8 de janeiro de 2017

Capítulo Três

Cheguei ao aeroporto com torcicolo e o coração pesado. Deixar Wes para encontrar meu novo cliente em Dallas não foi bom. Ele queria que eu ficasse, pegasse o dinheiro que continuava me oferecendo e achasse que estava tudo bem. Teimoso. Ele não aceitava que eu precisava fazer aquilo. Que precisava pagar sozinha a dívida com Blaine, tanto para salvar meu pai como para me salvar. Eu queria terminar algo que tivesse começado; queria vencer. Precisava saber que, de uma vez por todas, eu era dona do meu destino. Que cada decisão que eu tomasse de agora em diante seria por minha conta. Só minha.
Era a minha jornada, e eu pretendia terminá-la. Eu queria que ela custasse a minha relação com Wes? Não. Nem em um milhão de anos. No entanto, ele precisava acalmar seus impulsos e entender que nem tudo tinha a ver com a forma como ele via as coisas. Não era tão simples entregar meio milhão de dólares a uma pessoa e achar que todos os problemas do mundo seriam resolvidos. Nossa relação era muito recente. Estávamos nos conhecendo. Em meio a essa novidade, de alguma forma ele bateu o pé e me fez mudar para sua casa. Pior ainda: eu deixei.
Sem nenhuma discussão real, embalei as coisas do meu minúsculo apartamento de Los Angeles, coloquei as caixas em um dos cinco carros que ficavam estacionados na garagem dele e guardei meus objetos — que ainda seriam desempacotados — no meu antigo quarto. Na verdade, todas as minhas porcarias poderiam desaparecer. Apenas os itens guardados em uma caixa de sessenta por sessenta centímetros realmente importavam para mim. Sem querer desperdiçar o pouco tempo que tínhamos um com o outro, não perguntei nada sobre deixar minha marca em sua casa com as minhas coisas, como qualquer mulher faria. Talvez eu precisasse de um tempo para perceber que, tecnicamente, havia acabado de me mudar para a casa de Weston, mas planejava continuar com o trabalho de acompanhante pelo resto do ano. Não era exatamente algo sobre a sua nova namorada que você gostaria de contar para seus amigos e parentes.
Meus pensamentos estavam uma confusão só. Saí do aeroporto distraída e com uma sensação de vazio, perdida em divagações. Enquanto eu caminhava pela calçada, resmungando comigo mesma, uma mão quente segurou meu braço e me fez parar. Olhei para cima até que a borda de um chapéu de caubói bloqueou o sol e minha vista se ajustou. Olhos verde-claros surgiram. Tão claros que pareciam uma ametista verde, uma cor muito semelhante à dos meus olhos. Aliás, de perto era exatamente como a cor dos meus olhos. Estranho. Um sorriso complementava a mandíbula com a barba por fazer. Dentes brancos brilharam quando ele disse alguma coisa, mas eu não ouvi, perdida demais em pensamentos. Mechas de cabelo loiro podiam ser vistas na parte de trás de seu pescoço, provando que o que quer que estivesse debaixo do chapéu era rebelde, provavelmente encaracolado e precisava ser cortado.
— Mia? Você é a Mia, certo? — o homem perguntou, mas o tom de sua voz acertou meu coração e o apertou. Não com desejo, mas com um leve indício de algo mais. Meus sentidos se encheram de familiaridade, como se fosse um sonho perdido que eu lembrasse ao acordar, mas fosse incapaz de encaixar as peças adequadamente. — Meu anjo, você está bem? — Outra mão grande segurou meu braço. Olhei para aquelas mãos enormes, de unhas limpas e bem cortadas, como se tivessem sido feitas recentemente.
Dei um passo atrás, mas ele segurou meus braços com mais força.
— Eu estou... hum, bem. Desculpe. — Pisquei várias vezes, tentando clarear a mente. — Nós já nos conhecemos?
Seu sorriso se alargou.
