1 de fevereiro de 2017

Capítulo Catorze

Bosque a oeste. Jovens arvoredos de bétulas. Galinhas abatidas. Armadilha de corda dupla. Água corrente.
Repeti as instruções de Lucien conforme saí da mansão, passei pelos jardins cultivados, cruzei as selvagens colinas gramadas e levemente inclinadas além deles, cruzei córregos cristalinos, e entrei no bosque primaveril adiante. Ninguém tentara me impedir, ninguém sequer estivera por perto para me ver partir, arco e aljava nas costas, a faca de Lucien na lateral do corpo. Carreguei também uma sacola com uma galinha recém-abatida, cortesia da equipe estarrecida da cozinha, e coloquei uma lâmina a mais na bota.
O terreno parecia tão vazio quanto a própria mansão, embora eu ocasionalmente visse algo brilhando no canto do olho. Sempre que me virava para olhar, o brilho se transformava na luz do sol dançando em um lago próximo, ou apenas no vento farfalhando as folhas de uma solitária figueira no alto de uma colina. Quando passei por um grande lago acomodado ao pé de uma colina alta, podia ter jurado que vi quatro cabeças femininas brilhantes despontando da água reluzente, me observando. Apertei o passo.
Apenas pássaros e o chilrear e o farfalhar de pequenos animais ressoavam conforme entrei na floresta oeste ainda verde. Eu jamais tinha cavalgado por aqueles bosques nas caçadas com Lucien. Não havia trilha ali, ou nada civilizado a respeito do lugar. Carvalhos, olmos e faias se entrecruzavam em um emaranhado espesso, quase estrangulando os feixes de luz do sol que se esgueiravam pela folhagem densa. A terra coberta de musgo abafava qualquer som que eu fizesse.
Velha; aquela floresta era antiga. E viva, de uma forma que eu não conseguia descrever, apenas sentir, bem no fundo dos ossos. Talvez eu fosse a primeira humana em quinhentos anos a caminhar sob aqueles galhos escuros e pesados, a cheirar o frescor das folhas de primavera que escondia a podridão úmida e espessa.
Bétulas — água corrente. Abri caminho pelo bosque, o fôlego bem preso na garganta. A noite era a hora perigosa, lembrei a mim mesma. Só tinha algumas horas até o pôr do sol.
Apesar de o Bogge ter nos perseguido à luz do dia.
O Bogge estava morto, e qualquer que fosse o horror com que Tamlin agora lidasse, morava em outra parte daquelas terras. Nas terras da Corte Primaveril se aquele mural estava certo. Imaginei de que formas Tamlin precisava responder ao Grão-Senhor da Corte Primaveril... ou se fora esse Grão-Senhor que arrancara o olho de Lucien. Talvez fosse a consorte do Grão-Senhor — a ela que Lucien havia mencionado — que lhes causava tanto medo. Afastei o pensamento.
Mantive os passos leves, os olhos e os ouvidos atentos, e a respiração calma. Com falhas ou não, eu ainda podia caçar. E as respostas de que eu precisava valiam a pena.
Encontrei uma depressão com bétulas jovens e esguias, e, então, caminhei em círculos cada vez mais amplos até encontrar o córrego mais próximo. Não era profundo, mas tão largo que eu precisaria correr para atravessá-lo. Lucien dissera que eu encontrasse água corrente, e aquilo era perto o bastante para tornar a fuga possível. Se eu precisasse fugir. Esperava que não precisasse.
Fiz e refiz rotas diferentes até o córrego. E algumas rotas alternativas, caso meu acesso até ele, por algum motivo, fosse bloqueado. Quando estava certa de cada raiz, pedra e toca nos arredores, voltei para a pequena clareira envolta naquelas árvores brancas, e montei a armadilha.
