1 de fevereiro de 2017

Capítulo Dois

O sol tinha se posto quando saí da floresta; meus joelhos tremiam. Minhas mãos, rígidas por segurar as pernas do cervo, haviam ficado completamente dormentes quilômetros atrás. Nem mesmo a carcaça conseguia afastar o frio que se intensificava. O mundo estava coberto por matizes de azul-escuro, interrompidos apenas por raios de luz amanteigada que escapavam das janelas fechadas de nosso chalé em ruínas. Era como caminhar por uma pintura viva — um momento de quietude tornado mais lindo pela agilidade com que os azuis se transformavam em escuridão sólida.
Conforme me arrastava pelo caminho, cada passo impulsionado apenas pela fome quase desnorteadora, as vozes de minhas irmãs flutuaram até me encontrar. Não precisei discernir as palavras para saber que, muito provavelmente, conversavam sobre algum rapaz, ou sobre as fitas que viram na aldeia, quando deveriam cortar lenha, mas sorri um pouco mesmo assim.
Chutei as botas contra o batente da porta de pedra, tirando a neve do solado. Pedaços de gelo se desprenderam das pedras cinza do chalé, revelando as marcas de proteção desbotadas entalhadas no portal. Meu pai tinha, certa vez, convencido um charlatão fortuito a trocar os entalhes de proteção contra feéricos por uma de suas próprias esculturas de madeira. Meu pai podia fazer tão pouco por nós que não tive coragem de dizer a ele que os entalhes eram inúteis — e, sem dúvida, falsos. Mortais não tinham magia; não possuíam nada da força e da velocidade superiores dos feéricos ou dos Grão-Feéricos. O homem, alegando ter sangue Grão-Feérico em sua linhagem, simplesmente entalhou as espirais, os redemoinhos e as runas ao redor da porta e das janelas, murmurou algumas palavras sem sentido e seguiu seu caminho.
Abri a porta de madeira e a maçaneta de ferro congelada feriu minha pele, como uma víbora. Calor e luz me cegaram quando entrei.
— Feyre! — Ouvi o arquejo baixo de Elain, pisquei de volta contra a luminosidade do fogo e, então, vi a segunda mais velha de minhas irmãs diante de mim. Ela estava enroscada em um cobertor, mas os cabelos castanho dourados, que todas herdamos, estavam perfeitamente presos em um coque. Oito anos de pobreza não a haviam destituído do desejo de parecer linda. — Onde conseguiu isso? — A fome implícita tornou suas palavras afiadas. Não mencionou o sangue em mim. Eu desistira, havia muito, de que elas reparassem se eu voltava da floresta toda noite. Pelo menos até que ficassem com fome de novo. Minha mãe não as obrigara a jurar nada em seu leito de morte.
Respirei para me acalmar quando soltei a corça dos ombros. O animal acertou a mesa de madeira com um estampido, chacoalhando uma xícara de cerâmica do outro lado.
- Onde acha que consegui? — Minha voz tinha ficado rouca. Desenrolei a pele de lobo do corpo da corça e, após descalçar as botas e colocá-las ao lado da porta, eu me virei para Elain.
Seus olhos castanhos — os olhos de meu pai — permaneceram na corça.
— Vai demorar muito para você limpar?
Eu. Não ela, não as outras. Nunca vi as mãos de minhas irmãs grudentas de sangue e pele. Eu aprendera a preparar e limpar minhas caças, graças à instrução de outros.
Meu pai e Nestha ainda estavam sentados à lareira, aquecendo as mãos, e minha irmã mais velha o ignorava, como sempre. Elain continuou encarando a carcaça, pressionando a mão contra a barriga, provavelmente tão vazia e dolorida quanto a minha. Não que Elain fosse cruel. Ela não era como Nestha, que nascera com desprezo no rosto. Elain às vezes apenas... não entendia as coisas. Não era maldade que a impedia de oferecer ajuda; simplesmente não lhe ocorria que pudesse ser capaz de sujar as mãos. Jamais consegui decidir se ela realmente não entendia que éramos pobres de verdade, ou se simplesmente não queria aceitar o fato. Isso, mesmo assim, não me impedia de comprar sementes para o jardim de flores que ela cultivava nos meses mais amenos, sempre que podia pagar por elas.
