2 de fevereiro de 2017

Capítulo Dezesseis

Rhys caminhou por entre os dois feéricos parados à porta da sala de jantar, me dando a opção de ficar ou me juntar a ele.
Uma palavra, prometera Rhys, e podíamos ir embora.
Os dois eram altos, as asas estavam recolhidas contra os corpos poderosos e musculosos, cobertos com um traje de couro costurado em placas que me lembravam de escamas gastas de alguma besta viperina. Espadas longas idênticas estavam, cada uma, presas ao longo da extensão da coluna de ambos — as lâminas eram lindas em sua simplicidade. Talvez não precisasse ter me dado o trabalho de usar as roupas finas, no fim das contas.
O feérico ligeiramente maior dos dois, o rosto oculto por sombras, deu uma risada e falou:
— Vamos, Feyre. Não mordemos. A não ser que peça.
Surpresa tomou conta de mim, o que colocou meus pés em movimento.
Rhys colocou as mãos nos bolsos.
— Até onde sei, Cassian, ninguém jamais aceitou essa oferta.
O segundo riu com escárnio, os rostos dos dois feéricos foram por fim iluminados quando eles se viraram na direção da luz dourada da sala de jantar, e sinceramente me perguntei por que ninguém tinha aceitado a oferta: se a mãe de Rhysand também era illyriana, então aquele povo era abençoado com beleza sobrenatural.
Como o Grão-Senhor, os machos — guerreiros — tinham cabelo preto, pele bronzeada. Mas, diferentemente de Rhys, os olhos tinham cor de amêndoa e estavam fixos em mim quando eu, por fim, me aproximei... em direção à Casa do Vento, que esperava atrás deles.
E era ali que as semelhanças entre os três acabavam.
Cassian observou Rhys da cabeça aos pés, os cabelos pretos, na altura dos ombros, oscilaram com o movimento.
— Tão chique esta noite, irmão. E fez a pobre da Feyre se arrumar também. — Cassian piscou um olho para mim. Havia algo de rústico em suas feições; como se fosse feito de vento e terra e chamas e toda aquela aparência civilizada não passasse de um inconveniente.
Mas o segundo feérico, aquele que tinha uma beleza mais clássica entre os dois... Mesmo a luz fugia das feições elegantes de seu rosto. E por um bom motivo. Era lindo, mas quase indecifrável. Ele seria aquele com quem tomar cuidado... a faca na escuridão. De fato, uma faca de caça com cabo de obsidiana estava embainhada na coxa do feérico, e a bainha escura estampava uma fileira de runas prateadas que eu jamais vira.
Rhys falou:
— Este é Azriel, meu mestre-espião. — Não era surpreendente. Algum instinto profundo em mim me fez verificar se os escudos mentais estavam intactos. Só por garantia.
— Bem-vinda. — Foi tudo que Azriel disse, a voz baixa, quase inexpressiva, quando estendeu a mão coberta de cicatrizes brutais para mim. O formato era normal, mas a pele... parecia que tinha sido torcida, esfregada e rasgada. Queimaduras. Devem ter sido horríveis se nem mesmo o sangue imortal conseguira curá-las.
As placas de couro do traje leve, presas por um laço ao redor do dedo médio, cobriam a maioria das cicatrizes. Não para escondê-las, foi o que percebi quando a mão de Azriel se estendeu no ar frio da noite entre nós. Não, era para segurar no lugar a grande pedra de cobalto intenso que adornava o dorso da manopla do traje. Uma pedra igual estava no dorso da mão esquerda; e pedras gêmeas vermelhas adornavam as manoplas de Cassian, e a cor era como o centro dormente de uma fogueira.
Aceitei a mão de Azriel, e os dedos ásperos apertaram a minha. A pele era tão fria quanto o rosto parecia.
Mas a palavra que Cassian usara um momento antes chamou minha atenção quando lhe soltei a mão e tentei não parecer ansiosa demais para voltar para o lado de Rhys.
— Vocês são irmãos? — O illyrianos eram semelhantes, mas apenas da forma como pessoas que vêm do mesmo lugar são.
Rhysand explicou:
— Irmãos no sentido de que todos os bastardos são irmãos de alguma forma.
Jamais pensara nisso dessa forma.
— E... você? — perguntei a Cassian.
Cassian deu de ombros, recolhendo mais as asas.
— Eu comando os exércitos de Rhys.
Como se tal posição fosse algo que se dispensasse com um gesto de ombros. E... exércitos. Rhys tinha exércitos. Eu me mexi, desconfortável. Os olhos cor de amêndoa de Cassian acompanharam o movimento, a boca se contraiu para o lado, e eu sinceramente achei que Cassian estava prestes a me dar sua opinião profissional a respeito de como me mexer daquela forma poderia me desequilibrar contra um inimigo, quando Azriel esclareceu:
— Cassian também é excelente em irritar todo mundo. Principalmente entre nossos amigos. Então, como amiga de Rhysand... boa sorte.
Uma amiga de Rhysand; não salvadora de sua terra, não assassina, não coisa humano-feérica. Talvez eles não soubessem...
Mas Cassian cutucou o irmão bastardo, ou o que fosse, para fora do caminho, e as asas poderosas de Azriel se abriram levemente quando ele se equilibrou.
— Como diabo fez aquela escada de ossos na toca do Verme de Middengard quando parece que seus ossos estão prestes a se partir a qualquer momento?
Bem, isso esclarecia as coisas. E a questão de se ele havia estado Sob a Montanha.
Mas onde estava, então... Outro mistério. Talvez ali, com aquelas pessoas. São e salvo.
Encarei Cassian, ao menos porque, se Rhysand me defendesse, isso poderia muito bem me destruir um pouquinho mais. E talvez aquilo me fizesse tão má quanto uma víbora, e talvez eu gostasse de ser uma, mas falei:
— Como diabos você conseguiu sobreviver tanto tempo sem que ninguém o matasse?
Cassian inclinou a cabeça para trás e gargalhou, um som intenso e exuberante que ecoou pelas pedras ásperas da Casa. As sobrancelhas de Azriel se ergueram em aprovação, ao passo que as sombras pareceram envolvê-lo com mais força. Como se Azriel fosse a colmeia de escuridão da qual as sombras voavam e para a qual retornavam.
Tentei não estremecer, e olhei para Rhys, esperando uma explicação sobre os dons sombrios de seu mestre-espião.
O rosto de Rhys estava inexpressivo, mas os olhos pareciam cautelosos. Atentos. Quase indaguei para que diabos Rhys estava olhando, e, então, Mor chegou à varanda como uma brisa e disse:
— Se Cassian está uivando, espero que signifique que Feyre disse a ele para calar a boca gorda.
Os dois illyrianos se viraram na direção da fêmea, Cassian afastando levemente os pés no chão, em uma posição de luta que eu conhecia muito bem.
