1 de fevereiro de 2017

Capítulo Nove

Na manhã seguinte, enquanto Alis e a outra criada preparavam meu banho, contemplei o plano. Tamlin mencionara que Lucien e ele tinham vários deveres, e, exceto pelo esbarrão do dia anterior, eu não vira nenhum dos dois por perto. Então, localizar Lucien — sozinho — seria a primeira ordem do dia.
Uma pergunta casual para Alis a fez revelar que Lucien devia estar na patrulha da fronteira naquele dia—e estaria nos estábulos, preparando-se para partir. Assim que me vesti — assim que as criadas se foram —, corri do quarto, rezando para não estar atrasada demais para encontrar Lucien sozinho.
Eu estava a meio caminho dos jardins, na direção das construções que vira no dia anterior, quando Tamlin disse, atrás de mim:
— Nenhuma armadilha hoje?
Congelei no meio do caminho e olhei por cima do ombro. Ele estava a poucos metros.
Como tinha se aproximado tão silenciosamente no cascalho? Destreza feérica, sem dúvida. Forcei tranquilidade para minhas veias, minha mente. Falei o mais educadamente possível:
— Você disse que eu estava segura aqui. Então, dei ouvidos a você.
Os olhos de Tamlin se semicerraram levemente, mas ele estampou o que imaginei ser a tentativa de um sorriso agradável.
— Meu trabalho da manhã foi postergado—respondeu Tamlin. De fato, ele não vestia a túnica de sempre, não usava o boldrié, e as mangas da camisa branca tinham sido puxadas até os cotovelos para revelar ante-braços bronzeados, definidos por músculos. — Se quiser dar uma volta pela propriedade, se estiver interessada em sua nova... residência, posso levá-la.
De novo, aquele esforço para ser... acolhedor, mesmo quando cada palavra parecia feri-lo. Talvez ele pudesse, em algum momento, se deixar levar por Lucien. E até então... Até que ponto eu poderia fazer o que quisesse se ele estava tendo tanto trabalho para fazer seu povo jurar não me ferir, para me proteger do Tratado? Dei um sorriso inexpressivo e falei:
— Eu preferiria passar o dia de hoje sozinha, acho. Mas obrigada pela oferta.
Tamlin ficou tenso.
— E quanto a...
— Não, obrigada — interrompi, um pouco impressionada com minha audácia. Mas precisava encontrar Lucien sozinho, precisava sondá-lo. Ele já poderia ter partido.
Tamlin fechou as mãos em punhos, como se lutasse contra as garras que queriam irromper. Mas ele não me repreendeu, não fez nada a não ser caminhar de volta para a casa sem dar mais uma palavra.
Eu poderia ter ficado intrigada, caso não planejasse, em algum momento, deixar aquele lugar. Em breve, com sorte, Tamlin não seria mais meu problema. Corri para os estábulos, guardando a informação. Talvez um dia, se eu fosse libertada, se houvesse um oceano e anos entre nós, eu lembraria e imaginaria por que ele havia se incomodado.
Tentei não parecer ansiosa demais, ofegante demais quando finalmente cheguei aos lindos estábulos pintados. Não me surpreendeu que os cavalariços usassem, todos, máscaras de cavalo. Por eles... por eles, senti uma pontada de pena pelo que a praga provocara, pelas ridículas máscaras que agora precisavam usar até que alguém pudesse descobrir como desfazer a magia que as colava aos rostos. Mas nenhum dos empregados do estábulo olhou para mim; porque eu não valia a pena, ou porque eles também se ressentiam de meu papel na morte de Andras.
Qualquer tentativa de parecer casual foi pelos ares quando finalmente encontrei Lucien montado em um cavalo preto, sorrindo para mim com os dentes brancos demais.
— Bom dia, Feyre. — Tentei esconder a rigidez dos ombros, tentei sorrir um pouco. — Vai montar, ou está apenas reconsiderando a oferta de Tamlin de morar conosco? — Tentei me lembrar das palavras em que tinha pensado mais cedo, as palavras para conquistá-lo, mas Lucien riu, e não de forma agradável. — Vamos lá. Vou patrulhar o bosque ao sul hoje, e estou curioso com relação às... habilidades que usou para abater meu amigo, acidentalmente ou não. Faz um tempo desde que encontro um humano, ainda mais um assassino de feéricos. Me acompanhe em uma caçada.
