12 de janeiro de 2017

Capítulo Sete

Havíamos terminado o café da manhã, e Wes e Cyndi estavam arrumando a cozinha. Matt foi entreter Isabel, que já o estava chamando de tio, o que, segundo Maddy, ele adorava. Matt era filho único e parecia estar gostando de ter sobrinhos, o que o fazia ganhar pontos comigo. Ele valorizava a família. No entanto, era bom que não cismasse de engravidar minha irmã tão cedo.
Max, Maddy e eu nos sentamos em frente à lareira. Maddy dobrou as pernas compridas embaixo do corpo, enquanto eu cruzei as minhas. Max estava todo sério: joelhos paralelos, cotovelos sobre eles e as mãos cruzadas na frente do corpo.
— Tudo bem, meninas. Precisamos decidir como vamos lidar com a nossa mãe. Chega de protelar. Então, Mia. Conte pra gente o que aconteceu na galeria.
Contei o máximo da história que consegui lembrar, incluindo o tapa que dei, coisa de que certamente não me orgulhava, e sua tentativa patética de dizer que não sabia que Maddy era filha biológica de Jackson. Contei que ela alegou não se lembrar de nada, incluindo as vezes em que me levou ao cassino para manter o caso com o pai de Max. Contei que ela havia dito que sua intenção era nos manter seguros e que eu não conhecia toda a história, como se ela soubesse de algo que pudesse tornar aceitável o que fez conosco. Não nesta vida.
Max levou a mão aos lábios.
— Eu quero vê-la de novo. Dizer o que penso. E acredito que seria bom todos nós irmos juntos. Ouvir o que ela tem a dizer e fazê-la nos ouvir também. O que vocês acham?
Não consegui esconder a carranca que apareceu em meu rosto.
— Você acha que ela realmente vai se importar?
Max deu de ombros.
— Não sei, mas não faz diferença. Isso não tem a ver só com ela. Tem a ver conosco, com o que nós três passamos. Nós temos o direito de dizer na cara dela como ela nos prejudicou. Maddy?
Ela estendeu a mão para mim e eu entrelacei nossos dedos, lhe dando apoio. Cumplicidade entre irmãs. Sempre tivemos isso. Agora que tínhamos um irmão, precisávamos abrir ainda mais essa porta e deixar Max entrar de vez. Não éramos mais apenas ela e eu. Havia também Max, sua família, Wes, Matt... Todos eles tinham interesse nessa reunião, porque ela afetava quem eles mais amavam. Ou seja, nós.
Maddy soltou um suspiro profundo.
— Eu estou assustada. Não sei nem o que dizer para alguém de quem eu não
lembro. — Sua voz era quase um sussurro.
— É justo — Max assentiu. — Mia, você acha que disse tudo o que precisava?
— Não sei — ironizei.
— Bem, o que vocês acham do seguinte? Vocês vêm comigo para me dar apoio enquanto eu falo tudo o que preciso pra nossa mãe. — Ele disse isso como uma afirmação, mas definitivamente havia uma ponta de estresse.
Max não gostava de pedir ajuda. Em circunstâncias normais, ele provavelmente nunca o faria. Esse pedido me atingiu como um caminhão de duas toneladas.
— Max... — A emoção obstruiu minha garganta.
Ele balançou a cabeça.
— Eu sei que vocês duas foram abandonadas e que ela magoou muito vocês. E fez o mesmo comigo. Nem ficou tempo suficiente para ver o meu primeiro dente nascer. Merda, a mulher virou pó antes mesmo que eu precisasse cortar o cabelo pela primeira vez. Eu gostaria de vê-la. Colocar um rosto na mãe que eu conheço só de nome. E gostaria que as minhas irmãs estivessem lá comigo. Me dando apoio.
Eu me levantei, fui até Max, me sentei ao seu lado e o abracei.
