1 de fevereiro de 2017

Capítulo Dezenove

Na manhã seguinte, minhas tintas e materiais de pintura chegaram de onde quer que Tamlin ou os criados os tivessem desenterrado, mas, antes que o Grão Feérico me deixasse vê-los, ele me levou, através de corredores, até chegarmos a uma ala da casa na qual eu jamais estivera, mesmo na exploração noturna. Eu sabia aonde íamos sem Tamlin precisar dizer. Os pisos de mármore brilhavam tanto que só podiam ter sido recém-esfregados, e aquela brisa com cheiro de rosas flutuava pelas janelas abertas. Tudo aquilo... ele fizera por mim. Como se eu me importasse com teias de aranha ou poeira.
Quando Tamlin parou diante de duas portas de madeira, seu leve sorriso foi o suficiente para que eu perguntasse:
— Por que fazer algo... algo tão gentil?
O sorriso hesitou.
— Faz muito tempo desde que alguém que apreciasse essas coisas esteve aqui. Gosto de vê-las serem usadas de novo.
Principalmente quando havia tanto sangue e morte em todas as outras partes de sua vida.
Tamlin abriu as portas da galeria, e perdi o fôlego.
O piso de madeira pálida reluzia à luz clara e forte que entrava pelas janelas. A sala estava vazia, exceto por algumas poltronas e uns bancos grandes para ver a... a...
Com uma das mãos no pescoço conforme olhava as pinturas, mal percebi que havia entrado na longa galeria.
Tantas, tão diferentes, mas organizadas para fluírem juntas sutilmente... Visões, retratos e ângulos do mundo tão diferentes. Paisagens, retratos, naturezas mortas... cada uma, uma história e uma experiência, cada uma, uma voz gritando, sussurrando ou cantando sobre o que aquele momento, aquela sensação fora, cada uma era um grito para o vazio do tempo em que tinham estado ali, tinham existido. Algumas foram pintadas por olhos como os meus, por artistas que viam em cores e formas que eu entendia. Outras exibiam cores que eu não havia considerado; essas carregavam uma perspectiva do mundo que me dizia que olhos diferentes as haviam pintado. Um portal para a mente de uma criatura tão diferente de mim, e, ainda assim... e, ainda assim, olhei para a obra e entendi e senti e me importei.
— Eu nunca soube — disse Tamlin atrás de mim — que humanos eram capazes de... — Ele se interrompeu quando me virei, a mão que eu levava ao pescoço deslizava para a altura do peito, onde meu coração rugia com um tipo de alegria e de luto ferozes, e humildade sobrepujante, humildade diante daquela arte magnífica.
Tamlin ficou parado à porta, a cabeça inclinada daquele jeito animalesco, as palavras ainda perdidas na língua.
Limpei as bochechas molhadas.
— É... — Perfeito, maravilhoso, além de tudo que eu pudesse imaginar não parecia suficiente. Mantive as mãos sobre o coração. — Obrigada — falei. Foi tudo o que encontrei para dizer, para mostrar a ele o que aquelas pinturas, o que sequer entrar naquela sala significava.
— Venha quando quiser.
Sorri para ele, mal conseguindo conter a alegria no coração. O sorriso de resposta de Tamlin foi vacilante, mas radiante, e então ele me deixou para que eu admirasse a galeria como quisesse.
Fiquei ali durante horas — até ficar inebriada pela arte, até estar tonta de fome e sair perambulando em busca de comida.
Depois do almoço, Alis me mostrou um quarto vazio no primeiro andar, com uma mesa cheia de telas de vários tamanhos, pincéis cujas hastes de madeira pálida reluziam à luz perfeita e clara, e tintas — tantas, tantas tintas, além das quatro básicas que eu esperava, que perdi o fôlego de novo.
E quando Alis se foi e o quarto ficou em silêncio e à espera e era totalmente meu...
Então comecei a pintar.
