8 de janeiro de 2017

Capítulo Quatro

Maxwell dirigiu os quarenta e cinco minutos necessários para chegarmos à sede da Cunningham Óleo e Gás. O edifício era enorme. Parecia mais uma pequena universidade do que uma sede corporativa. Não sei por quê, eu esperava ver um lugar parecido com um rancho empoeirado, algo que um verdadeiro caubói chamaria de local de trabalho. Para onde quer que eu olhasse, havia pilares brancos elegantes e paredes de vidro. Árvores pontilhavam o caminho até a guarita da portaria.
— Uau, quantas pessoas trabalham aqui?
Max estava concentrado manobrando lentamente a caminhonete pelo pátio, até que estacionou perto das portas da frente, em uma vaga claramente sinalizada: “Maxwell Cunningham, diretor-presidente”, em uma placa branca com fonte em negrito.
— Aqui? Tem cerca de doze mil funcionários neste campus.
— Campus? — Eu ri. — Combina. Parece mesmo uma faculdade.
— Nós estamos fazendo um bom trabalho aqui. Mas a empresa como um todo tem mais de setenta e cinco mil.
— Pessoas? Puta merda. E você é responsável por todas elas?
Suas sobrancelhas se uniram, e ele tirou o chapéu.
— Não é tão glamoroso quanto parece. Ou melhor, eu não permito que seja. Vamos lá, vou te mostrar. Tem muita coisa pra ver.
Saí do carro. Ele parou com a mão na maçaneta.
— Um cavalheiro sempre abre a porta para uma dama — advertiu.
Sua declaração me fez colocar as mãos nos quadris instintivamente, um lado se projetando com atitude.
— Caro irmão — brinquei, tentando demonstrar carinho —, eu não sou sua mulher. Sou sua irmã.
Ele sorriu, mas algo sereno apareceu em suas feições e desapareceu rapidamente.
— É mesmo, meu anjo. Vamos lá. Tem pessoas interessadas em conhecer a minha primeira e única irmã, desaparecida há muito tempo. — Max curvou o cotovelo, eu entrelacei meu braço no dele e ergui os óculos escuros.
— Seu pai construiu tudo isso do zero? — Fiz uma varredura pelo campus, pelo menos até onde eu podia ver do estacionamento.
— Não, não. O negócio foi iniciado há tempos pelo meu avô, um verdadeiro John Wayne do Velho Oeste. E a empresa cresceu através das gerações. Agora — ele estendeu um braço grande, expressando a vastidão da propriedade —, é digna de orgulho mesmo. Quando eu era criança, não via a hora de sair correndo do rancho para trabalhar aqui. Sempre fui o braço-direito do meu pai, mas, agora que ele se foi, estou tomando as rédeas. — Seus lábios se contraíram, e o humor virou melancolia.
Esfreguei seu ombro e braço.
— Sinto muito pelo seu pai. Se ele era parecido com você, deve ter deixado saudade em um monte de gente.
— Sim, acho que você está certa. Mas por que ele manteria em segredo por todos esses anos o fato de eu ter uma irmã está além da minha compreensão.
— A sua mãe deve ter se casado novamente, não é?
Ele bufou e abriu a porta de vidro.
— A minha mãe nunca se casou com o meu pai, e não foi por falta de tentativa. Ele disse que pediu muitas vezes enquanto eles viveram juntos. Chegou até a exigir, quando eu nasci. Mas ela simplesmente desapareceu. Deixou o meu álbum do bebê, algumas fotos dela com o papai... e foi isso. Nunca mais se ouviu falar dela. Pelo menos era o que o meu pai dizia. — Seus ombros tensionaram, e a pele em torno da mandíbula pareceu apertar. Era evidente que a mãe não era seu assunto favorito.
Ele me conduziu, com uma mão na parte inferior das minhas costas, para dentro do elevador. Subimos os cinco andares até o topo. Apesar de a empresa ter muitos funcionários, o edifício não era alto. Acho que, se eles pretendiam manter o charme da região, não iriam querer arranha-céus bloqueando o sol.
— Oi, Diane, como vai? — Max cumprimentou a mulher com jeito de fada sentada à mesa diante de um conjunto de portas duplas. Seu cabelo branco estava preso para trás em um coque elegante. Óculos rosa-pálido repousavam sobre seu nariz. Ela abriu um grande sorriso e estendeu a mão. Max a segurou, se inclinou, a beijou e, em seguida, deu um tapinha no dorso. A mulher tinha idade para ser sua avó, mas eu podia dizer, pela inteligência em seu olhar, que era afiada como uma navalha.
