1 de fevereiro de 2017

Capítulo Três

A neve pisoteada, cobrindo a estrada para nossa aldeia, estava salpicada de marrom e preto por conta do tráfego de carroças e cavalos. Elain e Nestha emitiam estalos com a língua e faziam caretas conforme seguíamos pela estrada, desviando das partes especialmente nojentas. Eu sabia por que tinham vindo; elas olharam uma vez para as peles que eu havia dobrado na sacola e pegaram as capas.
Não me dei o trabalho de falar com elas, pois as duas não se dignaram a falar comigo depois da noite anterior, embora Nestha tivesse acordado ao amanhecer para cortar lenha. Provavelmente porque sabia que eu venderia as peles no mercado naquele dia e voltaria para casa com dinheiro no bolso. Elas me seguiram pela estrada solitária, caminhando pelos campos cobertos de neve, até nossa aldeia em ruínas.
As casas de pedra da aldeia eram medíocres e entediantes, e pareciam ainda mais tristes pela desolação do inverno. Mas era dia de mercado, o que significava que a minúscula praça no centro da aldeia estaria cheia de todo tipo de mercadores que tivessem encarado a manhã gelada.
A um quarteirão, o cheiro de comida quente pairava no ar; temperos que incitavam o fundo de minha memória, chamando. Elain soltou um grunhido baixo atrás de mim. Temperos, sal, açúcar — mercadorias raras para a maioria dos habitantes de nossa aldeia, impossíveis de comprar.
Se eu me saísse bem no mercado, talvez tivesse o suficiente para comprar algo delicioso para nós. Olhei para trás, abrindo a boca para sugerir, mas viramos a esquina e quase tropeçamos umas nas outras quando paramos ao mesmo tempo.
— Que a Luz Imortal brilhe sobre vocês, irmãs — disse a jovem de túnica pálida diretamente em nosso caminho.
Nestha e Elain estalaram a língua; contive um gemido. Perfeito. Exatamente do que precisava, os Filhos dos Abençoados na aldeia, em dia de mercado, distraindo e agitando todos. Os anciões da aldeia costumavam permitir que eles permanecessem ali apenas por algumas horas, mas a mera presença dos tolos fanáticos que ainda adoravam os Grão-Feéricos deixava as pessoas nervosas. Me deixava nervosa. Há muito tempo, os Grão-Feéricos tinham sido nossos senhores supremos — não deuses. E eles certamente não foram bondosos.
A jovem estendeu as mãos brancas como a lua em um gesto de cumprimento, um bracelete de sinos de prata — prata de verdade — tilintando no pulso.
— Têm um momento para poder ouvir a Palavra dos Abençoados?
— Não — rebateu Nestha com desprezo, ignorando as mãos da garota e cutucando Elain para que caminhasse. — Não temos.
Os cabelos escuros e soltos da jovem reluziam à luz da manhã, e seu rosto limpo e descansado brilhava enquanto a garota abria um belo sorriso. Havia cinco outros acólitos atrás dela, rapazes e mulheres, de cabelos longos, não cortados; todos perscrutando o mercado em busca de jovens para incomodar.
— Só levará um minuto — disse a seguidora, postando-se à frente de Nestha.
Era impressionante — impressionante mesmo — ver Nestha ficar ereta como uma vareta, esticar os ombros e olhar com o nariz empinado para a jovem, como uma rainha sem trono.
— Vá cuspir suas baboseiras fanáticas para algum tolo. Não vai encontrar ninguém para converter aqui.
A garota se encolheu de volta, uma sombra perpassou seus olhos castanhos. Contive minha vontade de encolher o corpo. Talvez não fosse o melhor jeito de lidar com eles, pois poderiam se tornar um verdadeiro transtorno quando agitados...
Nestha ergueu a mão e puxou a manga do casaco para mostrar o bracelete de ferro ali. O mesmo que Elain usava; elas haviam comprado adornos combinados anos antes. A seguidora arquejou, os olhos arregalados.
— Está vendo isto? — ciciou Nestha, dando um passo à frente. A seguidora recuou. — É isto que deveria estar usando. Não uns sininhos de prata para atrair aqueles monstros feéricos.
