1 de fevereiro de 2017

Capítulo Quatro

Eu não sabia como o cabo de madeira de minha faca de caça tinha chegado à minha mão. Os primeiros movimentos foram um borrão dos grunhidos de uma besta gigantesca com pele dourada, os gritinhos esganiçados de minhas irmãs, o frio lancinante que inundou a sala, o rosto aterrorizado de meu pai.
Não era um martax, percebi — embora o alívio tivesse durado pouco. A besta devia ser tão grande quanto um cavalo, e, mesmo tendo o corpo mais ou menos felino, a cabeça era distintamente lupina. Eu não sabia o que pensar dos chifres curvados como os de um cervo que despontavam da cabeça. Mas leão, cão ou cervo, não havia dúvida dos danos que as garras pretas semelhantes a adagas e as presas amareladas poderiam infligir.
Se eu estivesse sozinha no bosque, poderia ter me deixado consumir pelo medo, poderia cair de joelhos e implorar por uma morte limpa e rápida. Mas não tinha tempo de sentir terror, não daria ao medo o mínimo espaço, apesar de meu coração latejar desesperadamente em meus ouvidos. De alguma forma, acabei diante de minhas irmãs, mesmo quando a criatura se apoiou sobre as pernas traseiras e gritou com a boca cheia de presas: — ASSASSINOS!
Mas foi outra palavra que ecoou em minha mente:
Feérico.
Aquelas palavras ridículas no portal serviam tanto quanto teias de aranha contra ele. Eu deveria ter perguntado à mercenária como ela matara aquele feérica, mas o pescoço grande da besta... aquilo parecia um bom lar para minha faca.
Ousei olhar por cima do ombro. Minhas irmãs gritavam, ajoelhadas contra a parede da lareira, e meu pai estava agachado diante delas. Outro corpo para defender. Estupidamente, dei outro passo na direção do feérico, mantendo a mesa entre nós, lutando contra a tremedeira em minha mão. O arco e a flecha estavam do outro lado da sala, além da besta. Eu precisaria passar por ela para pegar a flecha de freixo — e ganhar tempo o suficiente para atirá-la.
ASSASSINOS! — rugiu a besta de novo, os pelos eriçados.
— P-por favor — balbuciou meu pai atrás de mim, incapaz de encontrar forças para ficar ao meu lado. — O que quer que tenhamos feito, foi sem saber, e...
— N-n-nós não matamos ninguém — acrescentou Nestha, engasgando nos soluços, o braço erguido sobre a cabeça, como se aquele minúsculo bracelete de ferro funcionasse contra a criatura.
Peguei outra faca da mesa, o que era o melhor que poderia fazer, a não ser que encontrasse uma forma de alcançar a aljava.
— Saia — disparei para a criatura, brandindo as facas diante de mim. Não havia nenhum ferro à vista que eu pudesse usar como arma, a não ser que atirasse os braceletes de minhas irmãs contra ele. — Saia e não volte. — Embora as palavras fossem ríspidas, meus joelhos tremiam, e tive dificuldades em manter meu domínio das facas. Um prego, eu pegaria uma porcaria de prego de ferro se estivesse disponível.
A besta gritou comigo em resposta, e o chalé inteiro estremeceu, os pratos e as xícaras chacoalharam uns contra os outros. Mas, com o grito, o animal deixou o enorme pescoço exposto. Não era boa no arremesso, mas atirei a faca de caça mesmo assim.
Rápido — tão rápido que mal consegui ver —, a besta golpeou com a pata, lançando a faca pelos ares no momento em que disparou contra meu rosto com os dentes.
Dei um salto para trás, quase tropeçando sobre meu pai, encolhido. O feérico poderia ter me matado; poderia, mas o ataque tinha sido um aviso. Nestha e Elain, chorando, rezavam para quaisquer deuses havia muito esquecidos que ainda pudessem estar à espreita.
QUEM O MATOU? — A criatura caminhou até nós. Ele apoiou a pata na mesa, e o móvel rangeu sob seu peso. As garras emitiam um som seco à medida que cada uma delas cravava na madeira.
Ousei dar mais um passo à frente enquanto a besta empinava seu focinho sobre a mesa para nos farejar. Os olhos da besta eram verdes, salpicados de âmbar. Não eram olhos de animal, não com aquele formato e cor. Minha voz saiu surpreendentemente tranquila quando questionei:
— Matou quem?
A besta grunhiu, um ruído baixo que fez o lobo na floresta parecer um filhotinho.
— O lobo — disse a fera, e meu coração quase parou. O rugido tinha sumido, mas a ira permanecia, talvez até mesmo um toque de tristeza.
O choro de Elain atingiu um tom estridente. Mantive o queixo erguido.
