7 de janeiro de 2017

Capítulo Quatro

— Você acha que é especial, não é? — As palavras saem pingando veneno.
Balanço a cabeça e tento parecer calma.
— Nem um pouco. — É verdade, mas, com base em sua reação, ele não acredita.
Ele faz uma careta e avança até eu estender as mãos à minha frente, me defendendo. Ele continua avançando e eu me vejo pressionada contra a parede de concreto de uma área escura. Mais alguns passos e seu peito está contra o meu, antes que eu perceba o que está acontecendo. Com a respiração curta, penso na melhor maneira de lidar com isso, mas o champanhe está retardando meus reflexos.
— Aaron, você não quer fazer isso.
Seu rosto está mais perto agora, e ele desliza o nariz pela minha têmpora. Arrepios de medo sobem por minha coluna, levantando os cabelos da nuca.
— Claro que quero. — Sua voz soa morta, desprovida de emoção. Empurro seu peito, sem sucesso. Uma sensação de puro medo invade meus sentidos. — Tentando escapar, putinha? — ele diz, enrolando as palavras.
— Eu não sou uma puta, Aaron. Você sabe disso.
Empurro e forço o corpo para a frente, tentando, precisando escapar. E é aí que as coisas pioram.
Aaron morde o ponto em que o ombro e o pescoço se encontram. Com força. Tanto que eu grito, a dor pulsando em minha carne. Ele não parece se importar e usa sua força contra mim.
— Eu sei que o meu pai te contratou para ser a piranha dele na frente dos amigos ricos. Eu sei que você trabalha para uma agência de acompanhantes e é paga por mês. Está na hora de fazer o dinheiro do meu pai valer a pena.

Por Dios, Mia! Por favor! Estou aqui. É o Anton. Anton! Não vou te machucar! — Ele estava me segurando com firmeza, os braços ao redor do meu corpo, impedindo qualquer movimento.
A sensação de ser agarrada era tão forte que usei toda a força que tinha, me virei em seus braços e gritei. Ele me soltou como se eu fosse uma granada. Corri para a lata de lixo no canto e vomitei. Espasmos violentos me dominaram, abalando meu corpo. Eu não tinha muita coisa no estômago, já que não havia tomado café da manhã ainda. Graças a Deus. Era só café e bile. Anton estava por perto, mas não tanto a ponto de o medo me atingir novamente. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, o chapéu pendurado por uma cordinha, caído nas costas. Seus olhos estavam escuros e cheios de tristeza. Talvez até pena.
— Não olhe para mim desse jeito! — rosnei e limpei a boca com o antebraço. Eu precisava de outro banho. O suor escorria em minha testa, e o estômago apertou mais uma vez. Fraca, fui até um banco próximo e me sentei. Anton me seguiu, mas não se juntou a mim.
Ele se abaixou apoiado em um joelho e esperou até que eu levantasse o queixo e nossos olhares se cruzassem.
— Pode falar comigo. — Seu tom era solidário, cheio de preocupação.
A frustração e a raiva me atingiram como um soco.
— Você vai falar comigo? — Bati em meu peito. — Qual é o seu lance com a comida, Anton? — revidei.
Inspirando, ele apertou os lábios entre o polegar e o indicador. Algo sombrio surgiu nos olhos verdes, tornando-os nebulosos. As linhas em seu rosto se suavizaram quando ele suspirou.
— Eu fui uma criança pobre. Muito pobre. Em alguns dias a gente sobrevivia à base de água e de restos que os meus irmãos e eu conseguíamos pegar nas lixeiras dos restaurantes caros perto do nosso barraco. Porto Rico não é só a luz do sol, mulheres lindas de biquíni e praias intermináveis. Tem muitas partes que ainda são bem parecidas com um país de terceiro mundo. O lado leste da ilha, que é onde eu fui criado, é muito perigoso.
— Quantos irmãos você tem?
