1 de fevereiro de 2017

Capítulo Quarenta e Seis

Tudo estava escuro, e quente — e espesso. Coberto de tinta, mas emoldurado com ouro. Eu estava nadando, chutando em busca da superfície, onde Tamlin esperava, onde a vida esperava. Mais e mais para cima, desesperada por ar. A luz dourada aumentou, e a escuridão se transformou em vinho espumante, mais fácil de nadar, as bolhas chiando ao meu redor e...
Arquejei, e o ar invadiu minha garganta.
Estava deitada no chão frio. Sem dor; sem sangue, sem ossos quebrados. Pisquei. Um lustre pendia acima de mim... eu jamais tinha reparado como os cristais eram detalhados, como o grito sufocado da multidão ecoava deles. Uma multidão... aquilo significava que eu ainda estava no salão do trono, significava que eu... Eu realmente não estava morta. Significava que eu tinha... Que eu tinha matado aqueles... Eu tinha... O salão girou.
Gemi ao apoiar as mãos no chão, me preparando para ficar de pé, mas... ao ver minha pele, congelei. Ela refletia uma luz estranha — e meus dedos pareciam mais longos onde eu os apoiara, abertos, no mármore. Impulsionei o corpo para me levantar. Eu me senti... me senti forte, e rápida e reluzente. E...
E eu tinha me tornado uma Grã-Feérica.
Fiquei imóvel quando senti Tamlin parado atrás de mim, senti o cheiro daquela chuva e do campo primaveril, o cheiro dele, mais forte do que jamais tinha sentido. Não conseguia me virar para olhar para ele — não podia... não podia me mover. Uma Grã-Feérica... Imortal. O que eles tinham feito?
Eu conseguia ouvir Tamlin prendendo a respiração; ouvi quando ele expirou. Ouvi o inspirar, os sussurros e os choros e a comemoração silenciosa de todos naquele salão, ainda nos observando, me observando; alguns entoando um cântico de louvor ao poder glorioso de seus Grão- -Senhores.
— Era a única forma de salvarmos você — explicou Tamlin baixinho. Mas, então, olhei para a parede e levei a mão ao pescoço. Esqueci completamente da multidão chocada.
Ali, sob o corpo pútrido de Clare, estava Amarantha, com a boca escancarada e a espada se projetando da testa. A garganta estava destruída — e o sangue agora encharcava a frente do vestido.
Amarantha estava morta. E eu tinha matado aqueles dois Grão-Feéricos; eu tinha...
Balancei a cabeça devagar.
— Você está... — Minha voz parecia alta demais aos ouvidos quando afastei aquele muro de escuridão que ameaçava me engolir. Amarantha estava morta.
— Veja você mesma — respondeu ele. Mantive os olhos no chão ao me virar. Ali, no mármore vermelho, estava uma máscara dourada, me encarando com os buracos vazios dos olhos.
— Feyre — disse Tamlin, tocando meu queixo com os dedos em concha, e erguendo meu rosto com carinho para que eu olhasse para ele. Vi aquele queixo familiar primeiro, depois, a boca, e então...
Ele era exatamente como eu tinha sonhado.
Tamlin sorriu para mim, o rosto todo iluminado por aquela alegria silenciosa que eu passara a amar tanto, e, então, ele afastou meus cabelos. Saboreei a sensação dos dedos de Tamlin em minha pele e ergui meus dedos para tocar seu rosto, para traçar os contornos daquelas maçãs do rosto altas e aquele lindo nariz reto — a testa lisa e ampla, as sobrancelhas levemente arqueadas, que emolduravam os olhos verdes.
O que eu tinha feito para chegar àquele momento, para estar de pé ali... Eu afastei esse pensamento de novo. Em um minuto, em uma hora, em um dia eu pensaria naquilo, me obrigaria a enfrentá-lo.
Levei a mão ao coração de Tamlin, e uma batida constante ecoou em meus ossos.
Eu estava sentada na beira de uma cama e, enquanto pensava que ser imortal significava ter uma resistência maior à dor e uma cicatrização mais rápida, contraí bastante o corpo quando Tamlin inspecionou meus poucos ferimentos restantes e, depois, os curou. Mal tivemos um momento juntos a sós nas horas que se seguiram à morte de Amarantha — que se seguiram ao que eu tinha feito àqueles dois feéricos.
