10 de janeiro de 2017

Capítulo Três

O vapor preenchia o banheiro quando entrei debaixo da água. Wes tinha um daqueles pulverizadores que imitam chuva muito acima do boxe, cobrindo o espaço em correntes reconfortantes de água morna. Havia dois outros bocais fixos nas laterais para atingir com força máxima costas doloridas e peito. Tendo o surfe como seu passatempo principal, eu tinha certeza de que a necessidade de ter o peito e as costas massageados era grande. Aquilo afastava a tensão depois de um longo período de atividades na água gelada do Pacífico.
Wes entrou no banheiro, tirou a calça do pijama e abriu a porta de vidro. Deixei meu olhar vagar descaradamente por todo seu corpo nu. Ele tinha removido o curativo. A linha do corte começava na jugular e dava a volta até a nuca, marcada com vários pontos minúsculos.
Eu me aproximei o máximo que pude, sua ereção grossa cutucando meu ventre quando me movi para perto, querendo ver o ferimento da bala. Timidamente, levantei a mão até o pescoço dele. Seu corpo inteiro enrijeceu, mas ele me permitiu examinar a ferida.
— Como você sobreviveu a isso? — perguntei, sabendo que a maioria das pessoas que levam um tiro no pescoço sangra até morrer.
— A Gina — ele disse, como se isso respondesse à pergunta.
Fiz uma careta, percebendo que não havia sequer perguntado se ela estava viva.
— Ela fez isso?
Ele assentiu. Seu corpo passou de rígido para duro feito pedra com a pergunta.
— Tecnicamente, sim. — Foi tudo o que ele disse, e eu não pedi que explicasse. Wes estava de volta e contaria o que aconteceu quando estivesse pronto. Eu não sabia muito sobre essas coisas, mas sabia que pressionar alguém para reviver de imediato uma situação ruim pode ser prejudicial. Eu não queria afastar Wes. Em vez disso, eu o manteria bem perto e o envolveria com o meu amor. Do mesmo jeito que ele havia feito comigo quando contei o que tinha acontecido com Aaron. Eu pressionaria por informações mais tarde.
— Que bom, baby.
Ele engoliu em seco e colocou as mãos na minha cintura, me puxando contra seu peito liso.
— Quando eles atiraram em mim, ela agiu rápido. Cobriu o buraco e fez pressão suficiente para impedir que eu perdesse muito sangue até a equipe me atender. Fui o primeiro a sair.
Tracei a ferida com o dedo.
— Dói?
— Sim. Toda vez que eu me mexo ou engulo — ele admitiu. Querendo afastar seu pensamento da dor e voltar para o nosso momento de celebração, me inclinei e beijei ao redor dos pontos, me movendo de encontro ao seu peito.
— Que tal eu fazer você se sentir melhor?
Wes sorriu, seus olhos brilhando com luxúria. Ele umedeceu os lábios, e eu os observei com desejo, mas havia outra parte dele que exigia atenção.
Beijando seu peito, deslizei a língua pelo seu abdome e desci até o umbigo, antes de me ajoelhar no piso frio e molhado. Wes pegou uma toalha ao lado do boxe e a deixou cair no chão. A água molhou o tecido bege, escurecendo-o. Fiz uma careta e ele apontou para minhas pernas.
— Para os seus joelhos. Não quero que você se machuque.
Sorri, coloquei a toalha dobrada embaixo dos joelhos e agarrei seus quadris. Inclinei-me para a frente, deslizando a língua por todo o seu baixo-ventre. Ele se apoiou entre a cerâmica e o vidro, em lados opostos. Ávida, envolvi a mão em torno de sua ereção e segurei firme. Seu eixo tensionou na direção do meu rosto, a cabeça do seu pau a poucos centímetros dos meus lábios. Sem tirar os olhos dele, lambi a pequena fenda na ponta.
— Porra! — Ele fechou os olhos e gemeu.
— Abra os olhos, Wes. — As palavras saíram apressadas e doloridas.
Uma de suas mãos se entrelaçou em meu cabelo.