E não impedira Elain de me comprar três pequenas latas de tinta — vermelha, amarela e azul — durante aquele mesmo verão em que consegui o suficiente para comprar a flecha de freixo. Foi o único presente que ela me deu, e nossa casa ainda tinha as marcas dele, mesmo que a tinta estivesse agora desbotando ou descascando: pequenas vinhas e flores ao longo das janelas e dos batentes, e nas beiradas de coisas, minúsculas espirais de chama nas pedras que ladeavam a lareira. Qualquer minuto a mais que eu tivesse naquele farto verão usava para ornamentar a casa com cores, às vezes escondendo pequenas decorações dentro de gavetas, atrás das cortinas puídas, sob as cadeiras e na mesa.
Não tivemos um verão tão tranquilo desde então.
— Feyre. — A voz profunda e rouca de meu pai veio da lareira. A barba escura estava perfeitamente aparada, o rosto impecável — como os de minhas irmãs. — Que sorte você teve hoje de nos trazer tal banquete.
Ao lado de meu pai, Nestha riu com escárnio. Não era surpreendente. O mínimo sinal de elogio para qualquer um — eu, Elain, outros aldeões — costumava ser brindado com seu desprezo. E toda palavra de nosso pai costumava ser ridicularizada por Nestha também.
Estiquei as costas, quase cansada demais para ficar de pé, mas apoiei a mão à mesa ao lado da corça quando lancei um olhar a Nestha. De nós, ela sofrera mais com a perda de nossa fortuna. Secretamente se ressentia de meu pai desde o momento em que fugimos de nossa mansão, mesmo depois daquele dia horrível em que um dos credores veio mostrar o quanto estava infeliz com a perda de seu investimento.
Mas pelo menos Nestha não enchia nossas cabeças com conversas inúteis sobre recuperar a riqueza, como meu pai. Não, ela apenas gastava todo o dinheiro que eu não escondesse, e raramente se dava o trabalho de reconhecer a presença manca de meu pai. Havia alguns dias em que eu não sabia dizer qual de nós era o mais desprezível e amargo.
— Podemos comer metade da carne esta semana — falei, virando o olhar para a corça. O animal ocupava toda a mesa bamba que servia como nossa mesa de jantar, de trabalho e cozinha. — Podemos secar a outra metade — continuei sabendo que por mais delicadamente que eu falasse, ainda faria a maior parte do trabalho. — E vou ao mercado amanhã ver quanto consigo pelas peles — concluí, mais para mim mesma que para eles.
A perna ruim de meu pai estava estendida à frente, o mais perto da fogueira que conseguia chegar. O frio ou a chuva ou uma mudança na temperatura sempre agravavam os ferimentos horríveis e deformados ao redor de seu joelho. A bengala de meu pai estava apoiada contra a cadeira — uma bengala que Nestha às vezes tinha a propensão de deixar bem longe do alcance dele.
Ele poderia encontrar trabalho se não se sentisse tão envergonhado, sempre dizia Nestha quando brigávamos por causa isso. Ela odiava meu pai pelo ferimento também — por não haver revidado quando aquele credor e seus brutamontes invadiram o chalé e golpearam o joelho dele diversas vezes. Nestha e Elain tinham fugido para o quarto, bloqueando a porta. Eu fiquei implorando e chorando a cada grito do meu pai, a cada esmagar de osso. Eu me borrei — e então vomitei bem nas pedras diante da lareira. Somente então os homens foram embora. Jamais os vimos de novo.
Usamos uma enorme parte do dinheiro restante para pagar o curandeiro. Meu pai levou seis meses para sequer andar, um ano antes de conseguir caminhar 1,5 quilômetro. As moedas que trazia quando alguém sentia pena dele a ponto de comprar os entalhes de madeira não eram suficientes para nos manter alimentados. Cinco anos atrás, quando o dinheiro acabou de vez, quando meu pai ainda não conseguia — não queria — se mover muito, ele não discutiu quando anunciei que caçaria.
