1 de fevereiro de 2017

Capítulo Quinze

Os naga pareciam saídos de um pesadelo. Cobertos de escamas escuras e nada mais, eram uma combinação horrível de feições viperinas e corpos humanoides masculinos, cujos braços fortes terminavam em garras pretas reluzentes, capazes de retalhar carne.
Ali estavam as criaturas das lendas sangrentas, aquelas que escapavam pela muralha para atormentar e trucidar mortais. Aquelas que eu ficaria feliz em matar naquele dia, no bosque nevado. Os olhos imensos, com formato amendoado, observaram vorazmente o Suriel e eu.
Os quatro naga pararam do outro lado da clareira, com o Suriel entre nós, e apontei a flecha para o que estava no centro...
A criatura sorriu e uma fileira de dentes afiados como lâminas me cumprimentou quando uma língua prateada bifurcada disparou para fora.
— A Mãe Sombria nos mandou um presente hoje, irmãos — disse ele, olhando para o Suriel, que estava raspando as garras na corda da armadilha. Os olhos âmbar do naga se voltaram para mim de novo. — E uma refeição.
— Não é muito para comer — disse outro, flexionando as garras.
Comecei a recuar... na direção do rio, na direção da mansão abaixo, mantendo a flecha apontada para eles. Um grito meu avisaria Lucien, mas o fôlego era escasso. E ele poderia sequer aparecer se tivesse me mandado até ali. Mantive todos os sentidos fixos nos passos de retirada.
Humana — implorou o Suriel.
Eu tinha dez flechas — nove, depois que disparasse aquela armada no arco. Nenhuma era de freixo, mas talvez contivessem os naga o bastante para que eu fugisse.
Recuei outro passo. Os quatro naga se aproximaram devagar, como se saboreassem a lentidão da caçada, como se soubessem que já haviam vencido.
Eu tinha três batidas do coração para me decidir. Três batidas do coração para executar meu plano.
Puxei mais a corda do arco, com o braço trêmulo.
Então, gritei. Esganiçado e alto, com cada fração de ar nos pulmões pequenos demais.
Com os naga agora concentrados totalmente em mim, disparei contra a corda que mantinha o Suriel preso.
A armadilha se partiu. Como uma sombra no vento, o Suriel disparou, numa explosão escura que fez os quatro naga cambalearem para trás.
Aquele mais perto de mim disparou na direção do Suriel, a coluna forte do pescoço escamoso se esticando. Não havia mais chance de meus movimentos serem considerados um ataque não provocado; não agora que tinham visto minha mira. Ainda queriam me matar.
Então, soltei a flecha.
A ponta reluziu como uma estrela cadente pela escuridão da floresta, e tive apenas um piscar de olhos antes de ela atingir o alvo e o sangue jorrar no ar. O naga caiu para trás no momento em que os três restantes se viraram para mim. Eu não soube se fora um tiro fatal. Já estava fugindo.
Corri até o rio usando a trilha que calculara mais cedo, sem ousar olhar para trás. Lucien disse que estaria por perto, mas eu ainda estava nas profundezas do bosque, ainda longe da mansão e da ajuda.
Galhos e gravetos estalaram atrás de mim—perto demais —, e grunhidos, que não pareciam em nada algo que eu tivesse ouvido de Tamlin, de Lucien, do lobo ou de qualquer animal, preencheram a floresta.
Minha única esperança de escapar com vida era ser mais rápida que eles tempo o bastante para chegar a Lucien... se ele estivesse ali conforme prometido. Não me permiti pensar em todas as colinas que precisaria subir depois que saísse da floresta. Ou o que faria se Lucien tivesse mudado de ideia.
Os estalos pela vegetação ficaram mais altos, mais próximos, e virei para a direita, saltando por cima do córrego. Água corrente poderia ter impedido o Suriel, mas um chiado e um estampido logo atrás me informaram que não fazia nada para deter os naga.
Disparei por arbustos espinhentos, e os espinhos arranharam minhas bochechas. Mal senti os beijos dolorosos ou o sangue morno que escorria por meu rosto. Nem mesmo tive tempo de vacilar, não quando duas figuras escuras estavam a meu lado, se aproximando para me interceptar.
Meus joelhos reclamaram quando me esforcei mais, concentrada na luminosidade crescente do fim da floresta. Mas o naga à direita disparou até mim, tão rápido que só consegui saltar de banda a fim de evitar as garras afiadas.
Tropecei, mas continuei de pé no momento em que o naga à esquerda pulou. Parei e virei o arco em um semicírculo amplo. Quase o soltei quando atingiu aquele rosto viperino e o osso estalou com um grito assustador. Saltei por cima do enorme corpo caído do naga, sem me deter para procurar pelos outros.