— Não, mas acho que durante este mês vamos nos conhecer muito bem. Sou Maxwell Cunningham. Pode me chamar de Max. — Ele estendeu a mão. Os calos tocaram minha palma, arranhando bruscamente a carne macia.
Ele vestia uma camisa polo amarela, esticada sobre o peito amplo e musculoso, se é que os contornos através do tecido eram alguma indicação. Parecia que as mangas, ao redor dos bíceps protuberantes, se rasgariam a qualquer momento com o tamanho dos músculos. Com a polo — que, aliás, ficava muito bem em seu corpo —, ele usava jeans escuro e um cinto largo de couro com fivela de prata de pelo menos sete centímetros de largura por cinco de altura, com uma estrela dourada no meio. Os pés estavam em um par de botas de caubói empoeiradas na cor ferrugem, combinando com o cinto. Na minha opinião, ele tinha feito um esforço para combiná-los. Enquanto eu observava seu traje, ele examinou o meu. Aqueles olhos verdes, tão parecidos com os meus, analisaram meu vestido de verão simples e minhas sandálias. Meu cabelo estava com cachos soltos fluindo por todos os lados.
— Você é muito linda — ele sussurrou, a voz soando corajosa, como se tivesse dito as palavras sem querer. Seus olhos pareciam assombrados, magoados de um jeito que me fez querer abraçá-lo. Não sei por que eu sentia aquilo, especialmente depois do que Aaron havia feito comigo quando estive em Washington.
Olhei ao redor, para as pessoas que passavam, e segurei o vestido apenas para ter algo nas mãos. O ar entre nós estava desconfortável, denso e cheio de coisas não ditas. Quando um homem diz que uma mulher é linda e olha para ela como se quase pudesse ver suas entranhas, uma resposta é praticamente obrigatória.
— Hum... obrigada.
Seus olhos se arregalaram.
— Ah, hum, desculpe. Eu não quis dizer desse jeito. É que você é bonita, muito bonita mesmo. Apesar de ter visto suas fotos, eu não estava preparado para a coisa real, ao vivo e a cores. Minha nossa, isso também não saiu certo. — Ele esfregou a nuca e olhou para os pés. Uma carranca estragou seus lábios cheios.
— Senhor, aquela caminhonete é sua? — Um segurança do aeroporto, que usava um colete fluorescente, interrompeu nossa conversa estranha e apontou para um Ford F-150 prata.
— Sim. Algum problema?
O homem assentiu.
— Se o senhor não começar a se mexer, vamos ter. Seu carro está bloqueando a passagem. — Ele apontou mais uma vez para a caminhonete.
— Ah, droga. Desculpe. Mia, por aqui. — Ele pegou minha mala, abriu a porta de trás da caminhonete cabine dupla e a jogou lá dentro. Então abriu a porta do passageiro e estendeu a mão. Olhei para ela como se estivesse mergulhada em ácido. — Mia, meu anjo, eu nunca te faria mal. Estou um pouco atrapalhado, mas, se você for comigo para o rancho, nós vamos te acomodar e a Cyndi vai fazer tudo ficar melhor. — Ele deu um sorrisinho e manteve o braço esticado.
Quando coloquei a mão na sua, tive novamente aquela sensação estranha, e algo me trouxe uma antiga lembrança. Era uma coisa que estava logo ali, como quando você não consegue lembrar o nome de uma música, mas está na ponta da língua.
Entrei na cabine e me sentei.
— Quem é Cyndi?
Ele abriu um sorriso enorme, que era irritantemente familiar. Eu tinha certeza de que já conhecia aquele homem. Tinha que conhecer. Maxwell se sentou atrás do volante, deu partida, verificou o retrovisor e saiu.
— A Cyndi é a minha esposa.