Meu pai não se deu ao trabalho de tentar se levantar da cadeira ao lado da lareira, não se deu ao trabalho de erguer o rosto do entalhe de madeira. Ele apenas me deixou entrar naquele bosque mortal e assustador que até mesmo os caçadores mais experientes temiam. Ele havia se tornado um pouco mais alerta agora — às vezes oferecia sinais de gratidão, às vezes mancava até a aldeia para vender as esculturas —, mas não muito.
— Eu adoraria um manto novo — disse Elain, suspirando, ao mesmo tempo que Nestha ficou de pé e declarou:
— Preciso de um novo par de botas.
Fiquei quieta, sabendo que não deveria entrar no meio de uma de suas discussões, mas olhei para as botas ainda reluzentes de Nestha à porta. Ao lado das dela, minhas botas pequenas demais se desfaziam na costura, unidas apenas por cadarços puídos.
— Mas estou congelando com meu manto velho e em frangalhos — implorou Elain. — Vou tremer até a morte. — Ela fixou os olhos arregalados em mim e falou: Por favor, Feyre. — Elain pronunciou as duas sílabas de meu nome: fei-re, com o choro mais terrível que eu já ouvira, e então, Nestha emitiu um estalo alto com a língua antes de mandar Elain se calar.
Esqueci as duas quando começaram a discutir quem ficaria com o dinheiro das peles no dia seguinte, e notei meu pai, agora de pé à mesa, uma das mãos apoiada contra o móvel a fim de aliviar o peso enquanto inspecionava a corça. Fiquei tensa quando a atenção dele se voltou para a enorme pele de lobo. Os dedos de meu pai, ainda macios como os de um cavalheiro, viraram a pele e traçaram uma linha pela parte inferior ensanguentada.
Os olhos escuros de meu pai se voltaram para os meus.
— Feyre — murmurou ele, e a boca se tornou uma linha contraída. — Onde conseguiu isto?
— No mesmo lugar em que consegui a corça — respondi, a voz igualmente baixa, minhas palavras frias e afiadas.
O olhar de meu pai percorreu o arco e a aljava presos a minhas costas, a faca de caça com cabo de madeira na lateral de meu corpo. Os olhos dele se encheram d’água.
— Feyre... o risco...
Indiquei a pele com o queixo, incapaz de evitar o tom afiado da voz quando falei:
— Não tive escolha.
O que eu queria dizer de verdade era: Você sequer se dá ao trabalho de tentar sair de casa na maioria dos dias. Se não fosse por mim, passaríamos fome. Se não fosse por mim, estaríamos mortos.
— Feyre — repetiu ele, e fechou os olhos.
Minhas irmãs tinham se calado, e ergui o rosto a tempo de flagrar Nestha enrugando o nariz ao fungar. Ela pegou meu manto.
— Você fede a porco coberto pelos próprios excrementos. Pode ao menos tentar fingir que não é uma camponesa ignorante?
Não deixei a mágoa transparecer. Eu era nova demais para aprender mais que o básico da etiqueta, da leitura e da escrita quando nossa família caiu em desgraça, e ela jamais me deixava esquecer.
Nestha recuou e passou o dedo sobre os cachos trançados dos cabelos castanho-dourados.
— Tire essas roupas nojentas.
Eu me demorei, engolindo as palavras que queria latir de volta para ela. Três anos mais velha que eu, Nestha, de alguma forma, parecia mais nova, as bochechas douradas sempre coradas, com uma delicada rosa vibrante.
— Pode colocar uma panela de água no fogo e lenha na lareira? Mas, enquanto perguntava, reparei na pilha de madeira. Restava um só pedaço de lenha. — Achei que iriam cortar lenha hoje.
Nestha limpou as longas unhas cuidadas.
— Odeio cortar lenha. Sempre fico com farpas. — Ela me olhou por baixo dos cílios escuros. De todas nós, Nestha se parecia mais com mamãe. —Além do mais, Feyre — disse ela, com um biquinho —, você é muito melhor nisso! Leva metade do tempo que eu levo. Suas mãos são melhores para isso... já são tão ásperas.