— Como ousa usar essa afronta vil contra nossos amigos imortais...
— Vá pregar em outra aldeia — disparou Nestha.
Duas bonitas e gorduchas esposas de fazendeiros passaram andando a caminho do mercado, de braços dados. Conforme se aproximaram dos acólitos, seus rostos se contorceram com expressões idênticas de desprezo.
Prostituta amante de feéricos — grunhiu uma delas para a jovem. Eu não pude discordar.
Os acólitos ficaram em silêncio. A outra aldeã — abastada o suficiente para ter um colar farto de ferro trançado ao redor da garganta — semicerrou os olhos, o lábio superior se afastando dos dentes.
— Vocês, idiotas, não entendem o que aqueles monstros fizeram conosco durante tantos séculos? O que ainda fazem, por diversão, quando podem sair impunes? Vocês merecem o fim que encontrarão nas mãos dos feéricos. Tolos e prostitutas, todos vocês.
Nestha assentiu para as mulheres conforme seguiram seu caminho. Nós nos voltamos para a jovem que ainda pairava diante de nós, e até mesmo Elain franziu a testa com desprezo.
Mas a jovem respirou fundo, o rosto mais uma vez se tornando sereno, e falou:
— Eu vivia nessa ignorância também, até ouvir a Palavra dos Abençoados. Cresci em uma aldeia parecida com esta, tão desolada e sombria quanto. Mas, há menos de um mês, uma amiga de minha prima foi para a fronteira, como oferenda a Prythian, e não retornou. Agora, vive entre riquezas e conforto, como a noiva de um Grão-Feérico, e vocês também poderiam se parassem um momento para...
— Ela provavelmente foi devorada — ciciou Nestha. — Por isso não voltou.
Ou pior, pensei, se um Grão-Feérico estava realmente envolvido em encorajar a entrada de uma humana em Prythian. Nunca encontrei os Grão Feéricos cruéis e vagamente semelhantes a humanos que governavam a própria Prythian, ou os feéricos que ocupavam as terras deles, com escamas e asas, e longos braços pendentes que poderiam arrastar alguém para muito, muito abaixo da superfície. Eu não sabia o que seria pior de enfrentar.
O rosto da seguidora se contraiu.
— Nossos mestres benevolentes jamais nos feririam de tal forma. Prythian é uma terra de paz e fartura. Caso os abençoassem com sua atenção, vocês ficariam felizes por viver entre eles.
Nestha revirou os olhos. Elain lançava olhares de nós para o mercado adiante — para os aldeões que agora também nos observavam. Era hora de ir.
Nestha abriu a boca de novo, mas me coloquei entre elas e percorri os olhos pelas vestes azul-pálidas da jovem, as joias de prata, a limpeza profunda da pele. Não havia marca ou sujeira.
— Você está lutando uma batalha vencida — declarei.
— Uma causa digna. — A garota deu um sorriso beato.
Dei um leve empurrão em Nestha para que saísse andando, e então falei para a seguidora:
— Não, não é.
Pude sentir a atenção dos acólitos ainda sobre nós conforme caminhamos para a movimentada praça do mercado, mas não olhei para trás. Eles iriam embora logo, pregar em outra aldeia. Precisaríamos tomar um caminho mais longo para fora da aldeia a fim de evitá-los. Quando nos afastamos o bastante, olhei por cima do ombro para minhas irmãs. O rosto de Elain permanecia fixo com espanto, mas os olhos de Nestha pareciam tempestuosos, os lábios, contraídos. Imaginei se voltaria batendo os pés para a garota e começaria uma briga.
Não era meu problema; não agora.
— Encontro vocês aqui em uma hora — falei, e não lhes dei tempo de grudarem em mim antes de seguir para a praça lotada.
Levei dez minutos para contemplar minhas três opções. Havia meus compradores de sempre, o sapateiro enrugado e o alfaiate de olhar aguçado, que frequentava nosso mercado, vindo de uma aldeia próxima. E, então, o desconhecido: uma mulher grande como uma montanha, sentada na beira da fonte quadrada de nossa praça em ruínas, sem qualquer carrinho ou barraquinha, mas parecendo disposta a negociar mesmo assim. Suas cicatrizes e as armas que carregava a delatavam facilmente. Era uma mercenária.