— Um lobo?
— Um enorme lobo, com pelagem cinza — grunhiu a besta em resposta. Será que saberia se eu mentisse? Feéricos não podiam mentir, todos os mortais sabiam disso, mas será que podiam farejar as mentiras nas línguas humanas? Não tínhamos chance de escapar daquilo lutando, mas talvez houvesse outras formas.
— Caso ele tenha sido morto por engano — falei para a besta o mais calmamente possível —, que pagamento poderíamos oferecer em troca? — Aquilo era um pesadelo, e eu acordaria rapidamente ao lado da lareira, exausta pelo dia no mercado e pela tarde com Isaac.
A besta soltou um latido que poderia ter sido uma gargalhada amarga. Ele empurrou a mesa para caminhar em um pequeno círculo diante da porta destruída. O frio era tão intenso que estremeci.
— O pagamento que devem oferecer é aquele exigido pelo Tratado entre nossos reinos.
— Por um lobo? — repliquei, e meu pai murmurou meu nome como advertência. Eu tinha vagas lembranças de ouvir o Tratado lido para mim durante as aulas na infância, mas não me lembrava de nada sobre lobos...
A fera se virou para mim.
— Quem matou o lobo?
Encarei aqueles olhos de jade.
— Fui eu.
O animal piscou e, então, olhou para minhas irmãs, depois de volta para mim, para minha magreza, sem dúvida enxergando apenas fragilidade.
— Certamente está mentindo para salvá-las.
— Nós não matamos nada — choramingou Elain. — Por favor... por favor, poupe-nos! — Nestha calou Elain subitamente com o próprio choro, mas empurrou Elain mais para trás de si. Meu peito se apertou ao ver aquilo.
Meu pai ficou de pé, grunhindo devido à dor na perna enquanto cambaleava, mas, antes que conseguisse mancar até mim, repeti:
— Fui eu. — A besta, que farejava minhas irmãs, me avaliou. Endireitei os ombros. — Vendi a pele no mercado hoje. Se soubesse que era um feérico, não o teria tocado.
— Mentirosa — disparou a besta. — Você sabia. Teria ficado mais tentada a matá-lo se soubesse que era um dos meus.
Verdade, verdade, verdade.
— Pode me culpar?
— Ele atacou você? Você foi provocada?
Abri a boca para dizer que sim, mas...
— Não — respondi, soltando um grunhido também. — Mas considerando tudo o que os seus fizeram conosco, considerando o que os seus ainda fazem conosco, mesmo que soubesse, sem sombra de dúvida, foi merecido. — Melhor morrer com a cabeça erguida a morrer como um verme, encolhida e covarde.
Mesmo que o grunhido de resposta da criatura fosse a definição da ira e do ódio.
A luz da lareira refletiu nas presas expostas do animal, e imaginei qual seria a sensação de tê-las em meu pescoço, e a que altura minhas irmãs gritariam antes que também morressem. Mas eu soube, com uma clareza repentina e certa, que Nestha ganharia tempo para que Elain fugisse. Não para meu pai, por quem sentia rancor com todo o coração de aço. Não para mim, porque Nestha sempre soubera e odiara que ela e eu fôssemos dois lados da mesma moeda, e que eu pudesse travar minhas próprias batalhas. Mas Elain, a jardineira de flores, o coração carinhoso... Nestha morreria lutando por ela.
Foi esse lampejo de percepção que me fez apontar a faca que me restava contra a besta.
— Qual é o pagamento que o Tratado requer?
Os olhos do animal não deixaram meu rosto à medida que ele falava:
— Uma vida por outra. Qualquer ataque não provocado contra feéricos, por humanos, só pode ser pago com uma vida humana em troca.
Minhas irmãs pararam de chorar. A mercenária na aldeia tinha matado um feérico... mas ele a atacara primeiro.
— Eu não sabia — falei. — Não sabia dessa parte do Tratado.
Feéricos não podiam mentir, e ele falou bem diretamente, sem distorcer palavras.
A maioria de vocês mortais escolheu se esquecer dessa parte do Tratado disse a besta —, o que torna puni-los muito mais prazeroso.
Meus joelhos falharam. Não podia escapar daquilo, não podia fugir daquilo. Não podia sequer correr, pois o animal tinha bloqueado o único caminho até a porta.
Faça-o do lado de fora — sussurrei, as palavras falhando. — Não... aqui. — Não onde minha família precisará limpar meu sangue e meus restos. Isso se a besta sequer os deixasse viver.
O feérico bufou com uma risada cruel.
