1 de fevereiro de 2017

Capítulo Quarenta e Um

O que se seguiu à segunda tarefa foi uma série de dias que não gosto de lembrar. Uma escuridão permanente recaiu sobre mim, e comecei a ansiar pelo momento em que Rhysand me daria uma taça do vinho feérico e eu poderia me soltar por algumas horas. Parei de pensar no enigma de Amarantha... era impossível. Principalmente para uma humana analfabeta e ignorante.
Pensar em Tamlin só piorava tudo. Eu vencera duas das tarefas de Amarantha, mas sabia — bem no fundo dos ossos — que a terceira seria aquela que me mataria. Depois do que acontecera à irmã, do que Jurian tinha feito, Amarantha jamais me deixaria sair dali com vida. Eu não podia culpá-la totalmente; duvidava que jamais esqueceria ou perdoaria se algo como aquilo tivesse sido feito com Nestha ou com Elain, não importava quantos séculos tivessem se passado. Mas ainda não sairia dali com vida.
Aquele futuro com que eu sonhara era apenas isso: um sonho. Ficaria velha e enrugada, enquanto ele permaneceria jovem durante séculos, talvez milênios. Na melhor das hipóteses, eu teria algumas décadas com ele antes de morrer.
Décadas. Era por isso que eu estava lutando. Um lampejo no tempo para eles — uma gota na piscina de sua eternidade.
Então, bebi vorazmente aquele vinho e parei de me importar com quem eu era, e com o que um dia importara para mim. Parei de pensar em cores, em luzes, no verde dos olhos de Tamlin... em todas aquelas coisas que eu ainda queria pintar e que agora jamais conseguiria.
Não deixaria aquela montanha com vida.
Eu estava caminhando até o quarto de vestir com as duas serviçais de sombras de Rhys, encarando o nada e pensando em menos ainda, quando um chiado e o bater de asas soaram de uma curva próxima. O Attor. As feéricas ao meu lado ficaram tensas, mas ergueram levemente o queixo.
Eu não me acostumara com o Attor, mas tinha passado a aceitar sua presença maligna. Ver minha escolta enrijecer o corpo despertou um pesar dormente, e minha boca ficou seca quando nos aproximamos da curva. Embora estivéssemos envoltas e ocultas pelas sombras, cada passo me aproximava daquele demônio alado. Meus pés se tornaram chumbo.
Então, uma voz mais baixa, gutural, grunhiu em resposta ao chiado do Attor. Unhas estalaram sobre pedra, e minhas acompanhantes trocaram olhares antes de me puxarem para uma alcova, uma tapeçaria que não estava ali momentos antes de recair sobre nós, e as sombras se intensificaram, se solidificaram. Tive a sensação de que se alguém puxasse a tapeçaria, veria apenas escuridão e pedras.
Uma delas cobriu minha boca com a mão, me segurando firme contra si, e sombras serpentearam de seu braço para o meu. Ela cheirava a jasmim; eu não tinha reparado. Depois de tantas noites, nem mesmo sabia seus nomes.
O Attor e seu acompanhante fizeram a curva, ainda falando, as vozes baixas. Somente quando consegui entender as palavras percebi que não estávamos apenas nos escondendo.
— Sim — dizia o Attor —, que bom. Ela ficará muito satisfeita ao saber que eles estão finalmente prontos.
— Mas será que os Grão-Senhores vão contribuir com a própria força? — respondeu a voz gutural. Eu podia ter jurado que a criatura grunhiu como um porco.
Eles se aproximaram mais e mais, alheios à nossa presença. Minhas acompanhantes chegaram mais perto de mim, tão tensas que percebi que estavam prendendo a respiração. Damas de companhia... e espiãs.
— Os Grão-Senhores farão o que ela mandar — disparou o Attor, e sua cauda serpenteou quando açoitou o chão.
— Ouvi conversas de soldados em Hybern... O Grão-Rei não está satisfeito com a situação da garota. Amarantha fez um acordo tolo. Ela lhe custou a Guerra da última vez por causa da loucura com Jurian; se lhe der as costas de novo, o rei não estará tão disposto a perdoá-la. Roubar seus feitiços e tomar um território para si é uma coisa. Falhar em ajudar na causa dele uma segunda vez é outra.
Um chiado alto soou, e tremi quando o Attor estalou o maxilar na direção de seu acompanhante.
— Minha senhora não faz acordos que não são vantajosos para ela. Permite que eles se agarrem à esperança, mas depois que esta é destruída, eles se tornam seus lindos e arrasados lacaios.
Deviam estar passando bem diante da tapeçaria.
— É melhor torcer que sim — respondeu a voz gutural. Que tipo de criatura seria aquela coisa para não ficar abalada pelo Attor? A mão sombreada de minha acompanhante se fechou com mais força sobre minha boca, e o Attor passou.
Não confie em seus sentidos, ecoou a voz de Alis em minha mente. O Attor tinha me surpreendido uma vez, quando achei que estava segura...
— E é melhor segurar sua língua — avisou o Attor. — Ou minha senhora o fará por você, e as garras dela não são gentis.
A outra criatura riu com aquele ruído suíno.
— Estou aqui sob condição de imunidade concedida pelo rei. Se sua senhora acha que está acima do rei porque governa esta terra desprezível, em breve vai se lembrar de quem pode lhe arrancar os poderes, sem feitiços ou poções.
O Attor não retrucou — e parte de mim desejou que ele replicasse, que respondesse. Mas ele foi silenciado pela outra criatura, e medo atingiu meu estômago, como uma pedra jogada em um lago.
Quaisquer que fossem os planos em que o rei de Hybern trabalhava durante aqueles longos anos — sua campanha para retomar o mundo mortal —, parecia que não estava mais disposto a esperar. Talvez Amarantha em breve recebesse o que queria: a destruição de todo meu reino.