Eu conseguia sentir os olhos do sapateiro e do alfaiate em mim, sentir seu desinteresse fingido conforme avaliavam a sacola que eu levava. Tudo bem; seria um daqueles dias então.
Eu me aproximei da mercenária cujos grossos cabelos escuros eram cortados na altura do queixo. O rosto bronzeado da mulher parecia lapidado em granito, e seus olhos negros se semicerraram levemente quando me viram. Tinha olhos tão interessantes — não apenas de um tom de preto, mas... de muitos, com toques de castanho que reluziam entre as sombras. Afastei aquela parte inútil de minha mente, os instintos que me faziam pensar em cor e luz e forma, e mantive meus ombros para trás conforme a mulher me avaliava como ameaça ou empregadora potencial. Suas armas — reluzentes e perigosas — bastaram para me fazer engolir em seco. E estacar a uns bons 60 centímetros de distância.
— Não troco mercadorias por meus serviços disse ela, a voz carregada com um sotaque que nunca tinha ouvido antes. — Só aceito dinheiro.
Alguns aldeões que passavam tentaram não parecer interessados em nossa conversa, principalmente quando falei:
— Então, você não terá sorte neste tipo de lugar.
Ela se agigantava mesmo sentada.
— Qual é seu interesse em mim, menina?
A mulher podia ter qualquer idade entre 25 e 30, mas imaginei que eu parecesse uma menina para ela, vestindo minhas camadas de roupas, magricela de fome.
— Tenho uma pele de lobo e outra de corça para vender. Achei que pudesse estar interessada em comprá-las.
— Você as roubou?
— Não. — Fixei os olhos nos dela. — Cacei eu mesma. Juro.
A mulher me esquadrinhou com aqueles olhos escuros de novo.
— Como. — Não foi uma pergunta, mas uma ordem. Talvez fosse alguém que tivesse encontrado outros que não consideravam sagrados os juramentos, as palavras como compromisso. E havia punido as pessoas adequadamente.
Então contei a ela como havia abatido os dois, e, quando terminei, a mulher apontou minha sacola com a mão.
— Deixe-me ver. — Peguei as duas peles dobradas cuidadosamente. —Você não estava mentindo quanto ao tamanho do lobo—murmurou a mulher. — Mas não parece um feérico. — Ela examinou as peles com um olho de especialista, percorrendo as mãos por cima e por baixo. A mulher deu o preço.
Pisquei, mas contive a vontade de piscar uma segunda vez. Ela ofereceu um preço alto... muito alto. Encarei a mulher em silêncio.
Ela olhou para além de mim, depois de mim.
— Presumo que aquelas duas meninas observando do outro lado da praça sejam suas irmãs. Vocês todas têm esse cabelo acobreado e esse olhar faminto. — De fato, elas ainda estavam tentando ao máximo ouvir sem ser vistas.
— Não preciso de sua piedade.
— Não, mas precisa de meu dinheiro, e os outros mercadores foram avarentos a manhã toda. Todos estão distraídos demais por aqueles fanáticos de olhos arregalados se lamuriando pela praça. — A mulher indicou com o queixo os Filhos dos Abençoados, que ainda soavam seus sininhos de prata e saltavam no caminho de qualquer um que tentasse passar.
A mercenária dava um leve sorriso quando me voltei para ela.
— Depende de você, menina.
— Por quê?
A mulher deu de ombros.
— Um dia alguém fez o mesmo por mim e pelos meus, numa época em que eu mais precisava. Imaginei que fosse a hora de pagar o que devo.
Eu a observei de novo, sopesando.
— Meu pai tem umas esculturas de madeira que eu também poderia lhe dar, para que fique mais justo.
— Viajo com pouco e não tenho necessidade delas. Estas, no entanto — a mulher deu tapinhas nas peles que estavam nas mãos dela —, me poupam o trabalho de matar os animais eu mesma.