Era quase o suficiente para me distrair de Azriel conforme aquelas sombras clareavam e o olhar dele percorria o corpo de Mor: um vestido vermelho esvoaçante de chiffon, realçado por braceletes de ouro, e pentes moldados como folhas banhadas em ouro, que seguravam para trás as ondas dos cabelos soltos.
Um fio de sombra se enroscou ao redor da orelha de Azriel, e os olhos se voltaram para os meus. Obriguei meu rosto a estampar pura inocência.
— Não sei por que esqueço que vocês são parentes — disse Cassian a Mor, apontando com o queixo para Rhys, que revirou os olhos. — Vocês dois e suas roupas.
Mor fez uma leve reverência para Cassian. De fato, tentei não respirar aliviada quando vi roupas requintadas. Pelo menos agora não parecia vestida de forma exagerada.
— Queria impressionar Feyre. Você podia pelo menos ter se dado o trabalho de pentear o cabelo.
— Diferente de algumas pessoas — disse Cassian, provando corretas as minhas suspeitas a respeito da pose de luta. — Tenho coisas melhores a fazer com meu tempo que me sentar diante do espelho durante horas.
— Sim — disse Mor, jogando os longos cabelos para trás do ombro. — Porque se exibir por Velaris...
— Temos companhia. — Foi o aviso em voz baixa de Azriel, as asas se abrindo novamente quando ele empurrou os outros dois pelas portas abertas da varanda até a sala de jantar. Eu podia jurar que gavinhas de escuridão rodopiaram atrás delas.
Mor deu um tapinha no ombro de Azriel quando desviou da asa estendida.
— Relaxe, Az... nada de briga hoje à noite. Prometemos a Rhys.
As sombras à espreita sumiram completamente quando a cabeça de Azriel se abaixou
um pouco; os cabelos escuros como a noite deslizavam sobre o lindo rosto, como se o protegessem daquele sorriso impiedosamente belo.
Mor não deu qualquer indicação de que reparou; depois, curvou os dedos em minha direção.
— Venha sentar comigo enquanto eles bebem. — Eu ainda tinha dignidade suficiente para não olhar para Rhys em busca de confirmação de que era seguro. Então, obedeci e caminhei ao lado de Mor conforme os dois illyrianos se viravam para percorrer os poucos passos com seu Grão-Senhor. — A não ser que prefira beber — sugeriu Mor, quando entramos no calor da sala de jantar composta por pedras vermelhas. — Mas quero você para mim antes que Amren a monopolize...
As portas interiores da sala de jantar se abriram com um vento sussurrante, revelando os corredores sombreados e carmesim da montanha além.
E talvez parte de mim permanecesse mortal, porque, embora a mulher de baixa estatura e delicada parecesse Grã-Feérica... conforme Rhys me avisou, todos os meus instintos berravam para que eu fugisse. Para que me escondesse.
Ela era muitos centímetros mais baixa que eu; o cabelo, na altura do queixo, era brilhante e liso, a pele, bronzeada e macia, e seu rosto — bonito, mas quase sem graça — exibia uma expressão de tédio, ou talvez de leve irritação. Mas seus olhos...
Os olhos prateados da mulher eram diferentes de tudo que eu já vira; eram um lampejo para o interior da criatura que eu sabia, bem no fundo, não ser Grã-Feérica. Ou não tinha nascido daquela forma.
O prateado nos olhos de Amren parecia rodopiar, como fumaça sob vidro.
Ela trajava calça e blusa, como aquelas que usei no outro palácio da montanha, ambas em tons de estanho e nuvem de tempestade, e pérolas — brancas, cinza e pretas — adornavam as orelhas, os dedos e os pulsos de Amren. Mesmo o Grão-Senhor ao meu lado parecia um fiapo de sombras em comparação ao poder que emanava dela.
Mor resmungou, desabando em uma cadeira perto da cabeceira da mesa, e se serviu de uma taça de vinho. Cassian se sentou diante dela, agitando os dedos para pegar a garrafa de vinho. Mas Rhysand e Azriel simplesmente ficaram ali, observando — talvez monitorando — enquanto a mulher se aproximou de mim e então parou a um metro e meio.
— Seu gosto ainda é excelente, Grão-Senhor. Obrigada. — A voz da mulher era baixa, porém mais afiada que qualquer lâmina que eu já tivesse encontrado. Os dedos pequenos e finos roçaram um broche delicado de prata e pérola, preso acima do seio direito de Amren.
Então, foi para ela que Rhys comprou a joia. A joia que jamais, sob circunstância alguma, eu deveria tentar roubar.
Observei Rhys e Amren, como se pudesse decifrar que outro laço havia entre os dois, mas Rhysand gesticulou com a mão e fez uma reverência com a cabeça.
— Combina com você, Amren.
— Tudo combina comigo — disse ela, e aqueles olhos terríveis e encantadores encontraram os meus nesse momento. Como relâmpago domado.
Amren se aproximou um passo, farejando delicadamente, e, embora eu fosse mais alta 15 centímetros, jamais me senti mais franzina. Mas mantive o queixo erguido. Não sabia por que, mas mantive.
Amren falou:
— Então, há duas de nós agora.
Minhas sobrancelhas se franziram.
Os lábios de Amren eram como uma pincelada de vermelho.
— Nós que nascemos outra coisa e nos vimos presas em corpos novos e estranhos.
Decidi que não queria mesmo saber o que ela era antes.
Amren indicou com o queixo para que eu me sentasse na cadeira vazia ao lado de Mor, os cabelos dela oscilaram como noite derretida. Amren ocupou o assento diante de mim, Azriel se sentou do outro lado, e Rhys se sentou diante de Azriel, a minha direita.
Ninguém na cabeceira da mesa.
— Embora haja uma terceira — continuou Amren, agora olhando para Rhysand. — Não creio que tenha tido notícias de Miryam há... séculos. Interessante.
Cassian revirou os olhos.
— Por favor, apenas chegue ao ponto, Amren. Estou com fome.
Mor engasgou com o vinho. Amren desviou a atenção para o guerreiro à direita.
Azriel, do outro lado dela, monitorava os dois com muito, muito cuidado.
— Ninguém está aquecendo sua cama agora, Cassian? Deve ser tão difícil ser um illyriano e não ter qualquer pensamento na mente, exceto por aqueles a respeito de sua parte preferida.
— Sabe que sempre fico feliz em me enroscar nos lençóis com você, Amren — disse Cassian, totalmente imperturbado pelos olhos prateados, pelo poder que emanava de cada poro de Amren. — Sei o quanto gosta de um illyriano...
— Miryam — começou Rhysand, enquanto o sorriso de Amren se tornou viperino
— E Drakon estão bem, até onde sei. E o que, exatamente, é interessante?
A cabeça de Amren se inclinou para o lado enquanto ela me estudava. Tentei não encolher o corpo diante disso.
