2 de fevereiro de 2017

Capítulo Sete

Guerra.
A palavra percorreu meu corpo, congelou minhas veias.
— Não invada — sussurrei. Eu ficaria de joelho por aquilo. Rastejaria se precisasse.
— Não invada, por favor.
Rhys inclinou a cabeça, contraindo os lábios.
— Acha mesmo que sou um monstro, mesmo depois de tudo.
— Por favor — pedi, arquejando. — Eles são indefesos, não terão chance...
— Não vou invadir terras mortais — disse Rhysand, a voz muito baixa.
Esperei que ele continuasse, grata pela sala espaçosa, pelo ar limpo conforme o chão começava a deslizar sob mim.
— Erga a porcaria do escudo — grunhiu Rhysand.
Olhei para meu interior e descobri que aquela parede invisível tinha desabado de novo. Mas estava tão cansada, e se a guerra se aproximava, se minha família...
— Escudo. Agora.
A ordem ríspida na voz de Rhysand — a voz do Grão-Senhor da Corte Noturna — me fez agir por instinto, e minha mente exausta construiu a parede tijolo por tijolo. Somente quando protegi a mente de novo ele falou, os olhos se suavizando quase imperceptivelmente:
— Achou que acabaria com Amarantha?
— Tamlin não falou... — E por que ele me falaria? Mas havia tantas patrulhas, tantas reuniões das quais eu não tinha permissão de participar, tanta... tensão. Ele devia saber.
Eu precisava perguntar... exigir saber por que não tinha me contado...
— O rei de Hybern está planejando a campanha para reivindicar o mundo ao sul da muralha há mais de cem anos — disse Rhys. — Amarantha foi uma experiência, um teste de 49 anos, para ver com que facilidade e por quanto tempo um território poderia cair e ser controlado por um de seus comandantes.
Para um imortal, 49 anos era nada. Eu não teria ficado surpresa ao ouvir que o rei estava planejando isso há muito mais que um século.
— Ele atacará Prythian primeiro?
— Prythian — falou Rhys, apontando para o mapa de nossa imensa ilha na mesa — é tudo o que está entre o rei de Hybern e o continente. Ele quer reivindicar as terras humanas de lá, talvez tomar algumas terras feéricas também. Se alguém deve interceptar a frota de conquista antes que chegue ao continente, seremos nós.
Deslizei para uma das cadeiras, e meus joelhos tremiam tanto que eu mal conseguia ficar de pé.
— Ele vai tentar remover Prythian do caminho rápida e completamente — continuou Rhys. — E destruir a muralha em algum momento no processo. Já há buracos, embora, ainda bem, sejam pequenos o suficiente para tornar difícil a passagem de seus exércitos com agilidade. Ele vai querer derrubar a coisa toda, e provavelmente usar o pânico subsequente em vantagem própria.
Cada fôlego era como engolir vidro.
— Quando... quando ele vai atacar? — A muralha aguentara firme durante cinco séculos, e, mesmo então, aqueles malditos buracos tinham permitido que as mais cruéis e famintas bestas feéricas passassem de fininho e caçassem humanos. Sem aquela muralha, se Hybern fosse de fato lançar um ataque contra o mundo humano... Desejei não ter comido um café da manhã tão farto.
— Essa é a grande pergunta — disse Rhysand. — E o motivo pelo qual eu a trouxe aqui.
Ergui o rosto e o encarei de volta. O rosto de Rhys estava retraído, mas calmo.
— Não sei quando ou onde ele planeja atacar Prythian — continuou Rhys. — Não sei quem podem ser seus aliados.
— Ele teria aliados aqui?
Um lento aceno de cabeça.
— Covardes que se curvariam e se juntariam a ele, em vez de lutar contra seus exércitos de novo.
Eu podia jurar que um sussurro de escuridão se espalhou pelo chão atrás de Rhysand.
— Você... você lutou na Guerra?
Por um momento, achei que Rhys não responderia. Mas depois ele assentiu.
— Eu era jovem, para nossos padrões, pelo menos. Mas meu pai tinha enviado ajuda para a aliança entre mortais e feéricos no continente, e eu o convenci a me deixar levar uma legião de nossos soldados. — Rhysand se sentou na cadeira ao lado da minha, o olhar vazio para o mapa. — Eu estava posicionado no sul, exatamente onde a luta era mais intensa. O massacre foi... — Rhys mordeu o interior da bochecha. — Não tenho interesse em jamais ver um massacre total como aquele outra vez.
Rhys piscou, como se afastasse os horrores da mente.