Assenti, as bochechas ficando quentes à medida que a mulher levava a mão para a bolsa de moedas dentro do casaco pesado. Estava cheia e pesada, com, no mínimo, prata, possivelmente ouro, se o tilintar fosse algum indicativo. Mercenários costumavam ser bem pagos em nosso território
Nosso território era pequeno e pobre demais para manter um exército a postos a fim de monitorar a muralha contra Prythian, e os aldeões só podiam contar com a força do Tratado forjado quinhentos anos antes. Mas a classe alta podia contratar espadachins, como aquela mulher, para vigiar as terras que faziam fronteira com o reino imortal. Era uma ilusão de conforto, exatamente como as marcas em nosso portal. Todos sabíamos, bem no fundo, que não havia nada a ser feito contra os feéricos. Todos tínhamos ouvido, independentemente de classe ou patente, desde o momento em que nascemos, os avisos cantados para nós enquanto nos balançavam em berços, ou as rimas entoadas nos pátios das escolas. Um dos Grão-Feéricos poderia transformar nossos ossos em pó a 100 metros de distância. Não que minhas irmãs e eu tivéssemos visto.
Mas mesmo assim tentávamos acreditar que alguma coisa — qualquer coisa — pudesse funcionar contra eles se algum dia os encontrássemos. Havia duas barracas no mercado que alimentavam esses medos, oferecendo amuletos e bugigangas, e encantamentos e pedaços de ferro. Eu não podia pagar por eles; e se, de fato, funcionassem, só nos dariam alguns minutos para nos preparar. Correr era inútil; lutar também. Mas Nestha e Elain ainda usavam os braceletes de ferro sempre que saíam do chalé. Até Isaac tinha uma pulseira do material ao redor de um dos punhos, sempre escondida sob a manga. Ele se oferecera para me comprar uma, certa vez, mas eu recusei. Pareceu pessoal demais, muito semelhante a um pagamento, muito... um lembrete permanente do que quer que nós fôssemos e do que não éramos um para o outro.
A mercenária transferiu as moedas para a palma da minha mão, que esperava, e eu as coloquei no bolso; o peso das moedas lembrava o de uma pedra de moinho. Não havia como minhas irmãs não terem visto o dinheiro; sem dúvida, já estariam imaginando como poderiam me persuadir a dar um pouco a elas.
— Obrigada — agradeci à mercenária, tentando, sem conseguir, evitar a amargura na voz conforme sentia minhas irmãs se aproximarem, como abutres circundando uma carcaça.
A mercenária acariciou a pele de lobo.
— Um conselho, de uma caçadora para outra.
Ergui as sobrancelhas.
— Não entre muito no bosque. Eu nem chegaria perto de onde você esteve ontem. Um lobo deste tamanho seria o menor de seus problemas. Mais e mais, ouço histórias daquelas coisas atravessando o muro.
Um calafrio percorreu minha espinha.
— Elas vão... elas vão atacar? — Se fosse verdade, eu encontraria um modo de tirar minha família deste território miserável e úmido, e rumaria para o sul, para longe da muralha invisível que dividia nosso mundo, antes que pudessem cruzá-la.
Houve um tempo — há muito tempo, e durante milênios antes disso — em que éramos escravos dos senhores Grão-Feéricos. Houve um tempo em que construímos para eles gloriosas e extensas civilizações, com nosso sangue e suor, construímos templos para seus deuses selvagens. Houve um tempo em que nos rebelamos, em todas as terras e territórios. A Guerra fora tão sangrenta, tão destrutiva, que foi preciso que seis rainhas mortais oferecessem um Tratado para que o massacre terminasse dos dois lados e para que a muralha fosse construída: o Norte de nosso mundo foi concedido aos Grão-Feéricos e aos feéricos, que levaram sua magia com eles; o Sul ficou para nós, mortais covardes, eternamente forçados a tirar o sustento da terra.
— Ninguém sabe o que os Grão-Feéricos estão planejando—disse a mercenária, o rosto como pedra. — Não sabemos se os Grão-Senhores estão afrouxando as rédeas de suas feras, ou se esses são ataques objetivos. Trabalhei como guarda para um velho nobre que alegou uma piora nos últimos cinquenta anos. Ele pegou um navio para o sul há duas semanas, e me disse que eu deveria partir se fosse esperta. Antes de zarpar, o velho admitiu que soubera de um dos amigos que, na calada da noite, um bando de martax atravessou o muro e destroçou metade de sua aldeia.