— Somente uma vez antes um humano foi feito imortal. Interessante que tenha acontecido novamente justo quando todas as antigas peças-chave retornaram. Mas Myriam recebeu o dom da vida longa, não de um novo corpo. E você, menina... — Amren cheirou de novo, e nunca me senti tão exposta. Surpresa iluminou os olhos de Amren. Rhys apenas assentiu. O que quer que aquilo quisesse dizer. Eu já estava cansada. Cansada de ser observada e avaliada. — Seu sangue, suas veias, seus ossos foram feitos. Uma alma mortal em um corpo imortal.
— Estou com fome — declarou Mor, me cutucando com a coxa. Ela estalou um dedo, e pratos cheios até o alto com frango assado, vegetais e pão surgiram. Simples, mas... elegante. Nada formal. Talvez o conjunto de suéter com calça não fosse tão deslocado para tal refeição. — Amren e Rhys podem conversar a noite toda e nos entediar até chorarmos, então, não se incomode em esperar que eles comam. — Mor pegou o garfo e emitiu um estalo com a língua. — Perguntei a Rhys se eu poderia levá-la para jantar, só nós duas, e ele disse que você não iria querer. Mas, sinceramente, prefere passar o tempo com esses dois chatos anciões ou comigo?
— Para alguém com a mesma idade que eu — disse Rhysand —, você parece esquecer...
— Todos só querem ficar de blá-blá-blá — interrompeu Mor, lançando um olhar de aviso a Cassian, que, de fato, abrira a boca. — Não podemos comer-comer-comer e depois conversar?
Um equilíbrio interessante entre a aterrorizante imediata de Rhys e a surpreendentemente alegre terceira na hierarquia. Se a patente de Mor era mais alta que aquela dos dois guerreiros na mesa, então devia haver outro motivo por trás daquilo além daquele charme irreverente. Algum poder que permitisse que ela entrasse na briga com Amren que Rhys mencionara... e saísse viva.
Azriel riu baixinho de Mor, mas pegou o garfo. Eu o acompanhei, esperando até que ele tivesse mordido antes fazer o mesmo. Só por garantia...
Bom. Tão bom. E o vinho...
Nem mesmo tinha percebido que Mor me servira de uma taça até que terminei o primeiro gole e ela brindou com a própria taça contra a minha.
— Não deixe que esses enxeridos velhos mandem em você.
Cassian disse:
— Sujo, conheça o mal lavado. — Então, ele franziu a testa para Amren, que mal tocara no prato. — Sempre esqueço como isso é bizarro. — Ele pegou o prato da mulher sem cerimônias, despejando metade do conteúdo no dele antes de passar o restante para Azriel.
Azriel disse a Amren quando passou a comida para o prato:
— Eu sempre digo a ele para perguntar antes de fazer isso.
Amren estalou os dedos, e o prato vazio sumiu das mãos cobertas de cicatrizes de Azriel.
— Se não conseguiu treiná-lo depois de tantos séculos, menino, não acho que vai fazer qualquer progresso agora. — Amren arrumou os talheres no lugar vazio diante dela.
— Você não... come? — perguntei para Amren. As primeiras palavras que eu dizia desde que me sentei.
Os dentes de Amren eram estranhamente brancos.
— Não esse tipo de comida.
— Que o Caldeirão me ferva! — exclamou Mor, tomando goladas do vinho. — Podemos não fazer isso?
Decidi que não queria saber o que Amren comia também.
Rhys deu uma risadinha do meu outro lado.
— Me lembre de fazer mais jantares em família.
Jantares em família; não reuniões oficiais da corte. E essa noite... ou não sabiam que eu estava ali para decidir se realmente queria trabalhar com Rhys, ou não tinham vontade de fingir ser qualquer outra coisa além do que eram. Sem dúvida tinham vestido o que quiseram — eu tinha a sensação crescente de que poderia ter aparecido de camisola e eles não teriam se importado. Um grupo singular, de fato. E contra Hybern... quem seriam, o que poderiam fazer, como aliados ou oponentes?
Diante de mim, um casulo de silêncio parecia pulsar ao redor de Azriel, mesmo enquanto os demais mergulhavam na comida. De novo, olhei para aquela pedra azul oval em sua manopla enquanto o feérico tomava um gole do vinho. Azriel reparou o olhar, por mais rápido que tenha sido, pois tive a sensação de que ele estava reparando e catalogando meus movimentos, minhas palavras e meus fôlegos. Azriel ergueu as mãos com os dorsos voltados para mim, de forma que as duas joias estivessem totalmente à vista.
— São chamadas de Sifões. Reúnem e concentram nosso poder em batalha.
Apenas Azriel e Cassian os usavam.
Rhys apoiou o garfo e esclareceu para mim.
— O poder de illyrianos mais fortes tende a ser do tipo “incinerar primeiro, fazer perguntas depois”. Possuem poucos dons mágicos além disso... o poder de matar.
— O dom de um povo violento e beligerante — acrescentou Amren. Azriel assentiu, sombras se espiralavam no pescoço, nos pulsos. Cassian lançou para Azriel um olhar afiado, o rosto tenso, mas Azriel o ignorou.
Rhys continuou, embora eu soubesse que estava atento a cada olhar entre o mestre espião e o comandante do exército:
— Os illyrianos cultivaram o poder a fim de que lhes desse vantagem em batalha, sim. Os Sifões filtram esse poder cru e permitem que Cassian e Azriel o transformem em algo mais sutil e variado, em escudos e armas, flechas e lanças. Imagine a diferença entre atirar um balde de tinta na parede e usar um pincel. Os Sifões permitem que a magia seja ágil, precisa no campo de batalha, ao passo que o estado natural dela se converte em algo muito mais confuso e indefinido, e potencialmente perigoso quando se luta em espaços confinados.
Imaginei quanto disso qualquer um deles já precisara fazer. Se aquelas cicatrizes nas mãos de Azriel tinham vindo daquele tipo de luta.
Cassian flexionou os dedos, admirando as pedras vermelhas transparentes que adornavam o dorso de suas mãos.
— Não faz mal que elas também sejam tão lindas.
— Illyrianos — murmurou Amren.
Cassian exibiu os dentes, com um interesse selvagem, e tomou um gole de vinho.
Conhecê-los, tentar visualizar como eu poderia trabalhar com eles, confiar neles, se esse conflito com Hybern irrompesse... Procurei algo para perguntar e falei para Azriel quando aquelas sombras sumiram de novo:
— Como você... quero dizer, como você e o Senhor Cassian...
Cassian cuspiu vinho do outro lado da mesa, o que fez Mor dar um salto e xingá-lo enquanto usava um guardanapo para limpar o vestido.
Mas Cassian gargalhava e Azriel exibia um leve e cauteloso sorriso no rosto enquanto Mor agitava a mão para o vestido e as gotas de vinho que surgiram no traje de luta, ou talvez de voo, percebi, de Cassian. Minhas bochechas ficaram quentes. Algum protocolo de corte que eu, ignorantemente, quebrei e...
