1 de fevereiro de 2017

Capítulo Dezesseis

Depois de ficar de molho na banheira por quase uma hora, me sentei em uma cadeira de encosto baixo diante da lareira crepitante do quarto, aproveitando a sensação de Alis escovando meus cabelos encharcados. Mesmo com o jantar prestes a ser servido, Alis trouxe uma caneca de chocolate derretido e se recusou a fazer qualquer coisa até que eu tomasse alguns goles.
Foi a melhor coisa que já provei. Bebi da caneca grossa enquanto Alis escovava meus cabelos, quase ronronando com a sensação de seus dedos finos em meu couro cabeludo.
Mas, quando tive certeza de que as outras criadas tinham descido para ajudar com a refeição da noite, abaixei a caneca até a altura do colo.
— Se mais feéricos continuarem atravessando os limites da corte e atacando, vai haver uma guerra? — Talvez devêssemos simplesmente enfrentar, talvez esteja na hora de dizer basta, dissera Lucien a Tamlin naquela primeira noite.
A escova parou.
— Não faça essas perguntas. Vai atrair o azar.
Eu me mexi no assento, olhando com raiva para o rosto mascarado de Alis.
— Por que os outros Grão-Senhores não mantêm seus súditos na linha? Por que essas criaturas horríveis podem perambular por onde quiserem? Alguém... alguém começou a me contar uma história sobre um rei em Hybern...
Alis segurou meu ombro e me virou.
— Não é da sua conta.
— Pois eu acho que é. — Virei de novo, segurando o encosto da cadeira de madeira. — Se isso se espalhar para o mundo humano... se houver uma guerra ou essa praga envenenar nossas terras... — Afastei o pânico esmagador. Precisava avisar minha família, precisava escrever para eles. Logo.
— Quanto menos souber, melhor. Deixe que Lorde Tamlin lide com isso, ele é o único que pode. — O Suriel tinha dito o mesmo. Os olhos castanhos de Alis eram rigorosos, impiedosos. — Acha que ninguém me diria o que você pediu à cozinha hoje, ou que ninguém perceberia o que foi caçar? Garota tola e burra. Se o Suriel não estivesse em um humor benevolente, teria merecido a morte que ele lhe daria. Não sei o que é pior: isso ou sua idiotice com a puca.
— Você teria feito diferente? Se tivesse uma família...
— Eu tenho uma família.
Olhei Alis de cima a baixo. Não havia anel em seu dedo.
Alis reparou meu olhar e disse:
- Minha irmã e o companheiro foram assassinados há quase cinquenta anos, deixando duas crianças para trás. Tudo o que faço, tudo pelo que trabalho é para aqueles meninos. Então, você não tem o direito de me olhar assim e perguntar se eu faria diferente, menina.
— Onde eles estão? Onde moram? — Talvez fosse por isso que havia livros infantis no escritório. Talvez aquelas duas figuras pequenas e brilhantes no jardim... Talvez fossem eles.
— Não, eles não moram aqui — respondeu Alis, em tom afiado demais. — Estão em outro lugar... bem longe.
Considerei o que ela falou e inclinei a cabeça.
— Crianças feéricas envelhecem de outro modo? — Se os pais tinham sido mortos havia quase cinquenta anos, eles mal poderiam ser meninos.
— Ah, algumas envelhecem como vocês e podem procriar com a frequência de coelhos, mas há tipos, como eu, como os Grão-Feéricos, que raramente conseguem produzir crias. Aquelas que nascem envelhecem bem devagar. Todos ficamos chocados quando minha irmã concebeu o segundo apenas cinco anos depois, e o mais velho nem vai chegar à fase adulta até fazer 75 anos. Mas são tão raros, todos os nossos jovens o são, e mais caros a nós que quaisquer joias ou ouro. — Alis contraiu o maxilar com tanta força que eu soube que aquilo era tudo o que eu tiraria dela.
— Não pretendia questionar sua dedicação a eles — falei baixinho. Quando Alis não respondeu, acrescentei: — Entendo o que quer dizer... sobre fazer tudo por eles.
Os lábios de Alis se contraíram, mas ela falou:
— Da próxima vez que aquele tolo Lucien lhe der conselhos sobre como aprisionar um Suriel, venha até mim. Galinhas mortas uma pinoia. Tudo o que precisava fazer era oferecer uma nova túnica e o Suriel teria se prostrado aos seus pés.
***
Quando cheguei à sala de jantar, tinha parado de tremer e algo semelhante ao calor tinha retornado a minhas veias. Grão-Senhor de Prythian ou não, eu não me acovardaria, não depois do que tinha passado naquele dia.
Lucien e Tamlin já me esperavam à mesa.