— E quem é essa moça bonita? — Ela olhou para o meu corpo, me avaliando, ou pelo menos analisando minha escolha de vestuário. Seu exame evidente não parecia alarmante ou rude; parecia mais que estava curiosa a meu respeito.
— Minha irmã, Mia. — Ele disse isso com tanto orgulho que atingiu meu coração como um abraço apertado, me fazendo desejar ser sua irmã. Qualquer mulher adoraria ter um irmão carinhoso como ele. Era obviamente um homem de família, e aparentemente um líder forte.
Ela se levantou, provando ser ainda menor do que eu suspeitava. Seus braços se abriram, e o sorriso poderia iluminar qualquer dia maçante. Ela me puxou para um abraço.
— Que bom conhecê-la, Mia. Bem-vinda à família, querida. — Ela segurou minhas bochechas. — Não se sinta como uma estranha, ouviu?
— Hum, tudo bem. Vou tentar...
— Obrigado, Diane. Agora, pode soltar — Max a incentivou enquanto puxava minha mão. Ela me soltou e cruzou os braços, sorrindo alegremente, como se estivesse se abraçando. À medida que nos retirávamos, pude ouvir algumas fungadas e um murmúrio:
— Nunca pensei que veria esse dia.
Max abriu a porta de seu escritório — e que escritório. “Enorme” não o descreve suficientemente bem. A sala ficava em um canto do prédio, com vista para o campus. Centenas de hectares de terra e diferentes edifícios apareciam entre as árvores.
— Nós fazemos o máximo para ter uma postura sustentável, mas sempre tem algum ativista querendo proteger o planeta. Eu entendo, mas isso não muda a nossa necessidade de usar os recursos naturais. — Seu tom era suave, sem condenação. Ele estava só constatando um fato.
— Você tem muitos problemas para dirigir um negócio como este? — perguntei, olhando para a paisagem.
Ele se apoiou na mesa e olhou para a vista ao meu lado.
— Temos nossa cota de problemas. É preciso ter transparência, prestar contas... Às vezes enfrentamos questões relacionadas a minerais de zonas de conflito.
— Como assim? — O começo eu entendi, mas a coisa dos minerais, nem tanto.
— Fontes de recursos como ouro, cobre, estanho, tungstênio e tântalo são muitas vezes essenciais para serem utilizadas na fabricação ou na funcionalidade dos produtos. Temos que lidar com as políticas energéticas e ambientais do nosso governo e do de outros países, no caso das nossas usinas no exterior.
— É uma multinacional?
— Sim. Como eu falei, nós empregamos mais de setenta e cinco mil pessoas. Nem todas nos Estados Unidos. Claro que eu tenho gente comandando cada uma das filiais. Meus primos e alguns executivos que eu contratei. Em todas as filiais tem um Cunningham na cúpula, garantindo a participação da família.
— E os investidores?
— São muitos também, mas eles não são sócios da empresa; só têm interesse nela. Quanto mais nós ganhamos, mais eles ganham. Infelizmente, essa é parte da razão pela qual você está aqui.
Eu me virei e sentei em uma das cadeiras de couro.
— Me explique isso.
Ele suspirou e se sentou na cadeira à minha frente. Uma mesa de vidro com a base feita do que parecia o tronco de uma árvore morta nos separava. A mesa realçava o clima rústico do espaço. Gostei. Combinava com o homem que trabalhava lá.
— Bem, o meu pai deixou quarenta e nove por cento da empresa para a minha irmã.
— Aquela que você não conhece.
Ele desviou o olhar e respondeu:
— É, podemos dizer que sim. Basicamente, ele deixou quase metade da empresa para essa mulher e me deu um ano para encontrá-la. Eu a procurei por meses. — Ele riu. — Isso vai parecer ridículo, e você provavelmente não vai acreditar, mas eu ouvi o seu nome num programa de TV que a minha mulher assiste. Disseram que você estava ligada a um homem que eu conheci há alguns anos. Amigo de uns amigos nossos. Então eu perguntei de você para eles.
— E quem é esse amigo?
— Meu amigo é o Hank Jensen. Ele é nosso vizinho, e a esposa dele...
— É a Aspen, amiga do Weston Channing. Estou chegando perto?
Seu humor mudou novamente, como uma onda quebrando sobre ele. A melancolia que percebi antes o abandonou.
— Sim, exatamente! Eu conheci esse camarada no rancho, no casamento dos dois, há alguns anos. Ele é legal. Homem do cinema. Enfim, eu vi o seu nome no programa e depois confirmei em um tabloide no supermercado. Então eu, hum... mandei investigar a sua vida.
Ali estava. Honesto. Simples. Não havia nada terrível à espreita, esperando para me atacar. Era só um cara procurando a irmã, que, por coincidência, tinha o mesmo nome que eu.