— Mas não acho que o rei de Hybern vai atacar daquela forma, não a princípio. É inteligente demais para desperdiçar as forças dele aqui, para dar tempo ao continente de se reunir enquanto o enfrentamos. Se agir para destruir Prythian e a muralha, será por meio de dissimulação e ardil. Para nos enfraquecer. Amarantha foi a primeira parte de um plano. Agora temos diversos Grão-Senhores inexperientes, cortes destruídas com Grã-Sacerdotisas buscando controle, como lobos em volta de uma carcaça, e um povo que percebeu o quanto pode ser realmente impotente.
— Por que está me contando isso? — perguntei, a voz fina, rouca. Não fazia sentido algum que Rhysand revelasse suas suspeitas, seus medos.
E Ianthe... ela podia ser ambiciosa, mas era amiga de Tamlin. Minha amiga, mais ou menos. Talvez a única aliada que teríamos contra as demais Grã-Sacerdotisas, apesar da antipatia pessoal de Rhys contra ela...
— Estou contando por dois motivos — respondeu ele, a expressão tão fria, tão calma que me deixou tão inquieta quanto as notícias que dava. — Um, você é... próxima de Tamlin. Ele tem os homens dele, mas também tem laços antigos com Hybern...
— Ele jamais ajudaria o rei...
Rhys ergueu a mão.
— Quero saber se Tamlin está disposto a lutar conosco. Se pode usar essas conexões em nossa vantagem. Como ele e eu temos um relacionamento difícil, você tem o prazer de ser a intermediária.
— Tamlin não me informa dessas coisas.
— Talvez seja hora de informar. Talvez seja hora de você insistir. — Rhysand examinou o mapa, e segui seu olhar para ver onde pararia. Na muralha dentro de Prythian, no pequeno e vulnerável território mortal. Minha boca secou.
— Qual é seu outro motivo?
Rhys me olhou de cima a baixo, avaliando, sopesando.
— Você tem um conjunto de habilidades de que preciso. Dizem os boatos que você pegou um Suriel.
— Não foi tão difícil.
— Já tentei e fracassei. Duas vezes. Mas essa é uma discussão para outro dia. Eu a vi encurralar o Verme de Middengard como um coelho. — Os olhos de Rhys brilharam.
— Preciso que me ajude. Que use essas suas habilidades para encontrar o que preciso.
— De que precisa? É algo relacionado a minha leitura e a meu escudo mental, imagino?
— Vai descobrir sobre isso depois.
Eu não sabia por que tinha me dado o trabalho de perguntar.
— Deve haver pelo menos uma dezena de outros caçadores mais experientes e habilidosos...
— Talvez haja. Mas você é a única em quem confio.
Pisquei.
— Eu poderia trair você quando quisesse.
— Poderia. Mas não o fará. — Trinquei os dentes e estava prestes a dizer algo maldoso quando Rhysand acrescentou: — E tem a questão de seus poderes.
— Não tenho poderes. — A frase saiu tão rápido que não teve chance de soar como qualquer coisa que não fosse negação.
Rhys cruzou as pernas.
— Não tem? A força, a velocidade... Se não soubesse, diria que você e Tamlin estão fazendo um trabalho muito bom ao fingir que você é normal. Que os poderes que está exibindo não são normalmente a primeira indicação entre nosso povo de que o filho de um Grão-Senhor se tornará seu herdeiro.
— Não sou um Grão-Senhor.
— Não, mas recebeu vida de todos nós sete. Sua mera essência está ligada a nós, nasceu de nós. E se demos mais que esperávamos? — De novo, aquele olhar recaiu sobre mim. — E se você pudesse nos enfrentar... ter a própria força, ser uma Grã Senhora?
— Não há Grã-Senhoras.
As sobrancelhas de Rhysand se franziram, mas ele sacudiu a cabeça.
— Conversaremos sobre isso mais tarde também. Mas sim, Feyre, pode haver Grã Senhoras. E talvez você não seja uma delas, mas... e se fosse algo semelhante? E se pudesse empunhar o poder de sete Grão-Senhores de uma vez? E se pudesse se dissipar na escuridão, mudar de forma ou congelar uma sala inteira, um exército inteiro?
O vento do inverno nos picos próximos parecia rugir em resposta. Aquela coisa que senti sob a pele...
— Entende o que isso pode significar em uma guerra iminente? Entende o quanto isso pode destruí-la se não aprender a controlá-lo?
— Um, pare de fazer tantas perguntas retóricas. Dois, não sabemos se eu tenho esses poderes...
— Você tem. Mas precisa começar a dominá-los. A descobrir o que herdou de nós.
— E imagino que seja você quem vai me ensinar também? Ler e erguer um escudo não bastam?
— Enquanto caça comigo o que preciso, sim.
Comecei a sacudir a cabeça.
— Tamlin não vai permitir.
— Tamlin não é seu dono, e você sabe disso.
— Sou súdita dele, e ele é meu Grão-Senhor...
— Você não é súdita de ninguém.
Fiquei imóvel quando ele exibiu os dentes, as asas como fumaça que se abriram.