— Desculpa. Eu estava sendo egoísta. Não tem a ver só comigo. Tem a ver com todos nós. Você foi magoado também. E está certo. Nós precisamos ir até lá em grupo. Porque é isso que nós somos agora. Uma família. Certo?
— Certo! — Sua voz estava muito afiada, cortante como vidro.
Maddy engatinhou pelo sofá e se aconchegou ao lado de Max.
— Eu quero estar lá com vocês. Enquanto vocês estiverem comigo, eu vou estar com vocês. Tá bom? — Os olhos dela estavam vidrados e tristes. O fogo crepitava e cintilava nas profundezas verde-claras.
— Está resolvido, então. Vou ligar para o Kent e marcar alguma coisa — eu disse.
Max concordou e nós ficamos sentados em silêncio, perdidos em pensamentos, observando o fogo.
***
Kent Banks estava ansioso para se encontrar conosco. Disse que havia coisas que precisávamos saber antes de ele aprovar uma reunião cara a cara com a nossa mãe. Com esse pedido, acabamos por nos encontrar em uma mesa no Zane’s Tavern. Wes e Matt ficaram no bar, batendo papo com Alex. Perto o suficiente para ficar de olho caso as coisas ficassem tensas, mas longe o suficiente para nos dar a ilusão de privacidade. Eu já tinha estado com Kent antes. Ele parecia estranho, mas inofensivo, embora extremamente protetor com relação à esposa. Tecnicamente, eles nem eram casados. Eu me perguntava se ele sabia disso, já que em todos esses anos ela nunca havia se preocupado em se divorciar do meu pai.
Meu pai. Deixei escapar uma respiração lenta. Outra decepção. Ele estava ignorando minhas ligações desde que eu saíra de Vegas, depois que o acomodamos em sua casa com duas enfermeiras. Elas diziam que ele respondia bem ao tratamento, mas estava muito para baixo. Eu tinha fé de que ele ia ficar forte e sair do ciclo interminável de autodepreciação, mas talvez fosse demais esperar por isso. Nessa fase, eu só precisava rezar para que ele ficasse longe da bebida e continuasse a terapia. Eu tinha feito mais do que devia durante o último ano, definitivamente mais do que ele merecia. Agora era com ele.
Aprendi uma lição muito valiosa com tudo isso. O amor nem sempre é gentil. Pode ser impiedoso, cruel e covarde, mas isso não significa que ele deixa de existir. Eu estava lidando com isso, e Wes estava me ajudando a curar a ferida emocional que se abriu quando a mulher que me deu a vida me abandonou.
Uma lufada de ar frio soprou em meu rosto quando Kent entrou. Ele nos viu imediatamente e se sentou na cadeira da ponta da mesa. Nenhum de nós queria estar perto dele, de modo que Maddy e eu ficamos de um lado e Max fez seu corpo grande ocupar o outro. Se Kent percebeu a tática, não disse nada.
Ele esfregou as mãos para afastar o frio.
— Obrigado por terem vindo.
Max, o macho alfa da mesa e o único que tinha o desejo de ver a nossa mãe, falou primeiro. Estendeu a mão para cumprimentar Kent.
— Eu sou Maxwell Cunningham. Você conheceu a minha irmã, Mia Saunders. Esta é a nossa irmã caçula, Madison Saunders.
Tanto Maddy quanto eu abrimos um sorrisinho, mas não estendemos a mão.
— Tenho certeza que vocês estão ansiosos para que eu vá direto ao ponto. Mas para fazer isso eu preciso começar do início — Kent disse, com a voz baixa e estável.
Max concordou e fez um gesto para que ele continuasse. Maddy e eu ficamos em silêncio.
Kent inspirou lentamente.
— Quando eu conheci a Meryl, ela estava perdida, viajando de carro por aí, totalmente largada. Ela estava imunda, não tomava banho havia dias, talvez semanas. Depois eu descobri que ela só tinha algumas mudas de roupa e poucas outras coisas. Imaginei que ela estivesse fugindo de um homem violento, e na época ela não negou isso. Me deixou presumir o pior.
