei de parecer um pouco entediada e sem rumo quando saí pelos corredores iluminados do palácio a caminho da cidade que despertava.
Quase ninguém me reconheceu conforme eu casualmente examinava as lojas e as casas e as pontes, em busca de qualquer lampejo de um feitiço que tivesse a sensação de Tarquin, embora duvidasse que tivessem motivo para isso. Haviam sido os Grão Feéricos — a nobreza — que foram mantidos Sob a Montanha. Aquelas pessoas foram deixadas ali... para serem atormentadas.
Cicatrizes cobriam os prédios, as ruas, pelo que tinha sido feito em retaliação à rebelião deles: queimaduras, pedras sulcadas, prédios inteiros transformados em escombros. Os fundos do castelo, conforme Tarquin alegara, pareciam realmente no meio de uma obra. Três torres de vigia estavam pela metade, a pedra marrom, chamuscada e quebradiça. Nenhum sinal do Livro. Trabalhadores se ocupavam ali — e por toda a cidade —, consertando aquelas áreas quebradas.
Exatamente como as pessoas que eu via — Grão-Feéricos e feéricos com escamas e guelras e longos e finos dedos palmados; todos pareciam estar se curando lentamente. Havia cicatrizes e membros faltando em mais de um que contei. Mas nos olhos... nos olhos, a luz brilhava.
Eu também os salvara.
Libertara-os de quaisquer que fossem os horrores que ocorreram durante aquelas cinco décadas.
Tinha feito algo terrível para salvá-los... mas os salvara.
E jamais seria o suficiente para me redimir, mas... Eu não me sentia tão pesada, apesar de não encontrar um lampejo da presença do Livro, quando voltei ao palácio no alto da colina na terceira noite para esperar o relatório de Rhysand sobre as reuniões do dia; e saber se ele tinha descoberto alguma coisa também.
Conforme subi os degraus do palácio, me xingando por permanecer tão fora de forma mesmo com as lições de Cassian, vi Amren empoleirada na beira da varanda de uma torre de vigia, limpando as unhas.
Varian estava encostado à soleira da varanda de outra torre, ao alcance de um salto — e me perguntei se ele estava imaginando se conseguiria cobrir aquela distância rápido o bastante para empurrar Amren.
Um gato brincando com um cão... era o que aquilo era. Amren estava praticamente tomando banho, silenciosamente desafiando-o a se aproximar o bastante para farejá-la.
Duvidei de que Varian fosse gostar das garras dela.
A não ser que fosse por isso que ele a seguisse dia e noite.
Sacudi a cabeça, continuei a subir os degraus — observando conforme a maré baixava.
O céu manchado pelo pôr do sol se refletia na água e na lama exposta pela maré baixa. Um pouco de brisa noturna passou sussurrando por mim, e me inclinei em sua direção, deixando que esfriasse meu suor. Certa vez houve um tempo em que eu odiava o fim do verão, rezava para que se estendesse pelo máximo de tempo possível. Agora, pensar no calor interminável e no sol me deixava... entediada. Inquieta.
Estava prestes a voltar para as escadas quando vi o trecho de terra que tinha sido revelado próximo ao quebra-mar. O pequeno prédio.
Não era à toa que eu não o tinha visto, pois jamais subira tanto durante o dia quando a maré baixava... E durante o resto do dia, pela lama e pelas algas que agora reluziam ali, aquela área estaria totalmente submersa.
Mesmo agora, estava submersa pela metade. Mas eu não conseguia desviar os olhos.
Como se aquele fosse um pedacinho de meu lar, por mais que parecesse molhado e deprimente, e eu só precisava correr pelo quebra-mar enlameado entre a parte mais tranquila da cidade e o continente — muito, muito rápido, e, então, poderia alcançá-lo antes que sumisse sob as ondas de novo.
Mas o local era visível demais, e, de longe, eu não conseguia dizer com certeza se era o Livro que ele continha.
Precisaríamos ter certeza absoluta antes de entrarmos... para afastar os riscos da busca. Certeza absoluta.
Desejei não o ter, mas percebi que já tinha um plano para aquilo também.
***
Jantamos com Tarquin, Cresseida e Varian em sua sala de jantar de família — uma indicação certeira de que o Grão-Senhor queria mesmo aquela aliança, com ou sem ambição.
Varian observava Amren como se estivesse tentando resolver uma charada que ela propusera a ele, e Amren não lhe deu qualquer atenção conforme debatia com Cresseida as diversas traduções de algum texto antigo. Eu me aproximava de minha pergunta, contando a Tarquin as coisas que tinha visto na cidade naquele dia — os peixes frescos que comprara nas docas.
— Você comeu lá — comentou Tarquin, erguendo as sobrancelhas.
Rhys apoiou a cabeça no punho enquanto eu falava:
— Eles fritaram com o almoço dos outros pescadores. Não me cobraram a mais por isso.