— Cassian não é um senhor — explicou Rhys. — Embora tenho certeza de que agradeça por você achar que é. — Rhysand olhou para seu Círculo Íntimo. — Enquanto tratamos do assunto, Azriel também não. Ou Amren. Mor, acredite ou não, é a pessoa de sangue puro e com um título nesta sala. — Rhys não? Ele deve ter visto a pergunta em meu rosto, porque falou: — Sou metade illyriano. Tão bom quanto um bastardo para os Grão-Feéricos de sangue puro.
— Então você... vocês três não são Grão-Feéricos? — perguntei a Rhys e aos dois homens.
Cassian terminou de rir.
— Illyrianos certamente não são Grão-Feéricos. E gratos por isso. — Ele prendeu os cabelos pretos atrás de uma das orelhas: redonda, como as minhas haviam sido um dia. — E não somos feéricos inferiores, embora alguns tentem nos chamar assim. Somos apenas... illyrianos. Considerados cavalaria aérea dispensável para a Corte Noturna na melhor das hipóteses, soldados brutamontes descerebrados na pior.
— O que é a maior parte das vezes — esclareceu Azriel. Não ousei perguntar se aquelas sombras faziam parte de ser illyriano também.
— Não vi você Sob a Montanha — comentei. Precisava saber, sem sombra de dúvida, se tinham estado lá, se tinham me visto, se isso impactara em como eu interagiria enquanto trabalhasse com...
Silêncio. Nenhum deles, nem mesmo Amren, olhou para Rhysand.
Foi Mor quem respondeu:
— Porque nenhum de nós estava lá.
O rosto de Rhys era uma máscara gélida.
— Amarantha não sabia que eles existiam. E, quando alguém tentava contar a ela, costumava acabar sem cabeça para conseguir fazê-lo.
Um tremor percorreu minha coluna. Não por ele ser um assassino frio, mas, mas...
— Você realmente manteve esta cidade, todas essas pessoas, escondidas dela durante cinquenta anos?
Cassian olhava atentamente para o prato, como se fosse explodir para fora da própria pele.
— Continuaremos mantendo esta cidade e estas pessoas escondidas de nossos inimigos por muitos mais — revelou Amren.
Não era uma resposta.
Rhys não esperava vê-los de novo quando foi arrastado para Sob a Montanha. Mas
os manteve seguros, de alguma forma.
E aquilo as deixava arrasadas, as pessoas à mesa. Ficavam arrasadas porque ele fizera aquilo, como quer que tivesse feito. Até mesmo Amren.
Talvez não apenas devido ao fato de que Rhys suportara Amarantha enquanto eles estavam ali. Talvez também fosse por causa daqueles deixados de fora da cidade. Talvez escolher uma cidade, um lugar para proteger fosse melhor que nada. Talvez... talvez fosse reconfortante ter um lugar em Prythian que permanecia intocado. Imaculado.
A voz de Mor estava um pouco rouca enquanto ela explicava para mim, com os pentes dourados brilhando à luz:
— Não há uma só pessoa nesta cidade que não saiba do que aconteceu fora destes limites. Ou do custo.
Não queria perguntar que preço fora cobrado por aquilo. A dor que envolvia o pesado silêncio me disse o bastante.
Mas, se todos conseguiam viver apesar da dor, ainda podiam rir... Pigarreei, estiquei o corpo e falei para Azriel, o qual, com ou sem sombras, parecia o mais seguro e, portanto, provavelmente era o menos seguro:
— Como se conheceram? — Uma pergunta inofensiva para avaliá-los, descobrir quem eram. Não era?
Azriel apenas se virou para Cassian, que encarava Rhys com uma expressão de culpa e amor, tão intensa e sofrida que algum instinto meu, ainda não destruído, quase estendeu a mão sobre a mesa para segurar a sua.
Mas Cassian pareceu processar o que eu perguntei e o pedido silencioso do amigo de que ele contasse a história em vez de Rhys, e então o espectro de um sorriso surgiu em seu rosto.
— Nós todos nos odiávamos no início.
Ao meu lado, a luz apagou dos olhos de Rhys. O que eu tinha perguntado sobre Amarantha, que horrores dos quais eu o fizera se lembrar...
Uma confissão por outra; achei que tivesse feito aquilo pelo meu bem. Talvez tivesse coisas que precisava exprimir, que não podia exprimir para aquelas pessoas, não sem causar mais dor e culpa a elas.
Cassian continuou atraindo minha atenção do silencioso Grão-Senhor à direita:
— Nós somos desprezíveis, sabe. Az e eu. Os illyrianos... Amamos nosso povo e nossas tradições, mas eles vivem em clãs e acampamentos nas profundezas das montanhas do Norte e não gostam de forasteiros. Principalmente Grão-Feéricos que tentam lhes dizer o que fazer. Mas são igualmente obcecados com linhagem e têm os próprios príncipes e lordes entre eles. Az — disse Cassian, apontando com o dedão na direção de Azriel, o Sifão vermelho refletindo a luz — era o bastardo de um dos senhores locais. E se acha que o filho bastardo de um senhor é odiado, então não pode imaginar o quanto é odiado o bastardo de uma lavadeira de campo de batalha com um guerreiro do qual ela não conseguia, ou não queria, se lembrar. — O gesto casual de ombros de Cassian não combinava com o brilho malicioso nos olhos cor de avelã. — O pai de Az o mandou a nosso campo para treinar depois que ele e sua adorável esposa perceberam que Azriel era um encantador de sombras.
Encantador de sombras. Sim; o título, o que quer que quisesse dizer, parecia combinar.
— Como os daemati — disse Rhys a mim —, encantadores de sombras são raros... cobiçados por cortes e territórios pelo mundo devido ao quanto são furtivos e à predisposição a ouvir e sentir coisas que outros não conseguem.
Talvez aquelas sombras estivessem realmente sussurrando para ele, então. O rosto frio de Azriel não mostrava nada.
Cassian continuou:
— O senhor do acampamento praticamente se cagou todo de animação no dia em que Az foi jogado ali. Mas eu... depois que minha mãe me desmamou e aprendi a andar, me mandaram para um acampamento distante, e me enfiaram na lama para ver se eu sobreviveria.
— Teriam sido mais espertos se jogassem você de um penhasco — argumentou Mor, rindo com deboche.
— Ah, com certeza — rebateu Cassian, e aquele sorriso ficou afiado como uma lâmina. — Principalmente porque, quando eu tive idade e força o suficiente para voltar para o acampamento no qual nasci, descobri que aqueles porcos se aproveitaram de minha mãe até ela morrer.
De novo, silêncio; diferente dessa vez. A tensão e o ódio fervilhante de um grupo que suportara tanto, sobrevivera a tanto... e sentiam as dores uns dos outros profundamente.