Perfeito. Pelo menos parte daquilo tinha ido bem, mesmo que parecesse tão divertido quanto encarar um urso dentro da toca. Não consegui parecer tão ansiosa, no entanto. Então me desviei para que um dos cavalariços passasse. Ele se moveu com uma suavidade fluida, como todos ali. E não me olhou também, nenhuma pista do que ele pensava sobre ter uma assassina de feéricos no estábulo.
Mas meu tipo de caça não podia ser feito no dorso de um cavalo. O meu consistia em perseguição cuidadosa e armadilhas e ciladas bem armadas. Eu não sabia como perseguir do alto de um cavalo. Lucien tinha aceitado uma aljava de flechas do cavalariço que retornara com um aceno de agradecimento. Ele sorriu de uma forma que não combinava com o olho de metal — ou o vermelho.
— Nenhuma flecha de freixo hoje, infelizmente.
Contraí o maxilar para evitar que uma réplica saltasse de minha língua. Tamlin dera a palavra de que nenhum dos outros deveria me tocar, e, como feéricos não podiam mentir, imaginei que isso me deixava a salvo de Lucien... até certo ponto. Mas, se ele não podia me ferir, eu não podia imaginar por que me convidaria para acompanhá-lo, exceto para debochar de mim como pudesse. Talvez estivesse mesmo entediado. Melhor para mim.
Então, dei de ombros.
— Bem... imagino que eu já esteja vestida para uma caçada.
— Perfeito — disse Lucien, o olho metálico reluzindo à luz do sol que penetrava pelas portas abertas do estábulo. Rezei para que Tamlin não entrasse por elas, rezei para que ele não decidisse montar sozinho e nos pegasse ali.
— Vamos, então — falei, e Lucien gesticulou para que os cavalariços preparassem um cavalo. Eu me recostei a uma parede de madeira enquanto esperava, atenta à porta, esperando por sinais de Tamlin, e ofereci minhas respostas inexpressivas às observações de Lucien sobre o tempo.
Felizmente, eu estava logo montada em uma égua branca, cavalgando com Lucien pelo bosque tomado pela primavera. Mantive uma distância saudável do feérico com máscara de raposa no caminho amplo, esperando que aquele olho não pudesse ver através da parte de trás da cabeça.
A ideia não era muito tranquilizadora, e então a afastei — junto à parte de mim que se maravilhava pelo modo como o sol iluminava as folhas e os aglomerados de açafrão, que cresciam em clarões de púrpura vibrante contra o marrom e o verde da terra. Aquelas eram coisas que não eram necessárias a meus planos, detalhes inúteis que apenas bloqueavam todo o resto: o formato e a inclinação do caminho, que árvores seriam boas para subir, sons de fontes de água próximas. Essas coisas poderiam me ajudar a sobreviver se eu precisasse. Mas, como o restante da propriedade, a floresta estava totalmente vazia. Não havia nenhum sinal de feéricos, ou de qualquer Grão-Feérico perambulando. Melhor assim.
— Bem, você certamente conhece a parte silenciosa da caçada — comentou
Lucien, se detendo para cavalgar ao meu lado. Era melhor mesmo que ele fosse até mim, em vez de eu parecer ansiosa demais, amigável demais.
Ajustei o peso da alça da aljava contra o peito, e depois passei o dedo pela curva lisa do arco de teixo no meu colo. O arco era maior que aquele que eu usava em casa, as flechas eram mais pesadas, e as pontas, mais grossas. Eu provavelmente erraria qualquer alvo encontrado, até me acostumar ao peso e o ao equilíbrio do arco.
Cinco anos antes, eu tinha usado as últimas moedas de meu pai, de nossa antiga fortuna, para comprar o arco e as flechas. Desde então, guardava uma pequena quantia todo mês para flechas e cordas sobressalentes.
— Então? — insistiu Lucien. — Nenhuma caça boa o bastante para você abater? Passamos por muitos esquilos e pássaros. — O dossel de vegetação projetava sombras na máscara de raposa; luz, escuridão e metal reluzente.
— Você parece já ter comida o suficiente à mesa para que eu some algo a ela, principalmente quando há sempre tantas sobras. — Duvidei que esquilo fosse bom o bastante para sua dieta.
Lucien deu um riso de escárnio, mas não disse mais nada quando passamos sob um lilás florescente, os cones roxos pendendo baixo o suficiente para roçar minha bochecha, como dedos frios e aveludados. A pungente fragrância adocicada permaneceu em meu nariz mesmo depois que passamos. Isso não é útil, disse a mim mesma. Embora... os arbustos espessos além da planta seriam um bom esconderijo se eu precisasse de um.
— Você disse que era um emissário de Tamlin — arrisquei. — Emissários costumam patrulhar a propriedade? — Uma pergunta casual e desinteressada.