Mas agora, naquele quarto silencioso... Eu não conseguia me esquivar da verdade que ressoava em minha mente a cada fôlego que eu tomava.
Eu os matara. Massacrara. Nem mesmo vira seus corpos sendo levados embora.
Pois tudo fora caótico no salão do trono momentos depois de eu acordar. O Attor e os feéricos mais desprezíveis tinham sumido do salão instantaneamente, junto aos irmãos de Lucien, o que foi um movimento inteligente, pois Lucien não era o único feérico que queria ajustar as contas. Não havia nenhum sinal de Rhysand também. Alguns feéricos tinham fugido, enquanto outros começaram a comemorar, e outros ainda ficaram apenas de pé ou caminharam de um lado para outro — os olhos distantes, os rostos pálidos. Como se eles também não sentissem que aquilo fosse real.
Um a um, formando uma multidão à sua volta, chorando e rindo com alegria, os Grão-Feéricos e os feéricos da Corte Primaveril se ajoelharam ou abraçaram ou beijaram Tamlin, agradecendo a ele... agradecendo a mim. Fiquei afastada o suficiente para apenas assentir, pois não tinha palavras para oferecer a eles em troca de sua gratidão, a gratidão pelos feéricos que eu havia assassinado para salvá-los.
Então, houve reuniões no caótico salão do trono — reuniões rápidas e tensas com os Grão-Senhores dos quais Tamlin era aliado para decidirem os próximos passos; depois, com Lucien e alguns Grão-Feéricos da Corte Primaveril, que se apresentaram como sentinelas de Tamlin. Mas cada palavra e cada fôlego eram altos demais, cada cheiro era forte demais, a luz era clara demais. Permanecer parada durante tudo aquilo era mais fácil que me mover, que me ajustar ao corpo estranho e forte que agora era meu. Eu nem mesmo conseguia tocar meus cabelos sem que a leve diferença em meus dedos me chocasse.
Me mantive imóvel até que cada sentido recém-aprimorado parecesse irritadiço e sensível, e Tamlin por fim reparasse em meus olhos apáticos, minha quietude, e tomasse meu braço. Ele me levou pelo labirinto de túneis e corredores até encontrarmos o quarto silencioso em uma ala afastada da corte.
— Feyre — dizia Tamlin agora, erguendo o rosto após inspecionar minha perna exposta. Eu estava tão acostumada com a máscara que o rosto dele me surpreendia sempre que eu olhava.
Aquilo... fora por aquilo que eu assassinara aqueles feéricos. Suas mortes não tinham sido em vão, e mesmo assim... O sangue sobre mim tinha sumido quando acordei — como se ser imortal, como se sobreviver, de alguma forma, me garantisse o direito de lavar o sangue deles de mim.
— O que foi? — indaguei. Minha voz estava... baixa. Vazia. Eu deveria tentar... tentar soar mais alegre, para ele, pelo que acabara de acontecer, mas...
Tamlin me deu aquele meio sorriso. Se ele fosse humano, poderia estar no fim dos vinte anos. Mas não era humano — e nem eu.
Eu não tinha certeza se aquele era um pensamento feliz ou não.
Aquela era uma de minhas menores preocupações. Eu deveria implorar pelo perdão de Tamlin, implorar às famílias e aos amigos daqueles feéricos por seu perdão. Deveria estar de joelhos, chorando de vergonha por tudo o que tinha feito...
— Feyre — disse Tamlin novamente, abaixando minha perna para ficar entre meus joelhos. Ele acariciou minha bochecha com o dorso de um dedo. — Como posso pagar a você pelo que fez?
— Não precisa — falei. Que fosse assim, que aquela cela escura e úmida desaparecesse, e o rosto de Amarantha sumisse para sempre de minha memória. Mesmo que aqueles dois feéricos mortos... mesmo que seus rostos jamais sumissem para mim. Se eu resolvesse pintar de novo, jamais conseguiria parar de ver aqueles rostos no lugar de cores e luz.
Tamlin segurou meu rosto nas mãos, se aproximando, mas depois me soltou e segurou meu braço esquerdo... meu braço tatuado. As sobrancelhas de Tamlin se franziram quando ele avaliou as marcas.
— Feyre...
— Não quero falar sobre isso — murmurei. O acordo que tinha feito com Rhysand, outra pequena preocupação em comparação com a mancha em minha alma, com o fosso dentro dela. Mas não duvidei de que veria Rhys de novo em breve.
Os dedos de Tamlin percorreram as marcas da tatuagem.
— Vamos encontrar uma forma de nos livrarmos disso — murmurou ele, e a mão de Tamlin subiu por meu braço, se apoiando em meu ombro. Ele abriu a boca, e eu sabia o que diria... O assunto no qual tentaria tocar.
Eu não conseguiria falar sobre aquilo, sobre eles... ainda não.
— Depois. — Então, prendi os pés ao redor das pernas de Tamlin, puxando-o para perto. Apoiei as mãos em seu peito, sentindo o coração batendo ali dentro. Aquilo... Eu precisava daquilo no momento. Aquilo não apagaria o que eu tinha feito, mas... Eu precisava dele por perto, precisava sentir o cheiro e o gosto de Tamlin, lembrar a mim mesma que ele era real, que aquilo era real.
— Depois — repetiu Tamlin, e se aproximou para me beijar.
Foi um beijo carinhoso, hesitante; nada como os beijos selvagens e fortes que tínhamos trocado no salão do trono. Tamlin roçou os lábios contra os meus de novo. Eu não queria desculpas, não queria conforto ou indulgência. Agarrei a frente da túnica de Tamlin e o puxei para perto quando abri a boca para ele.
Tamlin emitiu um grunhido, e o som disparou um incêndio em mim, se acumulando e queimando no interior. Deixei que queimasse aquele buraco em meu peito, minha alma. Deixei que cortasse a onda de escuridão que ameaçava me sufocar, deixei que consumisse o sangue invisível que eu ainda sentia nas mãos. Eu me entreguei àquele incêndio, a Tamlin, enquanto suas mãos percorriam meu corpo, me soltando conforme ele prosseguia.
Afastei o corpo, me desvencilhando do beijo para olhar o rosto de Tamlin. Seus olhos estavam iluminados, famintos, mas as mãos tinham parado de explorar e se detinham firmemente em meus quadris. Com a quietude de um predador, Tamlin esperou e observou enquanto eu traçava os contornos de seu rosto, enquanto beijava cada lugar que tocava.
A respiração irregular de Tamlin era o único som; e as mãos dele logo começaram a percorrer minhas costas e meus flancos, acariciando e provocando e me despindo para ele. Quando meus dedos passearam até a boca de Tamlin, ele mordeu meu dedo, sugando-o para dentro da boca. Não doeu, mas a mordida foi forte o bastante para que eu o encarasse de novo. Para que eu percebesse que ele estava cansado de esperar... e eu também.
Tamlin me colocou na cama, murmurando meu nome contra meu pescoço, contra minha orelha, contra as pontas dos dedos. Eu o instigava — mais rápido, mais forte. A boca de Tamlin explorou a curva de meu seio, a parte interior de minha coxa.
Um beijo para cada dia que ficamos separados, um beijo para cada ferimento e terror, um beijo para a tinta gravada em minha pele, e por todos os dias que ficaríamos juntos depois daquilo. Dias, talvez, que eu não merecia mais. Mas me entreguei de novo àquele fogo, me atirei a ele, para dentro dele, e me permiti queimar.
Fui tirada do sono por algo repuxando meu tronco, uma linha bem no interior.
Deixei Tamlin dormindo na cama, o corpo pesado de exaustão. Em algumas horas, deixaríamos Sob a Montanha e voltaríamos para casa, e não queria acordá-lo mais cedo que necessário. Rezei para algum dia conseguir dormir com aquela tranquilidade de novo.
Eu sabia quem tinha me convocado muito antes de abrir a porta para o corredor e caminhar por ele, tropeçando e cambaleando de vez em quando, conforme me ajustava ao novo corpo, ao novo equilíbrio e aos ritmos. Cuidadosamente, devagar, peguei um lance estreito de escadas para cima, subindo e subindo, até, para minha surpresa, um raio de luz do sol se propagar pelas escadas, e me vi em uma pequena varanda que se projetava para fora, na lateral da montanha.
Sibilei contra a claridade, protegendo os olhos. Achara que era o meio da noite — tinha perdido completamente qualquer noção de tempo na escuridão da montanha.
Rhysand deu um risinho baixo de onde eu mal conseguia distingui-lo, parado, sozinho, no parapeito de pedra.
— Esqueci que faz um tempo para você.
Meus olhos doeram devido à luz, e permaneci em silêncio até poder observar a vista sem sentir uma dor lancinante na cabeça. Um campo de montanhas violeta, com picos nevados, me recebeu, mas a rocha da montanha era marrom e estéril; nem mesmo uma faixa de grama ou um cristal de gelo reluziam nela.
Olhei para Rhysand por fim. Suas asas membranosas estavam à mostra — fechadas atrás dele —, mas as mãos e os pés pareciam normais, nenhuma garra aparente.
— O que você quer? — A frase não saiu com o tom afiado que eu pretendia. Não quando me lembrei como ele lutara, diversas vezes, para atacar Amarantha, para me salvar.
— Apenas dizer adeus. — Uma brisa morna agitou seus cabelos, soprando mechas de escuridão dos ombros de Rhysand. — Antes que seu amado a leve para sempre.
— Não para sempre — falei, agitando os dedos tatuados para que Rhys os visse. — Não tem uma semana todo mês? — Aquelas palavras, ainda bem, saíram gélidas.
Rhysand deu um leve sorriso, e as asas farfalharam, se acalmando depois.
— Como pude esquecer?
Encarei o nariz que eu vira sangrando apenas horas antes, os olhos violeta que estavam tão cheios de dor.
— Por quê? — perguntei.
Ele sabia o que eu queria dizer, e deu de ombros.
— Porque quando as lendas fossem escritas, eu não queria ser lembrado por ficar de fora. Quero que meus futuros filhos saibam que eu estava lá, e que lutei contra ela no final, mesmo que não tivesse conseguido fazer nada de útil.
Pisquei, dessa vez não por causa da claridade do sol.
— Porque — continuou Rhysand, os olhos fixos em mim — eu não queria que você lutasse sozinha. Ou que morresse sozinha.
E, por um momento, lembrei daquele feérico que tinha morrido em nosso saguão, e em como eu dissera o mesmo a Tamlin.
— Obrigada — falei, minha garganta se apertando.
Rhys lançou um sorriso que não chegou aos olhos.
— Duvido que dirá isso quando eu a levar para a Corte Noturna.
Não me dei o trabalho de responder quando me virei para a paisagem. As montanhas se estendiam infinitamente, reluzentes e sombreadas e amplas sob o céu aberto e claro.
Mas nada em mim se agitou; nada catalogou a luz e as cores.
— Vai voar para casa? — perguntei, baixinho.
Ele soltou uma risada suave.
— Infelizmente, eu levaria mais tempo do que posso perder. Outro dia, provarei os céus de novo.
Olhei para as asas fechadas contra o corpo poderoso, e minha voz saiu rouca quando falei.
— Você nunca me disse que amava as asas, ou voar. — Não, ele fizera sua habilidade de se transformar parecer... primitiva, inútil, entediante.
Rhys deu de ombros.
— Tudo o que amo sempre teve a tendência de ser tomado de mim. Falo para poucos a respeito das asas. Ou de voar.
Alguma cor já tinha retornado àquele rosto branco como a lua, e imaginei se Amarantha o mantivera no subterrâneo por tempo demais, e se ele um dia fora bronzeado. Um Grão-Senhor que amava voar... preso sob uma montanha. Sombras que não se originavam de Rhysand ainda assombravam aqueles olhos violeta. Imaginei se algum dia sumiriam.
— Como é ser Grã-Feérica? — perguntou ele, uma pergunta baixa, curiosa.
Olhei para as montanhas de novo, pensando. E talvez fosse porque não havia mais ninguém para ouvir, talvez porque as sombras nos olhos dele também estariam para sempre nos meus, mas respondi:
— Sou uma imortal... que foi mortal. Este corpo... — Abaixei o rosto para minha mão, tão limpa e brilhante, um deboche pelo que eu tinha feito. — Este corpo é diferente, mas isto — levei a mão ao peito, ao coração —, isto ainda é humano. Talvez sempre seja. Mas teria sido mais fácil viver com ele... — Minha garganta se apertou. — Mais fácil viver com o que fiz se meu coração também tivesse mudado. Talvez eu não me importasse tanto; talvez pudesse me convencer de que as mortes deles não haviam sido em vão. Talvez a imortalidade leve isso embora. Não sei se quero que isso aconteça.
Rhysand me encarou por tanto tempo que me virei para ele.
— Agradeça por seu coração humano, Feyre. Tenha piedade daqueles que não sentem nada.
Eu não conseguia explicar sobre o buraco que já estava formado em minha alma; não queria, então, apenas assenti.
— Bem, adeus por enquanto — disse Rhysand, alongando o pescoço como se não estivesse falando sobre nada importante. Ele fez uma reverência, inclinando metade do corpo; aquelas asas sumiram completamente, e Rhys tinha começado a se dissipar para dentro da sombra mais próxima, quando seu corpo ficou rígido.
Rhysand fixou os olhos em mim, arregalados e selvagens, e as narinas se dilataram. Choque — puro choque percorreu suas feições diante do que quer que ele tivesse visto em meu rosto, e então ele recuou um passo cambaleante. Cambaleante mesmo.
— O que foi... — comecei.
Rhys desapareceu — simplesmente desapareceu, sem deixar uma sombra à vista — no ar gelado.
Tamlin e eu partimos do modo como chegamos—por aquela caverna estreita no coração da montanha. Antes de partir, os Grão-Feéricos das sete cortes destruíram e selaram a corte de Amarantha, Sob a Montanha. Fomos os últimos a ir embora, e, com um gesto do braço de Tamlin, a entrada da corte desabou atrás de nós.
Eu ainda não tinha palavras para perguntar o que tinham feito com aqueles dois feéricos. Talvez um dia, em breve, perguntaria quem eram, quais eram seus nomes. O corpo de Amarantha, ouvi, tinha sido carregado para fora a fim de ser queimado; embora o osso e o olho de Jurian tivessem, por algum motivo, sumido. Por mais que eu quisesse odiá-la, por mais que desejasse poder ter cuspido em seu corpo incandescente... eu entendia o que a motivara — uma parte muito pequena dela, mas entendia.
Tamlin segurou minha mão conforme caminhávamos pela escuridão. Nenhum de nós disse nada quando a luz tênue do sol surgiu, manchando as paredes úmidas da caverna com um brilho prateado, mas nossos passos se apressaram conforme a luz aumentou e a caverna ficou mais quente, e, então, nós dois saímos para a grama verde-primavera que cobria as saliências e as depressões das terras dele. Nossas terras.
A brisa, o cheiro de flores selvagens me atingiu, e, apesar do vazio no peito, da mancha na alma, eu não consegui impedir o sorriso que aumentou quando subimos uma colina íngreme. Minhas pernas feéricas eram muito mais fortes que as humanas, e, quando chegamos ao topo da colina, eu não estava nem de perto tão ofegante quanto poderia ter ficado um dia. Mas perdi o fôlego quando olhei a mansão coberta de rosas.
Lar.
Em todas as elucubrações que eu fizera na masmorra de Amarantha, jamais me permiti pensar naquele momento; jamais me permiti sonhar tão ousadamente. Mas tinha conseguido: eu nos levara para casa.
Apertei a mão de Tamlin conforme olhamos a mansão, com os estábulos e os jardins, e duas risadas infantis — risadas sinceras e livres — vieram de algum lugar dentro da propriedade. Um momento depois, duas figuras pequenas e reluzentes dispararam para o campo além do jardim, gritando enquanto eram perseguidas por uma figura mais alta e risonha. Eram Alis e seus meninos. A salvo e fora do esconderijo, por fim.
Ficamos parados no alto da colina em silêncio, até que o sol poente emoldurasse a casa, as colinas e o mundo, e Lucien nos chamasse para jantar.
Eu me desvencilhei dos braços de Tamlin e o beijei carinhosamente. Amanhã — haveria um amanhã, e uma eternidade para encarar o que eu tinha feito, para encarar o que eu tinha despedaçado dentro de mim enquanto estivera Sob a Montanha. Mas por enquanto... por hoje...

— Vamos para casa — falei, e peguei sua mão.

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