— Os illyrianos — interrompeu Rhys educadamente, e aquela luz finalmente voltou para seu olhar — são guerreiros incomparáveis e têm histórias e tradições ricas. Mas também são cruéis e deturpados, principalmente no que diz respeito ao modo como tratam as fêmeas.
Os olhos de Azriel tinham ficado quase vazios enquanto ele encarava a parede de janelas atrás de mim.
— São bárbaros — disse Amren, e nenhum dos machos illyrianos protestou. Mor assentiu com empatia, mesmo ao reparar na postura de Azriel e morder o lábio. — Eles aleijam as fêmeas para evitar que elas gerem mais guerreiros perfeitos.
Rhys estremeceu.
— Minha mãe nasceu em uma classe baixa — contou ele. — E trabalhava como costureira em um dos muitos acampamentos de guerra nas montanhas. Quando as fêmeas atingem a maturidade nos acampamentos, quando sangram pela primeira vez, as asas são... cortadas. Apenas uma incisão no lugar certo, abandonada para que se cure de modo errado, pode aleijar alguém para sempre. E minha mãe, ela era bondosa e selvagem e amava voar. Então, fez tudo que pôde para evitar amadurecer. Passou fome, colheu ervas ilegais, fez qualquer coisa para impedir o curso natural do corpo. Ela fez 18 anos e ainda não tinha sangrado, para o horror dos pais. Mas o sangue finalmente chegou, e bastava apenas que estivesse no lugar errado, na hora errada para que um macho sentisse o cheiro e avisasse ao senhor do acampamento. Ela tentou fugir, disparou para o céu. Mas era jovem, e os guerreiros, mais rápidos e a arrastaram de volta. Estavam prestes a amarrá-la aos mastros no centro do acampamento quando meu pai fez a travessia até lá para uma reunião com o senhor do acampamento a respeito de se prepararem para a guerra. Ele viu minha mãe se debatendo e lutando como um felino selvagem e... — Rhys engoliu em seco. — O laço da parceria entre os dois se atou. Lançou um olhar para minha mãe e soube o que ela era. Meu pai enevoou os guardas que a seguravam.
Semicerrei os olhos.
— Enevoou?
Cassian soltou um riso malicioso quando Rhys fez flutuar acima da mesa uma fatia de limão que decorava seu frango. Com um gesto do dedo, Rhys transformou a fatia em névoa com um cheiro cítrico.
— Em meio à chuva de sangue — continuou Rhys, enquanto eu afastava a imagem do que aquilo faria com um corpo, do que ele podia fazer —, minha mãe olhou para meu pai. E a parceria aconteceu para ela. Meu pai a levou de volta à Corte Noturna naquela noite e a desposou. Minha mãe amava seu povo e sentia falta deles, mas jamais se esqueceu do que tentaram fazer com ela, do que fizeram com as fêmeas entre eles. Ela tentou durante décadas fazer com que meu pai banisse aquilo, mas a Guerra estava se aproximando e ele não queria arriscar isolar os illyrianos quando precisava que eles liderassem seus exércitos. E que morressem por ele.
— Uma preciosidade, seu pai — resmungou Mor.
— Pelo menos ele gostava de você — replicou Rhys, e depois esclareceu para mim. — Meu pai e minha mãe, apesar de parceiros, não eram certos um para o outro. Meu pai era frio e calculista e podia ser cruel, como fora treinado desde que nasceu. Minha mãe era carinhosa e selvagem e amada por todos os que conhecia. Ela passou a odiá-lo depois de um tempo, mas jamais deixou de se sentir grata por meu pai ter salvado suas asas, por ter permitido que ela voasse sempre e para onde quisesse. E, quando nasci, quando pude conjurar as asas illyrianas quando quisesse... Ela queria que eu conhecesse a cultura de seu povo.
— Queria manter você longe das garras de seu pai — ponderou Mor, girando a taça de vinho, curvando os ombros quando Azriel finalmente piscou e pareceu esquecer qualquer lembrança que o tivesse congelado.
— Isso também — acrescentou Rhys, sarcástico. — Quando fiz 8 anos, minha mãe me levou a um dos acampamentos de guerra illyrianos. Para ser treinado, como todos os machos illyrianos o eram. E como todas as mães illyrianas, ela me empurrou para o ringue de treino no primeiro dia e foi embora sem olhar para trás.
— Ela o abandonou? — Eu me peguei dizendo.
— Não, nunca — disse Rhys, com uma ferocidade que eu só tinha ouvido algumas vezes, uma delas naquela tarde. — Ficaria no acampamento também. Mas é considerado vergonhoso uma mãe paparicar o filho quando este vai treinar.
Minhas sobrancelhas se ergueram, e Cassian riu.
— Relutante, como ele disse — contou o guerreiro.
— Eu estava apavorado — admitiu Rhys, sem uma sombra de vergonha. — Estava aprendendo a usar meus poderes, mas magia illyriana era apenas uma fração deles. E é rara entre eles, em geral possuída apenas pelos guerreiros mais poderosos, de sangue puro. — De novo, olhei para os Sifões dormentes nas mãos dos guerreiros. — Tentei usar um Sifão durante aqueles anos — falou Rhys. — E destruí uma dezena antes de perceber que não era compatível, as pedras não podiam segurá-lo. Meu poder flui e é cultivado de outras formas.
— Tão difícil ser um Grão-Senhor tão poderoso — implicou Mor.
Rhys revirou os olhos.
— O senhor do acampamento me proibiu de usar minha magia. Pelo bem de todos vocês. Mas eu não tinha ideia de como lutar quando coloquei os pés no ringue de treinamento naquele dia. Os outros garotos de minha faixa etária sabiam disso também.
Principalmente um deles, que me olhou e me espancou até me deixar ensanguentado.
— Você estava tão limpo — comentou Cassian, sacudindo a cabeça. — O filho mestiço bonitinho do Grão-Senhor, como estava chique nas novas roupas de treinamento.
— Cassian — disse Azriel para mim com aquela voz que parecia como se a escuridão ganhasse som — passou a conseguir roupas novas ao longo dos anos como prêmio ao desafiar outros garotos em lutas. — Não havia orgulho nas palavras, não pela brutalidade de seu povo. Eu não culpava o encantador de sombras, no entanto. Tratar qualquer um daquela forma...
Cassian, no entanto, riu. Mas eu agora observava seus ombros largos e fortes, a luz nos olhos.
Jamais conheci mais ninguém em Prythian que tivesse passado fome, sentido desespero, não como eu.
Cassian piscou, e o modo como ele me olhou mudou — mais observador, mais...
sincero. Eu podia jurar que vi as palavras nos olhos dele: Sabe como é. Sabe que marca isso deixa.
— Eu já tinha espancado todos os garotos de nossa idade duas vezes — continuou Cassian. — Mas, quando Rhys chegou, com as roupas limpas, ele cheirava... diferente. Como um verdadeiro oponente. Então, ataquei. Nós dois recebemos três chibatadas cada pela briga.