***
Depois de duas horas na caminhonete, finalmente seguimos pelo caminho de cascalho. A casa amarela de dois andares da fazenda, com janelas azuis brilhantes, ficava lá no final. Uma cerca de madeira branca ladeava a parte da frente da casa, onde uma criança pequena brincava com bonecas em cima de um cobertor no sol de fim de verão. Uma mulher de vestido longo estava encostada em uma coluna de madeira branca ao lado das escadas que levavam à varanda ao redor da casa. O vestido tinha uma variedade de azuis e verdes, me fazendo lembrar das águas tropicais que eu havia visto em Miami. Uma de suas mãos pálidas se moveu, pousando sobre a barriga grande e arredondada. Ela parecia estar prestes a explodir. Seu ventre era do tamanho de uma bola de basquete debaixo do vestido. O cabelo castanho-claro balançava com a brisa suave, preso por um elástico ou uma fita. Ela e sua evidente fertilidade pareciam sublimes naquele cenário.
Quando o carro parou, ela acenou para Max, e ele sorriu de volta. Aquele mesmo sorriso gigante que abrira algumas horas antes, quando mencionara a esposa, estava novamente colado em seu rosto. Desde então, eu soube que o nome dela era Cyndi e que eles tinham uma filha chamada Isabel e um menino a caminho. Ele estava em êxtase com o fato de poder passar a um filho homem o sobrenome Cunningham.
Descobri que ele era filho único, criado por Jackson Cunningham, que tinha falecido recentemente, deixando para ele cinquenta e um por cento das ações da empresa. Os outros quarenta e nove por cento deveriam ir para sua irmã. Uma irmã que ele nunca conheceu. Aquela que ele havia dito que tinha o mesmo nome e a mesma data de nascimento que eu. Os detalhes do que Max queria que eu fizesse ainda eram nebulosos, mas ele disse que durante o mês as coisas se tornariam mais claras.
Quanto a mim, estava animada com o fato de ele ser casado e feliz, pelo que isso representava. Eu não tinha nenhuma pretensão de ter um relacionamento amoroso. Com a minha relação tão recente com Wes, eu sentia que era uma dádiva de Deus representar o papel de uma irmã desaparecida havia muito tempo. Não haveria toques, aproximações fingidas ou beijos de qualquer tipo.
Seria uma boa notícia para o meu surfista que fazia filmes. Uma pontada de dor atingia meu coração quando eu pensava em Wes. Fazia menos de um dia, e a distância entre nós parecia ainda mais aguda do que eu imaginava que seria. Nos últimos seis meses, eu havia sido capaz de estar em lugares diferentes durante semanas a fio sem sentir nada. Em maio eu não troquei uma mensagem sequer com ele. Nós dois ficamos muito afastados após a discussão a respeito de Gina. Apertei os dentes ao pensar na queridinha mais sexy de Hollywood e na maneira como ela colocou as garras no meu homem. Antes que eu percebesse, Maxwell abriu a porta e me ajudou a descer.
— Amor, venha conhecer a Mia. Bell, venha conhecer a amiga do papai — ele gritou para a menina. Sua esposa deu alguns passos, uma mão segurando o corrimão e a outra, a barriga inchada. No momento em que ela se aproximou, ele colocou uma das mãos sobre sua barriga e a outra ao redor do pescoço. Baixou o rosto e a olhou nos olhos. — Como está, meu amor? Tudo bem? — Ela abriu um sorriso lindo, e suas bochechas ficaram coradas quando assentiu. — E o nosso rapazinho? — Acariciou a barriga da esposa.
— Está perfeito, Max. Estamos muito bem, eu juro. — Ela se inclinou e o beijou suavemente antes de se afastar. Seus olhos azuis brilhantes, da cor de safiras, se concentraram em minha aparência. Ela estendeu a mão. — Cyndi Cunningham. Bem-vinda à nossa casa.
Apertei sua pequena mão.
— Mia Saunders. Fico feliz por estar aqui. — A menina estava se escondendo atrás das pernas da mãe, com um braço enrolado em seu joelho. — E quem é essa coisinha linda escondida aí? — Apontei para a criança.
Maxwell inspirou, e seu peito pareceu inchar ainda mais.
— Essa é a minha filha, Isabel. Bell, querida, venha conhecer a amiga do papai.