***
Semanas se passaram. Pintei e pintei, a maioria das coisas horrível e inútil.
Eu jamais permitia que ninguém visse, não importava o quanto Tamlin se intrometesse e Lucien risse de minhas roupas manchadas de tinta; nunca senti a satisfação de que o trabalho combinava com as imagens impressas em minha mente. Em geral, eu pintava do alvorecer ao crepúsculo, às vezes naquele quarto, às vezes no jardim. Os dias se condensaram. De vez em quando, eu fazia uma pausa para explorar as terras Primaveris com Tamlin como guia, e voltava com ideias novas que me faziam saltar da cama na manhã seguinte, para rabiscar ou anotar as cenas ou as cores conforme as avistara.
Mas havia dias em que Tamlin era chamado para enfrentar a mais recente ameaça nas fronteiras, e mesmo pintar não me distraía até que ele voltasse, coberto de sangue que não era dele, às vezes na forma animal, às vezes como o Grão-Senhor. Ele jamais voluntariava detalhes do que havia acontecido, e eu não fazia menção de perguntar; seu retorno a salvo me bastava.
Na própria mansão, não havia sinais de criaturas como os naga ou o Bogge, mas fiquei bem longe do bosque oeste, embora eu o pintasse muitas vezes de memória. E, embora meus sonhos continuassem assombrados pelas mortes que eu havia testemunhado, as mortes que havia causado, e por aquela mulher pálida horrível me despedaçando — tudo isso observado por uma sombra que eu jamais conseguia ver —, aos poucos parei de sentir tanto medo. Fique com o Grão Senhor. Você estará segura. Então, fiquei.
A Corte Primaveril era uma terra de colinas verdes e florestas exuberantes, e lagos cristalinos e infinitos. A magia não era apenas abundante nas colinas e nos vales — ela crescia ali. Por mais que eu tentasse pintá-la, jamais conseguia capturá-la... capturar a sensação. Então, às vezes ousava pintar o Grão-Senhor, que cavalgava ao meu lado quando passeávamos por seu território em dias preguiçosos; o Grão-Senhor com quem eu ficava feliz ao conversar ou ao passar horas em silêncio confortável.
Era provavelmente o acalanto da magia que anuviava meus pensamentos, e não pensei em minha família até passar pela muralha de cerca viva mais externa certa manhã, em busca de um novo ponto para pintar. A primavera agora nascia no mundo mortal.
Como tanto tempo havia passado? Minha família, encantada, assistida, segura, ainda não fazia ideia de onde eu estava. O mundo mortal... ele seguira em frente sem mim, como se eu jamais tivesse existido. O sussurro de uma vida miserável... desaparecida, não lembrada por ninguém que eu conhecera ou com quem me importara.
Não pintei nem cavalguei com Tamlin naquele dia. Em vez disso, fiquei sentada diante de uma tela branca, nenhuma cor na mente.
Ninguém se lembraria de mim em casa — eu estava praticamente morta para eles. E Tamlin permitirá que eu os esquecesse. Talvez as pinturas tivessem até sido uma distração; um modo de me fazer parar de reclamar sobre eles, de parar de ser irritante quanto a querer vê-los. Ou talvez elas fossem uma distração do que quer que estivesse acontecendo com a praga e com Prythian. Eu tinha parado de perguntar, como o Suriel ordenara, como uma humana burra, inútil e obediente.
Precisei da força de minha vontade teimosa para suportar o jantar. Tamlin e Lucien repararam meu humor e mantiveram a conversa entre eles. Isso não ajudou muito minha raiva crescente, e, quando terminei de comer, saí batendo os pés para o jardim iluminado pela lua e me perdi no labirinto de cercas vivas e canteiros de flores.
Não me importava aonde iria. Depois de um tempo, parei no jardim de rosas. O luar manchava as pétalas vermelhas de um roxo profundo e projetava um filme prateado nas flores brancas.