— Mia, linda, eu estou aqui, esperando a minha mulher colocar esses lábios rosados no meu pau e me fazer esquecer de tudo, menos do paraíso que é a sua boca.
Quando Wes falava de forma selvagem durante o sexo e usava aquele tom de comando, eu perdia a cabeça. Ondas de eletricidade formigaram na ponta dos meus dedos, descendo pelo meu corpo, seguindo até o clitóris, que doía e latejava.
Antes que ele pudesse dizer outra coisa, coloquei seu pau grosso na boca, até a garganta, de uma vez só.
— Puta merda. Que delícia — ele grunhiu enquanto eu estreitava as bochechas e usava a língua para estimular a parte de baixo de seu membro.
Eu adorava o fato de ele gostar de falar durante o sexo. Levar o meu homem ao êxtase várias vezes me fazia sentir uma rainha. Passando a língua pelas laterais, brinquei com ele. Uma série de palavrões e suspiros saiu de seus lábios enquanto eu lhe dava prazer. Descendo mais a mão, acariciei as bolas, engolindo-o profundamente. Ele continuou segurando meu cabelo com força, o que era uma sensação nova. Não era algo que ele tivesse feito antes. Era quase como se ele estivesse com medo de que eu me afastasse. Ou então ele queria o controle. Algo me incomodou no fundo da mente enquanto ele metia de leve em minha boca.
Quando olhei para cima, não gostei do que vi. Seus olhos estavam abertos, mas não estavam em mim. Olhavam fixamente para a parede. Eu me afastei e ele apertou a mão no meu cabelo, tentando me forçar a voltar para o seu pau. Eu não tinha certeza se sua mente estava em qualquer lugar nos arredores da mansão, nas colinas de Malibu, ou naquele chuveiro comigo. Balançando a cabeça, recuei com força, deixando seu pau bater no abdome.
— Baby, volta pra mim — falei com o som da água caindo ao nosso redor. Ele não respondeu. — Wes! — chamei mais alto.
Ele pareceu acordar.
— O que foi? — Piscou algumas vezes e acariciou meu rosto com toques delicados, usando apenas a ponta dos dedos. Assim era melhor. Parecia mais com o homem que eu havia escolhido para compartilhar minha vida.
— Mantenha os olhos em mim. Eu quero que você me veja te amar.
Ele sorriu, e foi a coisa mais linda que eu vi no que parecia uma eternidade. Aquele sorriso me lembrava de longos passeios na praia, surfar, jantar comida gourmet, fazer amor e beijar até que nossos lábios ficassem inchados. Era o meu namorado, vivo e inteiro, totalmente comigo naquele momento.
Fechando a boca mais uma vez ao redor dele, redobrei meus esforços. Levei sua extensão até a garganta e mantive os olhos nos dele, sem nunca afastar o olhar. A ponta dos dedos dele tocou meu rosto enquanto inspirava, ofegante, gemendo e me incentivando.
— Nossa, Mia, sua beleza me quebra ao meio. Eu não sou inteiro sem você — ele falou, enquanto eu chupava seu pau. Podia sentir seu corpo tremer onde eu o segurava, nos quadris. — Você vai me fazer gozar. Se afaste que eu vou te comer contra a parede do chuveiro — ele ordenou, mas eu não ouvi. Em vez disso, continuei o que estava fazendo. Eu ia virar seu mundo de cabeça para baixo.
Chupando com força, mantive os movimentos, deixando os dentes roçarem ao longo de seu membro sensível. Seus quadris fizeram uma leve pressão. Uma mão descansou na parede de azulejo, e a outra segurou meu rosto. Com a ponta do polegar, Wes traçou meus lábios, esticados em seu comprimento.
— Você vai engolir, baby? — Ele continuou seus pequenos movimentos quando o encorajei, mantendo o ritmo.
Assenti ao redor do seu eixo, levei-o até a garganta e gemi. Eu sabia que ele estava perto, que as vibrações e o aperto da minha garganta o levariam ao ponto sem volta.
