9 de janeiro de 2017

Capítulo Um

Paredes brancas. Nada além de paredes brancas rachadas, azulejos lascados e a pintura no teto com grandes manchas cor de ferrugem. Piscando várias vezes, levantei a cabeça e a virei de um lado para o outro, para a frente e para trás. O nó em meu ombro era do tamanho do monte Everest, e já estava lá fazia quase uma semana.
— Sinto muito, querida. Ele não está melhorando.
— Mia, nós estamos aqui para o que você precisar.
— Vamos continuar rezando por um milagre.
— Receio que as chances do seu pai sejam muito pequenas.
— Avise o restante da família.
— Fale com ele. Diga adeus.
Fragmentos de condolências e respostas do médico giravam em minha cabeça como num toca-discos. Eu continuava baixando a agulha e a colocando no lugar para que a canção se repetisse.
Com os olhos muito cansados, encarei o único homem que sempre me amou. Desde a minha primeira respiração, passando pelo momento de me ensinar a jogar beisebol, me fazer estudar, até o dia em que minha mãe foi embora, antes de ele desmoronar. Mesmo quando seu rosto estava vermelho, sua fala arrastada e seus olhos cinzentos injetados, ele me amou, e eu contava com aquele sentimento para seguir em frente. Na maior parte do tempo, deu certo.
Sentada ao lado da cama, apertei sua mão, esperando que o calor que transmiti para sua palma aquecesse o reconhecimento em seu corpo e o estimulasse a lutar. Lutar por suas filhas. Lutar por mim, sua carne e seu sangue. Eu tinha passado a última década e meia lutando por ele e por Maddy, e agora ele precisava ser forte. Estar lá. Se esforçar para voltar para nós. Podíamos não ser muito, apenas duas jovens tentando encontrar o próprio caminho, mas éramos dele, e lá no fundo eu tinha de acreditar que a luta valeria a pena, ou o perderíamos... para sempre.
A enfermeira do turno da manhã entrou. Ela caminhava com passos leves, sem emitir nenhum som enquanto verificava os sinais vitais do pops e marcava algo em seu prontuário, antes de me dar um sorriso pesaroso. Nos últimos dias, isso era tudo o que eu recebia: condolências, cenhos franzidos, pêsames hesitantes. Olhei para Maddy, encolhida em posição fetal no pequeno sofá, dormindo. Assim como eu, ela tinha se recusado a se ausentar por mais tempo que o necessário para tomar banho e trocar de roupa. Se o nosso pai fosse dar o último suspiro, estaríamos lá para testemunhar.
Ainda não tínhamos falado sobre o elefante branco na sala. Aquele tão pesado em meu peito que eu jurava que havia quebrado algumas costelas. Era impossível respirar fundo sabendo que Maddy estava magoada. A informação de que Jackson Cunningham era seu verdadeiro pai foi um golpe que atingiu nossa cabeça com força, nos chocando uma contra a outra. A notícia nos fez pisar em ovos, nos distanciando de uma forma que arrepiou minha pele. Agora eu precisava da Maddy mais do que nunca, e ela parecia estar se afastando, incerta quanto ao espaço que ocupava. Eu odiava aquilo, e odiava ainda mais o fato de nossa mãe ter feito daquela a nossa realidade.
O único benefício daquilo tudo era Maxwell. Ele tinha nos trazido até aqui em seu jatinho particular e telefonava todos os dias. Até nos hospedou por um mês em um hotel pertinho do hospital. Nosso novo irmão pensou em tudo, e se certificou de que soubéssemos que dinheiro não era problema. De repente, tínhamos os melhores médicos — uma equipe que vinha examinar nosso pai de tempos em tempos, analisando minuciosamente seu prontuário. Eles não só procuravam pistas a respeito de seu estado neurológico, para ter certeza de que ele não tivesse morte cerebral, como buscavam saber se ele seria capaz de superar as sequelas físicas da infecção viral, que estava piorando, incluindo não uma, mas duas paradas cardíacas provocadas pelas reações alérgicas ao tratamento.
Alguns dos médicos temiam o pior. Até as novas equipes de especialistas chegarem, o hospital o tinha desenganado. Diziam que não havia mais nada que pudessem fazer e recomendavam desligar os aparelhos que o mantinham vivo.
Desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Eu não poderia fazer isso. Se eu estivesse em circunstância semelhante, será que o pops desistiria de mim, mandando parar as máquinas que me impediam de morrer? O inferno viraria gelo antes que isso acontecesse. Ele ficaria em cima de mim, fazendo massagem cardíaca em meu peito sem parar, se isso me mantivesse viva por um minuto que fosse. Eu precisava dar a mesma chance a ele.
— Bom dia, srta. Saunders — o dr. Delícia disse enquanto pegava o prontuário do pops no pé da cama e o examinava. Por alguns minutos, ele faria anotações, verificaria algumas coisas, viraria as páginas e repetiria o processo.
Fiquei de pé, estiquei os braços acima da cabeça e fiz um pequeno alongamento, tentando aliviar a dor constante no meio da coluna, do tipo que se adquire ao ficar sentada em uma cadeira de plástico durante quase uma semana. Minhas costas protestaram e eu estremeci. O dr. Delícia balançou a cabeça, olhando para mim através de um par de óculos de aro preto. Seu cabelo escuro encaracolado era cortado rente à cabeça e brilhava. Parecia molhado, e, pelo aroma fresco que o acompanhava, ele tinha acabado de sair do banho. Sentir o cheiro bom de sabonete me fez lembrar que eu estava começando a feder. Fazia dois dias que eu não deixava o hospital. Nenhuma quantidade de desodorante poderia mascarar o cheiro que começava a exalar das minhas axilas.
— Bom dia, doutor. Qual é o prognóstico? Melhor? — Tentei não parecer muito esperançosa, porque durante quase sete dias, todos os dias, ele fazia careta e simplesmente balançava a cabeça. Hoje, porém, houve um momento. Um momento em que eu soube, realmente soube, que a nossa sorte estava mudando.
O jovem e eficiente médico se aproximou e colocou a mão em meu ombro. Ele o apertou e eu tentei não gemer com o pouco de alívio da tensão que aquele pequeno gesto provocou. Estava tão dolorida ao toque que, não importava quão breve fosse, parecia uma eternidade.
— De acordo com o prontuário, em algum momento durante a noite os pulmões do seu pai começaram a responder. É uma resposta ligeiramente positiva, indicando que talvez ele possa respirar por conta própria, mas não quero colocar a carroça na frente dos bois.
Não havia palavras para expressar minha gratidão por aquela partícula de esperança. Em vez de dizer algo, eu o abracei, enlaçando sua cintura. Coloquei tudo o que eu tinha naquele abraço, segurando-o como se minha própria vida dependesse daquilo. O médico não pareceu se importar. Na verdade, correspondeu. Passou os braços em volta do meu corpo, me mantendo contra o peito. Ficamos ali, uma mulher destruída e um homem da medicina, um curandeiro. Eu me apoiei nele e pedi a Deus que lhe concedesse a capacidade de salvar meu pai, independentemente de ele merecer ou não. Eu tinha de acreditar que todo mundo merece uma segunda chance. Se o pops sobrevivesse, acho que concordaria comigo. Talvez aquele fosse o chacoalhão de que ele precisava para perceber que a vida realmente vale a pena ser vivida.
O toque de um celular invadiu a euforia do que tinha sido meu único momento positivo em boa parte da semana. Eu me afastei e olhei para os olhos azul-celeste do dr. Delícia.
— Desculpe. É só... — comecei, mas ele me cortou.
— Mia, nunca se desculpe por precisar de um abraço. Eu já percebi que você é uma mulher forte, mas todo mundo precisa de alguém em quem se apoiar. Vamos continuar pedindo por um milagre. Eu volto para verificar o estado dele em algumas horas.
Assenti e me virei para encontrar Maddy com o celular no ouvido.
— Hum, sim. Ela está bem aqui, tia. — Maddy estendeu o telefone enquanto afastava as mechas de cabelo loiro do rosto. Ela parecia se sentir como eu, embora eu estivesse certa de que, se houvesse um espelho por perto, minha imagem seria a de uma morta-viva.
Suspirando profundamente, levei o celular ao ouvido.
— Alô?
— Que raios está acontecendo? Você não atende as minhas ligações, perdeu o avião e não apareceu em Tucson, no Arizona, onde o cliente número nove estava te esperando!
Tentei formular uma resposta, mas não saiu nada. Eu deveria pedir desculpas, dizer algo, mas não conseguia me importar com aquilo.
— Millie...