— Meu pai mandou plantarem este jardim para minha mãe — disse Tamlin atrás de mim. Não me dei o trabalho de me virar. Cravei as unhas nas palmas das mãos quando ele parou ao meu lado. — Foi um presente de parceria.
Encarei as flores sem ver nada. As flores que eu pintara na mesa de casa deviam estar se desfazendo, ou já desfeitas àquela altura. Nestha poderia até tê-las raspado.
Minhas unhas arranharam a pele das palmas das mãos. Por mais que Tamlin os sustentasse ou não, encantasse suas memórias ou não, eu tinha sido... apagada de suas vidas. Esquecida. Deixei que Tamlin me apagasse. Ele me ofereceu tintas e o espaço e o tempo para praticar; tinha me mostrado lagos de brilho de estrelas e arco-íris de luar, e peixes que caminhavam em terra. Ele salvara minha vida, como algum tipo de cavaleiro corajoso das lendas, e eu engoli tudo aquilo como vinho de feéricos. Eu não era melhor que aqueles fanáticos Filhos dos Abençoados.
A máscara de Tamlin parecia bronze na escuridão, e as esmeraldas brilhavam.
— Você está... chateada.
Caminhei até a roseira mais próxima, arranquei uma rosa, e meus dedos se arranharam nos espinhos. Ignorei a dor, o calor do sangue que escorria. Jamais poderia pintá-la com precisão; jamais a retrataria da forma como aqueles artistas nas obras da galeria. Eu jamais poderia pintar o jardinzinho de Elain, do lado de fora do chalé, como me lembrava, mesmo que minha família não se lembrasse de mim.
Tamlin não me repreendeu por arrancar uma das rosas de seus pais — que estavam tão ausentes quanto os meus, mas que provavelmente se amaram, e o amaram ainda mais do que os meus se importaram comigo. Uma família que teria se oferecido para tomar o lugar dele caso alguém aparecesse a fim de roubá-lo.
Meus dedos ardiam e doíam, mas continuei segurando a rosa quando confessei baixinho:
— Não sei por que me sinto tão imensamente envergonhada por tê-los deixado. Por que parece tão egoísta e tão horrível pintar. Eu não deveria... me sentir dessa forma, deveria? Eu sei que não, mas não consigo evitar. —A rosa pendeu, frouxa, de meus dedos. — Todos aqueles anos, o que fiz por eles... E eles não tentaram impedir que você me levasse. — Ali estava a imensa dor que me partia ao meio quando eu pensava nela por muito tempo. — Não sei por que esperava que eles... por que acreditei que a ilusão da puca fosse verdade naquela noite. Não sei por que me dou o trabalho de pensar nisso ainda. Ou de me importar. — Tamlin ficou em silêncio por tanto tempo que acrescentei: — Em comparação a você, suas fronteiras e magia enfraquecida, imagino que minha autopiedade seja absurda.
— Se ela a deixa deprimida — falou Tamlin baixinho, as palavras acariciando meus ossos —, então não acho que seja absurda mesmo.
— Por quê? — Uma pergunta inexpressiva, e atirei a rosa aos arbustos.
Tamlin pegou minhas mãos. Seus dedos calejados, fortes e firmes, foram carinhosos quando ele levou minha mão ensanguentada à boca e beijou a palma. Como se aquilo fosse uma boa resposta.
Os lábios de Tamlin eram macios contra minha pele, o hálito era morno, e meus joelhos tremeram quando ele levou minha outra mão à boca e a beijou também. Beijou com cuidado, de um modo que fez um calor latejar bem no fundo do corpo, entre minhas pernas.
Quando Tamlin recuou, meu sangue brilhava em sua boca. Olhei para minhas mãos, que ele ainda segurava, e vi que os ferimentos tinham sumido. Olhei para o rosto dele de novo, para a máscara de moldura dourada, para a brancura da pele, o vermelho dos lábios cobertos de sangue, quando Tamlin murmurou:
— Não se sinta mal nem um segundo por fazer o que a faz feliz. — Ele se aproximou, soltando uma de minhas mãos para colocar a rosa que eu havia colhido atrás de minha orelha. Não sabia como ela chegara à mão dele, ou para onde tinham ido os espinhos.
