1 de fevereiro de 2017

Capítulo Sete

O Grão-Feérico de cabelos dourados e Lucien estavam à mesa quando Alis me devolveu à sala de jantar. Eles não tinham mais pratos diante de si, mas ainda bebiam de cálices de ouro. Ouro de verdade; não pintado ou folheado. Pensei em nossos talheres descombinados quando parei no meio da sala. Tanta riqueza, tanta riqueza assombrosa, quando não tínhamos nada.
Uma besta semisselvagem, era como Nestha me chamara. Mas, em comparação com ele, em comparação com aquele lugar, em comparação com
o modo elegante e tranquilo com que eles seguravam os cálices, o modo como o de cabelos dourados me chamava de humana... nós éramos as bestas semisselvagens para os Grão-Feéricos. Mesmo que fossem eles os que vestiam peles e tinham garras.
Observei a comida ainda na mesa. Eu estava faminta — a cabeça tão zonza que achei que fosse desmaiar.
A máscara do Grão-Feérico de cabelos dourados refletiu os últimos raios do sol da tarde.
— Antes que pergunte: a comida ainda é segura para que coma. — Ele apontou para a cadeira na outra ponta da mesa. Nenhum sinal das garras. Quando não me movi, o feérico disse, rispidamente: — O que quer, então?
Não respondi. Comer, fugir, salvar minha família...
Lucien falou do assento na extensa lateral da mesa:
— Eu avisei, Tamlin. — Ele olhou para o amigo. — Suas habilidades com fêmeas definitivamente enferrujaram nas últimas décadas.
Tamlin. Ele fulminou Lucien com o olhar, movendo-se no assento. Tentei não enrijecer o corpo diante da outra informação que Lucien dera. Décadas.
Tamlin não parecia muito mais velho que eu, mas feéricos eram imortais. Ele podia ter centenas de anos... se não milhares. Minha boca secou enquanto eu avaliava seus estranhos rostos mascarados: sobrenaturais, primitivos e imponentes. Como deuses imóveis ou cortesãos ferais.
— Bem — disse Lucien, o olho avermelhado que lhe restava fixo em mim —, você não parece tão ruim agora. Um alívio, imagino, pois deve morar conosco. Embora a túnica não seja tão bonita quanto um vestido.
Lobos prontos para atacar — era isso que eram, exatamente como o amigo. Eu estava ciente demais de minha dicção, de cada fôlego que tomei, quando falei:
— Eu preferiria não usar aquele vestido.
— E por que não? — perguntou Lucien.
Foi Tamlin quem respondeu por mim.
— Porque nos matar é mais fácil de calças.
Eu queria gritar para que eles me deixassem em paz, mas, em vez disso, falei calma:
— Agora que estou aqui, o que... o que planejam fazer comigo?
Lucien deu um riso de escárnio, mas Tamlin respondeu, com um grunhido irritado.
— Apenas sente-se.
Um assento vazio tinha sido puxado à cabeceira da mesa. Tanta comida quente e fumegando, com temperos sedutores. Os criados provavelmente tinham trazido comida fresca enquanto eu me lavava. Quanto desperdício. Fechei as mãos em punhos.
— Não vamos morder. — Os dentes brancos de Lucien reluziram, o que sugeria o contrário. Evitei seu olhar, evitei aquele estranho olho de metal animado, que se fixou em mim conforme eu seguia para meu assento e me acomodava.
Tamlin ficou de pé e deu a volta na mesa, mais e mais perto, cada movimento suave e letal; um predador cujo sangue emanava poder. Foi um esforço me manter parada — principalmente quando ele pegou uma travessa, levou até mim e colocou carne e molho em meu prato.
Falei em voz baixa:
— Posso me servir sozinha. — Qualquer coisa, qualquer coisa para mantê-lo longe.
Tamlin parou tão perto que um movimento daquelas garras à espreita sob sua pele poderia rasgar minha garganta. Era por isso que o boldrié de couro não tinha armas: por que usá-las quando você mesmo é letal?
— É uma honra para um humano ser servido por um Grão-Feérico — disse ele, rispidamente.
Engoli em seco. Tamlin continuou empilhando vários alimentos em meu prato, parando apenas quando estava lotado de carne e molho e pão, e depois encheu meu copo com vinho branco frisante. Expirei quando ele voltou para o próprio assento, embora ele provavelmente tivesse ouvido.