— Imagine a minha surpresa quando eu descobri que você era uma acompanhante. Devo dizer que isso me chocou um pouco. — As palavras saíram em um resmungo, quase com raiva, e não combinavam em nada com ele. — Aliás, por que você é acompanhante?
Levantei a mão.
— Espere um pouco. Não tente mudar de assunto. Você mandou me investigar. O que encontrou, além do fato de eu ser acompanhante?
— Uma coisa ou outra. Eu soube que o seu pai está no hospital. Sei que você trabalhou em vários lugares como garçonete. Em Las Vegas e na Califórnia, onde também trabalhou como atriz. Vi alguns comerciais seus. Você é muito boa.
Ahhh, ele me viu atuando.
— Obrigada. — Sorri e percebi que estávamos mudando de assunto. — E o que mais?
— Que você agora trabalha para a Exquisite Acompanhantes de Luxo e saiu em algumas revistas de fofocas por namorar o Weston Channing. E então, um mês depois, você estava trabalhando para um pintor francês. Depois disso você apareceu ligada aos Fasano, os donos da rede de restaurantes italianos. Eu queria que tivesse um por aqui. Uma vez eu comi em uma das filiais deles e, nossa, é muito bom.
Mais uma vez, ele me fez rir ao pensar no período que passei com Tony, Hector e o clã Fasano.
— É uma família incrível. Eu gosto muito de todos eles. Só isso?
Ele balançou a cabeça.
— Você saiu de novo no jornal como a namorada do jogador do Red Sox. Não sei por que você ficaria com um cara que joga naquela porcaria de time. Devia ter escolhido alguém do Texas Rangers. Aquilo sim é equipe!
— Sério? Você conhece toda a minha história de vida e está preocupado com o time do meu cliente? — Senti minha temperatura subir com a frustração. As pessoas não deveriam saber tanto assim sobre a minha vida particular. Especialmente um cliente.
— Então ele não era seu namorado? Mas eu vi vocês se beijando no jornal. Aquele camarada, o Weston, também.
Gemi e soltei um suspiro irritado.
— Todos eles são clientes. Menos o Weston. Ele é meu namorado, mas não era naquela época. Faz pouco tempo que estamos juntos. — Endireitei a coluna. — Não importa. O que você precisa de mim?
Ele umedeceu os lábios e esfregou a mandíbula.
— Simples. Eu preciso que você finja ser a minha irmã para impedir os investidores de ficarem com uma participação grande na empresa.
— Mas como isso vai funcionar? Mais cedo ou mais tarde eles vão descobrir a verdade.
— Não, acho que não. Imagine a minha surpresa quando eu descobri que a Mia Saunders que eu vi na TV e na revista do supermercado não só tinha o mesmo nome como a mesma data de nascimento que o meu pai anotou. Por enquanto, a sua carteira de motorista vai servir. Depois, quando chegar a hora de ir atrás dos registros de nascimento e do teste de DNA no tribunal, eu, hum... espero já ter encontrado a verdadeira Mia Saunders. A minha Mia. Eu sempre quis ter uma família grande. O meu pai não teve mais filhos. Foi por isso que eu me casei com a Cyndi quando nós dois éramos jovens e nós logo tivemos um bebê. Eu quero um monte de crianças correndo por esta empresa um dia. Por enquanto, eu preciso proteger os negócios. É por isso que você está aqui.
Ouvi-lo dizer “minha Mia” fez meu coração doer novamente. Eu entendi. O que ele queria era uma família de verdade — com mãe, pai, irmã, irmão, tudo isso. Eu tinha Maddy, e agora tinha uma família de amigos, mas antes éramos somente Maddy, eu e pops, quando ele estava sóbrio o suficiente para tentar ser uma figura paterna. Eu também desejava um ambiente familiar real. Aquela conexão profunda com as pessoas. O que Maddy e eu tínhamos era tudo para mim.
— Vou fazer o que você precisar. É só me instruir.
— Simples assim? Você vai concordar em me ajudar, compartilhar suas informações e fingir que é ela?
A decisão não era tão difícil. Eu já tinha fingido ser namorada, musa, noiva, modelo, namorada-troféu de um coroa e sedutora. Por que não a irmã de um cara bom, que só queria proteger os negócios da família? Estendi a mão.
— Batize a sua próxima filha com o meu nome e eu te ajudo — falei, com a expressão mais séria que consegui.
— Sério? É só isso que você quer? Uma xará? — Seus olhos ficaram suaves mais uma vez, e fui tocada novamente por aquela sensação, como se eu o conhecesse, como se já tivesse visto aquele olhar antes.
Recolhi a mão.