Não pude evitar insistir.
— Por que... por que fazer isso?
Tamlin se aproximou, tanto que precisei inclinar a cabeça para trás para vê-lo.
— Por que sua alegria humana me fascina, o modo como vivência as coisas em sua curta existência, tão selvagem e intensamente e tudo de uma vez, é... hipnotizante. Sou atraído por isso, mesmo quando sei que não deveria, mesmo quando tento não ser.
Porque eu era humana, e envelheceria e... não me permiti chegar tão longe quando ele se aproximou ainda mais. Devagar, como se me desse tempo de me afastar, Tamlin roçou os lábios contra minha bochecha.
Suave, morno e carinhoso de partir o coração. Mal passou de uma carícia, antes que ele endireitasse o corpo. Não me movi desde o momento em que sua boca tocara minha pele.
— Um dia... um dia haverá respostas para tudo — garantiu Tamlin, baixinho, soltando minha mão e se afastando. — Mas não até que o momento chegue. Até que seja seguro. — No escuro, seu tom de voz bastou para que eu soubesse que os olhos de Tamlin estavam cheios de amargura.
Ele me deixou, e inspirei, engasgando, sem perceber que prendia a respiração.
Sem perceber que desejava seu calor, a proximidade de Tamlin, até que ele tivesse ido embora.
***
A vergonha permanente pelo que eu havia admitido, pelo que havia... mudado entre nós me fez sair da mansão deprimida depois do café da manhã, e fugir para o abrigo do bosque para tomar ar fresco... e para estudar a luz e as cores. Levei o arco e as flechas, assim como a faca de caça encrustada de joias que Lucien me dera. Melhor estar armada que ser pega de mãos vazias.
Caminhei devagar entre as árvores e os arbustos por menos de uma hora antes de sentir uma presença atrás de mim... chegando cada vez mais perto, fazendo os animais fugirem em busca de abrigo. Sorri comigo mesma e, vinte minutos depois, me acomodei na reentrância de um olmo alto e esperei.
A vegetação farfalhou; pouco mais que uma brisa passando, mas eu sabia o que esperar, conhecia os sinais.
Um estalo e um rugido de fúria ecoaram pelo território, fazendo os pássaros fugirem.
Quando desci da árvore e caminhei para a clareira, apenas cruzei os braços e ergui o olhar para o Grão-Senhor, pendurado, pelas pernas, na armadilha que eu havia montado.
Mesmo de ponta-cabeça, ele deu um sorriso preguiçoso para mim quando me aproximei.
— Humana cruel.
— É o que merece por perseguir alguém.
Ele riu, e me aproximei bem para ousar passar o dedo pelos sedosos cabelos louros, que pendiam logo acima de meu rosto, admirando as muitas cores — os tons de amarelo e marrom e trigo. Meu coração palpitou, e soube que ele provavelmente conseguia ouvir. Mas Tamlin inclinou a cabeça na minha direção, num convite silencioso, e percorri os dedos pelos fios — com carinho, cuidado. Tamlin ronronou, o som estremeceu meus dedos, meus braços, minhas pernas e meu interior. Imaginei qual seria a sensação daquele som caso ele estivesse com o corpo pressionado contra o meu, pele contra pele. Recuei.
Tamlin dobrou o corpo para cima em um movimento suave e poderoso, e passou apenas uma garra na trepadeira que eu usara como corda. Inspirei para gritar, mas ele se virou ao cair, aterrissando suavemente de pé. Seria impossível para mim algum dia me esquecer do que ele era, e do que era capaz. Tamlin deu um passo em minha direção, a risada ainda dançando em seu rosto.
— Está se sentindo melhor hoje?
Murmurei alguma resposta despreocupada.