— Porra. Porra. Porra. — Seus olhos nunca deixaram os meus enquanto ele bombeava o sêmen quente na minha garganta. Engoli cada jato, sugando sua essência salgada.
Quando seus quadris desaceleraram para um ritmo suave, permaneci ali, deixando a língua deslizar por todo o seu comprimento amolecido, lambendo e beijando, até que ele finalmente parou. Ele enganchou as mãos fortes debaixo dos meus braços e me levantou. Wes me abraçou, puxando meu corpo nu contra o seu conforme seus lábios vinham de encontro aos meus. Tomou o controle do beijo, sem pressa.
Nós nos beijamos no chuveiro até a água ficar morna e seu pau estar duro novamente. Minha excitação lambuzou seus dedos grossos quando ele enfiou dois deles profundamente e gemeu ao perceber a facilidade com que meu corpo o deixava entrar. Eu estava encharcada entre as coxas, e não só pelo banho. Não, o ato de engoli-lo, de ficar ajoelhada para ele, submissa ao seu prazer, me deixou incrivelmente excitada. Eu adorava fazer um bom boquete — mais que isso, adorava ter aquela pequena fração de poder sobre um homem tão forte.
— Vamos. Tem umas partes do seu corpo com que eu preciso me familiarizar de novo. — Ele me tirou do chuveiro e me envolveu em uma toalha macia.
— É mesmo?
— É. Agora vá para a cama e abra bem as coxas. Eu quero enterrar o rosto entre as suas pernas. Preciso ver você se desfazendo pra mim enquanto eu te faço gozar. Se prepare, Mia, porque uma vez não vai ser suficiente. — Seu olhar traçou minhas curvas quando deixei cair a toalha, deitei na cama e abri as pernas. Os olhos de Wes escureceram tanto que parecia não haver nenhum tom de verde.
Quando a toalha ao redor dos quadris do meu homem caiu, tentei não salivar. Apenas engoli em seco e o desejei novamente em minha boca. Talvez ele quisesse fazer um meia nove, permitindo que nos perdêssemos um no outro.
Um dos joelhos de Wes se apoiou na cama, depois o outro, enquanto ele se acomodava entre minhas pernas abertas. Seus dedos abriram os lábios do meu sexo, então ele se inclinou e me lambeu de baixo a cima.
— Humm. Sabe o que eu vou fazer com você hoje, baby? — Sua voz estava cheia de desejo.
Respirei profundamente e esperei. Seu polegar girava ao redor do meu clitóris, e eu pressionei o corpo em busca de mais.
— Vou brincar com a sua boceta molhada até você desmaiar. Depois vou meter nela e dormir com o meu pau dentro de você, com a cabeça bem perto para lamber os seus seios. Tudo bem pra você, linda?
— Me fode — sussurrei. Suas palavras pintaram um quadro extremamente sensual em minha mente.
— Esse é o plano — ele disse e me deu um tapa na bunda antes de mergulhar em mim.
***
Gritos de gelar o sangue atravessaram a serenidade do melhor sonho da minha vida. Wes e eu estávamos em uma ilha tropical, só nós dois, nos banqueteando um no outro dia e noite. Era sexy, selvagem e parecia uma lua de mel. Até que os sons vindos do homem deitado ao meu lado me fizeram voar da terra feliz para me estatelar diretamente no centro do inferno.
O corpo de Wes estava contorcido entre os cobertores, a cabeça virando para a frente e para trás. Seu corpo se arqueava para fora do colchão enquanto ele continuava a gritar. O suor umedecia sua pele, e eu tentei tocá-lo. No momento em que coloquei um braço em cima dele, ele me empurrou.
— Não encosta em mim, porra! Fique longe dela! — gritou com toda a força.
Que merda era aquela? Pulei da cama, acendi as luzes, mas ele não parou de se debater. O pesadelo o tinha envolvido com suas garras firmes. Eu havia lido em algum lugar que você não deve tocar em uma pessoa que está se debatendo durante o sono, porque ela pode te machucar. Sem saber o que fazer, peguei um copo de água que estava ao meu lado, fiz uma oração ao cara lá de cima e despejei o conteúdo sobre o meu homem.