Encolhi o corpo. Bater em crianças...
— Eles fazem pior, menina — interrompeu Amren. — Naqueles acampamentos. Três chibatadas é praticamente um encorajamento para que lutem de novo. Quando fazem algo realmente ruim, ossos são quebrados. Repetidas vezes. Durante semanas.
Falei para Rhys:
— Sua mãe voluntariamente o enviou para isso? — Carinhosa e selvagem de fato.
— Minha mãe não queria que eu dependesse de meu poder — explicou Rhysand. — Ela soube, desde o momento em que me concebeu, que eu seria caçado a vida toda.
Onde uma força falhava, ela queria que outras me salvassem.
“Minha educação era outra arma, e por isso ela foi comigo: para me ensinar depois que as lições do dia terminassem. E, quando me levou para casa naquela primeira noite, para nossa nova casa no limite do acampamento, me fez ler à janela. Foi lá que vi Cassian arrastando os pés pela lama, na direção das poucas tendas em frangalhos fora do acampamento. Perguntei a ela para onde Cassian estava indo, e minha mãe me contou que bastardos não recebem nada: encontram o próprio abrigo, a própria comida. Se sobrevivem e são escolhidos para fazer parte de uma tropa de guerra, serão de baixa patente para sempre, mas receberão as próprias tendas e os suprimentos. Mas, até então, ele ficaria no frio.”
— Aquelas montanhas — acrescentou Azriel, com o rosto duro como gelo — oferecem algumas das piores condições que se pode imaginar.
Eu tinha passado bastante tempo em bosques congelados para entender.
— Depois de minhas lições — continuou Rhys —, minha mãe limpou os machucados deixados pelas chibatadas, e, enquanto fazia isso, percebi pela primeira vez o que era estar aquecido e a salvo e ser cuidado. E não me senti bem com aquilo.
— Aparentemente não — disse Cassian. — Porque, na calada da noite, esse imbecil me acordou na tenda aos pedaços e me disse para ficar de boca fechada e o acompanhar. E talvez o frio tivesse me deixado burro, mas eu fui. A mãe dele ficou lívida. Mas nunca vou me esquecer do olhar em seu lindo rosto quando me viu e disse “Tem uma banheira com água quente corrente. Entre ou pode voltar para o frio”. Como eu era um cara esperto, obedeci. Quando saí, ela me deu roupas limpas e me mandou para a cama. Passei a vida dormindo no chão, e, quando hesitei, ela disse que entendia porque sentira o mesmo um dia, e que eu me sentiria como se estivesse sendo engolido, mas a cama era minha por quanto tempo eu quisesse.
— E vocês ficaram amigos depois disso?
— Não... Pelo Caldeirão, não — disse Rhysand. — Nós nos odiávamos, e só nos comportávamos porque se um de nós se metesse em confusão ou provocasse o outro, nenhum de nós comeria naquela noite. Minha mãe começou a ensinar Cassian, mas somente quando Azriel chegou, um ano depois, decidimos ser aliados.
O sorriso de Cassian aumentou quando ele estendeu o braço além de Amren para dar um tapinha no ombro do amigo. Azriel suspirou... o longo som do sofrimento. A expressão mais calorosa que eu o vi fazer.
— Um novo bastardo no acampamento e um encantador de sombras destreinado para recrutar. Sem falar que ele nem podia voar graças a...
Mor interrompeu, preguiçosamente:
— Volte para o objetivo, Cassian.
De fato, qualquer sensibilidade tinha sumido do rosto de Azriel. Mas calei minha curiosidade quando Cassian, de novo, deu de ombros, sem sequer se dar o trabalho de reparar no silêncio que parecia vazar do encantador de sombras. Já Mor reparou, mesmo que Azriel não tivesse se dado o trabalho de reconhecer o olhar preocupado, a mão para a qual Mor ficava olhando, como se fosse tocar, mas desistisse.
Cassian continuou:
— Rhys e eu tornamos a vida dele um inferno, encantador de sombras ou não. Mas a mãe de Rhys conhecia a mãe de Az e o acolheu. Conforme envelhecemos, e os outros machos ao nosso redor também, percebemos que todos nos odiavam tanto que tínhamos mais chances de sobreviver se ficássemos juntos.
— Tem algum dom? — perguntei a Cassian. — Como... eles? — Indiquei com o queixo Azriel e Rhys.
— Um temperamento volátil não conta — respondeu Mor, quando Cassian abriu a boca.
Ele lhe lançou aquele sorriso que percebi provavelmente significar confusão a caminho, mas disse para mim:
— Não, não tenho... não além de uma pilha enorme do poder fatal. Sou um ninguém bastardo, da cabeça aos pés. — Rhys chegou para a frente como se fosse protestar, mas Cassian prosseguiu: — Mesmo assim, os outros machos sabiam que éramos diferentes. E não porque éramos dois bastardos e um mestiço. Éramos mais fortes, mais rápidos... como se o Caldeirão soubesse que nos destacávamos e quisesse que nos encontrássemos. A mãe de Rhys percebeu também. Principalmente quando chegamos à maturidade e só queríamos foder e lutar.
— Machos são criaturas horríveis, não são? — perguntou Amren.
— Repulsivos — respondeu Mor, e emitiu um estalo com a língua.
Alguma pequena parte sobrevivente de meu coração queria... rir daquilo.
Cassian deu de ombros.
— O poder de Rhys crescia a cada dia, e todos, até mesmo os senhores do acampamento, sabiam que ele poderia enevoar todo mundo se tivesse vontade. E nós dois... não estávamos muito atrás. — Cassian bateu no Sifão carmesim com um dedo. — Um bastardo illyriano jamais tinha recebido um destes. Nunca. Quando Az e eu os recebemos, apesar da relutância, todos os guerreiros em todos os acampamentos naquelas montanhas ficaram de olho em nós. Apenas imbecis de sangue puro recebem Sifões, aqueles nascidos e criados para o poder fatal. O fato de termos Sifões ainda os deixa acordados à noite, maquinando como diabo os conseguimos.
— Então, veio a Guerra. — Azriel assumiu a narrativa. O simples modo como disse as palavras me fez sentar ereta. Prestar atenção. — E o pai de Rhys visitou nosso acampamento para ver como o filho tinha se saído depois de vinte anos.
— Meu pai — disse Rhys, girando uma... duas vezes a taça de vinho — viu que o filho não apenas começara a rivalizar com ele em poder, mas se aliara a, talvez, os dois illyrianos mais mortais da história. Ele colocou na cabeça que, se recebêssemos uma legião na Guerra, talvez acabássemos nos voltando contra ele quando retornássemos.
Cassian riu com deboche.