— Disposta a aceitar seu destino tão facilmente? — Quando eu apenas o encarei, o feérico disse: — Por ter a coragem de sugerir onde eu deveria matar você, vou lhe contar um segredo, humana: Prythian deve reclamar sua vida de alguma forma pela vida que lhe tirou. Então, como representante do reino imortal, posso estripá-la como um suíno ou... você pode atravessar a muralha e passar os restos de seus dias em Prythian.
Pisquei.
— O quê?
Ele falou devagar, como se eu fosse, de fato, tão burra quanto um suíno:
— Pode morrer esta noite ou oferecer sua vida a Prythian e morar ali para sempre, abrindo mão do reino humano.
— Faça isso, Feyre — sussurrou meu pai atrás de mim. — Vá.
Não olhei para ele quando falei:
— Morar onde? Cada centímetro de Prythian é letal para nós. Seria melhor eu morrer naquela noite que viver em terror absoluto do outro lado da muralha, até encontrar meu fim de uma forma sem dúvida ainda mais terrível.
— Tenho terras — disse o feérico, baixinho, quase relutante. — Darei permissão para que more nelas.
— Por que se incomodar? — Talvez essa fosse a pergunta de um tolo, mas...
— Você assassinou meu amigo — grunhiu a besta. — Assassinou e escalpelou seu cadáver, vendeu-o no mercado e depois disse que ele mereceu; mesmo assim, tem a audácia de questionar minha generosidade? — Tipicamente humano, ele pareceu acrescentar em silêncio.
— Não precisava mencionar a brecha no Tratado. — Eu me aproximei tanto que conseguia sentir o hálito quente do feérico no meu rosto. Feéricos de fato não podiam mentir, mas eles podiam omitir informações.
A besta grunhiu de novo.
— Tolice minha me esquecer de que humanos têm uma opinião tão baixa a nosso respeito. Vocês, humanos, não entendem mais o que é misericórdia? — censurou ele, as presas a centímetros de meu pescoço. — Vou deixar bem claro para você, menina: pode vir viva para minha casa em Prythian, oferecer sua vida pela do lobo dessa forma, ou pode sair agora mesmo e ser destroçada. Sua escolha.
Os passos hesitantes de meu pai soaram antes de ele segurar meu ombro.
— Por favor, bom senhor, Feyre é minha caçula. Imploro para que a poupe. Ela é tudo... ela é tudo... — No entanto, o que queria dizer morreu na garganta de meu pai quando a besta rugiu de novo. Mas ao ouvir aquelas poucas palavras que ele conseguiu dizer, o esforço que tinha feito... foi como uma lâmina contra minha barriga. Meu pai tremeu, encolhendo o corpo quando falou: — Por favor...
Silêncio — disparou a criatura, e o ódio fervilhou tão forte em mim que foi difícil não correr e enfiar a adaga em seu olho. Mas, quando cheguei a levantar o braço, soube que o animal fecharia a boca em meu pescoço.
— Posso conseguir ouro... disse meu pai, e meu ódio se dissolveu. O único modo de ele conseguir dinheiro era mendigando. Mesmo assim, teria sorte se conseguisse algumas moedas de cobre. Eu tinha visto como os abastados eram impiedosos em nossa aldeia. Já fazia anos que eu sabia que os monstros em nosso reino mortal eram tão ruins quanto aqueles do outro lado da muralha.
A besta riu com escárnio.
— Quanto vale a vida de sua filha para você? Acha que equivale a uma quantia?
Nestha ainda mantinha Elain atrás de si. O rosto de Elain estava tão pálido que se igualava à neve que caía pela porta aberta. Mas, com as sobrancelhas abaixadas, Nestha monitorava cada movimento que a criatura fazia. Ela nem se importou de olhar para meu pai, como se já soubesse qual era a resposta.
Quando meu pai não respondeu, ousei dar outro passo na direção da fera, atraindo sua atenção para mim. Eu precisava tirá-la dali—afastá-la de minha família. Pelo modo como o animal afastou minha faca, qualquer esperança de escapar estava em, de alguma forma, surpreendê-lo. Com a audição aguçada do feérico, eu duvidava de que teria qualquer chance em algum momento, pelo menos até ele acreditar que eu era dócil. Se tentasse atacar o animal ou fugir antes disso, ele destruiria minha família por diversão. E então me encontraria de novo. Eu não tinha escolha a não ser partir. Depois, encontraria uma oportunidade de cortar a garganta do animal. Ou pelo menos debilitá-lo o suficiente para fugir.
Contanto que os feéricos não conseguissem me encontrar de novo, não poderiam me fazer cumprir o Tratado. Mesmo que isso me tornasse uma amaldiçoada quebradora de juramentos. Mas, se fosse com a besta, estaria quebrando a promessa mais importante que eu já fizera. Isso com certeza vencia um tratado antigo que eu sequer havia assinado.