Lucien emitiu um estalo com a língua.
— Sou emissário de Tamlin para ofícios formais, mas este era o turno de Andras. Então, alguém precisava preenchê-lo.
Engoli em seco. Andras tinha um lugar ali, e amigos ali — ele não fora apenas um feérico sem nome e sem rosto. Sem dúvida sentiam mais falta dele que de mim.
— Eu... desculpe-me — falei, e com sinceridade. — Eu não sabia o que... ele significava para todos vocês.
Lucien deu de ombros.
— Foi o que Tamlin disse, e, por isso, ele a trouxe aqui. Ou talvez você tenha parecido tão patética naqueles retalhos que ele sentiu pena.
— Eu não teria vindo se soubesse que usaria este passeio como desculpa para me insultar. — Alis mencionou que Lucien precisava de alguém que o enfrentasse. Bem fácil.
Lucien riu com desprezo.
— Desculpe-me, Feyre.
Eu poderia tê-lo chamado de mentiroso por aquele pedido de desculpas caso não soubesse que ele não podia mentir. O que tornava o pedido... sincero? Eu não conseguia dizer.
— Então — disse Lucien —, quando começará a tentativa de me persuadir a implorar que Tamlin encontre uma forma de libertá-la das regras do Tratado.
Tentei não me sobressaltar.
— O quê?
— Foi por isso que concordou em vir até aqui, não foi? Por que apareceu nos estábulos exatamente quando eu estava partindo? — Lucien me olhou de esguelha, com aquele olho vermelho. — Sinceramente, estou impressionado e lisonjeado por você achar que tenho tal influência sobre Tamlin.
Eu não revelaria minha cartada — ainda não.
— Do que está falando...
A cabeça inclinada de Lucien foi resposta suficiente. Ele riu e falou:
— Antes que desperdice seu precioso e parco fôlego humano, deixe-me explicar duas coisas. Uma: se fosse por mim, você teria partido, então não seria preciso que você me convencesse de nada. Duas: não pode ser do meu jeito, porque não há alternativa para o que o Tratado exige. Não há outra brecha.
— Mas... mas deve haver alguma coisa...
— Admiro sua coragem, Feyre, de verdade. Ou talvez seja estupidez. Mas, como Tam não quer matá-la, o que foi minha primeira opção, está presa aqui. A não ser que queira ganhar a vida sozinha em Prythian, o que — Lucien me olhou de cima a baixo — não aconselho.
Não... não, eu não poderia simplesmente... ficar ali. Para sempre. Até morrer. Talvez... houvesse outra forma, ou outra pessoa que pudesse encontrar uma saída. Controlei a respiração irregular, afastando os pensamentos de pânico e depressão.
— Mas foi um bravo esforço — disse Lucien, com um risinho.
Não me dei o trabalho de esconder meu olhar de irritação.
Cavalgamos em silêncio, e, além de alguns pássaros e esquilos, não vi nada — não ouvi nada — fora do comum. Depois de alguns minutos, acalmei os pensamentos revoltados e disse:
— Onde está o resto da corte de Tamlin? Realmente fugiram todos dessa praga sobre a magia?
— Como você sabe sobre a corte? — perguntou Lucien, tão rapidamente que percebi que ele achava que eu queria dizer outra coisa.
Mantive o rosto inexpressivo.
— É comum que propriedades tenham emissários? E criados chilram. Não foi por isso que os fez usar máscaras de pássaros para aquela festa?
Lucien fez uma expressão de raiva, e sua cicatriz se esticou.
— Cada um de nós escolheu o que usar naquela noite para honrar os dons de transfiguração de Tamlin. Os criados também. Mas agora, se tivéssemos escolha, as arrancaríamos com as mãos — rebateu Lucien, puxando a própria máscara. Ela não se moveu.
— O que aconteceu para que a magia agisse assim?
Lucien soltou uma risada áspera.
— Algo foi enviado das cloacas do inferno — disse ele, e, depois, olhou em volta e xingou. —Eu não deveria ter dito isso. Se ela soubesse...
— Quem?
A cor sumira da pele bronzeada de Lucien. Ele passou a mão pelo cabelo.
— Não importa — respondeu o feérico, e inspirou fundo. — Quanto menos souber, melhor. Tam pode não achar problemático contar a você sobre a praga, mas eu não duvidaria que um humano fosse capaz de vender a informação a quem pagar o maior preço.