Bufei e revirei os olhos. Kent olhou para mim, mas continuou.
— Eu a conheci na biblioteca da cidade. Fui lá pegar um livro para uma pesquisa da faculdade. A Meryl estava lá para se aquecer.
A mão de Maddy apertou a minha debaixo da mesa. Ouvir sobre outra pessoa sofrendo da mesma forma que nós havíamos sofrido atingia muito mais a alma suave da minha irmã do que a minha. Só que não havia motivo para isso. Nossa mãe tinha uma casa acolhedora. E optou por abandoná-la. Não haveria nenhuma empatia da minha parte.
— Eu comecei a vê-la regularmente na biblioteca. Depois de uma semana, percebi que ela não tinha trocado de roupa, o cabelo ainda estava sujo e, francamente, ela fedia. Mas havia alguma coisa nos olhos dela. Uma faísca quando ela olhou para mim que me fez muito bem. Um dia eu a chamei para ir para casa comigo e me ofereci para ajudar com qualquer coisa que ela estivesse escondendo. De novo, ela não negou que algo estivesse acontecendo, então eu lhe dei um chuveiro, comida e um teto. Os dias se transformaram em semanas, e eu gostava de ter a Meryl em casa. Ela me ajudou a passar de ano na faculdade, limpava a casa, preparava as refeições e tinha um talento especial para a arte.
— Qual o objetivo disso, sr. Banks? Tudo o que você está dizendo só mostra que ela mentiu pra você do mesmo jeito que mentiu pra gente. Ela não estava desabrigada. Ela estava sem teto por opção. O marido dela, o meu pai, nunca a agrediu. Nunca. Ela o destruiu e vai te destruir também — eu disse, a amargura preenchendo todos os espaços.
Kent balançou a cabeça de forma dramática.
— Não, por favor. Me ouça. Há coisas que você não sabe.
Max se inclinou para a frente, sua resposta tão afiada como a lâmina de uma faca.
— Então vá direto ao ponto.
Kent ergueu as mãos em súplica.
— Eu percebi, depois de alguns meses, que ela começou a fazer coisas estranhas. Coisas irracionais. Eu chegava em casa, o chão da cozinha estava coberto de farinha e ela dançando como uma bailarina ali. Pessoas normais não fazem esse tipo de coisa. Em outra ocasião, ela virou um vidro de xampu no piso de madeira e usou o chão como escorregador.
— Sim, essa era a nossa mãe. Ela fazia essas coisas o tempo todo. Nos dava sorvete no jantar, em vez de comida. No meio do inverno, nos levava para dançar debaixo da tempestade. O pops trabalhava duro naquela época para que ela pudesse ter tudo o que queria, então não presenciava muito essas coisas. Quando ele chegava em casa, muitas vezes ela já tinha ido para o cassino, dançar nos shows. Durante anos, eles foram como dois navios se cruzando durante a noite.
Kent assentiu.
— Então você viu. O comportamento estranho. Mais que estranho, absolutamente maníaco. Como se alguns parafusos dela de repente se soltassem. Ela tinha picos de excitação, e eu me perguntava se estava usando drogas. Em outros momentos, era quase necessário um milagre para tirá-la da cama.
— Isso era o de menos, sr. Banks. — Eu me lembrei das inúmeras vezes, quando eu era criança, em que ela agia feito uma louca em vez da mãe que deveria ter sido. Nada disso importava na época, porque eu a amava.
— O que isso tem a ver com ela agora? — Max interrompeu.
— Tudo. Eu levei muito tempo para convencê-la, mas finalmente consegui que ela fosse examinada. Vocês sabiam que a sua mãe tem um transtorno bipolar severo? — Kent indagou. A mesa estava tão quieta que era possível ouvir nossa respiração.
— Transtorno bipolar. Tipo uma depressão? — perguntou Max.
Kent balançou a cabeça, sério.
— Ela sofre de depressão, sim, mas é mais que isso. Ela tem oscilações de humor. A mudança é tão rápida e profunda que a Meryl precisa de medicação pesada para controlar. Ela está indo muito bem com os remédios. Pode trabalhar normalmente. Nesse processo, nós descobrimos que ela é uma pintora talentosa e é capaz de levar uma vida feliz e tranquila. Aqui em Aspen, comigo. O humor ainda oscila, ela ainda sofre com a depressão e a mania, mas, com a medicação, os ciclos são menos graves e vêm com menos frequência. A medicação está controlando tudo isso.
Kent respirou fundo, parecendo reunir os pensamentos, aparentemente sabendo que o que tinha a dizer a seguir não seria bem recebido.
— Eu não sei o que ela fez antes. A mulher que ela era na época em que eu a conheci jamais teria sido capaz de criar filhos sem medicação. Sua condição era grave, e claramente ela não tinha sido tratada, nem tinha como se tratar sozinha, durante a maior parte da vida. Eu não me surpreendo por saber de algumas coisas que ela fez.
Meus olhos se estreitaram em sua direção.
Mais uma vez, suas mãos se ergueram em um gesto apaziguador.
— Eu não estou dizendo que o que ela fez com vocês foi certo. O que estou dizendo é que, sem tratamento, num estado maníaco, ela pode ter pensado que era perfeitamente natural levar as filhas, no inverno, para dançar na chuva. A mania cria a sua própria lógica, a sua justificativa. E essa justificativa pode fazer total sentido. Durante esses anos, na fase de mania, ela pode ter se sentido completamente certa de suas ações. Mas, quando a fase maníaca terminava e a depressiva começava, ela certamente perceberia que as filhas estavam ou estiveram molhadas, com frio e fome. Na melhor das hipóteses, pensaria que era uma péssima mãe e, na pior, que era um perigo para as próprias filhas. Ela carrega a cruz dos próprios erros todos os dias da vida dela. — Ele balançou a cabeça quando nenhum de nós respondeu.
Particularmente, eu não tinha ideia do que dizer. Tantos pensamentos, sentimentos e emoções nublavam meu julgamento, arranhando minhas vísceras. Eu precisava de tempo para pensar. Tempo para processar.
— Agora, mesmo que aquela conversa a tenha deixado mal, ela ainda quer ver você, Mia. Ela não sabe que vocês todos estão aqui, mas imagino que vá querer vê-los também. Explicar. Pedir desculpas. Mas vocês são adultos agora. Não podem esquecer o que aconteceu no passado, mas talvez consigam entender. Em primeiro lugar e mais importante, ela é a minha esposa. Nós estamos juntos há quase catorze anos...
Eu o interrompi.
— Você sabe que não estão oficialmente casados? Ela nunca se divorciou do meu pai. — Minha voz era baixa, mas tinha um tom mordaz.
Kent assentiu.
— Eu sei que o nosso casamento não tem valor legal, mas essas formalidades não importam muito para mim. Eu protegi essa mulher por muito tempo e vou continuar fazendo isso, até dar o meu último suspiro. Então, se vocês só querem machucá-la, acho melhor que a deixem em paz e cada um siga o seu caminho. — Ele colocou as mãos sobre a mesa, num gesto de encerramento.
Max se levantou, erguendo a mão.
— Me deixe conversar com as minhas irmãs sobre isso. Nós vamos discutir o assunto e entramos em contato mais tarde.
Kent se levantou, apertou a mão de Max e fechou o zíper do casaco.
— Estou ansioso pela resposta de vocês. Eu sei que estão magoados e que o que eu contei hoje é um choque. Foi um choque para mim também, mas às vezes a vida faz isso. O que define o seu caráter é a maneira como você lida com a dor. — Essas foram as últimas palavras de Kent. Depois ele se virou e saiu pela porta sem olhar para trás.
Max se sentou com um suspiro pesado.
— Então, o que vocês acham?
Minhas sobrancelhas se ergueram.
— Wes, baby, uma rodada de tequila, por favor? — pedi em voz alta.
— Pode deixar — ele respondeu, fazendo o nosso pedido.
Maddy deu um sorrisinho.
— Da última vez que você bebeu tequila demais, acabou fazendo uma festinha sexual no quarto ao lado com o samoano tatuado, sem perceber que eu estava lá. — Maddy me lembrou da noite de bebedeira com Tai, no Havaí. Festinha sexual. Só a minha irmã mais nova usaria uma expressão tão inocente para descrever uma noite obscena, safada e pornográfica.
Entrelacei o braço no dela.
— Não repita isso perto do Wes — sussurrei em seu cabelo, que cheirava a cereja e baunilha.
Max sorriu e fechou os olhos.
— Não é a imagem que eu quero na minha mente agora. Valeu por tentarem descontrair o clima, mas o que vocês acham do que esse cara falou sobre a nossa mãe?
Suspirei e abracei Maddy mais apertado, querendo seu apoio e imaginando que ela poderia precisar do meu também.
— Sinceramente, eu não tenho certeza. Faz bastante sentido. Tudo o que ele disse sobre o comportamento estranho dela é verdade. Os altos com a nossa mãe foram tão altos quanto as estrelas no céu, mas os baixos... eram difíceis de lidar e fáceis de acontecer. Nós nunca sabíamos como ela ia se comportar. Geralmente, quando ela não estava no que ele chamou de estado maníaco ou severamente deprimida, estava mudando de emprego, arranjando dívidas, esquecendo coisas tipo pegar a gente na escola ou queimando a comida porque não lembrava que tinha colocado no forno. As situações que eu lembro se encaixam no que ele descreveu.
— Isso muda o que você pensa dela? — Essa era a pergunta de um milhão de dólares.
Dei de ombros.
— Talvez. Acho que um pouco. Isso definitivamente me ajuda a entender por que ela era daquele jeito. Mas não explica por que ela foi embora. Por que não se consultou com um médico sobre aqueles problemas. Por que não procurou ajuda. Quando ela nos abandonou, estava com quase quarenta anos. Como uma doença dessa pode passar despercebida por tanto tempo? Eu me odeio por dizer isso, mas parece muito conveniente.
Maddy escolheu esse momento para falar.
— Talvez ela tenha ido embora justamente por não estar em seu juízo perfeito, Mia. Será que ela acreditava que estava nos salvando? Que sabia que alguma coisa estava errada com ela?
O queixo de Max se apertou.
— Isso não responde por que ela me abandonou quando eu era criança, mas ficou com o seu pai por dez anos.
— Não, não responde. A menos que o seu pai tenha visto alguma coisa que o meu não viu. Que ele tenha pedido para ela conseguir ajuda, e ela acabou fugindo.
— Acho que nós não vamos saber até falar com ela. Eu devo ligar para o Kent e marcar um encontro? Eu gostaria de fazer isso antes do Natal, antes que o resto da família chegue. E quanto à família do Matt? Eles vêm? — Max perguntou para Maddy.
Ela balançou a cabeça.
— Não. Como o Matt está com a gente, eles foram para um cruzeiro que estavam loucos pra fazer. Os dois nunca quiseram deixar o Matt sozinho no Natal, mas dessa vez perguntaram se ele se incomodaria com essa viagem. Eu disse a eles que aproveitassem, que nós passaríamos as festas com vocês, já que é o nosso primeiro Natal juntos. Mas no ano que vem vamos querer passar com eles também. Se estiver tudo bem. — Ela inclinou o queixo e olhou para mim e depois para Max.
Sorri e segurei seu queixo, forçando-a a olhar para mim.
— Ei, a sua família com o Matt é tão importante quanto a do Wes e a da Cyndi, tá? Nós vamos fazer o máximo pra ficar juntos durante os feriados. Tem muito espaço aqui. E, com os planos do Wes e do Max para os dois ranchos, vai ter muito espaço no Texas também.
Os olhos dela se arregalaram.
— Que planos?
Max sorriu e juntou as mãos embaixo do queixo.
— O Wes quer comprar uma das fazendas e o terreno perto da nossa casa.
— Vocês vão se mudar para o Texas? — Maddy começou a se remexer na cadeira, como se tivesse formigas na calça.
Argh. Não. Sim. Mais ou menos. Max, você é terrível! — Apontei um dedo acusador para ele, que apenas sorriu. — O Wes quer ter uma segunda casa. Quer lugar melhor do que a região onde estão o Max e a família dele? E, como você e o Matt estão pensando em se mudar para o Texas daqui a alguns anos, é lá que você vai estar também.
— Meu Deus! Isso. É. Demais! Eu vou ter o meu irmão e a minha irmã no mesmo lugar! — Ela abriu um sorriso tão grande que fez o salão parece mais claro.
Wes veio em nossa direção com uma bandeja de tequila. Não três. Uma bandeja. Cheia. Ele a colocou na mesa, puxou uma cadeira e se sentou. Matt deslizou ao lado de Max.
— Ouvi dizer que estavam precisando de bebidas aqui. Certo? — E sorriu. Eu amava aquele sorriso. Ele traduzia leveza, momentos nus na cama e domingos preguiçosos pela frente. Dias intermináveis amando e sendo amada. Assim seria minha vida quando Wes se tornasse meu marido. Eu não via a hora.
Cada um de nós pegou um copo.
— Ao futuro — eu disse.
— A possibilidades infinitas. — Maddy sorriu.
— À família — Max terminou.
Nós cinco bebemos e comemos toneladas de comida, até que Matt se ofereceu para parar de beber e ser o motorista da vez. O restante de nós manteve o pique, pois todos tínhamos recebido um golpe duro a respeito da nossa mãe. O que havia a fazer senão viver o hoje? E foi o que fizemos. A noite toda.
***
Kent marcou o encontro para dois dias antes do Natal. O clima pesava sobre cada um de nós enquanto Max nos levava por um caminho de cascalho, até uma mansão de madeira muito parecida com o chalé da família de Wes. Não ficava distante. Levamos cinco minutos para chegar à casa de Kent e Meryl Banks — esse era o sobrenome que ela usava agora.
Ele atendeu a porta e nos levou até uma ampla sala de estar. Havia janelas mostrando a vista, mas não uma parede inteira, como no chalé de Wes. Este tinha janelas redondas perfeitas, como se veria num navio, só que muito maiores, com cerca de um metro e meio de circunferência, talvez mais. Um conjunto de portas-balcão ao longe, perto da cozinha moderna, parecia dar acesso ao pátio ao ar livre. A cozinha tinha luminárias azul-royal que pendiam no cômodo todo branco. O único ponto de cor eram as luzes e as cerâmicas nas bancadas de granito. Tudo era ultramoderno, mas ainda assim aconchegante. Toques de tecido rompiam a monotonia do branco por todo o ambiente.
A característica mais impressionante, e o ponto focal da sala, era uma pintura pendurada acima da enorme lareira. Era a imagem realista da paisagem do lado de fora da casa na primavera, quando a vista deveria ser verde, cheia de cor. O artista tinha muito talento e um olho incrível para detalhes.
Na extremidade mais distante do sofá de grandes dimensões estava a nossa mãe. Ela usava uma legging preta e um suéter branco volumoso. O cabelo preto fazia muito contraste com o suéter, brilhando em uma tonalidade quase azul.
— Venham, sentem-se. — Kent fez um gesto para os sofás.
Nós três rodeamos a parte de trás do sofá e nos sentamos juntos, em frente a Meryl. Kent se sentou ao lado da companheira. Ela segurou sua mão e a apertou no momento em que ele se sentou. Eu vi a cor sumir de seus dedos enquanto ela o segurava, como se ele fosse a corda que a ligava a sua própria sanidade. Talvez ele fosse, agora que eu sabia que seu estado mental era tão frágil.
— Mia, obrigada por ter vindo. Maxwell... Madison... — Sua voz falhou e lágrimas escorreram por suas bochechas. — É tão bom ver vocês. Eu nunca pensei que os veria novamente... — Ela parou em um soluço sufocado.
Kent entregou um lenço a ela, que o usou para secar os olhos e o nariz.
— Vocês parecem tão... Meu Deus, vocês são todos lindos — ela disse, num tom cheio de admiração.
Olhei para ver como Maddy estava. Suas bochechas estavam vermelhas e seu nariz escorria. Ela o limpou na manga da blusa. Eu? Não tinha mais lágrimas para chorar. Tinha passado anos chorando por aquela mulher e, mais recentemente, dias. Eu me sentia seca... oca.
— É bom finalmente conhecer a mulher que nos deu à luz — Max falou, abraçando Maddy. — Para a Maddy e para mim, é como se fosse a primeira vez.
Nossa mãe assentiu, com mais lágrimas escorrendo pelo rosto. Limpou a garganta.
— Eu sei que nada que eu diga pode apagar a dor que causei...
Cerrei os dentes, sem querer chamar atenção, porque não se tratava apenas de mim. Ela tinha abandonado nós três.
— Mas estou melhor agora e posso entender o dano que provoquei. Eu sei, Mia, que você está muito zangada comigo. Se eu soubesse que a minha partida seria pior do que a minha permanência, nunca teria ido embora.
— Por que você foi? — Fiz a única pergunta que precisava fazer havia quinze anos.
Ela umedeceu os lábios e se endireitou no sofá.
— Na época eu não estava pensando com lucidez. Eu me via muitas vezes parada na cozinha sem saber o que estava fazendo. Recebia ligações da escola para avisar que eu não tinha ido buscar vocês. Perdia trabalhos sem perceber. Um dia, eu abri os olhos e me vi de pé no meio da estrada, andando descalça em direção ao deserto. Eu estava de camisola. O seu pai trabalhava à noite, e eu estava entre empregos no cassino. Vocês duas estavam sozinhas em casa. Eu não fazia ideia de onde estava.
— Parece terrível — Maddy falou, sempre a primeira a tentar consertar as feridas do mundo e todas as pessoas nele.
Meryl assentiu.
— Foi, sim. E essas perdas de noção de tempo, os lapsos de memória, tudo isso acabava em situações perigosas, e eu não sabia como parar. A gota-d’água foi uma vez em que eu estava tão deprimida que bebi uma garrafa inteira de uísque do seu pai. Eu estava convencida de que ele estava me traindo.
Bufei, sarcástica. Ela olhou para cima, e suas bochechas ficaram vermelhas.
— Eu sei que era eu quem estava traindo o seu pai. Bem, eu não sabia direito. Na maioria das vezes eu ficava confusa a respeito de onde estava e em que momento. Mas, de qualquer maneira... naquela última noite, eu bebi uísque. Coloquei vocês duas no carro e sentei atrás do volante.
O queixo de Max se apertou, e eu quase pude ouvir o ranger de dentes enquanto ela falava.
— De alguma forma, eu dirigi para fora da estrada, para o deserto. Um bom samaritano viu o meu carro sair da estrada, chamou a polícia e me seguiu. Por fim, o carro parou quando eu desmaiei no volante. Os policiais vieram, pegaram vocês duas e me prenderam por dirigir bêbada. O seu pai pagou a fiança, e eu fui acusada de negligência infantil e provavelmente seria presa por um tempo. Só que...
— Você foi embora — terminei, cravando a faca em seu coração.

— Eu não sabia que estava doente. Ninguém sabia.

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Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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