A menininha espiou por trás da perna da mãe. Os olhos verde-claros e o cabelo dourado emolduravam o rosto em forma de coração, parecido com o do pai. Lábios de querubim apareceram quando ela saiu do esconderijo. Olhei em seus olhos e cabelos, e aquela sensação de familiaridade despertou novamente. Eu devia ter encontrado essa família antes, mas não sabia dizer quando.
— Oi, eu sou a Mia. — Acenei com os dedos enquanto Isabel puxava o vestido da mãe e o balançava de um lado para o outro, os pés chutando a poeira ao redor. Seu vestido era coberto de arco-íris, adequado para uma criança da sua idade, que descobri ser quatro anos durante a viagem de carro com Max. — Gostei do seu vestido.
Seus olhos verdes ficaram mais escuros.
— Eu amo arco-íris. São tão lindos.
— Eu concordo. Você já viu um arco-íris de verdade? — Eu me ajoelhei para olhar a menina nos olhos. Ela assentiu com a exuberância que somente alguém da idade dela faria. — Eu também. Você sabe o que dizem sobre o arco-íris, né?
Seus doces olhinhos se arregalaram, e ela balançou a cabeça.
— Bom, tem uma lenda irlandesa que diz que no final do arco-íris fica um pote de ouro. E que esse pote é protegido por um duende! Um carinha feliz que usa um terno verde e um chapéu alto!
Ela riu.
— Talvez a gente encontre um enquanto você está aqui — disse, com a voz cheia de esperança.
— Parece uma aventura e tanto. No próximo arco-íris que aparecer, nós vamos procurar. Você e eu. Tudo bem?
Isabel pegou minha mão. Cyndi e Max olharam para nós duas de mãos dadas. A surpresa era nítida em seu olhar, mas eles não disseram nada.
— Eu vou te mostrar a nossa casa. Você gosta de panqueca? Ah! E os Ursinhos Carinhosos? Qual deles é o seu favorito?
Quando uma criança arrasta você, há pouco a fazer além de segui-la. E foi o que eu fiz.
— Hum, eu amo o Ursinho da Sorte, aquele que tem o trevo na barriga. E acho panquecas muito gostosas. Especialmente quando a gente coloca calda de chocolate em cima.
Isabel parou de andar, se virou, cruzou os braços e bateu o pé minúsculo, calçado com sandálias.
— Por que a gente nunca coloca calda de chocolate na nossa panqueca? — perguntou aos pais, claramente pensando que aquela questão merecia toda a atenção de quem estivesse ao alcance de sua voz.
Cyndi e Max riram.
— Nós vamos fazer do jeito da Mia amanhã de manhã, Bebel — Cyndi respondeu, acariciando os cabelos da filha. — Você ia mostrar o quarto da Mia para ela, lembra?
Isabel se virou na ponta dos pés e riu enquanto subia as escadas.
— Vem, Mia! — gritou.
— Ela sempre tem tanta energia assim? — perguntei aos pais enquanto subia as escadas atrás da menina.
— Sim! — eles responderam juntos, e todos nós rimos.
— Vai ser um mês divertido. Já deu pra perceber — falei e me virei para ver se eles estavam me seguindo.
Max esfregou o pescoço e olhou para a esposa. Ela desviou o olhar, sem fazer contato visual com qualquer um de nós.
— Estamos felizes por você estar aqui, Mia — foi tudo o que ele disse, mas a maneira como falou foi estranha, significativa e me deixou ansiosa. Tive a sensação de que, mais cedo ou mais tarde, eu pensaria exatamente o contrário.
***
Sentei em meu quarto naquela noite, peguei o telefone e liguei para Wes.
— Oi, linda. Já vai dormir? — ele perguntou, sem rodeios.
Sorri e me aconcheguei ainda mais no edredom.
— Sim. E você?
Ele bocejou.
— Ainda não.
— Mas você parece cansado.
Wes fez um simples “ãhã”, e o som atravessou diretamente meu corpo, suavizando e umedecendo, como sempre acontecia. Traidor.