— Então, o traste nos separou. Deu a Rhys o comando de uma legião de illyrianos que o odiava por ser mestiço, e me jogou em uma legião diferente para ser um soldado de infantaria comum, mesmo quando meu poder era maior que o de qualquer um dos líderes de guerra. Com Az ele ficou, como encantador de sombras pessoal, mais para espionar e fazer o trabalho sujo. Só nos víamos nos campos de batalha durante os sete anos que durou a Guerra. Eles mandavam listas de mortes entre os illyrianos, e eu lia todas, imaginando se veria os nomes deles ali. Mas então Rhys foi capturado...
— Essa é uma história para outra hora — interrompeu Rhys, em tom afiado o bastante para que Cassian erguesse as sobrancelhas, mas ele assentiu. Os olhos violeta de Rhys encontraram os meus, e me perguntei se era luz estelar de verdade que brilhava tão intensamente ali enquanto ele falava: — Depois que me tornei Grão-Senhor, nomeei esses quatro para meu Círculo Íntimo, e disse ao restante da corte de meu pai que, se tivessem um problema com meus amigos, poderiam partir. Todos se foram. No fim das contas, o fato de ter um Grão-Senhor mestiço foi piorado quando ele nomeou duas fêmeas e dois bastardos illyrianos.
Tão ruins quanto humanos, de algumas formas.
— O que... o que aconteceu com eles, então?
Rhys deu de ombros, e aquelas grandes asas se moveram junto.
— A nobreza da Corte Noturna se divide em três categorias: aqueles que me odiavam tanto que, quando Amarantha assumiu, se juntaram à corte dela e depois acabaram mortos; aqueles que me odiavam o suficiente para tentar me derrubar e enfrentaram as consequências disso; e aqueles que me odiavam, mas não o suficiente para ser burros, e desde então toleram o reinado de um mestiço, principalmente quando ele raramente interfere em suas vidas miseráveis.
— São eles... são eles os que vivem abaixo das montanhas?
Um aceno positivo.
— Na Cidade Escavada, sim. Eu a dei a eles, por não serem tolos. Estão felizes lá, quase não saem, se governam e são tão cruéis quanto querem, por toda a eternidade.
Essa era a corte que Rhys devia ter mostrado a Amarantha quando ela chegou — e a crueldade devia tê-la agradado tanto que Amarantha moldou a própria corte àquela imagem.
— A Corte dos Pesadelos — disse Mor, inspirando entre dentes.
— E o que é essa corte? — perguntei, gesticulando para o grupo. A pergunta mais importante.
Foi Cassian, os olhos límpidos e tão brilhantes quanto seu Sifão, que respondeu.
— A Corte dos Sonhos.
A Corte dos Sonhos; os sonhos de um Grão-Senhor mestiço, dois guerreiros bastardos e... as duas fêmeas.
— E vocês? — perguntei a Mor e Amren.
Amren apenas disse:
— Rhys me ofereceu o cargo de imediata. Ninguém jamais tinha me pedido isso, então aceitei, para ver como poderia ser. Vi que gostei.
Mor recostou na cadeira, Azriel agora observava cada movimento dela com uma concentração sutil e constante.
— Eu era uma sonhadora nascida na Corte dos Pesadelos — disse Mor. Ela enroscou um cacho no dedo, e me perguntei se a história de Mor seria a pior de todas quando ela disse, simplesmente: — Então, saí.
— Qual é sua história, então? — perguntou Cassian para mim, com um gesto do queixo.
Presumi que Rhysand tivesse contado tudo a eles. Rhys apenas deu de ombros.
Então, me estiquei.
— Nasci em uma família de mercadores abastados, com duas irmãs mais velhas e pais que só se importavam com o dinheiro e com a posição social. Minha mãe morreu quando eu tinha 8 anos; meu pai perdeu a fortuna três anos depois. Ele vendeu tudo para pagar as dívidas, nos mudamos para um chalé e ele não se incomodou em encontrar trabalho enquanto nos deixou morrer de fome lentamente durante anos. Eu tinha 14 anos quando o restante do dinheiro acabou, assim como a comida. Meu pai não trabalhava, não podia, porque os credores tinham vindo e destruído sua perna diante de nós. Então, fui até a floresta e me ensinei a caçar. E nos mantive vivos, mesmo que perto da morte por inanição às vezes, durante cinco anos. Até que... tudo aconteceu.
Eles ficaram calados de novo, o olhar de Azriel agora parecia reflexivo. Não tinha contado a própria história. Será que tinha sido mencionada? Ou será que jamais discutiam aquelas queimaduras em suas mãos? E o que as sombras sussurravam para Azriel, se é que sequer falavam uma língua?
Mas Cassian falou:
— Você se ensinou a caçar. E a lutar? — Sacudi a cabeça. Cassian apoiou os braços na mesa. — Que sorte, acabou de encontrar um professor.
Abri a boca para protestar, mas... a mãe de Rhysand dera a ele um arsenal para usar as armas no caso de outras fracassarem. O que eu tinha em minha vantagem além de ser boa com o arco e toscamente teimosa? E se eu tivesse esse novo poder — esses outros poderes...
Não seria fraca de novo. Não dependeria de ninguém. Jamais precisaria suportar o toque do Attor quando ele me arrastasse porque eu era indefesa demais para saber onde e como golpear. Nunca mais.
Mas o que Ianthe e Tamlin tinham dito...
— Não acha que manda uma mensagem ruim se as pessoas me virem aprender a lutar... a manejar armas?
Assim que as palavras saíram, percebi como eram estúpidas. A estupidez do... do que tinham enfiado em minha cabeça durante aqueles últimos meses.
Silêncio. Então, Mor disse, com um suave veneno que me fez entender que a terceira na hierarquia do Grão-Senhor recebera um treinamento próprio naquela Corte de Pesadelos:
— Vou dizer duas coisas. Como alguém que talvez já tenha estado em seu lugar. — De novo, aquele laço compartilhado de ódio, de dor, latejou entre todos, exceto por Amren, cujo olhar em minha direção pingava desprezo. — Primeira — disse Mor —, você deixou a Corte Primaveril. — Tentei não deixar que o peso total daquelas palavras fosse absorvido. — Se isso não manda uma mensagem, seja boa ou ruim, então seu treinamento também não vai. Segunda — continuou ela, colocando a palma da mão aberta sobre a mesa —, certa vez vivi em um lugar onde a opinião de outros importava. Isso me sufocava, quase me destruiu. Então, vai entender, Feyre, quando digo que sei como se sente, e sei o que tentaram fazer com você, e que, com coragem o suficiente, pode mandar a reputação para o inferno. — A voz de Mor se suavizou, e a tensão entre todos eles se dissipou com isso. — Faça o que gosta, aquilo de que você precisa.
Mor não me dizia o que vestir ou não vestir. Não permitiria que eu saísse enquanto falava por mim. Ela não... não faria nenhuma das coisas que eu tão voluntária e desesperadamente permitia que Ianthe fizesse.