Meu maxilar se contraiu.
— Por favor — pedi, lutando contra a raiva, sabendo que uma discussão era a última coisa que eu queria ou de que precisava. — Por favor, levante-se ao amanhecer para cortar a lenha. — Desabotoei a parte de cima da túnica. — Ou comeremos o café da manhã frio.
Suas sobrancelhas se uniram.
— Não vou fazer tal coisa!
Mas eu já me dirigia ao pequeno segundo quarto, no qual nós, garotas, dormíamos. Elain murmurou uma súplica baixa a Nestha, o que lhe garantiu um sibilo em resposta. Olhei por cima do ombro para meu pai e apontei para o cervo.
— Prepare as facas — falei, sem me dar o trabalho de parecer agradável. — Vou sair logo. — Sem esperar resposta, bati a porta.
O quarto era suficientemente grande para uma cômoda bamba e a enorme cama de pau-ferro na qual dormíamos. O único resquício de nossa antiga riqueza, encomendada como presente de casamento de meu pai para minha mãe. Era a cama na qual nascêramos todas, e a cama na qual minha mãe morrera. Apesar de toda a pintura que fiz na casa nos últimos anos, jamais a toquei.
Joguei as camadas externas de roupa na cômoda gasta — franzindo a testa para as violetas e as rosas que havia pintado em volta dos puxadores da gaveta de Elain, para as chamas crepitantes que pintei em torno dos de Nestha, e para o céu noturno — com espirais de estrelas amarelas em vez de brancas — circundando os meus. Eu havia feito isso para alegrar um quarto sombrio. Elas jamais comentaram. Não sei por que eu esperava que o fizessem.
Resmungando, fiz o possível para não desabar na cama.
***
Jantamos cervo assado naquela noite. Embora eu soubesse que era tolice, não protestei quando cada uma de nós comeu uma segunda vez antes de eu declarar que já era o bastante. Passaria o dia seguinte preparando as partes restantes da corça para o consumo, e então separaria algumas horas para curtir as duas peles antes de levá-las ao mercado. Eu conhecia alguns mercadores que poderiam se interessar por tal compra—embora nenhum provavelmente me daria a quantia que eu merecia. Mas dinheiro era dinheiro, e eu não tinha tempo ou fundos para viajar até a cidade grande mais próxima a fim de encontrar uma oferta melhor.
Lambi os dentes do garfo, saboreando resquícios de gordura que cobriam o metal. Minha língua deslizou pelas pontas tortas — era parte de um faqueiro tosco que meu pai recuperara da ala dos criados enquanto os credores saqueavam nossa mansão. Nenhum de nossos talheres combinava, mas era melhor que usar os dedos. O faqueiro do dote de minha mãe fora vendido há muito tempo.
Minha mãe. Altiva e fria com os filhos, alegre e deslumbrante entre os conhecidos que frequentavam nossa antiga propriedade, apaixonada por meu pai — a única pessoa que ela realmente amou e respeitou. Mas também amava de verdade as festas; tanto que não tinha tempo de fazer nada comigo, a não ser contemplar como minhas habilidades com desenho e pintura, ainda por desabrochar, poderiam me garantir um futuro marido. Se ela tivesse vivido tempo o bastante para ver nossa riqueza ruir, teria ficado arrasada. Mais que meu pai. Talvez o fato de ela ter morrido tenha sido um ato de misericórdia.
De qualquer forma, pelo menos sobrava mais comida para nós.
Não havia nada dela no chalé além da cama de pau-ferro — e a promessa que eu fizera.
Sempre que olhava para um horizonte, ou pensava se eu não devia simplesmente andar e andar e jamais olhar para trás, ouvia aquela promessa que havia feito, 11 anos antes, enquanto ela definhava no leito de morte. Fiquem juntos, e cuide deles. Prometi, jovem demais para perguntar por que ela não havia implorado a minhas irmãs mais velhas, ou a meu pai. Mas jurei para ela, e então ela morreu, e em nosso mundo humano desgraçado — protegido apenas pela promessa dos Grão-Feéricos há cinco séculos, em nosso mundo, no qual havíamos esquecido os nomes de nossos deuses —, promessa era lei; uma promessa era moeda de troca; uma promessa era sua garantia.