— Que bom — disse Tamlin, ignorando ou escondendo o interesse. — Mas, apenas por precaução, queria lhe dar isto — acrescentou ele, puxando um maço de papéis da túnica e os estendendo para mim.
Mordi a parte interna da bochecha enquanto encarei as três folhas de papel. Eram uma série de... poemas de cinco linhas. Havia oito deles no todo, e comecei a suar ao ler palavras que não reconhecia. Levaria um dia inteiro apenas para descobrir o que elas significavam.
— Antes que fuja ou comece a gritar... — falou Tamlin, dando a volta para olhar por cima de meu ombro. Se eu ousasse, poderia me recostar no peito dele. O hálito de Tamlin aquecia meu pescoço, minha orelha.
Ele pigarreou e leu o primeiro poema.
"— Havia uma dama linda de se admirar
Espirituosa, senão singular
Seus amigos escasseavam
Mas os homens se amontoavam
Embora todos ela se apressasse em rejeitar.
Minhas sobrancelhas se ergueram tão alto que achei que tocariam a linha de meus cabelos, e virei, piscando para ele, nossas respirações se misturando quando Tamlin terminou o poema com um sorriso.
Sem esperar minha resposta, ele pegou os papéis e se apressou em ler o segundo poema, o qual não era, nem de perto, tão educado quanto o primeiro. Quando Tamlin terminou de ler o terceiro poema, meu rosto estava quente. Ele parou antes de ler o quarto, e depois me devolveu os papéis.
— A última palavra no segundo e no quarto versos de cada poema — disse ele, indicando com o queixo os papéis em minhas mãos.
Singular. Amontoavam. Olhei para o segundo poema. Massacrando. Conflagração.
— Essas são... — comecei a dizer.
— Sua lista de palavras era boa demais para descartar. E nada boa para poemas românticos. — Quando ergui a sobrancelha em uma indagação silenciosa, Tamlin disse: — Fazíamos concursos para ver quem conseguia escrever as quintilhas mais sujas enquanto eu vivia na tropa de guerra de meu pai, na fronteira. Não gosto muito de perder; então, fiz questão de me exceder.
Eu não sabia como ele se lembrava da longa lista que eu havia compilado, nem queria saber. Sentindo que não estava prestes a sacar uma flecha e dispará-la contra ele, Tamlin pegou os papéis e leu o quarto poema, o mais sujo e mais cruel de todos.
Quando ele terminou, inclinei a cabeça para trás e gargalhei, e minha risada foi como a luz do sol partindo gelo endurecido pelo tempo.
***
Eu ainda sorria quando saímos do parque na direção das colinas íngremes, perambulando de volta à mansão.
— Você disse... naquela noite no jardim de rosas... — Inspirei o ar entre dentes durante um momento. — Você disse que seu pai mandou plantá-lo para sua mãe por ocasião da parceria deles... não do casamento?
— Os Grão-Feéricos em geral se casam — explicou Tamlin, a pele dourada corando um pouco. — Mas, se forem abençoados, encontrarão seu parceiro. Seu igual, aquele com quem combinam em todos os sentidos. Grão-Feéricos se casam sem a ligação da parceria, mas, se você encontrar seu parceiro, a ligação é tão profunda que o casamento é.... insignificante em comparação.
Não tive coragem de perguntar se feéricos já haviam forjado parcerias com humanos, e, em vez disso, ousei indagar:
— Onde estão seus pais? O que aconteceu com eles?
Um músculo se contraiu no maxilar de Tamlin, e me arrependi da pergunta, no mínimo devido à dor que cintilou em seus olhos.