Seus olhos se abriram e ele se sentou, balançando os braços. Uma mão estava fechada, pronta para atacar. Sim, eu estava feliz por ter lido a matéria sobre terror noturno, ou eu poderia estar jogada no chão com um olho roxo.
— Mia! Mia! — ele gritou, olhando em volta, com os olhos inexpressivos e sem foco. Seu tom era desesperado. Cheguei perto o suficiente para que ele pudesse me ver. — Ah, graças a Deus você está bem.
Ele agarrou meus quadris, me jogou na cama e estava em cima de mim em dois segundos. Os lençóis e o edredom foram jogados para fora da cama enquanto Wes beijava, mordiscava e lambia meu pescoço, ombros e ia em direção ao meu peito. Ele não parou para tirar minha camisola, só empurrou as alças para baixo e libertou meus seios. Sua boca tomou um deles, ao mesmo tempo em que a mão escorregou até minha calcinha e dois dedos afundaram em meu calor. Era um encaixe perfeito. Meu sexo estava inchado das aventuras anteriores, mas isso não o impediu. Ele estava perdido dentro de sua mente, e eu era o caminho de volta.
Rapidamente ele empurrou minha calcinha para baixo, e menos de um minuto a partir do momento em que o acordei eu estava presa ao colchão, com sua ereção fincada em mim. Ele parecia uma máquina, me penetrando sem parar, sem delicadeza alguma. Seu único objetivo parecia ser a necessidade de apagar o que estava em seu subconsciente.
— Te amo, te amo, te amo — ele murmurava enquanto me comia. — Não vá embora.
Eu o segurei com mais força, sua pélvis se esfregando em meu clitóris enquanto ondas de excitação me atingiam dolorosamente, no ritmo da punição. Eu era escrava do corpo daquele homem, e ele, o meu mestre.
Os olhos de Wes se fecharam com força, os lábios presos entre os dentes enquanto ele me fodia sem pensar. Mãos firmes seguravam meus quadris, esmagando nossos corpos um no outro. Enquanto ele entrava e saía de dentro de mim, começou a falar rapidamente, fazendo pedidos sem sentido, de partir o coração, como se eu não estivesse ali para ouvi-los.
— Quero você. — Estocada. — Preciso de você. — Estocada. — Fique. — Estocada. — Não vá. — Estocada. — Eu te amo. — Estocada. — Minha Mia. — Estocada.
Passando os braços e as pernas em volta de seu corpo, eu o segurei o mais firme que pude. Minha vontade era proteger o homem que eu amava.
Seus quadris pararam de se mover com tanta rapidez e firmeza quando ele abriu os olhos.
— Mia, você está aqui. Minha Mia. — As palavras eram reverentes, como se, no caso de ele piscar, eu fosse desaparecer.
— Wes, baby, eu estou aqui, bem aqui. — Eu me agarrei ao seu corpo, querendo que ele sentisse o calor da minha pele e a força dos meus membros à sua volta.
Pequenas linhas apareceram ao redor de seus olhos vidrados.
— Faça isso acabar. Você precisa fazer isso acabar. — Seu tom era desesperado, e eu teria feito qualquer coisa para dar o que ele precisava, preenchendo o espaço com amor, luz e tudo o que nós dois éramos.
— Pegue o que você precisa de mim — sussurrei e beijei seu cabelo, a testa e qualquer parte que eu pudesse alcançar, até que os impulsos de seu corpo no meu me impediram de fazer qualquer coisa que não fosse abraçá-lo.
Wes colocou os dois braços ao redor dos meus ombros, debaixo de mim. O apoio que isso lhe proporcionou o levou à loucura. Ele intensificou o ritmo e me balançou em sua ereção macia e dura como aço com tanta força que meus dentes batiam. Não havia nada que eu pudesse fazer, exceto me segurar. Caramba, aquilo era selvagem. Perto do fim, quando aquela fina camada de sanidade estava prestes a se quebrar, ele enfiou a mão entre nossos corpos e circulou meu clitóris até que eu encontrasse prazer. Aquela pequena partícula de decência — a necessidade de Wes de me satisfazer — me fez lembrar de que o homem que eu amava era, no momento, uma alma perdida, e com a minha ajuda ele sairia da escuridão e voltaria para a luz.