***
Do ponto em que estava, no alto de uma árvore próxima — um carvalho firme e denso, cujas folhas vibrantes me escondiam totalmente de qualquer um abaixo — esperei. E esperei. O sol da tarde subiu, tão quente, até mesmo através da folhagem, que precisei tirar o manto e enrolar as mangas da túnica. Meu estômago roncou, e peguei um pedaço de queijo da sacola. Comer o queijo seria mais silencioso que morder a maçã que eu também havia tirado da cozinha ao sair. Quando terminei, bebi do cantil de água que levara, sedenta devido ao trabalho e ao calor.
Será que Tamlin ou Lucien ficavam cansados de um cotidiano de primavera eterna, ou sequer se aventuravam em outros territórios, pelo menos para experimentar uma estação diferente? Eu não teria me importado com uma primavera infinita e amena enquanto cuidava de minha família — o inverno nos deixava perigosamente próximos da morte todos os anos —, mas, se eu fosse imortal, talvez quisesse um pouco de variedade para passar o tempo. Eu provavelmente desejaria mais que vagar emburrada por uma mansão também. Embora ainda não tivesse reunido coragem para fazer o pedido que surgira em minha mente quando vi o mural.
Eu me movia tanto quanto ousava no galho, apenas para manter o sangue fluindo pelos braços e pernas. Soube que algo se aproximava quando uma onda de silêncio veio em minha direção. Foi como se os sabiás, os esquilos e as mariposas do bosque tivessem prendido o fôlego enquanto algo passava.
Meu arco já estava esticado. Em silêncio, armei uma flecha. Mais e mais perto, o silêncio rastejava.
As árvores pareceram se inclinar para a frente, os galhos entrelaçados se enganchando com mais força, quase uma gaiola viva, impedindo que até mesmo o menor dos pássaros voasse para fora da folhagem.
Talvez aquela tivesse sido uma ideia muito ruim. Talvez Lucien houvesse superestimado minhas habilidades. Ou talvez ele estivesse esperando pela chance de me levar à ruína.
Meus músculos sofriam de ficar imóveis no alto do galho, mas mantive o equilíbrio — e ouvi. Então, escutei: um sussurro, como se um tecido se arrastasse sobre raízes e pedras, uma respiração faminta e chiada vindo da clareira próxima. O som era horrível. Tão antigo quanto as árvores.
Montei as armadilhas com cuidado, fazendo parecer que a galinha fora longe demais e quebrara o próprio pescoço enquanto tentava se libertar de um galho caído. Tomei o cuidado de manter meu cheiro longe do pássaro o máximo possível. Mas aqueles feéricos tinham os sentidos tão aguçados, e, apesar de eu ter apagado meus rastros...
Houve, então, um estalo, um farfalhar e um grito oco e maligno que fizeram meus ossos e músculos e a respiração congelarem.
Outro grito enfurecido cortou a floresta, e minhas armadilhas rangeram ao segurarem, segurarem e segurarem.
Desci da árvore e fui encontrar o Suriel.
***
Lucien, decidi enquanto caminhava devagar até o feérico na ravina de bétulas, tinha definitivamente superestimado minhas habilidades. Ou queria muito mesmo que eu morresse.
Não sabia o que esperar conforme entrava no círculo de árvores brancas — altas e retas como mastros —, mas não seria a figura alta e magra, vestindo uma túnica surrada. As costas curvadas do Suriel estavam voltadas para mim; eu conseguia contar os nódulos de sua coluna despontando pelo tecido fino. Braços cinzentos, magricelas e cobertos de feridas puxavam a armadilha com unhas amareladas e quebradas.
Corra, sussurrou alguma parte primitiva e intrinsecamente humana de mim. Implorou. Corra e corra e não olhe para trás.
Mas mantive a flecha armada. Falei baixinho:
— Você é um Suriel?
O feérico enrijeceu o corpo. E farejou. Uma vez. Duas.
Então, devagar, ele se virou para mim, o véu escuro que pendia de sua cabeça careca oscilou em uma brisa fantasma.