Eu só queria enterrar o rosto no prato e comer até chegar à madeira, mas prendi as mãos sob as coxas e encarei os dois feéricos.
Eles me observaram também, com atenção demais para ser casual. Tamlin endireitou um pouco o corpo e falou:
— Você parece... melhor que antes.
Era um elogio? Eu poderia jurar que Lucien deu a Tamlin um aceno de cabeça encorajador.
— E seu cabelo está... limpo.
Talvez fosse a fome voraz que me fazia alucinar aquela tentativa sofrível de me lisonjear. Mesmo assim, me recostei e mantive o tom de voz calmo e baixo, como eu usaria com qualquer outro predador.
— Vocês são Grão-Feéricos... a nobreza feérica?
Lucien tossiu e olhou para Tamlin.
— Pode responder essa.
— Sim — respondeu Tamlin, franzindo a testa, como se buscasse algo para me dizer. Ele se contentou com apenas: — Somos.
Tudo bem. Um homem, um feérico de poucas palavras. Eu havia matado o amigo dele, era uma hóspede indesejada. Eu mesma não iria querer conversar comigo.
— O que planeja fazer, agora que estou aqui?
Os olhos de Tamlin não deixaram meu rosto.
— Nada. Faça o que quiser.
— Então não serei sua escrava? — Ousei perguntar.
Lucien engasgou com o vinho. Mas Tamlin não sorriu.
— Não tenho escravos.
Ignorei o alívio em meu peito ao ouvir aquilo.
— Mas o que devo fazer da minha vida aqui? — insisti. — Você... deseja que eu faça por merecer minha estadia? Que trabalhe? — Uma pergunta idiota de se fazer, se ele ainda não havia pensado nela, mas... mas eu precisava saber.
Tamlin enrijeceu o corpo.
— O que você faz com sua vida não é problema meu.
Lucien pigarreou de modo espalhafatoso... e Tamlin olhou para ele, irritado. Depois de uma troca de olhares que não consegui decifrar, Tamlin expirou e disse:
— Não tem algum... interesse?
— Não. — Não era completamente verdade, mas eu não estava disposta a explicar pintura a ele. Não quando, aparentemente, era muito problemático para ele simplesmente falar comigo de modo civilizado.
Lucien murmurou:
— Tão tipicamente humano.
A boca de Tamlin se repuxou para o lado, e ele não repreendeu o amigo. Em vez disso, falou:
— Faça o que quiser com seu tempo. Apenas fique longe de problemas.
— Então você realmente pretende que eu fique aqui para sempre — O que eu quis dizer foi: Então vou viver neste luxo enquanto minha família morre de fome?
— Não fiz as regras — grunhiu Tamlin.
— Minha família está morrendo de fome — falei. Eu não me importava em implorar, não por aquilo. Dera minha palavra e me ativera àquela palavra durante tanto tempo que eu não era nada nem ninguém sem ela.
— Por favor, me deixe ir. Deve haver... deve haver alguma outra brecha nas regras do Tratado, algum outro modo de eu me redimir.
— Redimir? — falou Lucien. — Você sequer já pediu desculpas?
Aparentemente, a tentativa de me elogiar tinha acabado. Então, encarei Lucien no olho vermelho que lhe restava e falei:
— Desculpe-me.
Lucien se recostou na cadeira.
— Como o matou? Foi uma luta sangrenta, ou assassinato a sangue frio?
Minha coluna se enrijeceu.
— Disparei uma flecha de freixo contra ele. E, depois, uma flecha comum no olho. Ele não revidou. Depois do primeiro disparo, apenas me encarou.
— Mas o matou mesmo assim, embora ele não tivesse feito qualquer movimento para atacar você. E então o esfolou — ciciou Lucien.
Basta, Lucien — disse Tamlin ao cortesão, com um grunhido. — Não quero ouvir detalhes. — Ele se virou para mim, eterno e brutal e impassível.
Falei antes que Tamlin pudesse dizer qualquer coisa.
— Minha família não vai durar um mês sem mim. — Lucien deu uma risada, e eu trinquei os dentes. — Sabe o que é passar fome? — indaguei, o ódio subindo e devorando qualquer bom senso. — Sabe como é não saber quando será sua próxima refeição? O maxilar de Tamlin se contraiu.
— Sua família está viva e bem-cuidada. Pensa tão mal dos feéricos a ponto de acreditar que eu lhes tiraria a única fonte de verba e nutrição sem substituí-la?