Soltei o cabo da adaga que me restava, e encarei os olhos verdes em um longo silêncio, antes de dizer:
— Quando partimos?
Aquelas feições lupinas permaneceram ferozes, cruéis. Qualquer esperança teimosa de resistência morreu quando o animal foi até a porta — não, até a aljava que eu tinha deixado atrás dela. Ele pegou a flecha de freixo, farejou e grunhiu. Com dois movimentos, o animal partiu a flecha ao meio e a jogou na fogueira atrás de minhas irmãs antes de se voltar para mim. Eu conseguia sentir o cheiro de minha ruína em seu hálito quando o animal falou:
— Agora.
Agora. Até mesmo Elain ergueu a cabeça para me encarar com horror mudo. Mas não podia olhar para ela, não podia olhar para Nestha; não quando ainda estavam agachadas ali, ainda em silêncio. Eu me virei para meu pai. Os olhos dele estavam marejados, então olhei para os poucos armários que tínhamos. Narcisos desbotados, amarelos demais, se curvavam sobre os puxadores. Agora.
A besta caminhou de um lado para outro em frente à porta. Eu não queria contemplar para onde iria ou o que faria comigo. Correr seria tolice até que fosse o momento certo.
— O cervo vai durar duas semanas — falei para meu pai, enquanto reunia minhas roupas para me proteger do frio. — Comece com a carne fresca, então passe para a carne já seca, você sabe como fazer isso.
— Feyre... — sussurrou meu pai, mas segui enquanto fechava o manto.
— Deixei o dinheiro das peles na cômoda — avisei. — Vai durar um tempo se forem cuidadosos. — Finalmente, olhei para meu pai de novo e me permiti memorizar as feições de seu rosto. Meus olhos arderam, mas pisquei para afastar as lágrimas quando enfiei as mãos nas luvas gastas. — Quando a primavera chegar, cacem perto da vegetação ao sul da grande curva do rio Nascente de Prata, os coelhos fazem as tocas ali. Peçam... peçam a Isaac Hale que mostre como montar armadilhas. Ensinei a ele no ano passado.
Meu pai assentiu, cobrindo a boca com uma das mãos. A besta grunhiu como advertência e saiu noite afora. Fiz menção de a seguir, mas parei a fim de observar minhas irmãs, ainda agachadas ao lado da lareira, como se não ousassem se mover até que eu fosse embora.
Elain disse meu nome sem emitir som, mas continuou encolhida, manteve a cabeça baixa. Então, me voltei para Nestha cujo rosto era tão parecido com o de minha mãe, tão frio e determinado.
— O que quer que faça — disse eu, baixinho —, não se case com Tomas Mandray. O pai dele bate na mulher, e nenhum dos filhos faz nada para impedir. — Os olhos de Nestha se arregalaram, mas acrescentei: — Hematomas são mais difíceis de esconder que a pobreza.
Nestha enrijeceu o corpo, mas não disse nada — nenhuma de minhas irmãs disse algo — à medida que me dirigia à porta aberta. Mas a mão de alguém se fechou em meu braço, me puxando até que eu parasse.
Quando me virei para olhar para ele, meu pai abriu e fechou a boca. Do lado de fora, a besta, sentindo que eu tinha sido detida, emitiu um grunhido estrondoso na direção do chalé.
— Feyre — disse meu pai. Os dedos tremeram quando segurou minhas mãos enluvadas, mas os olhos dele ficaram mais nítidos e mais fortes do que eu vira em anos. — Você sempre foi boa demais para este lugar, Feyre. Boa demais para nós, boa demais para qualquer um. — Ele apertou minhas mãos. — Se algum dia fugir, se convencê-los de que pagou sua dívida, não volte.
Eu não esperava um adeus de partir o coração, mas não imaginava aquilo também.
— Jamais volte — aconselhou meu pai, soltando minhas mãos para me sacudir pelos ombros. —Feyre. — Meu pai disse meu nome às pressas, a garganta oscilando. — Vá para algum lugar novo e construa sua reputação lá.
Ao longe, a besta era apenas uma sombra, me chamando para um destino que eu, sem querer, tinha infligido a mim mesma e a minha família. Uma vida por outra... mas e se a vida oferecida como pagamento também significasse a perda de outras três? Só esse pensamento me deu coragem, me fez voltar à realidade.
Eu jamais contei a meu pai sobre a promessa que tinha feito a mamãe, e não havia por que explicar agora. Então me desvencilhei dele e saí.
Deixei que os sons da neve estalando sob meus pés levassem as palavras de meu pai enquanto seguia a fera para o bosque envolto pela noite.

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