***
Nos dias seguintes, o padrão foi o mesmo. Wes fazia amor comigo à luz do dia, quando se parecia mais consigo mesmo, e me fodia cruamente à noite, tirando do meu corpo o que ele precisava para afastar os pesadelos que encontrava no caminho de volta para casa.
Exausta depois de transarmos intensamente na quarta noite dele em casa, eu me virei, encontrando seu peito. A ansiedade e o medo que o haviam controlado no momento em que o acordei do pesadelo, até o sexo rápido, finalmente se esvaíram quando ele gozou dentro de mim. Durante muito tempo depois, ele me adorou com beijos suaves e sussurros de arrependimento e amor. Arrependimento por me usar por motivos egoístas, e amor porque ele sabia que eu faria o que fosse necessário para livrá-lo do mal que vivia em suas memórias. As palavras quebradas que ele sussurrava durante o ato revelavam que ele tinha passado por uma provação terrível. Ele precisava de mais ajuda do que uma pausa temporária no corpo da mulher que amava. Aquele monstro rastejando em sua cabeça precisava ser eliminado, da mesma forma que eu tinha eliminado o meu depois de ser atacada por Aaron.
Decidi que era hora de falar sobre o elefante na sala. Pelo menos o suficiente para que ele pudesse dar os primeiros passos a caminho da cura.
— Baby, você precisa se consultar com alguém por causa desses pesadelos e da sua resposta a eles. — Abaixei o queixo e o beijei acima do coração.
Ele enrijeceu em meus braços.
— Você está brava porque eu estou usando o seu corpo? Eu não tive a intenção. Porra, Mia, eu não sei... — Ele passou a mão pelo cabelo. — Você é a única coisa que faz essas coisas pararem.
— Wes, tudo bem. Eu amo ser o que você precisa para se curar. Mas o que é que eu estou fazendo parar? — Foi a primeira vez que perguntei sobre isso desde que ele voltara para casa.
Seus olhos encararam os meus.
— As lembranças. Elas aparecem quando eu durmo, e eu não consigo afastá-las.
— Até que a sua mente e o seu corpo encontrem outra coisa em que se concentrar? — Sorri e balancei as sobrancelhas, tentando aliviar a intensidade do rumo que aquela conversa estava tomando.
Ele me olhou, sem jeito.
— Sim, exatamente. — Wes suspirou e passou a mão para cima e para baixo em minhas costas nuas. Depois que usava meu corpo, ele precisava se reconectar com suas emoções. Passava um longo tempo me acariciando. Acho que era o seu jeito de ter certeza de que eu estava bem.
— Você poderia me contar sobre uma delas? — Prendi a respiração e tentei demostrar que era forte. Forte o suficiente para ouvir o que ele tinha a dizer.
Wes negou, e sua mandíbula se retesou.
— Linda, você não quer ficar com essa merda na cabeça.
— Eu te contei sobre o Aaron. — Ele estava prestes a abrir a boca, contestar a semelhança da situação, mas segui em frente. — Eu sei que não é a mesma coisa, mas foi traumático para mim. Aquilo me machucou, assim como isso está prejudicando você, lindo. Se nós vamos ser um casal, parceiros em todas as coisas, temos que ser capazes de tirar a dor um do outro, aliviar o peso dos nossos ombros. Duas pessoas juntas fazem tudo ficar mais leve. Comece aos poucos. Me conta o que aconteceu quando você levou o tiro.