Meu sangue esfriou. Nestha... eu confiava em Nestha para levar minha família para longe, para protegê-la.
As vozes dos dois sumiram, e somente quando um longo minuto a mais se passou, as duas fêmeas relaxaram. A tapeçaria sumiu e voltamos ao corredor.
— O que foi aquilo? — indaguei, olhando de uma para a outra conforme as sombras ao nosso redor diminuíam, mas não muito. — Quem é esse? — esclareci.
— Problemas — responderam elas, em uníssono.
— Rhysand sabe?
— Ele saberá em breve — disse uma delas. Retomamos nossa caminhada silenciosa para o quarto.
Não havia nada que eu pudesse fazer quanto ao rei de Hybern, de toda forma; não enquanto estivesse presa Sob a Montanha, não quando sequer tinha conseguido libertar Tamlin, muito menos eu mesma. E com Nestha pronta a fugir com minha família, não havia ninguém a quem avisar. Então, dias após dias se passaram, aproximando ainda mais minha terceira tarefa.
Acho que afundei tanto dentro de mim mesma que foi preciso algo extraordinário para me trazer de volta. Eu estava observando a luz dançar pela rocha úmida do teto da cela — como luar sobre água — quando um barulho viajou até mim, pelas pedras, irradiando pelo chão.
Estava tão acostumada com os estranhos violinos e tambores dos feéricos que, quando ouvi a melodia alegre, achei que fosse outra alucinação. Às vezes, se encarasse o teto por muito tempo, ele se tornava a ampla extensão do céu estrelado, e eu me tornava algo pequeno e pouco importante, soprado pelo vento.
Olhei para o pequeno buraco de ventilação em um canto do teto, pelo qual a música entrou em minha cela. A origem da música devia estar muito longe, pois era apenas um leve agitar de notas, mas, quando fechei os olhos, consegui ouvir mais claramente. Consegui... ver. Como se fosse uma grande pintura, um mural vivo.
Havia beleza naquela música... beleza e bondade. A música se dobrava sobre si mesma, como massa de bolo sendo despejada de uma tigela, uma nota sobre a outra, derretendo-se e mesclando-se para formar um todo, se elevando, me preenchendo. Não era música selvagem, mas continha uma violência de paixão, um tipo de alegria e tristeza ardentes, crescentes. Levei os joelhos até a altura do peito, precisando sentir a firmeza da pele, mesmo escorregadia pela tinta oleosa sobre ela.
A música formava uma trilha, uma subida sustentada por arcos de cores. Eu segui, saindo daquela cela, por camadas de terra, para cima, para cima... até campos de cardos azuis, além da folhagem das árvores, para a imensidão aberta do céu. O ritmo da música era como mãos me empurrando carinhosamente para a frente, me puxando mais para o alto, me guiando pelas nuvens. Jamais vira nuvens como aquelas; e em seus cantos fofos, eu conseguia discernir rostos bonitos e tristes. Eles sumiram antes que eu conseguisse enxergar com clareza, e olhei para longe, para onde a música me chamava.
Era um pôr do sol ou uma alvorada. O sol enchia as nuvens de magenta e roxo, e os raios laranja e dourados se misturavam ao meu caminho, formando uma faixa de metal reluzente.
Eu queria me dissolver ali, queria que a luz daquele sol me queimasse para longe, me enchesse de tanta alegria que eu me tornaria um raio de sol também. Aquilo não era música feita para dançar — era música para adorar, música para preencher o vazio em minha alma, para me levar a um lugar onde não havia dor.
Não percebi que estava chorando até que o calor úmido de uma lágrima caiu em meu braço. Mas, ainda assim, me agarrei à música, segurando-a como um beiral que me impedia de cair. Não tinha percebido o quanto eu não queria mergulhar naquela escuridão profunda — o quanto queria ficar ali, entre nuvens e cor e luz.
Deixei que os sons me invadissem, deixei que me deitassem e atropelassem meu corpo com os tambores. Para cima e para cima, se elevando até um palácio no céu, um corredor de alabastro e opala, onde tudo o que era lindo e gentil e fantástico morava em paz. Chorei... chorei por estar tão perto daquele palácio, chorei devido à necessidade de estar ali. Tudo o que eu queria estava ali; aquele que eu amava estava ali...
A música eram os dedos de Tamlin tocando meu corpo; era o dourado dos olhos dele, e seu sorriso torto. Era aquela risada baixa e rouca, e o modo como ele dissera aquelas três palavras. Era Tamlin. Era por isso que eu estava lutando, era isso que eu jurara salvar.
A música aumentou — mais alta, mais grandiosa, mais rápida, de onde quer que fosse tocada —, em uma onda que atingiu seu ápice, destruindo a tristeza de minha cela. Um soluço e um estremecimento saíram de mim quando o som se dissipou em silêncio. Fiquei sentada ali, tremendo e chorando, ferida e exposta, desnudada pela música e pelas cores que restavam em minha mente.
Quando as lágrimas pararam — a música ainda ecoava em cada fôlego meu — deitei na cama de feno, ouvindo minha respiração.
A música entremeou minhas lembranças, unindo-as, transformando-as em uma colcha de retalhos que me envolveu, que aqueceu meus ossos. Olhei para o olho no centro de minha palma, mas ele apenas encarou de volta — sem se mover.
Faltavam ainda dois dias até a última tarefa. Apenas dois dias mais, e, então, descobriria o que o Curso do Caldeirão tinha planejado para mim.

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