Estiquei o corpo.
— Você jura? — Mesmo que feéricos não pudessem mentir, eu precisava ouvir.
Uma risada baixa e incrédula.
— Por tudo que sou e possuo.
— Por que não me contou isso quando saímos do chalé?
— Teria acreditado em mim? Sequer acredita em mim agora? —As garras de Tamlin se cravaram nos braços de sua cadeira.
— Por que deveria confiar em uma palavra do que diz? Vocês são mestres em flexionar a verdade em vantagem própria.
— Há quem diga que não é inteligente insultar um feérico na casa dele — disparou Tamlin. — Há quem diga que você deveria se sentir grata por eu tê-la encontrado antes que qualquer um de meu povo reclamasse a dívida, por ter poupado sua vida e, depois, lhe oferecer a chance de viver com conforto.
Disparei o olhar para meus pés, droga de sabedoria, e estava prestes a empurrar a cadeira para trás quando mãos invisíveis seguraram meus braços e me empurraram de volta para o assento.
Não faça o que quer que esteja pretendendo — falou Tamlin.
Fiquei imóvel quando a magia penetrou minhas narinas. Tentei me virar na cadeira, testando as amarras invisíveis. Mas meus braços estavam presos e minhas costas pareciam pressionadas contra a madeira com tanta força que doía. Olhei para a faca ao lado do prato. Deveria ter pegado o objeto primeiro — ainda que fosse um esforço inútil.
— Vou dar um aviso — disse Tamlin, baixinho demais. — Apenas um, e depois é com você, humana. Não me importo se for morar em outro lugar de Prythian. Mas, se atravessar a muralha, se fugir, sua família não será mais assistida.
As palavras eram como uma pedrada na cabeça. Se eu escapasse, se sequer tentasse fugir... poderia muito bem condenar minha família. Mesmo que ousasse arriscar... mesmo que conseguisse alcançá-los, para onde os levaria? Não poderia esconder minhas irmãs em um navio... depois que chegássemos a outro lugar, algum lugar seguro... não teríamos onde viver. Mas Tamlin usar o bem-estar de minha família contra mim, descartar a sobrevivência deles caso eu saísse da linha...
Abri a boca, mas o grunhido de Tamlin chacoalhou os copos.
— Esse não é um bom acordo? E, se fugir, talvez não tenha tanta sorte com quem quer que a busque em seguida. — As garras do feérico deslizaram de volta para debaixo dos nós dos dedos. — A comida não está enfeitiçada, não contém drogas, e será sua própria culpa se desmaiar. Então, vai se sentar a esta mesa e comer, Feyre. E Lucien fará o possível para ser educado. — Tamlin lançou um olhar contundente na direção de Lucien. O amigo deu de ombros.
As amarras invisíveis se afrouxaram e encolhi o corpo quando bati com as mãos sob a mesa. As amarras em minhas pernas e no corpo permaneceram intactas. Um olhar para os olhos verdes incandescentes de Tamlin me disse o que eu queria saber: hóspede ou não, eu não levantaria daquela mesa até que comesse alguma coisa. Pensaria na mudança súbita dos planos de fuga mais tarde. Agora... por enquanto... olhei para o garfo de prata e o peguei devagar.
Eles ainda me observavam — observavam cada movimento, o dilatar de minhas narinas quando cheirei a comida no prato. Nenhum odor metálico de magia. E feéricos não podiam mentir. Então, ele devia estar certo quanto à comida. Depois de garfar um pedaço de frango, mordi-o.
Foi difícil evitar gemer. Não comia algo tão bom havia anos. Mesmo as refeições que tínhamos antes da ruína eram pouco mais que cinzas em comparação àquilo. Comi o prato todo em silêncio, ciente demais dos Grão Feéricos que observavam cada mordida, mas, quando estendi a mão para me servir de uma segunda porção de torta de chocolate, a comida desapareceu. Simplesmente... sumiu, como se jamais tivesse existido, nem uma migalha restara.
Engolindo em seco, apoiei o garfo para que eles não vissem minha mão começar a tremer.
— Mais uma garfada e você vai vomitar as tripas — disse Tamlin, bebendo com gosto do cálice, e Lucien riu, sentado na cadeira.
As amarras que me seguravam se soltaram. Permissão silenciosa para ir.
— Obrigada pela refeição — falei. Foi tudo em que consegui pensar.