Wes fechou os olhos e engoliu. Não os abriu novamente por tanto tempo que pensei que houvesse dormido ou estivesse tentando. Mas então ele falou:
— Eles nos mantiveram acorrentados à parede, com os braços acima da cabeça, amarrados com cordas. Eu nunca fiquei tão tenso quanto naquele momento em que eu não tinha mobilidade. Eles passavam muito tempo nos chutando, jogando coisas em cima da gente, cuspindo na nossa cara. Basicamente, o pior que você pode pensar deve ter acontecido. Naquele dia, eu sabia que alguma coisa estava acontecendo. Os homens não estavam mais contando piadas e brincando com seus brinquedinhos, ou seja, a gente. Eles estavam instáveis e falando com agressividade. Era como se estivessem com medo. Talvez soubessem o que estava por vir. E aí, de repente, ouvimos tiros e o som de helicópteros. Eu não sabia o que pensar.
Ele inspirou e eu tirei uma mecha rebelde de cabelo da sua testa. Ele não falou por alguns momentos, e eu me perguntei se ele continuaria.
— O que aconteceu depois? — Eu não queria pressionar, mas sabia que ele precisava tirar aquilo do peito.
Com uma expressão sombria, ele abriu os olhos.
— Dois dos terroristas ficaram de joelhos e rezaram. Como qualquer homem faz quando está com medo. Eles rezaram. Logo depois, quando o tiroteio piorou, eu ouvi passos e vozes falando inglês. Um dos homens ergueu a arma e atirou na própria cabeça. O outro me olhou com nojo, virou a arma e disparou de qualquer jeito. A Gina gritou. Os braços dela se abaixaram e caíram. Uma das balas pegou na perna dela, mas outra atingiu logo acima das mãos, arrebentando a corda e a deixando livre.
A respiração de Wes começou a ficar mais ofegante, então eu me inclinei e beijei seu peito, pescoço, testa e nariz.
— Tudo bem, baby. Eu estou bem aqui. Continua. Me conta o resto.
Ele segurou minha nuca. Não me puxou para beijá-lo, só me segurou e olhou nos meus olhos.
— O homem chegou perto de mim e gritou alguma coisa. Apontou a arma para a minha cabeça. Quando disparou, a porta da cabana explodiu. Ela foi literalmente destruída em uma nuvem de fumaça. Outra arma disparou quando o homem estava olhando para a porta, e eu vi o corpo dele cair com um buraco de bala no meio dos olhos.
Eu o abracei com mais força. Seus tremores ondulavam em meu corpo enquanto eu ouvia cada palavra.
— A Gina rolou, pegou um pano sujo que estava caído perto da gente e o apertou na ferida no meu pescoço, enquanto uma equipe de soldados americanos invadia o lugar. Eles falaram umas coisas em um walkie-talkie ou algo assim. Eu não sei direito. A última coisa que lembro é de estar sendo carregado por um deles, correndo para um helicóptero. Nunca vou esquecer o barulho. Era ensurdecedor. Explosões, gritos, tiros, choro. — Ele passou a mão no rosto. — Mia, eu escrevo filmes que têm efeitos especiais, mas isso não tem nada a ver com a coisa real. Nada se compara ao medo que você sente num cativeiro assim. Mesmo quando eu estava sendo resgatado pelos militares, eu ainda achava que ia morrer. Que ninguém pode viver depois daquilo que aconteceu. E a Gina... meu Deus! — As lágrimas encheram seus olhos e caíram pelo rosto em uma cascata. — Ah, baby, as merdas que fizeram com ela — ele soluçou. — Ela vai ficar traumatizada pelo resto da vida.
As lágrimas de Wes encharcaram minha pele enquanto eu o abraçava. Agora ele estava sentado e havia nos posicionado de modo que fiquei em seu colo, com as pernas ao redor de seus quadris. Ele estava me usando como um cobertor. Mantive os braços em volta do corpo dele, mesmo quando as lágrimas desciam pelo meu ombro e ao longo da minha coluna. O tempo todo eu dizia como ele era corajoso, que agora estava tudo bem e que nós dois iríamos superar aquilo, mas ele não parava de chorar. Wes estava a poucos passos de um colapso, mas eu estava lá e o ajudaria a juntar os pedaços, uma peça de cada vez.

Ele caiu em um sono inquieto, me segurando junto ao seu corpo, sem afrouxar o aperto. Eu era sua salvação e, no fim das contas, isso me deixava bem.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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