Tarquin soltou uma risada impressionada.
— Não posso dizer que já fiz isso, marinheiro ou não.
— Deveria — aconselhei, sincera em cada palavra. — Estava delicioso.
Eu estava usando o colar que Tarquin me dera, e Nuala planejara minha roupa a partir da joia. Decidimos por cinza — um tom suave, colombino — para exibir o preto reluzente. Não usei mais nada: nenhum brinco, nenhuma pulseira, nenhum anel. Tarquin parecera satisfeito com aquilo, embora Varian tivesse engasgado ao me ver usando uma herança de sua casa. Cresseida, surpreendentemente, me disse que combinava comigo e que não se adequava àquele lugar mesmo. Um elogio às avessas, mas era o bastante.
— Bem, talvez eu vá amanhã. Se você se juntar a mim.
Sorri para Tarquin, ciente de todos os sorrisos que oferecia a ele agora que Rhys tinha comentado. Além de me dar breves atualizações noturnas sobre a falta de progresso com a descoberta de qualquer coisa a respeito do Livro, não havíamos conversado de verdade desde aquela noite em que eu lhe enchera o copo; embora fosse por causa de nossos dias cheios, não de estranheza.
— Eu gostaria disso — falei. — Talvez pudéssemos caminhar de manhã no quebramar, quando a maré estiver baixa. Tem aquele pequeno prédio no caminho, parece fascinante.
Cresseida parou de falar, mas prossegui, tomando vinho.
— Acho que, como já vi a maior parte da cidade agora, poderia ver essa construção quando formos visitar parte do continente também.
O olhar de Tarquin para Cresseida foi toda a confirmação de que eu precisava.
Aquele prédio de pedra de fato guardava o que procurávamos.
— É a ruína de um templo — explicou Tarquin, simplesmente, a mentira suave como seda. — Apenas lama e alga por enquanto. Estamos querendo restaurá-lo há anos.
— Talvez seja melhor pegarmos a ponte então. Já chega de lama por um tempo.
Lembre-se de que o salvei, que lutei contra o V erme de Middengard, esqueça a ameaça...
Os olhos de Tarquin encararam os meus — por um momento longo demais.
Na duração de um piscar de olhos, disparei meu poder silencioso e oculto em sua direção, uma lança apontada para a mente de Tarquin, para aqueles olhos desconfiados.
Havia um escudo erguido; um escudo de vidro marinho e coral e o mar ondulante.
Eu me tornei aquele mar, me tornei o sussurro de ondas contra pedra, o brilho da
luz do sol nas asas brancas de uma gaivota. Eu me tornei ele — me tornei aquele escudo mental.
Então, passei por ele, uma corda nítida, escura, me mostrava o caminho de volta caso eu precisasse. Deixei que o instinto, sem dúvida vindo de Rhys, me guiasse para a frente. Para o que eu precisava ver.
Os pensamentos de Tarquin me atingiram como pedrinhas. Por que ela pergunta sobre o templo? De todas as coisas que ela podia mencionar... Ao meu redor, eles continuaram comendo. Eu continuei comendo. Obriguei meu rosto, em um corpo diferente, em um mundo diferente, a sorrir encantadoramente.
Por que quiseram tanto vir? Por que perguntar sobre meu tesouro?
Como ondas batendo, lancei meus pensamentos sobre os dele.
Ela é inofensiva. É boa, e triste, e partida. Você a viu com seu povo — viu como ela os tratou. Como trata você. Amarantha não destruiu essa bondade.
Despejei meus pensamentos para Tarquin, tingindo-os com maresia e o canto das andorinhas-do-mar — envolvendo-os na essência que era Tarquin, a essência que ele me dera.
Leve-a para o continente amanhã. Isso a impedirá de perguntar sobre o templo. Ela salvou Prythian. É sua amiga.
Meus pensamentos se assentaram em Tarquin como uma pedra solta em um lago. E quando a desconfiança se dissipou de seus olhos, eu soube que meu trabalho estava feito.
Recuei mais e mais, deslizando por aquela muralha de oceano e pérola, me recolhendo para dentro até que meu corpo fosse uma jaula ao meu redor.
Tarquin sorriu.
— Vamos nos encontrar depois do café da manhã. A não ser que Rhysand me queira levar para mais reuniões. — Nem Cresseida nem Varian sequer olharam para Tarquin.
Será que Rhys cuidara de suas suspeitas?
Um raio percorreu meu sangue, mesmo conforme ele gelou quando percebi o que havia feito...
Rhys gesticulou com a mão preguiçosa.
— Por favor, Tarquin, passe o dia com minha senhora.
Minha senhora. Ignorei as duas palavras. Mas afastei meu próprio assombro diante do que eu realizara, do horror que se acumulava devagar diante da violação invisível da qual Tarquin jamais saberia.