— Vou dizer isso uma vez, e apenas uma vez — ronronou Rhysand, caminhando até o mapa na parede. — Pode ser um peão, ser a recompensa de alguém e passar o resto da vida imortal se curvando e buscando aprovação e fingindo ser menos que ele, que Ianthe, que qualquer um de nós. Se quiser escolher esse caminho, então, tudo bem. É uma pena, mas a escolha é sua. — A sombra de asas ondulou de novo. — Mas conheço você, mais do que você percebe, acho, e não acredito por um minuto que esteja remotamente satisfeita em ser um troféu bonitinho para alguém que ficou sentado durante quase cinquenta anos, e então ficou sentado enquanto você era despedaçada...
— Pare...
— Ou — insistiu Rhysand — tem outra escolha. Pode dominar quaisquer que sejam os poderes que lhe demos e fazê-los valer a pena. Pode ter um papel nessa guerra. Porque a guerra está chegando, de uma forma ou de outra, e não tente se iludir achando que qualquer dos feéricos dará a mínima para sua família do outro lado da muralha quando nosso território inteiro estiver na iminência de se tornar um ossuário.
Encarei o mapa, encarei Prythian, e aquele fiapo de terra na base sul.
— Quer salvar o reino mortal? — perguntou Rhysand. — Então, torne-se alguém em quem Prythian presta atenção. Alguém vital. Torne-se uma arma. Porque pode vir um dia, Feyre, em que apenas você estará entre o rei de Hybern e sua família humana. E você não quer estar despreparada.
Ergui o olhar para ele, sem fôlego, dolorida.
Como se Rhysand não tivesse acabado de puxar o mundo de baixo de meus pés, ele acrescentou:
— Pense bem. Tome a semana para isso. Pergunte a Tamlin, se isso a ajudar a dormir. Veja o que a encantadora Ianthe diz a respeito. Mas a escolha é sua, de mais ninguém.
***
Não vi Rhysand durante o resto da semana. Ou Mor.
As únicas pessoas que encontrei foram Nuala e Cerridwen, que traziam minhas refeições, arrumavam minha cama e, ocasionalmente, perguntavam como eu estava.
A única evidência que eu tinha de que Rhysand ainda estava na propriedade estava nas cópias do alfabeto, com diversas frases que eu deveria escrever todos os dias, trocando palavras, cada uma mais irritante que a anterior:
Rhysand é o Grão-Senhor mais lindo.
Rhysand é o Grão-Senhor mais agradável.
Rhysand é o Grão-Senhor mais inteligente.
Todo dia, uma frase miserável... com a alteração de uma palavra de arrogância e vaidade diversas. E todo dia, outro simples conjunto de instruções: escudo para cima, escudo para baixo; escudo para cima, escudo para baixo. Diversas e diversas vezes.
Como ele sabia se eu obedecia ou não, não me importava, mas mergulhei nas lições, ergui e baixei e reforcei aqueles escudos mentais. Pelo menos porque era tudo que eu tinha para fazer.
Meus pesadelos me deixavam zonza, suada; no entanto o quarto era tão aberto, a luz das estrelas era tão forte que, quando acordava sobressaltada, não corria para o banheiro. Nenhuma parede me sufocava, nenhuma escuridão como nanquim. Eu sabia onde estava. Mesmo que me ressentisse por estar ali.
No dia antes de nossa semana finalmente terminar, eu estava arrastando os pés até minha mesinha de sempre, já fazendo uma careta ao pensar nas belas frases que encontraria à espera e em toda a acrobacia mental que viria, quando as vozes de Rhys e Mor flutuaram em minha direção.
Era um espaço público, então não me incomodei em disfarçar os passos conforme me aproximei de onde eles conversavam, em uma das áreas de estar, Rhys caminhando de um lado para outro diante do penhasco aberto da montanha, e Mor deitada em uma poltrona de cor de creme.
— Azriel iria gostar de saber disso — dizia Mor.
— Azriel pode ir para o inferno — disparou Rhys de volta. — Ele provavelmente já sabe mesmo.
— Fizemos joguinhos da última vez — comentou Mor, com uma seriedade que me fez parar a uma distância segura. — E perdemos. Feio. Não faremos aquilo de novo.
— Você deveria estar trabalhando. — Foi a única resposta de Rhysand. — Dei o controle a você por um motivo, sabe disso.
O maxilar de Mor se contraiu, e ela, por fim, me encarou. Mor me lançou um sorriso que pareceu mais um tremular.
Rhys se virou, franzindo a testa ao me ver.
— Diga o que veio até aqui dizer, Mor — falou Rhys, tenso, voltando a caminhar.
Mor revirou os olhos para mim, mas o rosto ficou severo quando falou:
— Houve outro ataque, um templo em Cesere. Quase todas as sacerdotisas mortas, o tesouro saqueado.