Jamais tivera uma amiga mulher. Ianthe... não era uma amiga. Não da forma que importava, percebi. E Nestha e Elain, naquelas poucas semanas em que eu estava em casa antes de Amarantha, tinham começado a preencher esse papel, mas... mas olhando para Mor, eu não podia explicar, não podia entender, mas... eu sentia. Como se pudesse realmente jantar com ela. Conversar com ela.
Não que eu tivesse muito a oferecer em troca.
Mas o que Mor tinha dito... o que todos tinham dito... Sim, fora sábio de Rhys me levar até ali. Deixar que eu decidisse se podia lidar com eles, com a implicância e a intensidade e o poder. Se eu queria ser parte de um grupo que provavelmente me motivaria, me sobrecarregaria e, talvez, me apavoraria, mas... Se estavam dispostos a enfrentar Hybern, depois de já terem lutado com o reino quinhentos anos antes...
Encarei Cassian. E embora seus olhos estivessem inquietos, não havia nada de diversão ali.
— Vou pensar a respeito.
Pelo laço em minha mão, podia jurar que senti um brilho de surpresa satisfeita. Verifiquei os escudos mentais... mas estavam intactos. E o rosto calmo de Rhysand não dava qualquer sinal da origem da sensação.
Então, falei, com clareza e em tom firme para Rhys:
— Aceito sua oferta... de trabalhar com você. Trabalhar pela estadia. E ajudar com Hybern como puder.
— Que bom. — Foi a simples resposta de Rhys. Mesmo quando os outros ergueram as sobrancelhas. Sim, eles obviamente não sabiam que aquilo era um tipo de entrevista. — Porque começamos amanhã.
— Onde? E o quê? — disparei.
Rhys entrelaçou os dedos e os apoiou na mesa, e percebi que havia outro objetivo para aquele jantar, além de minha decisão, quando ele anunciou para todos nós:
— Porque o rei de Hybern está realmente prestes a iniciar uma guerra, e quer ressuscitar Jurian para fazer isso.
Jurian — o antigo guerreiro cuja alma Amarantha aprisionara dentro daquele anel horrível como punição por ele ter assassinado a irmã da feérica. O anel que continha o olho de Jurian...
— Mentira — rebateu Cassian. — Não há como fazer isso.
Amren havia ficado imóvel, e era ela quem Azriel observava, acompanhava.
Amarantha foi apenas o início, dissera Rhys a mim certa vez. Será que sabia mesmo então? Será que aqueles meses Sob a Montanha tinham sido apenas um prelúdio para qualquer que fosse o inferno prestes a ser liberado? Ressuscitar os mortos. Que tipo de poder profano...
— Por que o rei iria querer ressuscitar Jurian? Ele era tão desprezível. Só gostava de falar de si mesmo — resmungou Mor.
A idade daquelas pessoas me atingiu como um tijolo, apesar de tudo que tinham me contado minutos antes. A Guerra... todos tinham... todos tinham lutado na Guerra quinhentos anos antes.
— É o que quero descobrir — disse Rhysand. — E como o rei planeja fazer isso.
Amren por fim opinou:
— Ele deve ter ouvido falar de como Feyre foi feita. Sabe que é possível que os mortos sejam refeitos.
Eu me movi na cadeira. Esperava exércitos cruéis, derramamento de sangue. Mas isso...
— Todos os sete Grão-Senhores precisariam concordar com isso — replicou Mor. — Não há a menor chance de acontecer. Ele vai tomar outro caminho. — Os olhos se semicerraram até virarem fendas quando ela encarou Rhys. — Todas as mortes, os massacres em templos. Acha que está ligado a isso?
— Sei que está ligado a isso. Não queria contar até ter certeza. Mas Azriel confirmou que eles saquearam o memorial em Sangravah há três dias. Estão procurando por algo, ou encontraram algo. — Azriel assentiu em confirmação, mesmo quando Mor lançou um olhar surpreso em sua direção. Azriel deu de ombros em resposta, como se pedisse desculpas.
Respirei.
— É... é por isso que o anel e o osso do dedo sumiram depois que Amarantha morreu. Para isso. Mas quem... — Minha boca secou. — Eles jamais pegaram o Attor, pegaram?
Rhys falou, baixo demais:
— Não. Não, não pegaram. — A comida em meu estômago pareceu virar chumbo. Ele disse a Amren: — Como se pega um olho e o osso de um dedo e se transforma em um homem de novo? E como impedimos isso?
Amren franziu a testa para o vinho intocado.
— Já sabe como encontrar a resposta. Vá até a Prisão. Fale com o Entalhador de Ossos.
— Merda! — exclamaram Mor e Cassian.
— Talvez você fosse mais eficiente, Amren — disse Rhys, calmo.
Fiquei grata pela mesa que nos separava quando Amren sibilou:
— Não vou colocar os pés na Prisão, Rhysand, e você sabe disso. Então, vá sozinho, ou mande um desses cães em seu lugar.
Cassian sorriu, mostrou os dentes brancos e retos — perfeitos para morder. Amren mordeu o ar com os dela em resposta.
Azriel apenas sacudiu a cabeça.
— Eu vou. As sentinelas da Prisão me conhecem, sabem o que sou.
Imaginei se o encantador de sombras costumava ser o primeiro a se colocar em perigo. Os dedos de Mor ficaram imóveis na borda da taça de vinho, os olhos se semicerraram para Amren. As joias, o vestido vermelho — tudo talvez fosse uma forma de amenizar qualquer que fosse o poder em suas veias...
— Se alguém vai à Prisão — decidiu Rhys, antes que Mor abrisse a boca — sou eu.
E Feyre.
— O quê? — indagou Mor, as mãos agora espalmadas na mesa.
— Ele não falará com Rhys — disse Amren aos demais — ou com Azriel. Ou com qualquer um de nós. Não temos nada a oferecer. Mas uma imortal com uma alma mortal... — Amren encarou meu peito como se pudesse ver o coração batendo abaixo... E me perguntei mais uma vez o que ela comeria. — O Entalhador de Ossos pode estar disposto, de fato, a falar com ela.
Eles me encararam. Como se esperassem que eu implorasse para não ir, que eu me encolhesse e me acovardasse. Aquela era a entrevista rápida e brutal para ver se queriam trabalhar comigo, supus.
Mas o Entalhador de Ossos, os naga, o Attor, o Suriel, o Bogge, o Verme de Middengard... Talvez tivessem destruído qualquer que fosse a parte de mim que realmente sentia medo. Ou talvez o medo fosse apenas algo que eu agora sentia nos sonhos.
— A escolha é sua, Feyre — disse Rhys, casualmente.
Fugir e me deprimir ou encarar algum horror desconhecido; a escolha era fácil.
— O quão ruim pode ser? — Foi minha resposta.

— Ruim — disse Cassian. Nenhum deles se incomodou em contradizê-lo.

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