— Martax? — sussurrei. Eu sabia que havia tipos diferentes de feéricos, que eles variavam tanto quanto qualquer outra espécie de animal, mas só conhecia alguns pelo nome.
Os olhos escuros como a noite da mercenária brilharam.
— O corpo grande como o de um urso, a cabeça parecida com a de um leão, e três fileiras de dentes mais afiados que os de um tubarão. E malignos, mais cruéis que todos os três juntos. Eles deixaram os aldeões literalmente em farrapos, o nobre contou.
Meu estômago se revirou. Atrás de nós, minhas irmãs pareciam tão frágeis, a pele pálida tão infinitamente delicada e quebradiça. Contra algo como os martax, jamais teríamos chance. Aqueles Filhos dos Abençoados eram tolos; tolos fanáticos.
— Então, não sabemos o que todos esses ataques significam — continuou a mercenária —, a não ser mais contratos para mim, e vocês se mantendo bem longe da muralha. Principalmente se os Grão-Feéricos começarem a aparecer, ou pior, um dos Grão-Senhores. Eles fariam os martax parecerem cães.
Avaliei suas mãos cobertas de cicatrizes, ressecadas pelo frio.
— Já encarou outro tipo de feérico?
Os olhos da mulher se fecharam.
— Não quer saber, menina, a não ser que queira vomitar seu café da manhã.
Eu estava mesmo meio enjoada... enjoada e assustada.
— Era mais mortal que os martax? — ousei perguntar.
A mulher puxou a manga do pesado casaco, revelando um antebraço bronzeado e musculoso salpicado de terríveis cicatrizes distorcidas. O arco que formavam era tão semelhante a...
— Não tinha a força bruta ou o tamanho de um martax — revelou a mulher —, mas sua mordida era cheia de veneno. Dois meses foi o tempo que fiquei apagada; quatro meses até ter forças para andar de novo. — A mulher puxou a perna da calça. Lindo, pensei, mesmo quando o horror daquilo se contorceu em meu estômago. Contra a pele bronzeada, as veias estavam pretas, um preto sólido, em formato de teia de aranha, que cobria suas pernas, como geada. — O curandeiro disse que nada podia ser feito, que tenho sorte de andar com o veneno ainda em minhas pernas. Talvez me mate um dia, talvez me deixe aleijada. Mas pelo menos partirei sabendo que matei a coisa primeiro.
O sangue em minhas veias pareceu gelar quando a mulher desceu a barra da calça. Se alguém na praça tinha visto, não ousou falar a respeito — ou se aproximar. E eu ouvira o bastante por um dia. Então, recuei um passo, me acalmando apesar do que ela havia contado e mostrado.
— Obrigada pelos avisos — falei.
A atenção da mulher se voltou para trás de mim, e ela me deu um sorriso levemente divertido.
— Boa sorte.
Então, a mão esguia de alguém se fechou em meu antebraço, me arrastando para longe. Eu sabia que era Nestha antes mesmo de olhar para ela.
— São perigosos — sussurrou Nestha, os dedos se enterrando em meu braço conforme ela continuava me puxando para longe da mercenária. — Não chegue perto deles de novo.
Encarei Nestha por um momento, e, depois, Elain cujo rosto ficara pálido e contraído.
— Tem alguma coisa que eu precise saber? — perguntei, baixinho. Não conseguia me lembrar da última vez em que Nestha tentara me avisar sobre alguma coisa; Elain era a única com quem ela se importava.
— São trogloditas e levarão qualquer moeda que conseguirem, mesmo que seja à força.
Olhei para a mercenária, que ainda estava examinando as peles novas.
— Ela roubou você?
— Não ela — murmurou Elain. — Um outro que passou. Só tínhamos algumas moedas, e ele se irritou, mas...
— Por que não o denunciou... ou me contou?
— O que você poderia ter feito? — indagou Nestha, com escárnio. — Desafiaria o homem para uma briga com seu arco e flecha? E quem neste esgoto de aldeia sequer ligaria se nós denunciássemos alguma coisa?
— E quanto a Tomas Mandray? — falei, com frieza.