Rhys parou. E eu não soube o que registrar: a notícia de Mor ou o puro ódio transmitido por uma palavra quando Rhys falou:
— Quem.
— Não sabemos — disse Mor. — Mesmos rastros da última vez: grupo pequeno, corpos que mostravam sinais de ferimentos de grandes lâminas, e nenhum sinal do lugar de onde vieram ou como desapareceram. Nenhum sobrevivente. Os corpos só foram encontrados um dia depois quando um grupo de peregrinos apareceu.
Pelo Caldeirão. Eu devia ter feito um barulho baixinho, porque Mor me olhou de forma tensa, mas com empatia.
Já Rhys... Primeiro as sombras começaram... plumas vindas de suas costas.
Então, como se o ódio tivesse libertado aquela besta a qual Rhysand certa vez me disse que odiava ceder, as asas se concretizaram.
Asas enormes, lindas, cruéis, palmadas e com garras como as de um morcego, escuras como a noite e fortes como nada mais. Até a forma como ele ficava de pé pareceu alterada: mais firme, equilibrada. Como se uma última peça de Rhys tivesse estalado no lugar. Mas a voz ainda parecia suave como a meia-noite quando ele disse:
— O que Azriel disse a respeito disso?
De novo, aquele olhar de Mor, como se não soubesse se eu deveria estar presente para o que quer que fosse aquela conversa.
— Ele está transtornado. Cassian ainda mais, está convencido de que deve ser uma das tropas de guerra illyrianas desertoras, determinadas a conquistar novo território.
— É algo a considerar — ponderou Rhys. — Alguns dos clãs illyrianos se curvaram satisfeitos para Amarantha durante aqueles anos. Tentar expandir as fronteiras pode ser seu modo de ver até onde podem me perturbar e sair ilesos. — Eu odiei o som do nome dela, me concentrei nele mais que na informação que Rhys permitia que eu contemplasse.
— Cassian e Az estão esperando... — Mor se interrompeu e me lançou um gesto de desculpas. — Estão esperando no lugar de sempre por suas ordens.
Tudo bem... não tinha problema. Eu vira aquele mapa em branco na parede. Eu era a noiva de um inimigo. Sequer mencionar onde suas forças estavam posicionadas, o que planejavam, podia ser perigoso. Eu não fazia ideia de onde sequer ficava Cesere; ou do que era, na verdade.
Rhys observou o ar aberto de novo, o vento uivante que empurrava nuvens escuras e espiraladas sobre picos distantes. Bom tempo, percebi, para voar.
— Atravessar seria mais fácil — argumentou Mor, seguindo o olhar do Grão Senhor.
— Diga aos desgraçados que chegarei em algumas horas — respondeu Rhys, simplesmente.
Mor me deu um sorriso cauteloso e sumiu.
Avaliei o espaço vazio onde ela estivera, não restara um traço de Mor.
— Como esse... desaparecimento funciona? — perguntei, baixinho. Eu só vira poucos Grão-Feéricos o fazerem, e nenhum jamais explicara como.
Rhys não me olhou, mas respondeu:
— A travessia? Pense nisso como... dois pontos diferentes em um tecido. Um ponto é seu local atual no mundo. O outro, do outro lado do tecido, é para onde você quer ir. Atravessar... é como dobrar esse tecido para que os dois pontos se alinhem. A magia faz a dobra, e tudo que fazemos é dar um passo para ir de um lugar ao outro. Às vezes é um passo longo, e dá para sentir o tecido sombrio do mundo conforme atravessamos. Um passo mais curto, digamos, de uma ponta a outra da sala, mal seria registrado. É um dom raro... e útil. Mas apenas os feéricos mais fortes conseguem fazê-lo. Quanto mais poderoso, mais longe se consegue saltar entre lugares de uma vez.
Eu sabia que a explicação era tanto para mim quanto para distrair Rhysand. Mas me peguei dizendo:
— Sinto muito pelo templo... e pelas sacerdotisas.
A ira ainda lhe reluzia nos olhos quando Rhysand, por fim, se virou para mim.
— Muito mais pessoas morrerão em breve mesmo.
Talvez fosse por isso que ele tivesse permitido que eu me aproximasse, para ouvir aquela conversa. Para me lembrar do que poderia muito bem acontecer com Hybern.
— O que são... — hesitei. — O que são tropas de guerra illyrianas?
— Desgraçados arrogantes, é isso que são — murmurou Rhys.
Cruzei os braços, esperando.
Ele estendeu as asas, e a luz do sol fez com que a textura encouraçada refletisse cores sutis.
— São uma raça guerreira de minhas terras. E costumam ser um pé no saco.
— Alguns deles apoiaram Amarantha?
A escuridão dançou no corredor quando uma tempestade distante se aproximou o suficiente para sufocar o sol.