— Boa noite — cumprimentei, seguindo para minha cadeira de sempre. Lucien inclinou a cabeça em uma indagação silenciosa, e dei a ele um aceno sutil quando me sentei. O segredo de Lucien ainda estava a salvo, embora ele merecesse ser surrado por me enviar tão despreparada para o Suriel.
Lucien se curvou um pouco na cadeira.
— Soube que teve uma tarde bem animada. Queria poder estar lá para ajudar.
Um pedido de desculpas oculto, talvez sem entusiasmo, mas dei outro aceno sutil.
Lucien continuou, com uma despreocupação forçada:
— Bem, você ainda parece encantadora, independentemente da tarde infernal.
Ri com deboche. Nunca pareci encantadora, sequer um dia na vida.
— Achei que feéricos não pudessem mentir.
Tamlin engasgou com o vinho, mas Lucien sorriu, aquela cicatriz forte e cruel.
— Quem lhe contou isso?
— Todos sabem — falei, amontoando comida no prato, mesmo conforme comecei a ponderar sobre tudo o que ouvira até então, cada frase que eu aceitara como a pura verdade.
Lucien se recostou na cadeira, sorrindo com um prazer felino.
— É claro que podemos mentir. Achamos que mentir é uma arte. E mentimos quando contamos àqueles mortais antigos que não podíamos dizer uma inverdade. De que outra forma conseguiríamos que confiassem em nós e fizessem nossa vontade?
Minha boca se tornou uma linha fina e contraída. Ele estava dizendo a verdade, porque se estivesse mentindo... A lógica daquilo fez minha cabeça girar.
— Ferro? — Consegui perguntar.
— Não nos faz mal algum. Apenas freixo, como você bem sabe.
Meu rosto ficou quente. Tinha aceitado tudo o que disseram como verdade. Talvez o Suriel estivesse mentindo mais cedo também, com aquela explicação prolixa sobre a política dos reinos feéricos. Sobre ficar com o Grão-Feérico, e tudo se acertar no final.
Olhei para Tamlin. Grão-Senhor. Isso não era mentira — eu podia sentir a verdade em meus ossos. Embora ele não agisse como os Grão-Senhores cruéis das lendas, que sacrificavam virgens e matavam humanos à vontade. Não, Tamlin era... exatamente como aqueles jovens fanáticos de olhos arregalados, os Filhos dos Abençoados, tinham descrito os tesouros e os confortos de Prythian.
— Embora Lucien tenha revelado alguns de nossos segredos mais bem guardados — disse Tamlin, atirando a última palavra ao companheiro com um grunhido —, jamais usamos sua falta de informação contra você. — O olhar de Tamlin encontrou o meu. — Jamais mentimos deliberadamente para você.
Consegui assentir e tomei um longo gole de água. Comi em silêncio, tão ocupada tentando decifrar cada palavra que tinha ouvido desde que chegara que não percebi quando Lucien pediu licença e saiu da mesa antes da sobremesa. Fui deixada sozinha com o ser mais perigoso que já havia encontrado.
As paredes da sala me sufocaram.
— Está se sentindo... melhor? — Embora Tamlin estivesse com o queixo apoiado no punho, preocupação, e talvez surpresa pela preocupação, brilhava nos olhos dele.
Engoli em seco.
— Se eu jamais vir um naga de novo, vou me considerar sortuda.
— O que estava fazendo no bosque a oeste?
Verdade ou mentira, mentira ou verdade... ambas.
— Ouvi uma lenda certa vez sobre uma criatura que responde a suas perguntas se você conseguir aprisioná-la.
Tamlin encolheu o corpo quando suas garras eclodiram e lhe cortaram o rosto. Mas os ferimentos se fecharam assim que se abriram, apenas um borrão de sangue percorreu a pele bronzeada, borrão que Tamlin limpou com a manga da camisa.
— Você foi pegar o Suriel.
— Eu peguei o Suriel — corrigi.
— E ele contou o que queria saber? — Eu não tinha certeza se Tamlin estava respirando.
— Fomos interrompidos pelos naga antes que o Suriel pudesse dizer qualquer coisa útil.
A boca de Tamlin se contraiu.
— Eu começaria a gritar, mas acho que hoje foi punição o suficiente. — Ele balançou a cabeça. — Você pegou mesmo o Suriel. Uma garota humana.
Apesar de não querer, apesar da tarde, meus lábios se curvaram em um sorriso.
— Por acaso é difícil?
Ele riu e, depois, tirou algo do bolso.
— Bem, se eu tiver sorte, não precisarei prender o Suriel para descobrir do que se trata isso. — Tamlin ergueu minha lista amassada de palavras.
Meu coração ficou pesado.