— Não quer ficar para tomar vinho? — perguntou Lucien, com doce veneno.
Apoiei as mãos na cadeira para me levantar.
— Estou cansada. Gostaria de dormir.
— Faz algumas décadas desde que vi um de seu tipo—falou Lucien —, mas vocês humanos não mudam, então, não acho que esteja errado ao perguntar por que acha nossa companhia tão desagradável, quando certamente os homens de onde vem não são muito belos de se admirar.
Do outro lado da mesa, Tamlin lançou um longo olhar de aviso ao emissário. Lucien o ignorou.
— Vocês são Grão-Feéricos — falei, me contendo. — Eu perguntaria por que sequer se deram o trabalho de me convidar ou de jantar comigo.
Tola... Eu realmente já deveria ter sido morta dez vezes.
Lucien falou:
— Verdade. Mas permita-me: é uma fêmea humana, mas prefere comer carvão quente a se sentar aqui mais que o necessário. Ignorando isto — ele gesticulou para o olho de metal e para a cicatriz brutal no rosto —, não somos tão horríveis de se ver. — Vaidade e arrogância típicas de feéricos. Sobre isso ao menos as lendas estavam certas. Guardei essa informação para o futuro. — A não ser que tenha alguém em sua cidade. A não ser que haja uma fila de pretendes à porta de seu casebre que nos faça parecer vermes em comparação.
Havia tanto desprezo ali que senti um pouco de satisfação ao dizer:
— Eu era próxima de um homem em minha cidade. — Antes de aquele Tratado me arrancar para longe, antes de se tornar claro que vocês podem fazer o que quiserem conosco, e nós mal podemos revidar.
Tamlin e Lucien trocaram olhares, mas foi Tamlin quem disse:
— Você está apaixonada por esse homem?
— Não — falei, o mais casualmente possível. Não era mentira, mas, mesmo que sentisse qualquer coisa do tipo por Isaac, minha resposta seria igual. Já era ruim o suficiente que os Grão-Feéricos agora soubessem que minha família existia. Eu não precisava acrescentar Isaac à lista.
De novo, aquela troca de olhares entre os dois machos.
— E você... ama mais alguém? — falou Tamlin, com os dentes trincados.
Uma risada saiu de dentro de mim, com uma ponta de histeria.
— Não. — Olhei de um para outro. Loucura. Aqueles seres letais, imortais, realmente não tinham nada melhor para fazer que aquilo? — É isso mesmo que querem saber a meu respeito? Se acho que são mais bonitos que machos humanos, e se tenho um homem em casa? Para que perguntar isso, se ficarei presa aqui pelo resto da vida? — Um fio incandescente de ódio percorreu meus sentidos.
— Queríamos saber mais sobre você, pois ficará aqui por um bom tempo — explicou Tamlin, os lábios contraídos em uma linha fina. — Mas é comum o orgulho de Lucien atravessar o caminho de suas boas maneiras. — Tamlin suspirou, como se estivesse pronto para me dispensar, e falou: — Vá descansar. Ambos estamos ocupados na maioria dos dias, então, se precisar de alguma coisa, peça aos empregados. Eles a ajudarão.
— Por quê? — perguntei. — Por que ser tão generoso? — Lucien me olhou de um modo que sugeria que ele não fazia ideia também, considerando que eu havia assassinado o amigo deles, mas Tamlin me encarou por um longo momento.
— Eu já costumo matar com muita frequência—respondeu Tamlin, por fim, com um gesto dos ombros largos. — E você é insignificante o bastante para não causar confusão nesta propriedade. A não ser que decida começar a nos matar.
Um leve calor tomou minhas bochechas, meu pescoço. Insignificante — sim, eu era insignificante para as vidas deles, o poder deles. Tão insignificante quanto os desenhos desbotados e lascados que havia pintado pelo chalé.
— Bem... — falei, sem me sentir nada agradecida —, obrigada.
Tamlin deu um aceno distraído e indicou para que eu saísse. Estava dispensada. Como a humana inferior que eu era. Lucien apoiou o queixo no punho e me deu um meio sorriso preguiçoso.
Basta. Fiquei de pé e recuei até a porta. Dar-lhes as costas seria como dar as costas a um lobo, poupassem ou não minha vida. Os feéricos não disseram nada quando atravessei a porta.