— Alguns. Mas eu e os meus temos nos divertido caçando-os nos últimos meses. E exterminando-os.
Devagar foi a palavra que Rhysand não precisou acrescentar.
— Foi por isso que ficou afastado... estava ocupado com isso?
— Eu estava ocupado com muitas coisas.
Não era uma resposta. Mas parecia que Rhysand tinha terminado a conversa, e quem quer que fossem Cassian e Azriel... encontrar-se com eles era muito mais importante.
Então Rhys nem mesmo se despediu antes de simplesmente caminhar até a beira da varanda — e se lançar aos ares.
Meu coração subitamente deu um salto, mas, antes que eu conseguisse gritar, Rhys subiu, ágil como o vento travesso entre os picos. Algumas batidas estrondosas das asas o fizeram desaparecer para dentro das nuvens de tempestade.
— Tchau para você também — resmunguei, fazendo um gesto vulgar, e comecei meu trabalho do dia, com apenas a tempestade rugindo além da proteção da casa como companhia.
Mesmo conforme a neve fustigava a magia que protegia o corredor, mesmo enquanto eu trabalhava nas frases — Rhysand é interessante; Rhysand é lindo; Rhysand é perfeito — e erguia e abaixava meu escudo mental até a mente mancar, pensava no que tinha ouvido, no que tinham dito.
Imaginei o que Ianthe saberia sobre os assassinatos, se conhecia alguma das vítimas. Sabia o que era Cesere. Se os templos eram alvos, Ianthe devia saber. Tamlin devia saber.
Naquela última noite, mal consegui dormir; em parte por alívio, em parte por terror de que talvez Rhysand tivesse realmente alguma cruel surpresa final guardada. Mas a noite e a tempestade passaram, e, quando o alvorecer chegou, eu estava vestida antes de o sol terminar de nascer.
Tinha passado a comer em meus aposentos, mas subi as escadas correndo, dirigindo-me até aquela imensa área aberta, até a mesa na varanda mais afastada.
Jogado na cadeira de sempre, Rhys vestia as mesmas roupas do dia anterior, o colarinho do casaco preto estava desabotoado, e a camisa, tão amassada quanto o cabelo. Nenhuma asa, ainda bem. Imaginei se teria acabado de voltar de onde quer que tivesse encontrado Mor e os demais. O que teria descoberto.
— Faz uma semana — falei, como cumprimento. — Me leve para casa.
Rhys tomou um longo gole do que quer que estivesse em sua xícara. Não parecia chá.
— Bom dia, Feyre.
— Me leve para casa.
Ele observou minhas roupas em tons de azul e dourado, uma variação dos modelitos do dia a dia. Se precisasse admitir, gostava deles.
— Essa cor combina com você.
— Quer que eu peça por favor? É isso?
— Quero que fale comigo como uma pessoa. Comece com “bom dia”, e veremos aonde isso nos leva.
— Bom dia.
Um leve sorriso. Canalha.
— Está pronta para enfrentar as consequências de sua partida?
Enrijeci o corpo. Não tinha pensado no casamento. Durante toda a semana, sim, mas naquele dia... naquele dia eu só pensava em Tamlin, em querer ver Tamlin, abraçá-lo, perguntar sobre tudo que Rhys afirmara. Durante os últimos dias, não tinha mostrado qualquer sinal do poder que Rhys acreditava que eu tinha, não sentira nada se agitando sob minha pele — e graças ao Caldeirão.
— Não é de sua conta.
— Certo. Provavelmente vai ignorá-las mesmo. Varrer para debaixo do tapete, como todo o resto.
— Ninguém pediu sua opinião, Rhysand.
— Rhysand? — Ele riu, grave e suavemente. — Dou a você uma semana de luxo, e você me chama de Rhysand?
— Não pedi para estar aqui, ou para ganhar essa semana.
— E olhe só para você. Seu rosto ganhou uma cor... e aquelas marcas sob os olhos quase sumiram. Seu escudo mental está espetacular, aliás.
— Por favor, me leve para casa.
Rhys deu de ombros e ficou de pé.
— Direi a Mor que você se despediu.
— Eu mal a vi a semana toda. — Apenas naquele primeiro encontro e, depois, durante a conversa ontem. Quando não trocamos duas palavras.
— Ela estava esperando um convite... não a queria incomodar. Queria que ela estendesse a mim tal cortesia.
— Ninguém me falou. — Eu não me importava muito. Sem dúvida Mor tinha coisas melhores a fazer mesmo.
— Você não perguntou. E por que se incomodar? Melhor ficar deprimida e sozinha. — Rhys se aproximou, e cada passo era suave, gracioso. O cabelo estava definitivamente embaraçado, como se tivesse passado as mãos por ele. Ou apenas voado durante horas para qualquer que fosse o local secreto. — Pensou em minha oferta?