- É... — Não consegui encontrar uma mentira adequada, tudo parecia absurdo.
Singular? Amontoavam? Massacrando? Conflagração? — Ele leu a lista. Eu queria me enroscar e morrer. Palavras que eu não conseguia reconhecer dos livros, palavras que pareciam tão simples, tão absurdamente fáceis agora que ele as pronunciava em voz alta. — É um poema sobre me assassinar e depois atear fogo a meu corpo?
Minha garganta se fechou, e precisei cerrar as mãos em punhos para evitar esconder o rosto atrás delas.
— Boa noite — falei, pouco mais que um sussurro, e fiquei de pé, os joelhos trêmulos.
Eu estava quase à porta quando Tamlin falou de novo.
— Você os ama muito, não é?
Virei um pouco o corpo na direção dele. Os olhos verdes de Tamlin encontraram os meus quando ele se levantou da cadeira para caminhar até mim. Tamlin parou a uma distância respeitável.
A lista de palavras malformadas ainda amassada em sua mão.
— Imagino se sua família percebe — murmurou Tamlin. — Que tudo o que fez não foi por causa da promessa a sua mãe, ou pelo seu bem, mas pelo deles. — Não respondi, não confiava em minha voz para manter a vergonha escondida. — Eu sei... eu sei que quando falei mais cedo, não saiu bem, mas eu poderia ajudar você a escrever...
— Me deixe em paz — falei. Eu estava quase à porta quando esbarrei em alguém... nele. Recuei um passo. Tinha me esquecido de como era rápido.
— Não estou insultando você. — A voz baixa de Tamlin piorou tudo.
— Não preciso de sua ajuda.
— Obviamente — respondeu ele, com um meio sorriso. Mas o sorriso sumiu. — Uma humana que consegue abater um feérico em pele de lobo, que aprisionou o Suriel e matou dois dos naga sozinha... — Tamlin segurou uma risada e sacudiu a cabeça. A luz da lareira dançava em sua máscara. — São tolos. Tolos por não verem. — Ele estremeceu. Mas os olhos de Tamlin não exibiam malícia. — Aqui — disse ele, estendendo a lista de palavras.
Eu a enfiei no bolso. Virei, mas Tamlin segurou meu braço delicadamente.
— Você abriu mão de muita coisa por eles. — Tamlin ergueu a outra mão, como se para acariciar minha bochecha. Eu me preparei para o toque, mas ele abaixou a mão antes. — Você sequer sabe como rir?
Eu me desvencilhei de seu braço, incapaz de conter as palavras de raiva. Que o Grão-Senhor fosse para o inferno.
— Não quero sua pena.
Os olhos de jade de Tamlin estavam tão brilhantes que eram hipnotizantes.
— Que tal um amigo?
— Feéricos podem ser amigos de mortais?
— Há quinhentos anos, muitos feéricos eram amigos de mortais, a ponto de irem à guerra em seu nome.
— O quê? — Eu nunca ouvira aquilo. E não estava naquele mural no escritório.
Tamlin deu de ombros.
— Como acha que os exércitos humanos sobreviveram tanto tempo e causaram tantos danos que meu povo chegou a concordar com um Tratado? Apenas usando armas de freixo? Havia feéricos que lutaram e morreram ao lado dos humanos, pela liberdade deles, e que ficaram de luto quando a única solução foi separar nossos povos.
— Você era um deles?
— Eu era criança na época, jovem demais para entender o que estava acontecendo, ou mesmo para que me contassem — disse ele. Uma criança. O que significava que deveria ter mais de... — Mas, se eu fosse velho o suficiente, teria. Contra escravidão, contra tirania, eu marcharia feliz para minha morte, não importando de quem fosse a liberdade que eu defendia.
Eu não tinha certeza se faria o mesmo. Minha prioridade seria proteger minha família — e eu teria escolhido o lado que os mantivesse mais seguros. Não tinha pensado nisso como uma fraqueza até agora.
— Se faz diferença — disse Tamlin —, sua família sabe que você está segura. Eles não se lembram de uma besta irrompendo no chalé, e acham que uma tia muito distante e rica a chamou para ajudá-la no leito de morte. Sabem que você está viva e alimentada, e que é bem-cuidada. Mas também sabem que houve boatos de uma... ameaça em Prythian, e estão prontos para correr caso qualquer dos sinais de alerta sobre o enfraquecimento da muralha ocorra.
— Você... você alterou as memórias deles? — Dei um passo para trás. Arrogância feérica, tanta arrogância feérica mudar nossas mentes, implantar pensamentos como se não fosse uma violação...
— Encantei-lhes as memórias, como se pusesse um véu sobre elas. Eu tive medo que seu pai viesse atrás de você, ou persuadisse alguns aldeões a atravessarem a muralha com ele para violar ainda mais o Tratado.