Um momento depois, a risada alta de Lucien ecoou nos corredores, seguida por um grunhido ríspido e cruel que o calou.
Apesar de ter sido poupada, dormi muito mal naquela noite, e a tranca na porta do quarto pareceu mais uma piada que qualquer outra coisa.
***
Eu estava bem desperta antes do amanhecer, mas continuei encarando o teto decorado, observando a luz crescente escapar das cortinas, saboreando a suavidade do colchão de penas. Costumava sair do chalé com a primeira luz da manhã, embora minhas irmãs reclamassem toda manhã porque eu as acordava tão cedo. Se estivesse em casa, já teria entrado no bosque, sem desperdiçar um momento da preciosa luz do sol, ouvindo o canto sonolento dos poucos pássaros invernais. Em vez disso, aquele quarto e a casa além dele estavam em silêncio; a enorme cama era estranha e vazia. Eu estava acostumada com o calor dos corpos de minhas irmãs entrelaçados com o meu.
Nestha devia estar esticando as pernas e sorrindo pelo espaço extra.
Ela provavelmente estava feliz, me imaginando na barriga de um feérico — provavelmente usando a notícia como uma chance de virar o centro das atenções entre os aldeões. Talvez a notícia os levasse a doar algumas coisas de segunda mão a minha família. Ou talvez Tamlin tivesse dado a ela dinheiro o suficiente — ou comida, ou o que quer que ele acreditasse consistir em “cuidar” deles — para durar o inverno todo. Ou talvez os aldeões se voltassem contra minha família, por não quererem se associar a pessoas com laços com Prythian, e a expulsaria da cidade.
Enterrei o rosto no travesseiro, puxando os cobertores mais para o alto. Se Tamlin tinha, de fato, cuidado deles, se aqueles benefícios cessassem assim que eu cruzasse a muralha, minha família provavelmente se ressentiria, mais que comemoraria, meu retorno.
Seu cabelo está... limpo. Um elogio patético. Imaginei que, se ele havia me convidado para morar ali para poupar minha vida, não devia ser completamente... cruel. Talvez só estivesse tentando suavizar a aspereza de nosso primeiro encontro. Talvez... talvez houvesse algum jeito de persuadir Tamlin a encontrar alguma brecha, a conseguir que a magia regendo o Tratado me poupasse... E, se não houvesse um jeito, talvez houvesse alguém...
Eu estava passando de um pensamento para outro, tentando entender a confusão, quando a tranca da porta estalou e....
Houve um guincho e um estampido, me levantei às pressas para ver Alis caída no chão. O pedaço de corda que eu tinha feito das barras da cortina agora pendia solto de onde eu o havia prendido para acertar o rosto de alguém. Era o melhor que eu podia fazer com o que tinha.
— Desculpe, desculpe balbuciei, saltando da cama, mas Alis já estava de pé, bufando para mim enquanto limpava o avental. Ela olhou para a corda que pendia da lâmpada.
— O que nas profundezas infinitas do Caldeirão é....
— Não achei que ninguém entraria aqui tão cedo, e pretendia tirar e....
Alis me olhou de cima a baixo.
— Acha que um pedaço de corda estapeando meu rosto vai evitar que eu quebre seus ossos? — Meu sangue gelou. — Acha que terá algum efeito contra qualquer um de nós?
Eu poderia continuar pedindo desculpas, não fosse pelo olhar de desprezo que ela me lançou. Cruzei os braços.
— Era um sinal de aviso, para me dar tempo de correr. Não uma armadilha.
Alis parecia pronta a cuspir em mim, mas, então, os atentos olhos castanhos se semicerraram.
— Também não pode correr mais que nós, menina.
— Eu sei — concordei, o coração se acalmando, por fim. — Mas pelo menos eu não enfrentaria a morte inconscientemente.
Alis soltou uma risada.
— Meu senhor deu a palavra de que você poderia viver aqui; viver, não morrer. Nós o obedeceremos. — Alis avaliou o pedaço de corda pendurado. — Mas precisava destruir aquelas cortinas lindas?
Eu não queria, tentei não o fazer, mas um leve sorriso repuxou meus lábios. Alis caminhou até o que restava das cortinas e as abriu, revelando um céu ainda violeta, pincelado com matizes de abóbora e magenta do sol que nascia.
— Desculpe — pedi de novo.
Alis emitiu um estalo com a língua.
— Pelo menos está disposta a brigar, menina. Preciso reconhecer isso.