— Estou sim. Foi um dia longo. Mas estou com saudade. Menos de uma semana e eu já me acostumei a ter você na minha cama.
Rindo, brinquei com uma linha que encontrei pendurada na costura do cobertor.
— Você só está com saudade de transar comigo.
— Verdade. Ter você nua na cama comigo definitivamente tem esse efeito colateral. Não é nada gostoso dormir sozinho. Acho que essa vai ser a parte mais difícil, além do seu jeito de fungar quando vira e esfrega o nariz e a boca no meu braço, babando.
— Eu não babo!
Ele riu muito, e isso me fez sentir uma pontada de tristeza, sabendo que levaria mais três semanas para vê-lo de novo. Isso se ele estivesse na cidade e não em uma locação das filmagens.
— Não, você não baba, mas se aconchega em mim. Por mais que eu achasse que fosse odiar isso, eu adoro.
— Eu te amo — reforcei.
Ele suspirou.
— Eu sei. — O som de sua respiração ecoou na linha enquanto eu imaginava que estava lá, deitada contra seu peito nu, ouvindo aquele som enquanto sua respiração batia como uma brisa no meu cabelo. Virando, esfreguei ainda mais o rosto no cobertor, curtindo o cheiro suave do sabão de lavanda. — Me fale do seu cliente. Já descobriu por que ele precisa que você finja ser irmã dele?
— Na verdade, não. No caminho do aeroporto até aqui, ele me contou que o pai morreu recentemente e deixou para ele cinquenta e um por cento da empresa, e o resto ficou para uma irmã que ele não conhece, nem sabia que tinha.
— Que estranho — Wes comentou.
— Não é? Enfim, de acordo com algumas provas manuscritas que o pai colocou no testamento, parece que a irmã tinha o meu nome e a mesma data de nascimento. O que também é esquisito, apesar de Mia ser um nome comum. Ele encontrou duas na mesma faixa etária que eu. E Saunders também é comum. Porém, de acordo com o Max, que é o meu cliente, o nome estava escrito a mão de uma forma que pode ser um “o” em vez de “a”, o que aumenta o número de homônimos. Ele disse que foi um verdadeiro golpe de sorte ter me encontrado e eu estar disponível para contratação. Seja lá o que isso signifique.
— Hum, é bem estranho que vocês tenham o mesmo nome e a mesma data de nascimento, e que ele tenha te encontrado. Aliás, como foi que ele te encontrou?
Eu não havia pensado nisso, mas era uma excelente pergunta.
— Não sei. Mas vou descobrir.
— O que mais você sabe sobre esse cara?
Eu podia dizer, pelo seu tom de voz, que Wes faria uma investigação. Secretamente, aquilo me emocionava e irritava em medidas iguais. Millie já tinha pesquisado sobre Max e dito que ele era inofensivo. Ultrarrico, mas nada com que me preocupar. Certamente nada que precisasse ser investigado por Wes.
— Wes... — comecei, com um aviso, para que ele soubesse como eu me sentia. — Sério, esse cara é tranquilo. Ele tem trinta anos, é um caubói, mora em um rancho normal, sem aquelas coisas extravagantes que a gente imagina que um milionário teria. A esposa dele, Cyndi, é linda e está grávida do segundo filho, e ele está louco de felicidade. A filha deles, Isabel, tem quatro anos e é uma menininha muito fofa. Eles são normais.
— E por que uma família normal contrataria uma acompanhante? Linda, é estranho. Eu entendi a coisa do nome, mas ainda assim ele poderia ter contratado qualquer pessoa para fingir ser a irmã, se são os interesses da empresa que estão em jogo. Por que você? Por que alguém que tem exatamente o mesmo nome e a mesma data de nascimento?
— Pode ser uma ortografia diferente — eu tentei, mas sabia que tinha falhado quando Wes gemeu de um jeito que significava que ele estava puxando o cabelo. — Não puxe o cabelo! — disparei.