— Não me venha com “Millie”. Você está com sérios problemas, mocinha. Se você leu as letras miúdas do contrato, sabe que, se não atender o cliente, não apenas perde o pagamento de cem mil dólares como fica devendo a ele cem mil pelo transtorno!
Movendo-me tão rápido quanto minhas pernas cansadas podiam me levar, saí do quarto do pops e segui pelo corredor até a área do jardim. Era cedo, então ainda não havia ninguém ali.
— Você está me dizendo que agora eu devo cem mil dólares para algum ricaço filho da puta? — rugi no telefone.
— Você está gritando comigo? — A voz dela estava cheia de veneno e era letal. — Você se meteu nessa encrenca.
— Eu não tive escolha! O pops está morrendo!
— Então você simplesmente se manda e não me fala nada? Mia, eu teria avisado o cliente com antecedência, e isso poderia ter sido evitado. Agora você está com um débito de duzentos mil dólares. Você não tinha o suficiente na conta para pagar a prestação deste mês para o Blaine.
Ah, não. Meu corpo começou a tremer, e minhas pernas não conseguiam mais me sustentar. Trêmula, caí no banco mais próximo.
— Eu perdi o pagamento... — falei, engasgada, o medo controlando minha língua.
— Sim! Eu tenho ligado várias vezes por dia. Finalmente consegui falar com a Maddy, mas ela também ignorou minhas chamadas até hoje.
— O meu telefone está desligado. Eu fiquei com o pops esta última semana, Millie. Ele ainda está em perigo. Não posso sair daqui. — Passei a mão trêmula pelo cabelo e puxei as raízes. A pontada instantânea de dor trouxe consigo uma clareza que tentei desesperadamente levar à minha mente.
— Eu não posso te ajudar, Mia. O meu dinheiro está investido nos negócios e em um novo empreendimento que comprometeu tudo. Você vai ter que conversar com um dos seus amigos ricos. Talvez um daqueles que pagaram a taxa extra — ela sugeriu. Como se fosse fácil. Sexo e dinheiro. Aquele era o nome do seu jogo.
Pedir duzentos mil dólares a Wes ou Alec? Não mesmo. De jeito nenhum.
— Eu vou pensar em alguma coisa.
— Eu só sei que você precisa dar um jeito nisso rápido. O seu próximo cliente é Drew Hoffman.
O nome quicou em minha mente como a bola na roleta, até parar no número vencedor.
— O médico das estrelas? Aquele que tem um programa diário na TV, linha de vitaminas, roupas de ginástica e DVDs? Você só pode estar brincando.
— Ele mesmo. Parece que ele viu a campanha de moda praia sobre a beleza em todos os tamanhos. Quer que você apareça no programa dele, em um quadro diário que vai se chamar “Vida bela”. Mia, se der certo, você pode acabar conseguindo uma vaga fixa no programa no início do ano que vem. Ele só teria que esperar alguns meses para você começar. Sem pressão. — Ela gargalhou. Uma risada de bruxa como aquelas de filmes B ruins. Se eu estivesse ao lado dela, precisaria me esforçar muito para manter os dedos longe de sua garganta.
Sem pressão. Millie disse isso como se não fosse o acontecimento do século. Pressionei as têmporas com força. Todo o sangue em meu corpo parecia correr para o coração, fazendo com que ele batesse mais forte que o normal. Se eu não estivesse ali com o pops, essa notícia seria incrível. Minhas aparições na imprensa tinham me dado um pequeno empurrão para o mundo da atuação até agora. A mídia tinha descoberto que eu existia, e, quando o clipe de Anton fosse ao ar, no próximo mês, coincidiria perfeitamente. Mas a oportunidade de ter um quadro fixo no programa de TV do dr. Hoffman... Que loucura. Era a grande chance para que eu me encontrasse e seguisse meu caminho.
Droga, eu precisava falar com Wes. Saber sua opinião, ver se ele conhecia o famoso médico pessoalmente e se tinha ouvido falar alguma coisa. Mas, claro, eu não podia fazer isso, porque não tinha notícias dele havia duas semanas. Não sabia onde ele estava ou quando voltaria; só sabia o que Judi havia dito: que ele tinha partido da noite para o dia. Disse que ficaria fora por duas ou três semanas e pediu que ela me avisasse que ele ligaria. Isso era tudo o que ela tinha para me contar. Recebi uma mensagem de voz com muitos chiados. A ligação estava tão ruim que não consegui ouvir muita coisa. Apenas que ele estaria em casa em breve e que me amava. Nada além disso.