Tinha um rosto que parecia ter sido feito de desgastado osso seco, a pele fora esquecida ou descartada, uma boca sem lábios e dentes longos demais, presos em gengivas escuras, fendas finas no lugar de narinas e olhos... olhos que não passavam de fossos rodopiantes de um branco leitoso — o branco da morte, o branco da doença, o branco de cadáveres já decompostos, ossos limpos.
Despontando da gola puída da túnica escura havia um conjunto de veias e ossos, secos e sólidos e tão horríveis quanto a textura do rosto dele. O feérico soltou a corda, e os dedos muito longos estalaram enquanto ele me avaliava.
— Humana — disse o feérico, a voz ao mesmo tempo única e múltipla, velha e jovem, linda e grotesca. Meu estômago se revirou. — Montou essa armadilha inteligente e maliciosa para mim?
— Você é um Suriel? — perguntei de novo, as palavras mal passavam de um fôlego irregular.
— Sou, de fato. — Clique, clique, clique soaram os dedos dele estalando, um para cada palavra.
— Então, a armadilha era para você. — Consegui dizer. Corra, corra, corra.
O feérico permaneceu sentado, os pés descalços e retorcidos presos em minhas cordas.
— Não vejo uma mulher humana há uma era. Chegue mais perto para eu poder olhar minha caçadora.
Não fiz tal coisa.
O feérico soltou uma gargalhada rouca e terrível.
— E qual de meus confrades entregou meus segredos a você?
— Nenhum deles. Minha mãe me contou histórias.
— Mentiras... Posso sentir o cheiro das mentiras em seu hálito. — O feérico fungou de novo, os dedos estalando. Ele inclinou a cabeça para o lado, num movimento aleatório e ágil, o véu escuro seguindo. — O que uma fêmea humana iria querer com um Suriel?
— Diga você — respondi baixinho.
A criatura soltou outra risada baixa.
— Um teste? Um teste tolo e inútil, pois, se ousou me capturar, então deve querer conhecimento desesperadamente. — Não respondi, e o feérico sorriu com aquela boca sem lábios, os dentes cinzentos terrivelmente grandes. — Faça suas perguntas, humana, e depois me liberte.
Engoli em seco.
— Existe... mesmo uma forma de eu voltar para casa?
— Não, a não ser que queira ser morta, e que sua família também o seja. Deve permanecer aqui.
Qualquer último fio de esperança ao qual me segurava, qualquer que fosse o otimismo tolo... se partiu e morreu. Aquilo não mudava nada. Antes de minha briga com Tamlin naquela manhã, eu nem mesmo pensara naquilo, de qualquer forma. Talvez só tivesse ido até o Suriel por ressentimento. Então... tudo bem... ali estava eu, encarando a morte certa, poderia muito bem aprender alguma coisa.
— O que sabe sobre Tamlin?
— Mais específica, humana. Seja mais específica. Pois sei muitas coisas sobre o Grão-Senhor da Corte Primaveril.
A terra girou sob meus pés.
— Tamlin é... Tamlin é um Grão-Senhor?
Clique, clique, clique.
— Você não sabia. Interessante.
Tamlin não era apenas o mesquinho mestre feérico da mansão, mas... um Grão-Senhor de um dos sete territórios. Um Grão-Senhor de Prythian.
— Também não sabia que esta é a Corte Primaveril, pequena humana?
— Sim... sim, isso eu sabia.
O Suriel se acomodou no chão.
— Primaveril, Estival, Outonal, Invernal, Crepuscular, Diurna e Noturna — ponderou a criatura, como se eu sequer tivesse respondido. — As sete Cortes de Prythian, cada uma governada por um Grão-Senhor, todas letais de seu próprio jeito. Não são apenas poderosas, são poder.
Por isso Tamlin conseguiu enfrentar o Bogge e sobreviver. Grão-Senhor.
Afastei o medo.
— Todos na Corte Primaveril estão presos com uma máscara, mas você não — falei, com cautela. — Você não é membro da Corte?
