2 de fevereiro de 2017

Capítulo Onze

— Que diabo aconteceu com você? — disse Rhysand, antes que a Corte Noturna surgisse completamente ao nosso redor.
— Por que simplesmente não olha dentro de minha mente? — Mesmo quando falei, as palavras não tiveram emoção. Não me dei o trabalho de empurrar Rhysand quando me desvencilhei de seu toque.
Rhys piscou um olho para mim.
— Onde está a diversão nisso?
Não sorri.
— Não vai jogar sapato desta vez? — Eu quase conseguia ver as outras palavras nos olhos dele. V amos lá. Brinque comigo.
Segui para as escadas que me levariam até meu quarto.
— Tome café comigo — sugeriu Rhysand.
Havia um tom naquelas palavras que me fez parar. Um tom do que eu podia jurar ser desespero. Preocupação.
Eu me virei, as roupas largas deslizaram por meus ombros, pela cintura. Eu não tinha percebido o quanto tinha perdido peso. Apesar de as coisas voltarem aos poucos ao normal.
Falei:
— Não tem outras coisas para resolver?
— É claro que tenho — respondeu ele, dando de ombros. — Tenho tantas coisas para resolver que às vezes fico tentado a liberar meu poder pelo mundo e limpar todos os problemas. Apenas para me dar um pouco de paz. — Rhys sorriu e fez uma reverência. Mesmo aquela menção casual de poder não me assustou, não me espantou.
— Mas sempre terei tempo para você.
Eu estava com fome... ainda não tinha comido. E era de fato preocupação que faiscava por trás do sorriso arrogante e insuportável.
Então, indiquei para que Rhys fosse na frente até aquela mesa de vidro familiar no fim do corredor.
Caminhamos a uma distância casual um do outro. Cansada. Eu estava tão... cansada.
Quando estávamos quase na mesa, Rhys falou:
— Senti uma pontada de medo este mês através de nossa bela ligação. Alguma coisa interessante aconteceu na maravilhosa Corte Primaveril?
— Não foi nada — garanti. Porque não foi. E não era da conta dele.
Olhei de esguelha para Rhys, e ódio, não preocupação, brilhou naqueles olhos.
Eu podia jurar que a montanha sob nós tremeu em resposta.
— Se você sabe — falei, friamente. — Por que pergunta? — Sentei na cadeira quando Rhys sentou na dele.
Ele respondeu, em voz baixa:
— Porque ultimamente a única coisa que ouço por meio da ligação é nada. Silêncio. Mesmo com os escudos erguidos muito impressionantemente a maior parte do tempo, eu deveria conseguir sentir você. Mas não sinto. Às vezes dou um puxão na ligação só para me certificar de que ainda está viva. — A escuridão deslizou. — Então, um dia, estou no meio de uma reunião importante quando terror dispara pela ligação. Só recebo lampejos de você e dele, e depois, nada. De volta ao silêncio. Gostaria de saber o que causou tal perturbação.
Eu me servi das bandejas de comida, pouco me importando com o que tinha sido servido.
— Foi uma discussão, e o resto não é de sua conta.
— É por isso que você parece ser devorada viva por luto, culpa e ódio, pouco a pouco?
Não queria conversar sobre aquilo.
— Saia de minha cabeça.
— Me obrigue. Me empurre para fora. Você baixou o escudo esta manhã... qualquer um poderia ter entrado.
Eu o encarei. Outro desafio. E eu simplesmente... não me importava. Não me importava com o que quer que fluísse incandescente por meu corpo, ou com a forma como eu deslizei para a cabeça de Lucien com a facilidade com que Rhys podia deslizar para a minha, com ou sem escudo.
— Onde está Mor? — perguntei.
Ele ficou tenso, e me preparei para que Rhys insistisse, provocasse, mas ele disse:
— Longe. Tem deveres a cumprir. — Sombras espiralaram ao redor de Rhysand de novo, e ataquei a comida. — O casamento está adiado, então?
Parei de comer apenas por tempo suficiente para murmurar:
— Sim.
— Eu esperava uma resposta mais próxima de “Não faça perguntas idiotas para as quais já sabe a resposta”, ou minha preferida: “V á para o inferno.”
Eu apenas estendi a mão para uma bandeja de tortinhas. As mãos de Rhys estavam espalmadas na mesa... e um fiapo de fumaça negra se enroscou nos dedos. Como garras.
Rhysand falou:
— Pensou em minha oferta?
Não respondi até que meu prato estivesse vazio e eu empilhasse mais comida nele.
— Não vou trabalhar com você.