Fervilhei de ódio, mas o pouco de informação que Lucien tinha dito faiscava diante de mim como joias brilhantes. Uma ela que assustava Lucien o suficiente para fazer com que ele se preocupasse... para deixá-lo com medo que alguém estivesse ouvindo, espionando, monitorando seu comportamento. Mesmo ali fora. Avaliei as sombras entre as árvores, mas não vi nada.
Prythian era governada por sete Grão-Senhores — talvez essa da fosse quem quer que governasse aquele território; se não um Grão-Senhor, uma Grã Senhora. Se é que era possível.
— Quantos anos tem? — perguntei, esperando que ele continuasse divulgando mais informações úteis.
— Sou velho — respondeu Lucien. Ele avaliou a vegetação, mas tive a sensação de que os olhos agitados do feérico não estavam procurando caça. Seus ombros estavam tensos demais.
— Que tipo de poderes você tem? Pode mudar de forma como Tamlin?
Lucien suspirou, olhando para o céu antes de refletir, cauteloso, aquele olho de metal se semicerrando com concentração determinada.
— Está tentando descobrir minha fraqueza para poder... — Olhei para ele com raiva. — Tudo bem. Não, não posso mudar de forma. Só Tam pode.
— Mas seu amigo... ele apareceu como um lobo. A não ser que aquela fosse a...
—Não, não. Andras era Grão-Feérico também. Tam pode nos transfigurar em outras formas se preciso. Ele guarda isso apenas para as sentinelas, no entanto. Quando Andras cruzou a muralha, Tam o transformou em lobo, assim ele não seria descoberto como feérico. Embora o tamanho provavelmente fosse indicação suficiente.
Um estremecimento percorreu minha espinha, tão violento que não reconheci o olhar incandescente de raiva que Lucien lançou em minha direção. Não tive coragem de perguntar se Tamlin poderia me transfigurar.
— Enfim — continuou Lucien —, os Grão-Feéricos não têm poderes específicos, como os feéricos menores. Não tenho uma afinidade de nascença, se é o que está perguntando. Não limpo tudo à vista ou atraio mortais para uma morte por afogamento, ou dou respostas a quaisquer perguntas que você possa ter, se me prender. Simplesmente existimos... para governar.
Virei para o outro lado para que ele não visse quando revirei os olhos.
— Imagino que, se eu fosse uma de vocês, faria parte dos feéricos, e não dos Grão-Feéricos? Um feérico inferior como Alis, servindo vocês de quatro? — Ele não respondeu, o que significava sim. Com aquela arrogância, não era surpresa que Lucien achasse repugnante minha presença como substituta de seu amigo. E como já deveria me odiar para sempre, pois frustrara meus planos antes que eles sequer começassem, perguntei: — Como conseguiu essa cicatriz?
Lucien exibiu uma expressão irritada.
— Não fiquei de boca fechada quando deveria, e fui punido por isso.
— Tamlin fez isso com você?
— Pelo Caldeirão, não. Ele não estava lá. Mas conseguiu o olho substituto para mim depois.
Mais respostas que não eram respostas.
— Então, há feéricos que realmente respondem a qualquer pergunta se você os prender? — Talvez soubessem como me libertar dos termos do Tratado.
— Sim — respondeu Lucien, contendo-se. — Os Suriel. Mas são velhos e cruéis, e não valem o perigo de sair para encontrá-los. E, se você for burra o bastante para continuar parecendo tão intrigada, vou ficar muito desconfiado e dizer a Tam que a mantenha em prisão domiciliar. Embora eu suponha que você faria por merecer se fosse, de fato, burra o suficiente para caçar um Suriel.
Eles deveriam estar próximos, então, se Lucien estava tão preocupado. Ele virou a cabeça para a direita, ouvindo, o olho rangendo baixinho. Os pelos de meu pescoço se arrepiaram, e saquei o arco em um segundo, apontando na direção para a qual Lucien olhava.
— Abaixe esse arco — sussurrou ele, a voz grave e áspera. —Abaixe a porcaria do arco, humana, e olhe para a frente.
Fiz conforme pedido, os pelos em meus braços se arrepiando quando algo farfalhou a vegetação.
— Não reaja — disse Lucien, forçando o olhar adiante também, o olho de metal ficando imóvel e silencioso. — Não importa o que sinta ou veja, não reaja. Não olhe. Apenas encare adiante.
Comecei a tremer, segurando as rédeas nas mãos suadas. Poderia ter imaginado se aquilo se tratava de alguma piada ruim, mas o rosto de Lucien tinha ficado muito, muito pálido. As orelhas de nossos cavalos se abaixaram, mas eles continuaram caminhando, como se também tivessem entendido o comando de Lucien.
Então senti.

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