Abri a boca para falar, mas outra criada do sexo feminino, com uma máscara de pássaro, entrou carregando uma bandeja de café da manhã. Ela fez uma curta reverência de bom-dia para mim, apoiou a bandeja em uma pequena mesa ao lado da janela e depois sumiu na sala de banho anexa. O som de água correndo preencheu o quarto.
Sentei à mesa e avaliei o mingau e os ovos com bacon — bacon. De novo, comida muito semelhante à que comíamos do outro lado da muralha. Não sei por que esperava outra coisa. Alis me serviu uma xícara do que parecia e cheirava a chá.
— O que é este lugar? — perguntei a ela baixinho — Onde é este lugar?
— É seguro, e isso é tudo o que precisa saber — respondeu Alis, apoiando o bule de chá. — Pelo menos a casa é. Se sair para xeretar a propriedade, fique atenta.
Tudo bem, se ela não responderia àquilo... Tentei de novo.
— Com que tipo de... feéricos eu deveria tomar cuidado?
— Todos eles—respondeu Alis. — A proteção do mestre só vai até certo ponto. Eles vão caçá-la e matá-la apenas por ser humana, independentemente do que tenha feito com Andras.
Outra resposta inútil. Ataquei o café da manhã e Alis foi para a sala de banho. Quando eu havia terminado de comer e me banhar, recusei a oferta de Alis e me vesti sozinha, com outra túnica exótica; dessa vez de um roxo tão profundo que poderia ser preta. Desejei saber o nome da cor, mas a cataloguei mesmo assim. Calcei as botas marrons que tinha usado na noite anterior, e, quando me sentei diante de uma penteadeira de mármore, deixando que Alis trançasse meus cabelos molhados, encolhi o corpo diante do reflexo no espelho.
Não era agradável, mas não pela aparência em si. Embora meu nariz fosse relativamente reto, era a outra feição que eu havia herdado de minha mãe. Ainda me lembrava de como o nariz dela costumava se franzir com interesse fingido quando um de seus amigos incrivelmente abastados fazia alguma piada sem graça.
Pelo menos eu tinha a boca suave de meu pai, embora ela tornasse ridículas minhas maçãs do rosto proeminentes demais e as bochechas profundas. Não conseguia olhar para meus olhos levemente puxados para cima. Sabia que veria Nestha ou minha mãe me encarando de volta. Às vezes eu imaginava se era por isso que minha irmã me insultava com relação a minha aparência. Estava longe de ser feia, mas... eu estampava tanto das pessoas que odiávamos e amávamos que isso era insuportável para Nestha. Para mim também.
Apesar disso, imaginei que para Tamlin — para Grão-Feéricos acostumados com impecável beleza etérea — talvez tivesse sido difícil encontrar um elogio.
 Alis terminou minha trança, e saltei do banco antes que ela conseguisse colocar nos meus cabelos florezinhas do cesto que trouxera. Eu teria honrado meu nome não fosse pelos efeitos da pobreza, mas jamais me importei muito com isso. A beleza não queria dizer nada na floresta.
Quando perguntei a Alis o que deveria fazer então — a que eu deveria fazer com o restante de minha vida mortal —, ela deu de ombros e sugeriu um passeio nos jardins. Quase ri do quanto aquilo parecia frívolo, mas contive a língua. Seria tola de afastar potenciais aliados. Duvidei que Tamlin desse ouvido a ela e não poderia pressioná-la a respeito daquilo também, mas... Pelo menos um passeio fornecia a chance de ter alguma ideia dos arredores — e de se havia mais alguém que pudesse levar meu caso a Tamlin.
Os corredores estavam silenciosos e vazios, o que era estranho para uma mansão tão grande. Haviam mencionado outros na noite anterior, mas não vi ou ouvi sinais deles. Uma brisa fragrante de... jacinto, percebi — se pelo menos viesse do pequeno jardim de Elain —, flutuava pelos corredores, carregando consigo o canto de um pássaro que eu não ouviria em casa por meses, se é que já ouvira antes.
Eu estava quase na grande escadaria quando reparei nas pinturas.
Não tinha me permitido olhar de verdade no dia anterior, mas agora, no corredor vazio, sem ninguém para me ver... um lampejo de cor em meio a um fundo sombreado e sinistro que me fez parar, uma revolução de cores e texturas que me impeliram a encarar a moldura dourada.