Claro, ainda havia toda a questão de descobrir como eu conseguiria duzentos mil dólares ou uma maneira de fazer Blaine me dar mais tempo.
— Espero que o pops se recupere em breve. Não cancele o trabalho de outubro até eu retornar para você. Vou tentar ficar mais acessível, mas está sendo bem difícil agora, Millie. Também tem assuntos familiares sobre os quais eu preciso conversar com você. Uma coisa séria, que tem a ver com a minha mãe.
— Você soube de algo a respeito da Meryl? — Sua voz era tão baixa quanto um sussurro, tanto que tive de pressionar o celular mais forte no ouvido.
Balançando a cabeça para o ridículo da questão, confirmei que não queria entrar nesse assunto. O pops estava ali, lutando pela vida. Nossa mãe, a irmã de Millie, e as más escolhas gritantes que ela tinha feito nas últimas três décadas não seriam o centro das atenções. A última coisa que eu queria era lidar com minha mãe e seus segredos.
— Não, não soube. Mas algumas coisas vieram à tona. Quando o pops melhorar, eu te ligo, tá?
Millie suspirou.
— Ele... hum... vai ficar bem?
Uma risada curta e irritada escapou dos meus lábios.
— Não finja que se importa com o que acontece com o meu pai. Você sempre detestou o pops, se ressentiu por ele não levar a gente para a Califórnia quando a minha mãe foi embora e nos deixou na mão. Ele fez o melhor que pôde.
Seu grunhido soou através da linha.
— O melhor, na verdade, teria sido dar uma vida boa para vocês. Quando a minha irmã estava aí, todo mundo era feliz. Ele não conseguiu manter as coisas em ordem quando ela se foi. — Sua voz era fria e me gelou até os ossos.
A atitude profundamente defensiva contra o pops pesou em meu estômago. Minha tia ou não, ela estava cutucando uma onça e precisava ser colocada em seu lugar.
— Pelo menos ele não foi embora. A sua irmã fez isso. A mulher de quem você sente tanta saudade abandonou as filhas de dez e cinco anos, mas acho que está tudo bem, né? Não era a primeira vez que ela deixava uma família pra trás. Aliás, pelo que a gente sabe, ela pode ter uma porção de filhos por aí. Eu devo ter um monte de irmãos que não conheço.
Millie fungou, e sua voz tremeu.
— A sua mãe nunca esteve bem, boneca. Você sabe disso. No fundo você sabe que ela não foi feita para ter filhos e uma vida doméstica. O espírito dela precisava ser livre, ou ela se sentiria aprisionada dentro da própria vida.
— Você está arrumando desculpas para ela?
— Mia, ela te amava.
Bufei.
— É esse o nome que você dá? Ir embora e deixar as filhas? Amor? Ela não sabia o que é amor. — Agora que tinha Wes, eu tinha certeza disso. Quando você ama muito alguém, se preocupa mais com a felicidade do outro do que com a sua. Você faz sacrifícios que beneficiam a pessoa amada, não a si mesmo. Claro, é preciso dar e receber, mas tudo isso tem a ver com compartilhar a sua vida, fazer parte de uma família. — A minha mãe não sabia o que é amor, Millie — repeti.
— Não diga isso. É só que a Meryl nunca teve uma cabeça totalmente normal. Era assim desde pequena.
Naquele momento, decidi que ela precisava de um choque de realidade a respeito de sua querida irmã.
— Já ouvi o suficiente. Me faça um favor. Por que você não investiga Maxwell Cunningham mais uma vez?
— O seu último cliente? Eu já investiguei. Você sabe disso. — Seu tom era entediado, irritado.
— Faça isso, Millie. Cheque os registros de nascimento dele.
A linha crepitava enquanto eu caminhava para a porta, de volta para dentro do hospital. Eu precisava de uma dose de cafeína.
— Mia, você não está falando coisa com coisa. Registros de nascimento?
— Sim.
— E o que você espera que eu encontre?
Eu ri. Ronquei como um porco, gargalhei feito uma hiena, balançando todo o meu corpo. Vários médicos que passavam pelo corredor olharam para mim como se eu tivesse adquirido asas e anunciado que era uma fada. Eu não me importava. O delírio não era algo incomum nos nossos tempos, e imaginei que aqueles caras lidavam com doenças mentais o suficiente para ignorar aquela cena.