Eu me inclinei para a frente, apoiando os antebraços expostos na mesa fria de madeira.
— Conte o que há para ver no continente — disse a Tarquin, e desviei o assunto do templo no quebra-mar.
***
Rhys e Amren esperaram até que as luzes da casa diminuíssem antes de irem até meu quarto.
Eu estava sentada na cama, contando os minutos, armando meu plano. Nenhum dos quartos de hóspedes dava para o quebra-mar, como se não quisessem que ninguém o notasse.
Rhys chegou primeiro e se inclinou contra a porta fechada.
— Como você aprende rápido. A maioria do daemati leva anos para dominar esse tipo de infiltração.
Minhas unhas se enterraram nas palmas das mãos.
— Você sabia... que eu fiz aquilo? — Dizer as palavras em voz alta pareceu demais, pareceu... real demais.
Um aceno breve de cabeça.
— E que trabalho de especialista você fez, usando a essência dele para enganar os escudos de Tarquin, para passar por eles... Senhora esperta.
— Ele jamais me perdoará — sussurrei.
— Ele jamais saberá. — Rhys inclinou a cabeça, e os cabelos pretos sedosos caíram sobre sua testa. — Você se acostuma. Com a sensação de que está ultrapassando um limite, de que o está violando. Se ajuda, não gostei muito de convencer Varian e Cresseida a encontrar outros assuntos mais interessantes.
Abaixei o olhar para o piso de mármore pálido.
— Se não tivesse cuidado de Tarquin — continuou ele —, provavelmente estaríamos enterrados até o joelho em bosta agora.
— A culpa foi minha mesmo, fui eu quem perguntou sobre o templo. Só estava limpando minha sujeira. — Sacudi a cabeça. — Não parece certo.
— Nunca parece. Ou não deveria parecer. Muitos daemati perdem essa noção. Mas aqui, esta noite... os benefícios foram maiores que os custos.
— Também é isso que disse a si mesmo quando entrou em minha mente? Qual foi o benefício então?
Rhys se afastou da porta, caminhando até onde eu estava sentada na cama.
— Há partes de sua mente que deixei intactas, coisas que pertencem apenas a você, e sempre pertencerão. E quanto ao resto... — O maxilar de Rhys se contraiu. — Você me apavorou durante um bom tempo, Feyre. Mandando sensações daquela forma... Eu não podia sair andando para dentro da Corte Primaveril e perguntar como você estava, podia? — Passos leves soaram no corredor: Amren. Rhys me encarou, no entanto, ao dizer: — Explico o resto outra hora.
A porta se abriu.
— Parece um lugar idiota para esconder um livro — disse Amren, como um cumprimento, ao entrar, sentando-se na cama.
— E o último lugar em que alguém procuraria — argumentou Rhys, se afastando de mim para sentar no banquinho da penteadeira diante da janela. — Poderiam protegê-lo facilmente com feitiços contra água e erosão. Um lugar apenas visível por breves momentos ao longo do dia, quando a terra ao redor está exposta para que todos vejam?
Não poderia haver lugar melhor. Temos os olhos de milhares nos observando.
— Então, como entramos? — perguntei.
— Provavelmente está guardado contra travessia — disse Rhys, apoiando os antebraços nas coxas. — Não vou arriscar soar algum alarme ao tentar. Então, vamos à noite, à moda antiga. Posso carregar vocês duas e, depois, montar guarda — acrescentou Rhys, quando ergui as sobrancelhas.
— Tão galanteador — ironizou Amren — fazer a parte fácil, e então deixar que nós, fêmeas indefesas, chafurdemos na lama e nas algas marinhas.
— Alguém precisa circular alto o bastante para ver qualquer um se aproximando, ou soando um alarme. E ocultar vocês de vista.
Franzi a testa.
— As trancas respondem ao toque dele; tomara que respondam ao meu.
— Quando agimos? — indagou Amren.
— Amanhã à noite — respondi. — Observaremos os turnos dos guardas esta noite durante a maré baixa, descobriremos onde estão os vigias. Quem podemos precisar eliminar antes de agirmos.
— Você pensa como um illyriano — murmurou Rhys.
— Acredito que isso deveria ser um elogio — confidenciou Amren.
Rhys riu com escárnio, e sombras se reuniram ao redor dele quando o Grão-Senhor afrouxou o controle sobre o poder.
— Nuala e Cerridwen já estão agindo dentro do castelo. Vou tomar os céus. Vocês duas deveriam sair para uma caminhada à meia-noite, considerando o quanto está quente. — Então, ele se foi com um farfalhar de asas invisíveis e uma brisa morna e escura.
Os lábios de Amren estavam vermelhos como sangue ao luar. Eu sabia quem teria a incumbência de eliminar qualquer olho espião, e acabaria com uma refeição. Minha boca secou um pouco.
— Que tal um passeio?

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