Eu nunca — nunca — tinha visto nada do tipo.
É apenas uma natureza-morta, disse parte de mim. E era: um vaso de vidro verde, com uma variedade de flores pendendo sobre a borda estreita, botões e folhas de todas as formas, tamanhos e cores: rosas, tulipas, ipomeias, ervas-lancetas, flores de cenoura, peônias...
Quanta técnica deve ter sido necessária para fazer com que parecessem tão vivas, mais do que vivas... Apenas um vaso de flores contra um fundo escuro, mas era mais que isso; as flores pareciam vibrantes com a própria luz, como se desafiassem as sombras reunidas em volta delas. Somente a maestria necessária para fazer o jarro de vidro conter aquela luz, refletir a luz com a água dentro, como se o vaso, de fato, tivesse peso sobre o pedestal de pedra... Incrível.
Eu poderia encarar a pintura durante horas — e as incontáveis pinturas apenas naquele corredor poderiam ter ocupado todo meu dia, mas... jardim. Planos.
Mesmo assim, conforme prossegui, não pude negar que aquele lugar era muito mais... civilizado que eu pensava. Pacífico, até, se eu estivesse disposta a admitir.
Se os Grão-Feéricos fossem de fato mais gentis que as lendas e os boatos humanos me haviam levado a crer, então talvez convencer Alis de minha desgraça não seria tão difícil. Se eu conseguisse conquistar Alis, convencê-la de que o Tratado estivera errado ao exigir tal pagamento de mim, ela poderia, de fato, descobrir se havia alguma coisa que me livrasse daquela dívida e...
— Você — disse alguém, e dei um salto para trás. À luz das portas de vidro abertas que davam para o jardim, a silhueta de uma imensa figura masculina estava diante de mim.
Tamlin. Ele vestia aquelas roupas de guerreiro, o corte justo exibindo o corpo musculoso, e três facas simples se achavam embainhadas no boldrié; cada uma longa o bastante para me cortar tão facilmente quanto as garras ferais de Tamlin. Os cabelos louros estavam presos longe do rosto, revelando aquelas orelhas pontudas — e aquela máscara estranha, linda.
— Aonde vai? — perguntou Tamlin, tão rispidamente que quase pareceu uma exigência. Você... Imaginei se ele sequer se lembrava de meu nome.
Levou um momento para que eu reunisse força o bastante nas pernas a fim de me levantar da posição quase agachada.
— Bom dia — cumprimentei, simplesmente. Pelo menos era uma saudação melhor que “Você". — Disse que eu deveria passar meu tempo como eu quisesse. Não percebi que estava em prisão domiciliar.
O maxilar de Tamlin se contraiu.
— É claro que não está em prisão domiciliar. — Mesmo conforme ele cuspiu as palavras, não pude ignorar a pura beleza masculina daquele maxilar forte, a riqueza da pele de bronzeado dourado. Tamlin devia ser bonito se algum dia tirasse aquela máscara.
Quando percebeu que eu não iria responder, Tamlin exibiu os dentes no que pareceu uma tentativa de sorriso, e falou:
- Quer um tour?
— Não, obrigada. — Consegui dizer, ciente de cada movimento desconfortável do meu corpo conforme eu passava por ele.
Tamlin se colocou em meu caminho; tão perto que ele decidiu recuar um passo.
— Fiquei sentado do lado de dentro a manhã inteira. Preciso de ar fresco. — E você é insignificante o suficiente para não ser um incômodo.
— Estou bem — falei, tentando desviar de Tamlin casualmente. — Você... foi bastante generoso. — Tentei parecer sincera.
Ele esboçou um meio sorriso, não tão agradável, pois, sem dúvida, não estava acostumado a ouvir negativas.
— Tem algum tipo de problema comigo?
— Não — respondi em voz baixa, e atravessei as portas.
Ele soltou um grunhido baixo.
— Não vou matar você, Feyre. Não quebro minhas promessas.
Quase tropecei pelos degraus do jardim quando olhei por cima do ombro. Ele estava no alto das escadas, sólido e antigo como as pálidas pedras da mansão.
— Matar... mas não ferir? Essa é outra brecha? Uma que Lucien poderia usar contra mim, ou qualquer outro aqui?
— Eles receberam ordens de sequer tocar em você.