— Meu pai... — As garras de Tamlin despontaram nos nós dos dedos, mas não se projetaram mais que isso. Eu definitivamente tinha feito a pergunta errada, me intrometera demais, achei que tinha o direito. — Meu pai era tão ruim quanto o de Lucien. Pior. Meus dois irmãos mais velhos eram exatamente como ele. Tinham escravos... Todos eles, e meus irmãos... eu era jovem quando o Tratado foi firmado, mas ainda me lembro do que meus irmãos costumavam... — Ele parou de falar. — Aquilo deixou uma marca, uma marca forte o bastante para que, quando eu a visse, sua casa, não conseguisse... Não me permitiria ser como eles. Não faria mal a sua família ou a você, ou a sujeitaria a caprichos feéricos.
Escravos... houve escravos aqui. Eu não queria saber; jamais procurara por traços deles, mesmo quinhentos anos depois. Ainda era pouco melhor que uma escrava para a maioria do povo de Tamlin, de seu mundo. Era por isso, por isso que ele oferecera a brecha no tratado, por isso me oferecera a liberdade de viver onde quisesse em Prythian.
— Obrigada — falei. Tamlin deu de ombros, como se isso dispensasse sua bondade, o peso da culpa que ainda recaía sobre o Grão-Senhor. — E quanto a sua mãe? — perguntei.
Tamlin expirou.
— Minha mãe... ela amava meu pai profundamente. Profundamente demais, mas eles eram parceiros e... mesmo que visse que era um tirano, não falaria nada de ruim sobre ele. Eu jamais esperei, nunca desejei o título de meu pai. Meus irmãos nunca teriam me permitido viver até a adolescência se suspeitassem disso. Então, assim que atingi a idade, me juntei à tropa de guerra de meu pai e treinei para que algum dia pudesse servi-lo, ou a qualquer de meus irmãos que herdasse o título. — Tamlin flexionou as mãos, como se imaginasse as garras sob elas. — Percebi desde cedo que lutar e matar eram as únicas coisas em que eu era bom.
— Duvido — falei, baixinho.
Tamlin deu um sorriso sarcástico.
— Ah, sei tocar um violino excelente, mas filhos de Grão-Senhores não se tornam menestréis ambulantes. Então, treinei e lutei por meu pai contra quem quer que ele mandasse, e teria ficado feliz em deixar as tramoias para meus irmãos. Mas meu poder continuou crescendo, e eu não conseguia escondê-lo... não entre nosso povo. — Tamlin sacudiu a cabeça. — Felizmente, ou infelizmente... todos foram mortos pelo Grão-Senhor de uma corte inimiga. Fui poupado não sei por que motivo, ou pela sorte que me lançou o Caldeirão. Por minha mãe, vesti luto. Pelos outros... — Um gesto de ombros ínfimo. — Meus irmãos jamais teriam tentado me salvar de um destino como o seu.
Ergui o olhar para ele. Um mundo tão cruel e difícil... com a família se matando por poder, por vingança, por desprezo e controle. Talvez a generosidade de Tamlin, sua bondade fossem uma reação a isso, talvez ele simplesmente tivesse me visto e achado que olhava em algum tipo de espelho.
— Sinto muito por sua mãe —falei, e foi tudo o que pude oferecer, tudo o que ele um dia pudera oferecer a mim. Tamlin deu um leve sorriso. — Então, foi assim que se tornou Grão-Senhor.
— A maioria dos Grão-Senhores é treinada desde o nascimento em boas maneiras, nas leis e nos jogos de guerra da corte. Quando o título recaiu sobre mim, foi uma... transição difícil. Muitos dos cortesãos de meu pai preferiram fugir para outras cortes a suportar um guerreiro bestial grunhindo para eles.
Uma besta semisselvagem, dissera Nestha para mim certa vez. Fiz um esforço para não pegar a mão dele, não tocar em Tamlin e dizer que eu entendia. Apenas falei:
— Então, são idiotas. Você manteve estas terras protegidas da praga, quando parece que outros não se saíram tão bem. São idiotas — falei de novo.
Mas a escuridão percorreu os olhos de Tamlin, e seus ombros pareceram se curvar levemente. Antes que eu pudesse perguntar, cruzamos o pequeno bosque, uma extensão de colinas e montes ziguezagueava adiante. Ao longe, havia feéricos mascarados no topo de muitos deles, construindo o que pareciam ser fogueiras não acesas.