— Você daria mesmo o meu nome para a sua filha, né?
Ele encolheu os ombros.
— Se você vai salvar o negócio da família, acho que é o mínimo que eu posso fazer. Além disso, você é minha irmã. — Ele disse com tanta convicção que eu quase acreditei.
— Eu posso dizer que você é bem sincero. Mas eu estava brincando. Você não me deve nada. Basta dar uma vida boa para a sua família.
— Você não quer mais dinheiro? Me chantagear? Você poderia. E muito. Esta empresa fatura bilhões de dólares por ano. Eu poderia dar um jeito na sua vida pra sempre.
Com uma convicção que sentia até a ponta dos pés, balancei a cabeça.
— Uma boa ação é feita sem motivo, sem precisar de pagamento. Você já pagou a taxa para que eu viesse pra cá. Com esse valor, eu paguei o meu credor. Está tudo certo.
Seus olhos verdes escureceram.
— Credor? O dinheiro que eu mandei era para pagar uma dívida? O meu investigador não encontrou nenhuma dívida no seu nome. Você tinha muito pouco dinheiro na conta-corrente e na poupança, mas eu sei que alguns cheques tinham sido compensados para um fundo de faculdade. Eu achei que você estivesse usando esse dinheiro para pagar as mensalidades. Ele deveria ser seu! — O tom de voz era veemente, e ele apertou as mãos em punhos. Não era exatamente a resposta que eu esperava.
Gemi.
— Olha, Max, a minha dívida não é problema seu. Merda, não é nem problema meu — falei automaticamente, embora não devesse.
— Como assim? Que dívida é essa que você está pagando? — Ele se levantou e colocou as mãos nos quadris. A luz do sol atingiu a fivela do cinto, me cegando por um momento.
— Não é da sua conta. — Fechei os olhos, tentando evitar a luz. Aquele brilho reluziu como se estivesse me perfurando com muito mais que um raio de sol: com a verdade, me atingindo o coração com sua flecha perversa.
— Claro que é. Você é minha irmã.
— Irmã de mentira — eu o lembrei, em tom de aviso. O tipo que geralmente faz as pessoas ouvirem. Mas não ele. Max não se deixou perturbar pelo meu tom.
Com um gesto elegante, ele tirou o chapéu, colocou sobre a mesa e passou os dedos pelo cabelo rebelde. Quando as mechas caíram em camadas loiras ao redor das orelhas, ele pareceu mais que familiar. Achei-o parecido com minha irmã caçula, Maddy, por um breve segundo. Caramba, eu já estava começando a ver coisas.
— Olha, não vou entrar em detalhes sobre a dívida. Mas, para o seu governo, eu estou cuidando disso.
— Mas e a faculdade? Se você está aqui, obviamente não está estudando.
Apertei os punhos contra os olhos. Isso não era realmente da conta dele. A maioria dos meus clientes não tinha conseguido informações pessoais tão cedo. Apenas Wes, mas era diferente. No fundo eu sabia que ele era algo mais. Só precisei de tempo para confirmar. Agora, eu tinha esse caubói gigante se intrometendo na minha vida. Pela aparência da sua mandíbula apertada e pela posição firme, ele não ia ceder até conseguir algumas respostas.
Respirando fundo, eu me inclinei para a frente.
— Eu larguei os estudos há muito tempo, Max. As mensalidades não são minhas.
Ele coçou o queixo.
— São de quem?
— Da minha irmã, Madison. Eu estou pagando a faculdade dela.
Sua mão caiu na mesa, onde ele se apoiou pesadamente. A madeira rangeu com a pressão.
— Você tem uma irmã? — Ele ofegou.
— Hum, sim, cinco anos mais nova. Ela está na faculdade, em Nevada. Vai ser cientista — falei, com orgulho e carinho absolutos. Minha irmãzinha era meu único motivo para me gabar. Tudo o que eu fazia era por ela, por causa dela. Ela teria tudo que a vida pode oferecer, e eu fiz o meu melhor ao longo dos anos para conseguir isso. Então eu ri, percebendo um detalhe importante e provocando o vaqueiro com ele. — Eu pensei que o seu detetivezinho tivesse mencionado isso. — Balancei o dedo para ele.
Quando nossos olhares se encontraram, notei que os dele pareciam torturados e endurecidos. Ele engoliu em seco algumas vezes, abriu a boca e depois a fechou novamente.
— Outra irmã — sussurrou. — Madison. — Ele disse o nome dela como se fosse uma oração, algo a ser erguido em um altar e adorado. — Duas irmãs. Tudo o que eu sempre quis. Estou ferrado. — Ele balançou a cabeça, fechou os olhos e uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Que. Merda. Estava. Acontecendo?

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