— Avisarei no mês que vem.
Rhys parou a um palmo de distância, o rosto dourado estava tenso.
— Eu disse uma vez e direi de novo — falou ele. — Não sou seu inimigo.
— E eu já falei uma vez e direi de novo: você é inimigo de Tamlin. Então, acho que isso o torna meu inimigo.
— Torna?
— Me liberte do acordo, e vamos descobrir.
— Não posso fazer isso.
— Não pode ou não quer?
Rhysand apenas estendeu a mão.
— Vamos?
Quase pulei para lhe tomar a mão. Os dedos de Rhys estavam frios, firmes; calejados devido a armas que eu jamais vira com ele.
A escuridão nos engoliu, e foi instintivo segurar Rhys quando o mundo sumiu sob meus pés. Aquilo era uma travessia mesmo. O vento soprou contra mim, e o braço de Rhys era um peso quente e denso em minhas costas conforme tropeçávamos pelos mundos, Rhys rindo de meu terror.
E então, terra firme — piso em lajotas — estava sob mim, e sol ofuscante acima, e verde, e pequenos pássaros cantando...
Empurrei Rhys para me afastar, piscando diante da claridade, do imenso carvalho curvado sobre nós. Um carvalho na beira dos jardins formais... de minha casa.
Fiz menção de disparar para a mansão, mas Rhys segurou meu pulso. Os olhos se moveram de mim para a mansão.
— Boa sorte — cantarolou Rhys.
— Tire a mão de mim.
Ele riu, me soltando.
— Vejo você no mês que vem — falou Rhysand, e, antes que eu conseguisse cuspir nele, Rhys sumiu.
***
Encontrei Tamlin no escritório; Lucien e duas outras sentinelas estavam de pé em volta da escrivaninha coberta por um mapa.
Lucien foi o primeiro a se virar para onde eu estava parada à porta, calando-se no meio da frase. Mas então a cabeça de Tamlin se ergueu, e ele disparou pela sala, tão rápido que mal tive tempo de inspirar antes que me esmagasse contra si.
Murmurei o nome de Tamlin, e minha garganta queimou, então...
Então ele me segurou com os braços esticados, me observando da cabeça aos pés.
— Você está bem? Está ferida?
— Estou bem — assegurei, percebendo imediatamente quando Tamlin reparou nas roupas da Corte Noturna que eu vestia, no trecho de pele exposta no meu tronco. — Ninguém me tocou.
Mas Tamlin continuou avaliando meu rosto, meu pescoço. Depois, ele me virou, examinando minhas costas, como se pudesse discernir pelas roupas. Eu me desvencilhei.
— Eu disse que ninguém me tocou.
Tamlin respirava com dificuldade, o olhar selvagem.
— Você está bem — disse ele. E repetiu. E repetiu.
Meu coração se partiu, e estendi a mão para segurar sua bochecha.
— Tamlin — murmurei. Lucien e as demais sentinelas, sabiamente, saíram. Meu amigo me encarou ao sair, me dando um sorriso de alívio.
— Ele pode ferir você de outras formas — ponderou Tamlin, a voz rouca, fechando os olhos ao sentir meu toque.
— Eu sei... mas estou bem. Estou mesmo — respondi o mais carinhosamente que pude. Então, reparei nas paredes do escritório, nas marcas de garras que formavam sulcos até embaixo. Por todas elas. E a mesa que estavam usando... era nova. — Você destruiu o escritório.
— Destruí metade da casa — disse Tamlin, inclinando-se para a frente, a fim de tocar minha testa com a dele. — Ele a levou embora, roubou você...
— E me deixou em paz.
Tamlin se afastou, grunhindo.
— Provavelmente para fazer com que baixasse sua guarda. Não tem ideia dos jogos que ele faz, do que é capaz...
— Eu sei — respondi, mesmo que a resposta tivesse gosto de cinzas em minha língua. — E da próxima vez, terei cuidado...
— Não haverá uma próxima vez.
Pisquei.
— Encontrou uma saída? — Ou talvez Ianthe tivesse encontrado.
— Não vou deixar que vá.
— Ele disse que haveria consequências caso o acordo mágico seja rompido.
— Ao inferno com as consequências. — Mas ouvi a ameaça vazia que representava... e quanto aquilo o destruía. Era também quem Tamlin era, o que ele era: protetor, defensor. Eu não podia pedir que parasse de ser assim, que parasse de se preocupar comigo.
Fiquei nas pontas dos pés e o beijei. Havia tanto que eu queria perguntar a Tamlin, mas... depois.
— Vamos subir — falei, na direção dos lábios dele, e Tamlin passou os braços em volta de mim.
— Senti sua falta — disse ele, entre beijos. — Perdi a cabeça.
Era tudo o que eu precisava ouvir. Até...
— Preciso fazer umas perguntas.