Quase senti a tranquilidade sombria que recaiu sobre ele.
— E por que, Feyre, está recusando?
Empurrei as frutas no prato.
— Não vou fazer parte dessa guerra que acha que está vindo. Você disse que eu deveria ser uma arma, não um peão, mas os dois parecem a mesma coisa para mim. A única diferença é quem os empunha.
— Quero sua ajuda, não a manipular — disparou Rhys.
O estouro de seu temperamento me fez, por fim, erguer a cabeça.
— Quer minha ajuda porque vai irritar Tamlin.
Sombras dançaram ao redor dos ombros de Rhys; como se as asas estivessem tentando tomar forma.
— Tudo bem — sussurrou ele. — Eu cavei o túmulo sozinho, com tudo que fiz Sob a Montanha. Mas preciso de sua ajuda.
Mais uma vez, senti as outras palavras não ditas: Pergunte por que; insista.
E, mais uma vez, eu não queria. Não tinha energia.
Rhys falou, baixinho:
— Fui prisioneiro na corte de Amarantha por quase cinquenta anos. Fui torturado e espancado e fodido até que somente dizer a mim mesmo quem eu era, o que tinha a proteger, me impediu de tentar encontrar uma forma de acabar com aquilo. Por favor... me ajude a evitar que isso aconteça de novo. Com Prythian.
Uma parte distante de meu coração doeu e sangrou ao ouvir as palavras, o que ele expusera.
Mas Tamlin abrira exceções — aliviara a presença dos guardas, permitira que eu caminhasse com um pouco mais de liberdade. Ele estava tentando. Nós estávamos tentando. Eu não arriscaria isso.
Então, voltei a comer.
Rhys não disse mais uma palavra.
***
Não me juntei a Rhysand para jantar.
Não levantei a tempo do café da manhã também.
Mas, quando saí, ao meio-dia, Rhysand estava esperando no andar de cima, com aquele leve e interessado sorriso no rosto. Rhys me cutucou na direção da mesa que arrumara com livros e papel e tinta.
— Copie estas frases — disse Rhys do outro lado da mesa, me entregando um pedaço de papel.
Olhei para as frases e li com perfeição:
— Rhysand é uma pessoa espetacular. Rhysand é o centro de meu mundo. Rhysand é o melhor amante com que uma fêmea poderia sonhar. — Apoiei o papel, escrevi as três frases e entreguei a ele.
As garras se chocaram contra minha mente um momento depois.
E ricochetearam de um escudo adamantino preto e reluzente, sem provocar danos.
Ele piscou.
— Você treinou.
Eu me levantei da mesa e saí.
— Não tinha nada melhor a fazer.
***
Naquela noite, Rhysand deixou uma pilha de livros a minha porta com um bilhete.
Tenho assuntos para tratar em outro lugar. A casa é sua. Mande chamar se precisar de mim.
Dias se passaram; e eu não precisei.
***
Rhys voltou no fim da semana. Tomei o hábito de ficar em uma das pequenas salas que davam para as montanhas, e quase lera um livro inteiro na poltrona de estofado macio, prosseguindo devagar enquanto aprendia novas palavras. Mas aquilo preenchera meu tempo — me dera a companhia silenciosa e constante daqueles personagens, os quais não existiam e jamais existiram, mas, de alguma forma, me faziam sentir menos... sozinha.
A mulher que empunhara uma lança de osso contra Amarantha... Eu não sabia mais onde ela estava. Talvez tivesse sumido naquele dia em que seu pescoço se partiu e a imortalidade feérica tomou conta de suas veias.
Eu estava terminando um capítulo especialmente bom — o antepenúltimo do livro —, e um vespertino raio de sol amanteigado aquecia meu rosto quando Rhysand passou por duas das grandes poltronas com dois pratos de comida nas mãos e os apoiou na mesa baixa diante de mim.
— Como parece determinada a um estilo de vida sedentário — disse ele —, pensei que poderia me adiantar e lhe trazer comida.
Meu estômago já se revirava de fome, e apoiei o livro no colo.
— Obrigada.
Uma risada curta.
— Obrigada? Nada de “Grão-Senhor e criada”? Ou: “Não importa o que queira, pode enfiar na bunda, Rhysand”? — Ele emitiu um estalo com a língua. — Que decepcionante.
Apoiei o livro e estendi a mão para o prato. Rhysand podia se ouvir falar o dia inteiro se quisesse, mas eu queria comer. Agora.
Meus dedos tinham quase tocado a borda do prato quando ele simplesmente o deslizou para longe.