— Você vai descobrir que o nome da mãe de Maxwell Cunningham é Meryl Colgrove. O nome do pai é Jackson Cunningham.
— O quê? Isso deve ser algum tipo de piada. Não pode ser. Alguém está mentindo para você. — O pavor e o choque em sua voz eram genuínos. Pelo menos ela não estava sabendo da depravação da irmã.
— A Meryl foi embora e abandonou o filho quando ele tinha um ano. Três anos mais tarde, ela se casou com o pops, e um ano depois disso eu nasci.
Eu não estava pensando em repassar a árvore genealógica da merda da família, mas ela me fez chegar ao limite ao defender uma mulher que não merecia isso.
— Não é possível. Eu saberia... — ela disse, em um suspiro.
Assim que entrei na cafeteria, me arrastei até a máquina de café, coloquei cinquenta e cinco centavos nela e um copo de papel na saída. O café era horrível, mas ajudava a me manter acordada. Bem, por cerca de uma hora, então eu precisava caminhar novamente até a máquina feito um zumbi. Era uma das rotinas que eu repetia várias vezes ao dia. Respirei fundo e encostei a testa na cafeteira enquanto ela zumbia, começando a funcionar e derramando o café. O zumbido aliviava minha cabeça dolorida.
— Pode acreditar. E fica pior.
— Mia, não... — Ela chorou, fungou e soluçou na linha. Francamente, naquele momento, eu não me importava. Eu tinha passado por mais merdas nas últimas semanas do que qualquer pessoa normal deveria passar. Ela precisava saber a verdade.
— Maxwell Cunningham. Ele não é apenas nosso meio-irmão; ele é irmão biológico da Maddy por parte de mãe e de pai. Você sabe o que isso significa, Millie? Hum? — Minha voz se ergueu, a raiva e a derrota controlando cada palavra. — Significa que a sua irmã traiu o meu pai. Ela teve um caso com Jackson Cunningham dez anos depois que tiveram o primeiro filho e engravidou da Maddy. Aquela cadela desgraçada fingiu que a Maddy era filha do pops e nunca se preocupou em contar a verdade. É esse tipo de mulher que a sua irmã é. Agora lide com isso. Eu com certeza precisei lidar.
Desliguei o telefone, peguei o copo e bebi tudo de uma vez. O café estava quente o suficiente para queimar a língua, apagando qualquer sabor em seu rastro. Não que eu me importasse. A dor me daria alguma coisa para focar além do apuro absoluto em que meu pai estava.
Tirando uma nota de um dólar do bolso, coloquei-a na máquina e acrescentei dez centavos, posicionando meu copo, agora vazio, e outro para Maddy. Novamente, pressionei a testa contra o zumbido, que durou mais tempo desta vez. Por um minuto, sucumbi à escuridão.
— Jesus Cristo. Meu anjo, venha aqui — ouvi o som mais doce, depois da voz do meu Wes, antes de me virar e ser transportada para os braços maciços do homem que eu agora sabia ser meu irmão.
— Max. — Eu me apoiei em seu peito, agarrei suas costas e deixei as lágrimas caírem. Elas vieram rápidas e furiosas, como uma chuva torrencial, encharcando sua camisa preta, mas ele só me abraçou com mais força. Pela primeira vez desde que recebi aquela ligação, me senti segura. Protegida. — Obrigada. Obrigada por ter vindo — eu disse, entre soluços.
Como se fosse possível, ele me abraçou ainda mais forte. Mais calor cercava meu interior gelado.
— Não tem nenhum lugar no mundo onde eu preferiria estar a não ser aqui, apoiando minhas irmãs em um momento difícil. Conte comigo, meu anjo.
E por um longo, longo tempo, foi o que fiz.
Quando um soluço passou pelo meu peito e chegou à boca, ele se manteve forte. Quando meus joelhos enfraqueceram e eu perdi a capacidade de ficar de pé, ele me levantou. Quando pedi e implorei que meu pai sobrevivesse e apelei para Deus, ele sussurrou as palavras comigo.

Eu nunca tivera alguém em quem me apoiar, uma pessoa que largasse tudo para estar comigo quando eu precisasse. E bem ali, presa em seus braços aconchegantes, ele deixou uma marca em minha alma. Eu tinha um irmão e, agora que havia descoberto isso, não queria mais saber como seria a vida sem ele.

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