— Dois. Um irmão e uma irmã. Mas mi papa morreu quando a gente era muito pequeno. Mi mama fez o melhor que podia, mas em muitas noites eu fui dormir com fome. Vários anos com a barriga roncando. — Anton se levantou e abriu bem os braços, a imagem do rei em seu castelo. — Agora, não mais. Mi mama recebe muito dinheiro de mim e tem uma vida feliz e tranquila, sem passar nenhuma vontade. A mesma coisa acontece com os meus hermanos. Meus irmãos — ele esclareceu, em inglês.
Fechei os olhos e contei até dez. Aquele era meu jeito de lidar com o assunto. Quando meus batimentos cardíacos se acalmaram, abri os olhos e falei:
— Meu último cliente tinha um filho, um político muito conceituado no país. Ele me atacou e tentou me pegar à força. Chegou muito perto de me estuprar. Muito perto mesmo. — Até as palavras tinham um gosto ruim.
— Quando? — A maneira suave como ele perguntou me fez acreditar que eu poderia confiar nele para compartilhar o meu trauma.
— Há cerca de três semanas.
Coño, tão recente assim? Meu Deus, Mia. O filho da puta está na cadeia?
Aí é que estava o problema. Neguei e seus olhos se estreitaram.
— Eu não dei queixa. — Admitir aquilo em voz alta machucava, como uma faca cortando meu estômago. Mesmo sabendo que era por um bem maior, eu ainda me debatia com a realidade: ele havia escapado. Sim, eu estabeleci algumas condições e exigências para não entregá-lo, mas nenhuma delas aliviaria aquele buraco dentro de mim, que só seria preenchido com a certeza de que a justiça havia sido feita. — Havia algumas circunstâncias atenuantes. Eu fiz o que tinha que fazer. Não existia nenhuma boa opção. Se eu tivesse denunciado o sujeito, outras pessoas sairiam machucadas. Um monte de gente seria prejudicada por causa daquele doente de merda.
Anton assentiu.
— Às vezes, as decisões que precisamos tomar são mais difíceis para nós do que qualquer um poderia imaginar. — Ele disse essas palavras sem nenhum julgamento. Contei a ele que um homem me atacou e quase me estuprou e que eu optei por não o colocar atrás das grades. Ele não sabia nada sobre a situação, mas aceitou a decisão que eu tinha tomado. Por que eu não conseguia aceitar também?
Deixando clara sua intenção, ele se sentou ao meu lado e abriu a mão, oferecendo apoio e conforto. Assustada, mas determinada a superar aquilo, eu a segurei. Será que a sensação seria a mesma de pegar na mão de Tai ou Mace? Não, não foi. Aqueles dois sabiam o que eu tinha passado e, por algum motivo, o toque deles, depois da agressão, não me afetou.
O medo, agora familiar, vibrou ao longo da minha mão. Eu apertei a de Anton e me afastei.
— Obrigada — sussurrei.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Por quê?
— Por não me julgar. — Minha voz falhou, e a emoção tomou conta do ambiente.
Anton suspirou devagar.
— Eu não vivo a sua vida. Não posso entender como uma decisão, de um jeito ou de outro, poderia ser melhor ou pior, porque não me diz respeito. Só você precisa conviver com as suas escolhas. E dá para perceber que isso está pesando demais em você.
Assentindo, inspirei e apertei a palma das mãos uma na outra, até que meus dedos ficaram brancos com a tensão.
— Então nós podemos ser amigos... sem outras possibilidades? — perguntei de repente, preocupada que ele pudesse estar chateado com essa decisão em particular.
— Você está atraída por mim, Lucita? — Luzinha. Homem tolo.
— Sim — respondi, sem rodeios.
— E mesmo assim vai se privar dos prazeres de se acasalar comigo?
Abri um grande sorriso. Prazeres de se acasalar? De onde ele tirou aquela merda?
— Infelizmente, acho que não é o momento de eu arranjar um novo companheiro para acasalar. Além disso, meio que existe outra pessoa. — Certo, eu admiti. O que faria a respeito agora?
Anton bateu em suas coxas e se levantou.
— Que pena. Eu estava louco para te levar pra cama.
— Não acredito que você vá ficar sem companhia num futuro próximo.