E todos teriam morrido de qualquer forma, depois que encontrassem com coisas como a puca ou o Bogge ou os naga. Um silêncio cobriu minha mente, até que eu estivesse tão exausta que mal conseguisse pensar e não pudesse me impedir de dizer:
— Você não o conhece. Meu pai não teria se dado o trabalho de fazer nenhum dos dois.
Tamlin me olhou por um longo momento.
— Sim, ele teria.
Mas não teria, não com aquele joelho deformado. Não com o joelho como uma desculpa. Percebi isso no momento em que a ilusão da puca fora revelada.
Alimentados, confortáveis e seguros — foram até avisados sobre a praga, tenham eles entendido o aviso ou não. Os olhos de Tamlin eram diretos, sinceros. Ele fora mais longe do que eu jamais teria imaginado, a fim de apaziguar qualquer preocupação minha.
— Você realmente os avisou sobre... a possível ameaça?
Ele deu um aceno sério.
— Não um aviso descarado, mas... está entrelaçado ao encantamento de suas memórias, junto a uma ordem para que fujam ao primeiro sinal de que algo esteja fora do normal.
Arrogância feérica, mas... mas Tamlin fizera mais do que eu podia. Minha família poderia ter ignorado minha carta completamente. Se eu soubesse que ele tinha tais habilidades, talvez até pedisse ao Grão-Senhor para encantar as memórias deles se ele mesmo já não tivesse feito isso.
Eu realmente não tinha com o que preocupar, exceto pelo fato de que eles provavelmente me esqueceriam mais rápido que eu esperava. Não poderia culpá-los totalmente. Minha promessa cumprida, minha tarefa completa... o que restava para mim?
A luz do fogo dançava na máscara de Tamlin, aquecendo o ouro, fazendo com que as esmeraldas brilhassem. Tantas cores e variações... cores cujos nomes eu não sabia, cores que eu queria catalogar e unir. Cores que eu não tinha motivo para não explorar agora.
— Tinta — falei, pouco mais que um sussurro. Tamlin inclinou a cabeça, e engoli em seco, esticando os ombros. — Se... se não for pedir muito, eu gostaria de um pouco de tinta. E pincéis.
Tamlin piscou.
— Você gosta... de arte? Você gosta de pintar?
As palavras trôpegas não eram grosseiras. Foi o bastante para o que eu dissesse:
— Bem, não sou... não sou nada boa, mas se não for muito incômodo... Eu pinto do lado de fora, para não fazer sujeira, mas...
— Fora, dentro, no telhado, pinte onde quiser. Não me importo — disse ele. — Mas, se precisa de tinta e pincéis, precisa também de papel e tela.
— Eu posso trabalhar... ajudar na cozinha ou nos jardins, para pagar por tudo isso.
— Você seria mais um incômodo. Pode levar alguns dias para eu conseguir tudo, mas a tinta, os pincéis, a tela e o espaço são seus. Trabalhe onde quiser. Esta casa está limpa demais mesmo.
— Obrigada... de verdade, mesmo. Obrigada.
Tamlin respondeu baixinho:
— É claro. —Eu me virei, mas ele falou de novo. —Já viu a galeria?
Espantada, perguntei:
— Tem uma galeria nesta casa?
Ele abriu um sorriso brilhante... um sorriso grande, o Grão-Senhor da Corte Primaveril.
 — Eu mandei fechar quando herdei este lugar. — Quando ele herdou um título que parecia não gostar muito de ter. — Parecia um desperdício de tempo pedir que os criados a mantivessem limpa.
É claro que sim, para um guerreiro treinado.
Ele continuou.
— Amanhã estarei ocupado, e a galeria precisa ser limpa, então... Depois de amanhã, deixe-me mostrá-la a você depois de amanhã. — Tamlin esfregou o pescoço, um vermelho leve surgiu naquelas bochechas, mais vivo e acolhedor que eu jamais vira. — Por favor... será um prazer. — E acreditei que seria.
Assenti tolamente. Se as pinturas nos corredores eram exóticas, então aquelas selecionadas para a galeria estariam além de minha imaginação humana.
— Eu gostaria disso... muito.
Tamlin ainda sorria para mim, um sorriso largo, sem restrições ou hesitação. Isaac jamais sorrira para mim daquela forma. Isaac jamais me fizera perder o fôlego, nem um pouquinho.

A sensação era tão assustadora que saí, segurando o papel amassado no bolso, como se fazer aquilo pudesse evitar que aquele sorriso em resposta despontasse em meus lábios.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
Encontrou algum erro gramatical ou de formatação? Comente :D