Ele riu.
— Como você...
— Quando você está frustrado, eu sei que você faz isso. Eu amo o seu cabelo e quero continuar a vê-lo pelo resto da vida, ou pelo menos por mais trinta anos, então pare de arrancá-lo! Você vai ficar careca antes do tempo.
Gargalhadas podiam ser ouvidas através da linha. Ele ofegou e riu quando respondeu:
— Tá bom, tá bom. Mas você viu o cabelo do meu pai, e ele está bem servido nesse aspecto, apesar da idade, então acho que você não tem nada com que se preocupar.
Imaginar Wes trinta anos mais velho me deixou quente e mole por dentro.
— Não se preocupe comigo, tá?
— Impossível. Até você estar em casa, dormindo na minha cama e ao meu lado, eu vou me preocupar. Ah, onde foi que você disse que a fazenda fica?
Desta vez eu ri. Esse meu namorado só tinha uma preocupação. Passei o endereço e pude ouvir o estalido de um teclado.
— Não brinca — ele sussurrou.
— O quê? — Me sentei, repentinamente preocupada.
— A fazenda dele fica ao lado da de um amigo meu. Bom, a esposa é minha amiga, e ela mora lá durante metade do ano. Eu fui ao casamento deles nesse rancho.
— Quem?
— Aspen Bright-Reynolds. — Eu já tinha ouvido o nome, mas não me lembrava do rosto. — Bem, tecnicamente ela é Aspen Jensen agora. Casada com Hank Jensen, dono da fazenda literalmente ao lado da do Cunningham. Nossa, eu conheci o Maxwell — ele disse, com uma pontada de surpresa. — Você devia se encontrar com a Aspen, se ela estiver na cidade. Vou ligar pra ela.
O fato de o meu homem mencionar uma mulher com tanta familiaridade fez o ciúme aflorar.
— De onde você conhece ela?
— Ela trabalha na indústria do cinema. É dona da AIR Bright Enterprises. Você acha que eu sou rico? Pois ela está no topo da lista das mulheres mais ricas do mundo do cinema, e é bem jovem. Talvez esteja com trinta anos agora, e acabou de ter uma filha. Eu sei que eles visitam a casa da fazenda sempre que podem, pois o Hank faz o gênero caubói. Ele precisa de espaços abertos e tudo o mais. Vou entrar em contato com ela. Posso marcar alguma coisa, se você quiser.
— Hum, talvez. Não sei. Você não vai estar aqui pra nos apresentar. Pode ser estranho.
— Bem, de qualquer forma, vou procurar mais informações sobre os Cunningham.
— Baby, sério. A Millie já fez isso...
Ele me cortou:
— Minha namorada, minha preocupação. Isso vai me deixar mais tranquilo. Se você está passando um tempo longe da nossa vida e da nossa casa, eu preciso ter certeza de que vai estar segura. Além disso, essa coisa toda me parece suspeita. Admita pelo menos isso, Mia.
Honestamente, eu perdi quase tudo o que ele falou depois da parte minha namorada, minha preocupação. Ter um homem cuidando de mim, se preocupando em investigar para quem eu estava trabalhando, era um novo nível de amor. Um amor que eu certamente nunca tinha experimentado. O simples pensamento me fez querer pegar um avião, ir para sua casa em Malibu e pular em seu pau. Infelizmente eu não faria nada disso, então respondi vagamente:
— Ãhã, acho que sim. Faça o que precisa para conseguir dormir à noite, Wes. Só não se preocupe comigo. Hoje eu vou dormir com as galinhas.
— Dormir com as galinhas? Eles já estão transformando a minha garota em uma caipira?
Nós rimos.
— Te amo.
— Sonhe com o paraíso. — Sua voz era um estrondo gutural do qual eu senti tanta falta naquele momento que segurei o telefone com mais força.
— Você quer dizer sonhar que estou com você? — Esperei até ouvi-lo suspirar. — Te ligo amanhã.

— Te amo. Se cuida.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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