Avancei 10 metros antes de o terceiro naga se colocar diante de mim.
Brandi o arco contra a cabeça dele. O naga desviou. Os outros dois chiaram quando surgiram atrás de mim, e segurei o arco com mais força.
Cercada.
Virei lentamente em círculo, o arco pronto para atacar.
Um deles fungou para mim, aquelas narinas em fendas se dilatando.
— Coisa humana esquálida — disparou ele para os outros cujos sorrisos ficaram mais afiados. — Sabe o que nos custou?
Eu não cairia sem lutar, sem levar alguns deles comigo.
— Vão para o inferno — vociferei, mas saiu como um arquejo.
Eles riram, se aproximando. Golpeei com o arco o mais próximo. Ele desviou, rindo.
— Nós vamos nos divertir, embora você talvez não ache tão divertido.
Trinquei os dentes quando ataquei de novo. Eu não seria caçada como um cervo entre lobos. Encontraria um modo de sair daquilo; eu...
A mão escura e cheia de garras de alguém se fechou sobre a parte de madeira do arco, e um ruidoso estalo ecoou pelo bosque silencioso demais.
O ar deixou meu peito como uma lufada, e só tive tempo de dar meia-volta antes que um deles me segurasse pelo pescoço e me atirasse ao chão. Ele bateu com meu braço contra a terra com tanta força que meus ossos gemeram e meus dedos se abriram, soltando o que restava do arco.
— Quando terminarmos de arrancar sua pele, vai desejar não ter vindo até Prythian — sussurrou ele ao meu rosto, o fedor de carniça descendo pela minha garganta. Quase vomitei. — Vamos cortar você tão bem que não vai sobrar muito para os corvos bicarem.
Uma chama branca e quente percorreu meu corpo. Ódio ou terror ou instinto selvagem, não sei. Não pensei. Peguei a faca na bota e a enfiei no pescoço encouraçado.
Sangue escorreu por meu rosto, por minha boca, conforme eu vociferava minha fúria, meu terror. O naga caiu para trás. Fiquei de pé antes que os dois restantes pudessem me segurar, mas algo duro como pedra atingiu meu rosto. Senti gosto de sangue e terra e grama quando caí no chão. Estrelas dançaram em minha visão, e fiquei de pé aos tropeços de novo, por instinto, procurando a faca de caça de Lucien.
Não desse jeito, não desse jeito, não desse jeito.
Um dos naga disparou contra mim, e desviei para o lado. Suas garras ficaram presas em meu manto e o puxaram, rasgando o tecido em fitas conforme seu companheiro me atirava ao chão, meus braços se rasgando sob aquelas garras.
— Você vai sangrar — disse um deles, sem fôlego, rindo baixo para a faca que eu ergui. — Vamos sangrá-la bem devagar. — Ele agitou as garras... perfeitas para um corte profundo e brutal. O naga abriu a boca de novo, e um rugido de quebrar os ossos ressoou pela clareira.
Mas não tinha saído da garganta da criatura.
O barulho não terminara de ecoar antes que o naga saísse voando de cima de mim, se chocando com tanta força contra uma árvore que a madeira se partiu. Discerni o dourado reluzente da máscara e dos cabelos, e as longas garras letais antes que Tamlin as cravasse na criatura.
O naga que estava me segurando gritou e me soltou, erguendo-se num salto quando as garras de Tamlin rasgaram o pescoço de seu companheiro. Carne e sangue arrancados.
Fiquei abaixada no chão, a faca pronta, esperando.
Tamlin soltou outro rugido que fez a medula de meus ossos gelar, revelando aqueles imensos caninos, e a criatura restante disparou para a floresta. Ela conseguiu se afastar apenas alguns passos antes que Tamlin a derrubasse, prendendo-a contra a terra. Tamlin estripou o naga com um golpe profundo e extenso.
Permaneci ali, o rosto semienterrado nas folhas e nos galhos e no musgo. Não tentei me levantar. Estava tremendo tanto que achei que desintegraria. Fiz o possível para continuar segurando a faca. Tamlin se ergueu, desvencilhando as garras do abdômen da criatura. Sangue e vísceras pingavam delas, manchando o musgo verde-escuro.
Grão-Senhor. Grão-Senhor. Grão-Senhor.
Ódio feral ainda lhe queimava o olhar, e me encolhi quando Tamlin se ajoelhou ao meu lado. Ele estendeu a mão para mim de novo, mas recuei, para longe das garras ensanguentadas, ainda expostas. Levantei-me até ficar sentada, antes que a tremedeira voltasse. Eu sabia que não conseguiria ficar de pé.
— Feyre — disse ele. A ira sumiu dos olhos de Tamlin, e as garras se retraíram para debaixo da pele de novo, mas o rugido ainda soava em meus ouvidos. Não havia nada naquele som, exceto fúria primitiva.