Soltei um leve ruído de afirmação, mas inclinei mais a cabeça.
— Depois.
O corpo de Tamlin era tão quente, tão firme contra o meu, o cheiro dele era tão familiar...
Tamlin segurou minha cintura, pressionando a testa contra a minha.
— Não... agora — insistiu Tamlin, mas gemeu baixinho quando passei a língua por seus dentes. — Enquanto ainda está tudo fresco em sua mente.
Congelei com uma das mãos entrelaçadas em seus cabelos; a outra segurava a parte de trás de sua túnica.
— O quê?
Tamlin recuou, sacudindo a cabeça como que para afastar o desejo que confundia seus sentidos. Não tínhamos ficado tanto tempo longe desde Amarantha, e ele queria me interrogar para obter informações sobre a Corte Noturna?
— Tamlin.
Mas ele ergueu uma das mãos, e seus olhos encararam os meus quando ele chamou Lucien.
Nos momentos que o emissário demorou para surgir, alisei minhas roupas — a blusa tinha subido pelo tronco — e penteei os cabelos com os dedos. Tamlin apenas caminhou até a mesa e se sentou, indicando para que eu me sentasse diante dele.
— Desculpe — pediu Tamlin baixinho, enquanto os passos distraídos de Lucien se aproximaram de novo. — É para nosso próprio bem. Nossa segurança.
Observei as paredes destruídas, a mobília arranhada e lascada. Que pesadelo ele sofrera, acordado e dormindo, enquanto eu estava fora? Como teria sido me imaginar nas mãos do inimigo, depois de ver o que Amarantha fizera comigo?
— Eu sei — murmurei, por fim. — Eu sei, Tamlin. — Ou estava tentando saber.
Tinha acabado de me sentar na cadeira de encosto baixo quando Lucien entrou e fechou a porta atrás de si.
— Que bom vê-la inteira, Feyre — disse Lucien, tomando o assento ao meu lado.
— Mas poderia viver sem o modelito da Corte Noturna.
Tamlin deu um grunhido baixo em concordância. Não falei nada. Mas entendia — de verdade — por que aquilo era uma afronta a eles.
Tamlin e Lucien trocaram olhares, falando sem emitir uma palavra, daquela forma que apenas pessoas que são amigas havia séculos podiam fazer. Lucien deu um leve aceno de cabeça e se recostou na cadeira; para ouvir e observar.
— Precisamos que nos conte tudo — explicou Tamlin. — A disposição da Corte Noturna, quem você viu, que armas e poderes eles têm, o que Rhys fez, com quem ele falou, todo e qualquer detalhe de que possa se lembrar.
— Não percebi que eu era uma espiã.
Lucien se moveu na cadeira, mas Tamlin falou:
— Por mais que eu odeie seu acordo, recebeu acesso à Corte Noturna. Forasteiros raramente conseguem entrar e, se entram, raramente saem inteiros. E se conseguem se mover, as memórias costumam estar... confusas. O que quer que Rhysand esteja escondendo, não quer que saibamos.
Um calafrio percorreu minha espinha.
— Por que quer saber? O que vai fazer?
— Conhecer os planos de meu inimigo, seu estilo de vida, é vital. Quanto ao que faremos... Isso não interessa. — Os olhos verdes de Tamlin se fixaram em mim. — Comece com a disposição da corte. É verdade que fica sob uma montanha?
— Isso parece muito com um interrogatório.
Lucien inspirou, mas permaneceu em silêncio.
Tamlin abriu as mãos sobre a mesa.
— Precisamos saber essas coisas, Feyre. Ou... ou não consegue se lembrar? — Garras brilharam nos nós dos dedos.
— Consigo lembrar de tudo — assegurei. — Ele não danificou minha mente. — E, antes que Tamlin pudesse me interrogar mais, comecei a falar sobre tudo que tinha visto.
Porque confio em você, dissera Rhysand. E talvez... talvez ele tivesse confundido minha mente, mesmo com as lições de escudos mentais, porque descrever a disposição de sua casa, da corte de Rhysand, as montanhas ao redor, era como me banhar em óleo e lama. Ele era meu inimigo, me fazia cumprir um acordo que eu firmara por puro desespero...
Continuei falando, descrevendo aquela sala na torre. Tamlin me interrogou sobre as figuras nos mapas, me fazendo relatar cada palavra que Rhysand tinha proferido, até que mencionei o que me preocupara mais na última semana: os poderes que Rhys acreditava que eu agora possuía... e os planos de Hybern. Contei a Tamlin sobre a conversa com Mor — sobre aquele templo que foi saqueado (Cesere, explicou Tamlin, era um posto norte da Corte Noturna, e uma das poucas cidades conhecidas), e sobre Rhysand mencionar duas pessoas chamadas Cassian e Azriel. Os rostos dos dois ficaram tensos diante disso, mas não mencionaram se os conheciam, ou se tinham ouvido falar deles. Então, contei a Tamlin sobre o que quer que eram os illyrianos... e como Rhys caçara e matara os traidores entre eles. Quando terminei, Tamlin ficou em silêncio, e Lucien praticamente fervilhava com quaisquer que fossem as palavras reprimidas que estava doido para dizer.