— O que é aquilo? — perguntei, parando.
— Estão montando fogueiras... para Calanmai. É em dois dias.
— Para quê?
— Noite das Fogueiras?
Balancei a cabeça.
— Não celebramos dias sagrados no reino humano. Não depois que vocês... que seu povo se foi. Em alguns lugares, é proibido. Nem mesmo lembramos dos nomes de nossos deuses. O que Cala... a Noite do Fogo celebra?
Tamlin esfregou o pescoço.
— É apenas uma cerimônia de primavera. Acendemos fogueiras, e... e a magia que criamos ajuda a regenerar a terra para o próximo ano.
— Como criam a magia?
— Há um ritual. Mas é... muito feérico. — Tamlin trincou o maxilar e continuou andando, para longe das fogueiras apagadas. — É possível que você veja mais feéricos por aqui que o normal, feéricos desta corte e de outros territórios, que são livres para cruzar as fronteiras nessa noite.
— Achei que a praga havia espantado a maioria deles.
— Espantou, mas haverá muitos deles. Apenas... Fique longe de todos. Você ficará mais segura na casa, mas, se esbarrar em algum antes de acendermos as fogueiras ao pôr do sol, em dois dias, ignore-o.
— E não estou convidada para a cerimônia?
— Não. Não está. — Tamlin fechou os dedos em punho e os abriu, diversas e diversas vezes, como se tentasse conter as garras.
Por mais que eu quisesse ignorar, meu peito se apertou um pouco.
Caminhamos de volta em um silêncio tenso, que não compartilhávamos havia semanas. E, então, Tamlin ficou rígido assim que entramos nos jardins. Não por mim ou pela nossa conversa desconfortável. Tudo estava silencioso, com aquela quietude terrível que costumava significar a proximidade de um feérico mais cruel. Tamlin exibiu os dentes em um grunhido baixo, depois me olhou.
— Esconda-se e, não importa o que ouvir, não saia.
Então, ele sumiu.
Sozinha, olhei para cada lado da trilha de cascalho, como alguma idiota simplória. Se havia mesmo algo ali, eu seria surpreendida a céu aberto. Talvez fosse vergonhoso não sair para ajudá-la, mas... ele era um Grão-Senhor. Eu apenas ficaria no caminho.
Abaixei logo atrás de uma cerca viva quando ouvi Tamlin e... Lucien se aproximando. Xinguei baixinho e congelei. Talvez pudesse sair de fininho pelos campos, até os estábulos. Se havia algo fora do normal, os estábulos não apenas forneceriam abrigo, mas também um cavalo para que eu fugisse. Estava prestes a disparar para a grama alta, a poucos passos do limite dos jardins, quando o grunhido de Tamlin irrompeu pelo ar do outro lado da cerca viva.
Eu me virei; apenas o bastante para espioná-los entre a folhagem densa. Fique escondida, dissera ele. Se eu me movesse agora, certamente reparariam.
— Sei que dia é — disse Tamlin, mas não para Lucien. Na verdade, os dois olhavam para... nada. Alguém que não estava ali. Alguém invisível. Eu teria pensado que estavam pregando uma peça em mim caso não tivesse ouvido uma voz grave e sem corpo responder.
— Seu comportamento insistente está despertando muito interesse na corte — criticou a voz, grave e sibilante. Estremeci, apesar do calor do dia. — Ela começou a imaginar... por que não desistiu ainda. E por que quatro nagas apareceram mortos há pouco tempo.
— Tamlin não é como os outros tolos — disparou Lucien, ombros para trás, elevando-se a toda sua altura, mais guerreiro do que eu jamais o vira. Não era à toa que tinha todas aquelas armas no quarto. — Se ela esperava cabeças curvadas, então é mais idiota que pensei.