Havia momentos em que eu a odiava por ter pedido que eu prometesse. Talvez, delirante de febre, nem soubesse o que estava exigindo. Ou talvez a morte tivesse dado a ela alguma clareza sobre a verdadeira natureza das filhas e do marido.
Pus o garfo na mesa e observei as chamas de nossa lareira minguada dançarem pela lenha restante, estendendo as pernas doloridas sob a mesa.
Virei para minhas irmãs. Como sempre, Nestha reclamava dos aldeões — que não tinham modos, que não tinham traquejo social, ou não faziam ideia de quanto o tecido de suas roupas era inferior, embora fingissem se tratar de seda fina ou chiffon. Desde que perdemos nossa fortuna, as antigas amigas passaram a ignorá-las incontestavelmente, e minhas irmãs agiam como se os jovens aldeões fossem um círculo social de segunda classe.
Tomei um gole da xícara de água quente — nem mesmo podíamos pagar por chá ultimamente — enquanto ela continuou a história.
— Bem, eu disse a ele: "Se acha que pode simplesmente me pedir de modo tão indiferente, senhor, vou recusar!” E sabe o que Tomas disse? — Nestha falava para Elain, que ouvia com atenção total. Perdido em qualquer lembrança enevoada que o havia tomado, meu pai sorria gentilmente para a amada Elain, a única de nós que se esforçava para falar com ele de verdade.
— Tomas Mandray? — interrompi. — O segundo filho do lenhador?
Os olhos azuis de Nestha se semicerraram.
— Sim — disse ela, e se voltou para Elain de novo.
— O que ele quer? — Olhei para meu pai. Nenhuma reação, nenhum sinal de alarme ou de que sequer ouvia.
— Ele quer se casar com ela — disse Elain, sonhadora. Pisquei.
Nestha inclinou a cabeça. Eu tinha visto predadores fazerem esse movimento antes. Às vezes imaginava se sua determinação irredutível nos teria ajudado a sobreviver melhor — a prosperar, inclusive — se não estivesse tão preocupada com nosso status perdido.
— Algum problema, Feyre? — Nestha disparou meu nome como um insulto e meu maxilar doeu por contraí-lo com força.
Meu pai se mexeu na cadeira, e, embora eu soubesse que era estupidez reagir às provocações, falei:
— Você não pode cortar lenha para nós, mas quer se casar com o filho de um lenhador?
Nestha empertigou os ombros.
— Achei que tudo que você queria era que saíssemos de casa, casar a mim e Elain para que tenha tempo de pintar suas gloriosas obras-primas. — Ela olhou com desprezo para a coluna de dedaleiras que pintei na borda da mesa; as cores eram escuras e azuis demais, sem nenhuma das manchinhas brancas dentro dos túbulos das flores, mas eu me superei, mesmo que tivesse sofrido por não ter tinta branca, para fazer algo tão defeituoso e duradouro.
Ignorei o insulto, embora desejasse cobrir a pintura com a mão. Talvez no dia seguinte eu simplesmente a raspasse da mesa de vez.
— Acredite — falei para Nestha —, no dia em que quiser se casar com alguém, vou marchar até a casa dele e entregá-la. Mas não vai se casar com Tomas.
As narinas de Nestha se dilataram delicadamente.
— Não há nada que possa fazer. Clare Beddor me contou esta tarde que Tomas vai me pedir em casamento a qualquer momento agora. E então, nunca mais vou precisar comer essas sobras de novo. — Ela acrescentou, com um leve sorriso: — Pelo menos não preciso recorrer a me deitar no feno com Isaac Hale, como se fosse um animal.
Meu pai soltou uma tosse envergonhada, virando o rosto para a cama dele ao lado da lareira. Jamais dissera uma palavra contra Nestha, por medo ou culpa, e aparentemente não começaria agora, mesmo que aquela fosse a primeira vez que ele ouvia falar de Isaac.