— Como? — Foi tudo o que consegui dizer, mas Tamlin entendeu.
— Eu estava rastreando um bando deles, esses quatro escaparam e devem ter seguido seu cheiro por essa floresta. Ouvi você gritar.
Então, ele não sabia sobre o Suriel. E ele... ele tinha vindo me ajudar.
Tamlin estendeu a mão para mim, e estremeci quando passou os dedos frios e molhados por minhas bochechas doloridas e ardidas. Sangue — aquilo era sangue neles. E pelo modo como meu rosto estava grudento, eu sabia que já havia sangue o suficiente sobre mim para não fazer diferença.
A dor no rosto e no braço diminuiu, e por fim sumiu. Os olhos de Tamlin ficaram sombrios diante do hematoma que já se formava na maçã de meu rosto, mas o latejar diminuiu rapidamente. O cheiro metálico de magia me envolveu e, depois, flutuou para longe em uma brisa leve.
— Encontrei um morto menos de 1 quilômetro daqui — continuou Tamlin, as mãos deixando meu rosto conforme ele soltava o boldrié, e, então, ele tirou sua túnica e me deu. A frente de minha túnica tinha sido rasgada pelas garras dos naga. — Vi uma de minhas flechas na garganta da criatura e segui as pegadas até aqui.
Puxei a túnica de Tamlin sobre a minha, ignorando como era fácil ver a definição dos músculos dele sob a camiseta branca, o modo como o sangue que a encharcava fazia com que os músculos se destacassem ainda mais. Um predador puro-sangue, criado para matar sem pensar duas vezes, sem remorso. Estremeci de novo e aproveitei o calor que o tecido me passava. Grão-Senhor. Eu deveria saber, deveria ter adivinhado. Talvez não quisesse... talvez estivesse com medo.
— Aqui — disse Tamlin, ao ficar de pé e estender para mim a mão manchada de sangue. Não ousei olhar para o naga morto conforme segurei a mão estendida e Tamlin me levantava. Meus joelhos falharam, mas fiquei de pé.
Encarei nossas mãos entrelaçadas, ambas cobertas de sangue que não era nosso.
Não, não fora Tamlin o único a derramar sangue agora. Talvez aquilo me tornasse uma besta, tanto quanto ele. Mas Tamlin tinha me salvado. Matado por mim.
— Será que eu quero saber o que você estava fazendo aqui? — perguntou ele.
Não. Definitivamente não. Não depois de ter me avisado tantas vezes.
— Achei que não estivesse confinada à casa e ao jardim. Não percebi que tinha vindo tão longe.
Tamlin soltou minha mão e deu um suspiro alto.
— Quando eu for chamado para lidar com... problemas, fique perto da casa.
Assenti um pouco distraída.
— Obrigada — murmurei, lutando contra a tremedeira que tomava meu corpo, minha mente. O sangue do naga sobre mim se tornou quase insuportável. — Não, não apenas por isso. Por salvar minha vida, quero dizer. — Eu queria confessar a ele o quanto significava para mim que o Grão-Senhor da Corte Primaveril achasse que eu era digna de ser salva, mas não conseguia encontrar as palavras.
As presas de Tamlin sumiram.
— Era... era o mínimo que eu podia fazer. Eles não deveriam ter se aproximado tanto das minhas terras. — Tamlin balançou a cabeça, mais para si mesmo. — Vamos para casa — disse ele, me poupando do esforço de explicar por que eu estava lá para início de conversa. Não conseguia contar que a mansão não era minha casa, que eu talvez sequer tivesse uma.
Caminhamos de volta em silêncio, ambos pálidos, ensopados de sangue. Eu ainda conseguia sentir a carnificina que tínhamos deixado para trás; o chão e as árvores encharcados de sangue. Os pedaços do naga.
Bem, eu tinha aprendido algo com o Suriel pelo menos. Mesmo que não fosse exatamente o que eu quisesse ouvir... ou saber.
Fique com o Grão-Senhor. Tudo bem, fácil. Mas quanto a sua aula de história interrompida, sobre reis cruéis e os comandantes, e como aquilo se relacionava com o Grão-Senhor ao meu lado e à praga... eu ainda não tinha detalhes o suficiente para avisar minha família corretamente. Mas o Suriel tinha me dito para não procurar mais respostas.
Tive a sensação de que certamente seria uma tola se ignorasse o conselho. Minha família precisaria se virar com meu escasso conhecimento, então. Tomara que bastasse.
Não perguntei nada mais a Tamlin sobre os naga — sobre quantos ele havia matado antes de aqueles quatro fugirem —, não perguntei nada, porque não detectei um pingo de triunfo em Tamlin, mas sim um tipo profundo e interminável de humilhação e derrota.

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