— Isso é verdade. — Ele balançou as sobrancelhas novamente. — Amigos, então? — Estendeu a mão, desta vez como se fosse para fechar um negócio.
— Amigos.
Ele fez uma mesura com o chapéu.
— Agora, como minha amiga, você vai me ajudar a arrancar todas essas ervas daninhas.
— Acho que eu vou gostar disso, Anton. — Um pouco de trabalho ao sol levaria embora as toxinas das emoções que estavam perto demais da superfície. Seria catártico. — Com uma condição... — Apoiei a mão no quadril e inclinei a cabeça para o lado.
Ele sorriu, com um brilho juvenil e diabólico nos olhos que me fez lamentar a decisão do “não acasalamento”.
— Defina seus termos, mulher. — O sotaque fez a resposta soar absurdamente sugestiva.
— Eu quero dar uma volta em uma das suas motos.
Anton jogou a cabeça para trás e riu.
— Você anda de moto? — O choque evidente na linguagem corporal e em seu tom me incomodou.
— Eu não ando, boneco — enfatizei, usando contra ele um de seus apelidos
carinhosos. — Eu piloto, meu bem.
Sua expressão feliz me deu esperança. Ele franziu os lábios.
— Eu não vejo a hora de pagar a minha parte do acordo. — Apontou para um grande cesto. — Luvas, chapéu e balde.
— Feito!
***
Maria De La Torre.
Esse era o nome da coreógrafa. Ao vê-la pessoalmente, meu queixo quase caiu. Seu cabelo muito preto rivalizava com o meu no quesito “incrível”, e, para uma dançarina, ela tinha curvas que não acabavam mais. Era mais musculosa que eu, e seu corpo poderia ter sido esculpido em mármore e adorado por séculos. Ela falava inglês, mas mudava para espanhol no meio das frases. Sua etnia era única. Se tivesse que adivinhar, diria que tinha ascendência grega ou italiana, talvez até espanhola. Definitivamente mediterrânea. Em suma, ela era completamente exótica. Quando se movia, todos os olhares a seguiam. Maria tinha fluidez e graça, diferentemente de qualquer outro dançarino ali.
— A sedutora! — Maria gritou, olhando para um pedaço de papel. — Mia Saunders? — Ela examinou a multidão, até que todas as cabeças se viraram para mim.
Fui até a frente do estúdio onde todos estavam sentados. Eu estava encostada na parede do fundo. Ela questionou cada bailarino, mandando-os fazer uma série de passos, e vetou metade deles. Mandou-os para casa na hora. Brutal, mas eficiente.
Os olhos de Maria eram de um azul gélido enquanto observavam meu corpo.
— Você não é dançarina — ela falou diretamente, sem pedir que eu repetisse os passos que os outros tinham feito. Quase me senti aliviada por não ter que passar vergonha na frente de todo mundo.
— Não. Sou uma acompanhante contratada. — Dei de ombros e coloquei as mãos nos quadris.
Seus olhos se estreitaram, e um pequeno V se formou no alto da testa.
— Está saindo com alguém aqui? — ela perguntou. Graças a Deus alguém conhecia a definição de “acompanhante” e não concluía automaticamente que eu era uma prostituta.
Sorri.
— O Anton e a Heather me contrataram para esse papel. Você pode discutir com eles os motivos e a lógica por trás dessa decisão.
Maria inclinou a cabeça para um lado e depois para o outro.
— Vire-se. — Fiz o que ela pediu. — Mais uma vez. — Girei novamente até estar de frente para ela. — Você sabe dançar?
— Profissionalmente?
Ela riu.
— Não, eu sei que você não dança profissionalmente. O seu corpo não mente. Embora eu possa entender, pelas curvas e pela beleza, por que você foi escolhida para o papel da sedutora. Mas eu estou querendo saber se você consegue dançar para se divertir, mexer os quadris. Hula, salsa, tango, qualquer coisa.
Balancei a cabeça, com medo da maneira como ela reagiria. Se bem que ela estava agindo do jeito mais técnico possível, mesmo quando dispensou metade dos dançarinos.
— