1 de fevereiro de 2017

Capítulo Quarenta e Quatro

Tamlin gritou quando minha lâmina perfurou sua carne, partindo o osso. Por um momento nauseante, quando o sangue de Tamlin escorreu em minha mão, achei que a adaga de freixo o atravessaria.
Mas, então, ouvi um leve estampido—e uma reverberação lancinante em minha mão quando a adaga atingiu algo duro e resistente. Tamlin inclinou o corpo para a frente, o rosto ficou pálido, e arranquei a adaga de seu peito. Conforme o sangue escorria da madeira polida, ergui a lâmina.
A ponta estava quebrada, dobrada sobre si mesma.
Tamlin segurou o peito enquanto ofegava, e o ferimento já cicatrizava. Rhysand, ao pé da plataforma, sorria de orelha a orelha. Amarantha ficou de pé.
Os feéricos murmuraram uns para os outros. Soltei a adaga, fazendo com que quicasse pelo piso de mármore vermelho.
Mate-a agora, eu queria disparar para Tamlin, mas ele não se moveu conforme pressionava a mão contra o ferimento, e o sangue escorria. Devagar demais... ele estava se curando devagar demais. A máscara não caíra. Mate-a agora.
— Ela venceu — disse alguém na multidão.
— Liberte-os — ecoou outro.
Mas o rosto de Amarantha ficou pálido, as feições se contorcendo até se tornarem verdadeiramente viperinas.
— Vou libertá-los quando achar que devo. Feyre não especificou quando eu precisaria libertá-los, apenas que eu precisaria. Em algum momento. Talvez quando você estiver morta — terminou Amarantha, com um sorriso de ódio. — Presumiu que quando falei de liberdade instantânea com relação ao enigma, ela se aplicava às tarefas também, não foi? Humana tola e burra.
Dei um passo para trás à medida que ela descia os degraus da plataforma. Os dedos de Amarantha se contraíram em garras — o olho de Jurian estava desesperado dentro do anel, as pupilas se dilatavam e se contraíam.
— Mas você — sibilou ela para mim. — Você. — Os dentes de Amarantha reluziram, ficaram afiados. — Vou matar você.
Alguém gritou, mas não consegui me mover, não consegui sequer tentar sair da frente quando algo muito mais doloroso que relâmpago me atingiu e caí no chão.
Vou fazer com que pague por sua insolência — grunhiu Amarantha, e um grito irrompeu de minha garganta quando dor como eu jamais sentira percorreu meu corpo.
Meus ossos se despedaçavam conforme meu corpo se ergueu e se chocou contra o piso duro, e fui esmagada sob mais uma onda de agonia torturante.
— Admita que não o ama de verdade, e vou poupá-la — sussurrou Amarantha, e por minha visão comprometida, eu a vi caminhar até mim. — Admita que é um pedaço de lixo humano covarde, mentiroso e inconstante.
Eu não... eu não diria aquilo, mesmo que ela me esmagasse no chão.
Mas estava sendo destroçada de dentro para fora, e me debati, incapaz de gritar para aliviar a dor.
Feyre! — rugiu alguém. Não, não alguém: Rhysand.
Mas Amarantha ainda se aproximava.
— Acha que é digna dele? Um Grão-Senhor? Acha que merece qualquer coisa, humana? — Minhas costas se arquearam, e minhas costelas se partiram, uma a uma.
Rhysand gritou meu nome de novo; gritou como se ele se importasse. Apaguei, mas Amarantha me despertou, assegurando-se de que eu sentisse tudo, assegurando-se de que eu gritaria toda vez que um osso se quebrasse.
— O que você é, senão lama e ossos e alimento para vermes? — vociferou Amarantha. — O que é você em comparação com nosso povo, para achar que é digna de nós?
Feéricos começaram a gritar que aquilo era injusto, exigiram que Tamlin fosse libertado da maldição, e chamaram Amarantha de ardilosa e trapaceira. Em meio à névoa, vi Rhysand agachado ao lado de Tamlin. Não para ajudá-lo, mas para pegar a...
— São todos porcos, todos porcos imundos e ardilosos.
Chorei entre gritos quando o pé de Amarantha atingiu minhas costelas quebradas. De novo. E de novo.
— Seu coração mortal não é nada para nós.
Então, Rhysand se levantou, com minha faca ensanguentada nas mãos. Ele disparou contra Amarantha, ágil como uma sombra, a adaga de freixo apontada para a garganta dela.
Amarantha ergueu a mão — sequer se incomodando em olhar —, e Rhysand foi atirado para trás por uma parede de luz branca.
Mas a dor parou por um segundo, tempo o suficiente para que eu o visse atingir o chão e se levantar de novo, e avançar contra Amarantha — com mãos que agora terminavam em garras. Rhysand se chocou contra a parede invisível que Amarantha tinha erguido em volta de si, e minha dor foi interrompida quando ela se voltou para ele.
— Sua imundície traidora — disse Amarantha, fervilhando, para Rhysand. — Você é tão ruim quanto essas bestas humanas. — Uma a uma, como se a mão de alguém as empurrasse, as garras de Rhysand se retraíram para dentro da pele, deixando sangue em seu rastro. Ele xingou, baixinho e cruelmente. — Você estava planejando isso esse tempo todo.
A magia de Amarantha atirou Rhys pelos ares e, então, o golpeou de novo; com tanta força que a cabeça dele se chocou contra as pedras e a faca caiu de seus dedos abertos. Ninguém fez menção de ajudá-lo, e Amarantha acertou Rhysand mais uma vez com a magia. O mármore vermelho se rachou onde Rhys bateu, as rachaduras espraiando até mim. Onda após onda, Amarantha o golpeou. Rhys gemia.
— Pare — sussurrei, e sangue encheu minha boca quando estiquei a mão para tocar seus pés. — Por favor.
Os braços de Rhys cederam enquanto ele tentava se levantar com dificuldade, e sangue escorreu de seu nariz, pingando no mármore. Os olhos de Rhys encararam os meus.
A ligação entre nós se intensificou. Eu disparava do meu corpo para o de Rhys, me via pelos olhos dele, sangrando e partida e chorando.
Voltei para minha mente quando Amarantha se virou para mim de novo.
— Pare? Pare? Não finja que se importa, humana—cantarolou ela, e dobrou o dedo. Arqueei as costas, minha coluna se estirando quase ao ponto de quebrar, e Rhys gritou meu nome quando minha mente se distanciou do salão.
Então, as lembranças começaram — uma compilação dos piores momentos de minha vida, um livro de histórias de desespero e escuridão. A última página chegou, e chorei, sem sentir totalmente a agonia de meu corpo conforme via aquela jovem coelha sangrando na clareira daquela floresta, minha faca em seu pescoço. Minha primeira morte; a primeira vida que tirei.
Eu estava faminta, desesperada. Mas, depois, quando minha família a devorou, voltei para o bosque e chorei durante horas, sabendo que havia cruzado uma fronteira, que minha alma estava maculada.
Diga que não o ama! — gritava Amarantha, e o sangue em minhas mãos se tornou o sangue daquela coelha, se tornou o sangue do que eu tinha perdido.
Mas eu não diria. Porque amar Tamlin era a única coisa que me restava, a única coisa que eu não podia sacrificar.
Um caminho se abriu em meu campo visual vermelho e preto. Vi os olhos de Tamlin — arregalados enquanto ele rastejava na direção de Amarantha, me observando morrer, e incapaz de me salvar enquanto o ferimento se curava devagar, enquanto ela ainda retinha seu poder.
Amarantha jamais pretendera me deixar viver, jamais pretendera libertar Tamlin.
— Amarantha, pare com isso — implorou Tamlin, aos seus pés, enquanto agarrava o ferimento aberto no peito. — Pare. Desculpe, desculpe pelo que disse a respeito de Clythia há tantos anos. Por favor.
Amarantha o ignorou, mas eu não conseguia virar o rosto. Os olhos de Tamlin estavam tão verdes — verdes como os campos de sua propriedade. Aquele tom de cor arrastou as lembranças que me sufocavam, empurrou para longe o mal que me partia, osso a osso. Gritei de novo, com os joelhos estirados, ameaçando se partirem ao meio, mas vi aquela floresta encantada, vi aquela tarde em que deitamos na grama, vi aquela manhã em que assistimos ao nascer do sol, quando, por um momento, apenas um momento, eu soube o que era felicidade verdadeira.
Diga que não o ama de verdade — disparou Amarantha, e meu corpo se contorceu, quebrando aos poucos. — Admita para seu coração inconstante.
— Amarantha, por favor— gemeu Tamlin, o sangue se derramando no chão. — Farei qualquer coisa.
— Lidarei com você depois — grunhiu ela para Tamlin, e me atirou em um fosso incandescente de dor.
Eu jamais diria aquilo; nunca deixaria que ela ouvisse aquilo, mesmo que me matasse. E se aquela seria a minha ruína, que fosse. Se aquela seria a fraqueza que me destruiria, eu a acolheria com todo o coração. Se aquela seria... Pois embora cada um de meus golpes seja poderoso,
Quando mato, meu processo é vagaroso...
Era isso que aqueles três meses tinham sido — uma morte lenta e terrível. O que eu sentia por Tamlin era a causa daquilo. Não havia cura; nem a dor, nem a ausência ou a felicidade.
Mas se desprezado, me torno uma fera difícil de abater.
Ela podia me torturar o quanto quisesse, mas aquilo jamais destruiria o que eu sentia por Tamlin. Jamais faria com que Tamlin a quisesse; jamais aliviaria a dor de sua rejeição.
O mundo se tornou escuro nos cantos de minha visão, o que acalmou a dor.
Por muito tempo, eu fugira dele. Mas, ao me abrir para Tamlin, para minhas irmãs... aquele fora um teste de audácia tão desafiador quanto minhas tarefas.
Diga, sua besta vil — sibilou Amarantha. Ela poderia ter mentido para fugir de nosso acordo, mas jurara outra coisa com o enigma, liberdade imediata, independentemente de sua vontade.
Sangue encheu minha boca, quente conforme escorria entre meus lábios. Olhei para o rosto mascarado de Tamlin uma última vez.
Amor — sussurrei, a palavra se desfazendo em uma escuridão sem fim. Uma pausa na magia de Amarantha. —A resposta ao enigma... — falei, engasgando no próprio sangue — é... amor.
Os olhos de Tamlin se arregalaram antes de algo se partir sem parar em minha coluna.

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