Estendi o braço de novo. Mais uma vez, uma espiral do poder de Rhysand puxou o prato mais para trás.
— Diga o que posso fazer — falou Rhys. — Diga o que posso fazer para ajudá-la.
Rhys manteve o prato além do alcance. Ele falou de novo, e, como se as palavras que saíram afrouxassem o controle dele sobre o poder, garras de fumaça se espiralaram sobre os dedos de Rhysand e enormes asas de sombras se espraiaram de suas costas.
— Meses e meses, e você ainda é um fantasma. Ninguém por lá pergunta que diabo está acontecendo? Seu Grão-Senhor simplesmente não se importa?
Ele se importava. Tamlin se importava. Talvez demais.
— Ele está me dando espaço para resolver — falei, com tanta irritação que mal reconheci minha voz.
— Me deixe ajudá-la — falou Rhysand. — Passamos por coisas demais Sob a Montanha.
Encolhi o corpo.
— Ela vence — sussurrou Rhys. — Aquela cadela vence se você permitir se desfazer.
Imaginei se ele estava se dizendo isso havia meses, me perguntei se Rhysand também tinha momentos quando as próprias memórias às vezes o sufocavam profundamente à noite.
Mas ergui o livro, disparando três palavras pela ligação entre nós antes de erguer os escudos de novo.
Fim da conversa.
— Ao inferno que acabou — grunhiu Rhysand. Um estrondo de poder acariciou meus dedos, e, então, o livro se fechou em minhas mãos. Minhas unhas se enterraram no couro e no papel, inutilmente.
Desgraçado. Desgraçado arrogante e convencido.
Devagar, ergui o olhar para Rhys. E senti... não um temperamento colérico, mas ódio frio e reluzente.
Quase conseguia sentir aquele gelo nas pontas dos dedos, beijando as palmas das mãos. E jurei que gelo cobriu o livro antes que eu o atirasse contra a cabeça de Rhysand.
Ele se protegeu tão rápido que o livro quicou para longe e deslizou pelo piso de mármore atrás de nós.
— Que bom — disse ele, com a respiração um pouco irregular. — O que mais você tem, Feyre?
O gelo se derreteu em chamas, e meus dedos se fecharam em punhos.
E o Grão-Senhor da Corte Noturna pareceu sinceramente aliviado ao ver aquilo; ao
ver a ira que me fazia querer explodir e queimar.
Um sentimento, pelo menos. Não como aquele silêncio vazio e frio.
E ao pensar em voltar àquela mansão com as sentinelas e as patrulhas e os segredos... Afundei de novo na poltrona. Congelada, mais uma vez.
— Sempre que quiser alguém com quem brincar — disse Rhysand, empurrando o prato na minha direção com um vento salpicado de estrelas —, seja durante nossa maravilhosa semana juntos ou em outra ocasião, avise.
Não consegui pensar em uma resposta, exausta do pouco de temperamento que demonstrei.
E percebi que parecia em uma queda livre infinita. Estava nela havia um tempo.
Desde que esfaqueei aquele jovem feérico no coração.
Não encarei Rhys de novo enquanto devorava a comida.
Na manhã seguinte, Tamlin esperava à sombra do imenso e retorcido carvalho no jardim.
Uma expressão assassina lhe contorcia as feições do rosto, direcionada apenas para Rhys. Mas não havia nada de diversão no sorriso de Rhys quando ele se afastou de mim... apenas um predador frio e esperto olhando para longe.
Tamlin grunhiu para mim:
— Entre.
Olhei de um Grão-Senhor para outro. Ao ver aquela fúria no rosto de Tamlin... Eu soube que não haveria mais cavalgadas ou caminhadas solitárias pela propriedade.
Rhys simplesmente me disse:
— Enfrente isso.
Depois, ele se foi.
— Estou bem — falei para Tamlin, quando os ombros dele se curvaram, a cabeça se abaixou.
— Vou encontrar uma forma de acabar com isso — jurou ele.
Eu queria acreditar em Tamlin. Sabia que ele faria qualquer coisa para conseguir.
De novo, Tamlin me fez descrever cada detalhe do que vira na casa de Rhys. Cada conversa, embora breve. Eu contei tudo, cada palavra mais baixa que a anterior.
Proteger, proteger, proteger — eu conseguia ver a palavra nos olhos dele, senti em cada investida de Tamlin para dentro de meu corpo naquela noite. Eu tinha sido levada de Tamlin uma vez, da mais definitiva das formas, mas nunca mais. 
As sentinelas retornaram com força total na manhã seguinte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
Encontrou algum erro gramatical ou de formatação? Comente :D