— Não sou membro de Corte alguma. Sou mais velho que os Grão-Senhores, mais velho que Prythian, mais velho que os ossos deste mundo.
Lucien tinha definitivamente superestimado minhas habilidades.
— E o que pode ser feito... quanto a essa praga que se alastrou por Prythian, roubando e alterando a magia? De onde ela veio?
— Fique com o Grão-Senhor, humana — aconselhou o Suriel. —É tudo o que pode fazer. Ficará segura. Não interfira; não saia em busca de respostas depois de hoje, ou será devorada pela sombra que paira sobre Prythian. Ele vai protegê-la; então, fique perto dele, e tudo se acertará.
Aquilo não era exatamente uma resposta. Repeti:
— De onde veio a praga?
Aqueles olhos leitosos se semicerraram.
— O Grão-Senhor não sabe que você veio aqui hoje, sabe? Ele não sabe que a sua fêmea humana veio prender um Suriel porque não pode dar a ela as respostas que ele busca. Mas é tarde demais, humana... para o Grão-Senhor, para você, talvez para seu reino também...
Apesar de tudo o que o feérico disse, apesar da ordem para que eu parasse de fazer perguntas e ficasse com Tamlin, foi sua fêmea humana que ecoou em minha mente. Aquilo me fez trincar os dentes.
Mas o Suriel continuou.
— Do outro lado do violento mar oeste, há outro reino feérico chamado Hybern, governado por um rei cruel e poderoso. Sim, um rei — afirmou o Suriel, quando ergui a sobrancelha. — Não um Grão-Senhor; lá, o território não está dividido em cortes. Lá, ele é a própria lei. Humanos não existem mais naquele reino, embora o trono seja feito de ossos humanos.
Aquela ilha grande que eu vira no mapa, aquela que não tinha perdido nenhuma terra para humanos depois do Tratado. E... e um trono de ossos. O queijo que eu tinha comido se tornou chumbo em meu estômago.
— Faz tempo que o rei de Hybern tem se sentido insatisfeito com o Tratado que os outros Grão-Feéricos governantes do mundo firmaram com vocês humanos, há séculos. Ele se ressente por ter sido forçado a assiná-lo, por libertar seus escravos mortais e permanecer confinado à ilha verde e úmida no fim do mundo. Então, há cem anos, ele enviou os comandantes de mais confiança e lealdade, os guerreiros mais mortais, sobreviventes dos antigos exércitos com os quais um dia navegara até o continente para travar guerra tão brutal contra vocês humanos, todos eles tão famintos e cruéis quanto o rei. Como espiões, cortesãos e amantes, eles se infiltraram nas diversas cortes, reinos e impérios de Grão Feéricos pelo mundo durante cinquenta anos, e, quando reuniram informações o suficiente, o rei forjou seu plano. Mas há quase cinco décadas, um dos comandantes o desobedeceu. A Ardilosa. E... — O Suriel enrijeceu o corpo. — Não estamos sozinhos.
Puxei mais a corda do arco, mas mantive a arma apontada para o chão enquanto observava inutilmente as árvores. Mas tudo já estava silencioso na presença do Suriel.
— Humana, deve me libertar e fugir—disse o feérico, com aqueles olhos cheios de morte se arregalando. — Corra para a mansão do Grão-Senhor. Não se esqueça do que contei hoje, fique com o Grão-Senhor e viva para ver tudo se acertar.
— O que é? — Se eu soubesse o que estava a caminho, poderia ter uma chance de...
— Os naga, feéricos feitos de sombra e ódio e podridão. Ouviram meu grito e sentiram seu cheiro. Liberte-me, humana. Eles vão me enjaular se me pegarem aqui. Liberte-me e volte para o lado do Grão-Feérico.
Merda. Merda. Corri para a armadilha, fazendo menção de soltar o arco e pegar a faca.

Mas quatro figuras sombreadas surgiram das bétulas, tão escuras que pareciam feitas de uma noite sem estrelas.

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