A voz sibilou, e meu sangue gelou devido ao ruído.
— Fala tão mal daquela que tem seu destino nas mãos? Com uma palavra, ela poderia destruir esta propriedade patética. Ela não ficou feliz quando soube que enviou seus guerreiros. — A voz agora parecia se voltar para Tamlin. — Mas, como não deu em nada, ela escolheu ignorar.
Um grunhido gutural foi emitido pelo Grão-Senhor, mas suas palavras eram calmas quando falou:
— Diga a ela que estou cheio de limpar o lixo que joga em minhas fronteiras.
A voz riu, e o som era como areia se movendo.
— Ela os liberta como presentes, lembretes do que acontecerá se o flagrar tentando infringir os termos do...
— Ele não o está infringindo — grunhiu Lucien. — Agora, saia. Já estamos cheios da sua laia se amontoando nas fronteiras, não precisamos que polua nosso lar também. Falando nisso, fique bem longe da caverna. Não é uma estrada qualquer para escória como você cruzá-la quando quiser.
Tamlin soltou um grunhido em concordância.
A coisa invisível riu de novo, soltando um som muito horrível e cruel.
— Embora você tenha o coração de pedra, Tamlin — falou a coisa, e Tamlin ficou imóvel —, certamente guarda o medo dentro dele.—A voz começou a cantarolar. — Não se preocupe, Grão-Senhor. — A coisa pronunciou o título como uma piada. — Tudo se acertará em breve.
— Queime no inferno — respondeu Lucien por Tamlin, e a coisa riu de novo, antes que um bater de asas encouraçadas ecoasse, um vento fedorento acertasse meu rosto, e tudo ficasse em silêncio.
Eles respiraram profundamente depois de outro minuto. Fechei os olhos, precisando respirar para me acalmar também, porém mãos enormes se prenderam em meus ombros e gritei.
— Ele se foi — disse Tamlin, me soltando. Eu me segurei para não desabar na cerca viva.
— O que você ouviu? — indagou Lucien, vindo pela lateral e cruzando os braços. Virei o olhar para o rosto de Tamlin, mas vi que estava tão pálido de ódio, ódio daquela coisa, que precisei olhar para Lucien de novo.
— Nada, eu... bem, nada que entendi — confessei, e fui sincera. Nada daquilo fazia sentido. Eu não conseguia parar de tremer. Algo a respeito daquela voz tinha arrancado o calor de dentro de mim. — Quem... o que era aquilo?
Tamlin começou a caminhar de um lado para outro, o cascalho se revirando sob suas botas.
— Há alguns feéricos em Prythian que inspiraram as lendas das quais vocês, humanos, têm tanto medo. Alguns, como aquela criatura, são mitos em carne e osso.
Dentro daquela voz sibilante, eu tinha ouvido o grito de vítimas humanas, as súplicas de jovens donzelas cujos peitos tinham sido abertos em altares de sacrifício. Menções a “corte”, aparentemente diferentes da de Tamlin... seria a tal ela quem matara os pais de Tamlin? Uma Grã-Senhora, talvez, em vez de um Senhor. Considerando o quanto os Grão-Feéricos eram implacáveis com as próprias famílias, deviam ser como pesadelos para os inimigos. E, se haveria guerra entre as cortes, se a praga tinha deixado Tamlin já enfraquecido...
— Se o Attor a viu... — disse Lucien, olhando em volta.
— Não viu — falou Tamlin.
 —Tem certeza de que...
Não viu — rugiu Tamlin por cima do ombro, e depois me olhou, o rosto ainda pálido de fúria, os lábios contraídos e unidos. — Vejo você no jantar.
Entendendo a dispensa, e desejando a porta trancada de meu quarto, caminhei, arrastando os pés, de volta para a casa, meditando sobre quem seria a tal ela, que deixava Tamlin e Lucien tão nervosos e que comandava aquela coisa como mensageira.

A brisa de primavera sussurrou que eu não queria saber.

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