Os olhos de Nestha brilharam, mas um movimento atrás de mim chamou sua atenção, e ela me lançou o que imaginei ser uma tentativa de um sorriso doce, provavelmente quando se lembrou do dinheiro que eu agora levava.
— Seu amigo está esperando você.
Virei. De fato, Isaac observava do outro lado da praça, os braços cruzados ao se recostar contra uma construção. Embora fosse o filho mais velho do único fazendeiro abastado da aldeia, ainda estava magro devido ao inverno, e os cabelos castanhos ficaram ralos. Relativamente bonito, de fala mansa e reservado, mas com um toque sombrio que nos havia atraído um para o outro; aquela compreensão mútua de como nossas vidas eram desprezíveis e sempre seriam.
Nós nos conhecíamos superficialmente havia anos, desde que minha família tinha se mudado para a aldeia, mas nunca pensei muito em Isaac até que acabamos pegando a estrada principal juntos certa tarde. Só conversamos sobre os ovos que ele estava levando ao mercado; e eu admirava a variedade de cores dentro do cesto que Isaac carregava: marrons, escuros e claros, azuis e verdes dos mais pálidos. Simples, tranquilo, talvez um pouco esquisito, mas Isaac me deixou em meu chalé sem que eu me sentisse tão... só. Uma semana depois, eu o puxei para aquele celeiro decrépito.
Isaac fora meu primeiro e único amante nos dois anos em que nos encontrávamos. Às vezes nos encontrávamos toda noite durante uma semana, em outras, passávamos um mês sem nos ver. Mas era sempre igual: uma descarga de roupas jogadas e fôlegos compartilhados e línguas e dentes. De vez em quando, conversávamos, ou melhor, Isaac falava sobre as pressões e os fardos que o pai colocava sobre ele. Em geral, não soltávamos uma palavra o tempo todo. Eu não podia dizer que nosso jeito de fazer amor era especialmente habilidoso, mas, ainda assim, era uma libertação, um alívio, um pouco de egoísmo.
Não havia amor entre nós, e jamais houvera pelo menos o que eu presumia que as pessoas queriam dizer quando falavam sobre amor — mas parte de mim tinha ficado deprimida quando Isaac contou que em breve se casaria. Eu ainda não estava desesperada o bastante para pedir que ele me visse depois de casado.
Isaac inclinou a cabeça em um gesto familiar, e então desceu a rua; para fora da aldeia e para o antigo celeiro no qual ele estaria esperando. Não éramos discretos a respeito de nossos encontros, mas tomávamos medidas para evitar que ficasse óbvio demais.
Nestha emitiu um estalo com a língua, cruzando os braços.
— Espero que vocês dois estejam tomando cuidado.
— É um pouco tarde para fingir se importar — falei. Mas tomávamos cuidado. Como eu não podia pagar, o próprio Isaac tomava a mistura contraceptiva. Ele sabia que eu não o tocaria de outra forma. Levei a mão ao bolso, tirando de dentro uma moeda de vinte. Elain inspirou fundo, e não me dei o trabalho de olhar para qualquer de minhas irmãs quando coloquei a moeda na palma da mão dela e falei:
— Vejo vocês em casa.
***
Mais tarde, depois de jantar mais cervo, quando estávamos todos reunidos ao redor da lareira para um momento tranquilo antes de dormir, observei minhas irmãs sussurrando e rindo juntas. Parte de mim sempre as invejou pela proximidade. Tinham gastado até o último centavo do que dei a elas — em que, eu não sabia, embora Elain tivesse trazido um novo cinzel para os trabalhos em madeira de nosso pai. O manto e as botas pelos quais haviam choramingado na noite anterior haviam sido caros demais. Mas não briguei com elas por isso, não quando Nestha saiu uma segunda vez para cortar mais lenha sem que eu pedisse. Felizmente, elas evitaram outro confronto com os Filhos dos Abençoados.
Meu pai cochilava na cadeira, a bengala sobre o joelho retorcido. Era um momento tão bom quanto qualquer outro para tocar no assunto de Tomas Mandray com Nestha. Eu me virei para ela, abrindo a boca.
Mas um rugido quase ensurdecedor ressoou, e minhas irmãs gritaram quando a neve irrompeu na sala e uma silhueta enorme, grunhindo, surgiu à porta.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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