— Você acha que posso ter essas habilidades? — perguntei, obrigando-me a encarar Tamlin.
— É possível — respondeu Tamlin, igualmente baixo. — E se for verdade...
Lucien disse, por fim:
— É um poder pelo qual outros Grão-Senhores podem matar. — Foi difícil não me mover enquanto seu olho de metal se agitava, como se detectasse qualquer que fosse o poder que percorria meu sangue. — Meu pai, por exemplo, não ficaria feliz em saber que uma gota do poder dele está faltando, ou que a noiva de Tamlin agora o tem. Faria qualquer coisa para se certificar de que você não o possuísse... inclusive matá-la. Há outros Grão-Senhores que concordariam.
Aquela coisa sob minha pele começou a se acumular.
— Eu jamais o usaria contra ninguém...
— A questão não é usar contra eles; é ter uma vantagem quando não deveria — argumentou Tamlin. — E, assim que se espalhar a notícia, você terá um alvo nas costas.
— Sabia disso? — indaguei. Lucien não me encarava. — Suspeitava?
— Eu esperava que não fosse verdade — disse Tamlin, com cautela. — E agora que Rhys suspeita, não há como saber o que ele fará com a informação...
— Ele quer que eu treine. — Não era burra o suficiente para mencionar o treinamento com o escudo mental... não no momento.
— Treinar atrairia atenção demais — ponderou Tamlin. — Não precisa treinar.
Posso protegê-la do que quer que a ameace.
Pois houve uma época em que ele não pôde. Quando estava vulnerável, e quando me observara ser torturada até a morte. E não pôde fazer nada para impedir Amarantha de...
Eu não permitiria outra Amarantha. Não permitiria que o rei de Hybern trouxesse as bestas e os seguidores até ali para ferir mais pessoas. Para ferir a mim e aos meus. E que derrubasse aquela muralha para ferir inúmeros outros do outro lado.
— Eu poderia usar meus poderes contra Hybern.
— Isso está fora de cogitação — decretou Tamlin. — Principalmente porque não haverá guerra contra Hybern.
— Rhys diz que a guerra é inevitável e que seremos atingidos com força.
Lucien disse rispidamente:
— E Rhys sabe tudo?
— Não, mas... estava preocupado. Acha que pode fazer a diferença em um conflito iminente.
Tamlin flexionou os dedos, mantendo aquelas garras retraídas.
— Você não tem treinamento de batalha ou armas. E, mesmo que eu começasse a treiná-la hoje, levaria anos até que conseguisse se defender em um campo de batalha imortal. — Tamlin tomou fôlego, contido. — Então, apesar do que ele acha que possa ser capaz de fazer, Feyre, não vou deixar que chegue nem perto de um campo de batalha. Principalmente se isso significa revelar a nossos inimigos quaisquer que sejam os poderes que você possui. Estaria enfrentando Hybern pela frente e teria inimigos com rostos familiares às costas.
— Não me importo...
— Eu me importo — grunhiu Tamlin. Lucien exalou. — Eu me importo se você morrer, se você se ferir, se estiver em perigo a todo momento pelo resto de nossas vidas. Portanto, não haverá treinamento, e vamos manter isso entre nós.
— Mas Hybern...
 Lucien interveio, calmamente:
— Já tenho minhas fontes investigando.
 ancei a ele um olhar de súplica.
Lucien suspirou de leve e falou para Tamlin:
— Se talvez a treinássemos secretamente...
— Há riscos demais, variáveis demais — replicou Tamlin. — E não haverá conflito com Hybern, nada de guerra.
Disparei:
— Isso é um desejo seu.
 Lucien murmurou algo que soou como uma súplica ao Caldeirão.
Tamlin enrijeceu o corpo.
— Descreva essa sala de mapas para mim de novo. — Foi a única resposta dele.
Fim da discussão. Sem espaço para debate.
Nós nos encaramos por um momento, e meu estômago se revirou mais.
Tamlin era o Grão-Senhor; meu Grão-Senhor. Era o escudo e o defensor de seu povo. De mim. E se me manter segura significava que seu povo podia continuar a ter esperanças, a construir uma nova vida, que Tamlin poderia fazer o mesmo... Eu podia me curvar a ele naquela questão.
Eu podia fazer isso.
Você não é súdita de ninguém.
Talvez Rhysand tivesse alterado minha mente, com ou sem escudos.
Somente essa ideia bastou para que eu começasse a dar detalhes a Tamlin novamente.

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