Apoiei as palmas das mãos na mesa enquanto a encarava. Elain tirou a mão de onde estava, como se a terra e o sangue sob minhas unhas, de alguma forma, fossem saltar para sua pele de porcelana.
— A família de Tomas vive melhor que a nossa por pouco — argumentei, tentando evitar grunhir. — Você seria apenas mais uma boca para alimentar. Se ele não sabe disso, então os pais devem saber.
Mas Tomas sabia — tínhamos nos esbarrado na floresta antes. Vi o brilho de fome desesperada em seus olhos quando Tomas me flagrou carregando uma penca de coelhos. Eu jamais matara outro ser humano, mas, naquele dia, minha faca de caça pareceu um peso na lateral do corpo. Fiquei longe do caminho dele desde então.
— Não podemos pagar um dote — continuei, e embora meu tom de voz fosse firme, minha voz ficou mais baixa. — Para nenhuma de vocês. — Se Nestha quisesse ir embora, tudo bem. Que bom. Eu estaria mais perto de alcançar aquele glorioso e tranquilo futuro, de conseguir uma casa calma, comida o bastante e tempo para pintar. Mas não tínhamos nada, absolutamente nada para atrair qualquer pretendente a tirar minhas irmãs de minhas mãos.
— Estamos apaixonados — declarou Nestha, e Elain assentiu. Quase ri. Quando tinham deixado de desejar aristocratas para paquerar camponeses?
— Amor não alimenta barriga vazia — repliquei, mantendo o olhar o mais firme possível.
Como se a tivesse golpeado, Nestha deu um salto do banco.
— Você só está com ciúmes, ouvi falar que Isaac vai se casar com alguma camponesa de Greenfleld por um bom dote.
E eu também; Isaac tinha se gabado disso na última vez em que nos encontramos.
— Ciúmes? — falei devagar, cavando fundo para esconder o ódio.
— Não temos nada para oferecer a eles, nenhum dote, nem mesmo gado. Embora Tomas possa querer se casar com você... você é um fardo.
— O que você sabe? — sussurrou Nestha. — É apenas uma besta semisselvagem, com coragem de dar ordens dia e noite. Continue assim e algum dia, algum dia, Feyre, não haverá ninguém para se lembrar de você, ou para se importar com o fato de que você sequer existiu. — Ela saiu irritada, e Elain disparou atrás dela, arrulhando sua simpatia. As duas bateram à porta do quarto que compartilhávamos com tanta força que a louça chacoalhou.
Eu tinha ouvido aquelas palavras antes — e sabia que ela só as repetia por que encolhi o corpo da primeira vez que Nestha as dissera. Ainda doíam, mesmo assim.
Tomei um longo gole da xícara lascada. O banco de madeira sob meu pai rangeu quando ele se mexeu. Tomei outro gole e falei:
— Você deveria colocar juízo nela.
Meu pai examinou uma marca de queimadura na mesa.
— O que eu posso dizer? Se é amor...
Não pode ser amor, não da parte dele. Não com aquela família desprezível. Já vi o modo como anda pela aldeia, ele quer algo de Nestha, e não é sua mão em...
— Precisamos de esperança tanto quanto precisamos de pão e carne — interrompeu meu pai, os olhos vívidos por um raro momento. — Precisamos de esperança, ou não sobreviveremos. Então, deixe que ela mantenha a esperança, Feyre. Deixe que imagine uma vida melhor. Um mundo melhor.
Eu me levantei da mesa, os dedos se fechando em punhos, mas não havia para onde correr em nosso chalé de dois quartos. Olhei para a pintura desbotada da dedaleira na beira da mesa. As flores mais na borda já estavam lascadas e sumindo, a parte mais baixa do caule tinha se apagado por completo. Em alguns anos, teria desaparecido, sem deixar marcas de que estivera ali. De que eu estivera ali.
Quando olhei para meu pai, meu olhar era ríspido.

— Isso não existe.

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Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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