— Mas ainda estou presa em seu reino por haver quebrado uma regra que eu não sabia que existia. Por que seu amigo estava no bosque naquele dia? Achei que o Tratado bania seu povo de nossas terras. — Tamlin apenas me encarou. Talvez tivesse ido longe demais, questionado demais. Talvez ele percebesse por que eu havia perguntado de verdade.
— Aquele Tratado — respondeu Tamlin, em voz baixa — não nos impede de fazer nada, exceto escravizar vocês. A muralha é um inconveniente. Se quiséssemos, poderíamos destruí-la e marchar, matando todos vocês.
Meu sangue gelou. Podia ser forçada a viver em Prythian para sempre, mas minha família... Perguntei baixinho:
— E você quer destruir a muralha?
Ele me olhou de cima a baixo, como se decidisse se eu valia o esforço de explicar. Tamlin falou:
— Não tenho interesse nas terras mortais, embora não possa falar por meu povo.
Mas ele ainda não tinha respondido à pergunta.
— Então o que seu amigo estava fazendo lá?
Tamlin ficou imóvel. Havia uma graciosidade tão sobrenatural, primitiva, até mesmo em sua respiração.
— Há... uma doença nestas terras. Por toda Prythian. Há quase cinquenta anos agora. É por isso que esta casa e estas terras estão tão vazias: a maioria... partiu. — Tamlin falou devagar, com cuidado, como se admitir aquilo para um humano fosse um esforço. — A praga se espalha devagar, mas faz a magia agir... de modo estranho. Meus próprios poderes diminuíram devido a ela. Essas máscaras — Tamlin bateu na máscara—são o resultado de um surto que ocorreu durante um baile de máscaras há 49 anos. Mesmo agora, não conseguimos tirá-las.
Pisquei. Presos em máscaras... havia quase cinquenta anos. Eu teria ficado louca, teria arrancado a pele do rosto.
— Não usava máscara na forma animal, nem seu amigo.
— A praga é cruel assim.
Viver como animal, ou viver com a máscara.
— Que... que tipo de doença é?
— Não é uma doença, uma peste ou enfermidade. Está concentrada apenas na magia, naqueles que moram em Prythian. Andras estava do outro lado da muralha naquele dia porque eu o mandara procurar uma cura.
— Ela pode afetar humanos? — Meu estômago se revirou. — Vai se alastrar para além da muralha?
— Sim—falou Tamlin. — Há... uma chance de afetar mortais e seu território. Mais que isso, não sei. Ela se move devagar, e seu povo está seguro por enquanto. Há décadas que ela não progride, a magia parece ter se estabilizado, embora tenha enfraquecido. — O fato de ele fazer tantas revelações significava muito a respeito de como Tamlin imaginava meu futuro: eu jamais voltaria para casa, jamais encontraria outro humano para o qual poderia contar aquela fraqueza secreta.
— Uma mercenária me contou que acreditava que feéricos poderiam estar pensando em atacar. Isso tem alguma relação?
Um leve sorriso, talvez meio surpreso.
— Não sei. Costuma falar com mercenários?
Enrijeci o corpo.
— Falo com quem quer que se dê o trabalho de me dizer algo de útil.
Tamlin endireitou o corpo e foi apenas a promessa de não me matar que evitou que eu encolhesse o meu. Então, Tamlin girou os ombros, como que afastando a irritação.
— A armadilha que montou em seu quarto era para mim?
Puxei ar entre os dentes trincados.
— Pode me culpar caso fosse?
— Eu posso assumir uma forma animal, mas sou civilizado, Feyre.
Então ele se lembrava, sim, de meu nome, pelo menos. Mas fiz questão de olhar para as mãos de Tamlin, para as pontas afiadas como lâminas daquelas garras curvas, despontando da pele bronzeada.
Ao reparar que eu encarava, Tamlin levou as mãos às costas. Ele falou rispidamente:
— Vejo você no jantar.
Não foi um pedido, mas mesmo assim assenti quando passei entre as cercas vivas, sem me importar aonde iria — apenas me importava o fato de que ele ficaria bem para trás.
Uma doença nas terras deles, afetando a magia, drenando-a dos feéricos... Uma praga mágica que poderia, um dia, se espalhar para o mundo humano. Depois de tantos séculos sem magia... estaríamos indefesos contra ela — contra o que ela pudesse fazer com humanos.
Imaginei se algum dos Grão-Feéricos se daria o trabalho de avisar meu povo.

Não levei muito tempo para descobrir.

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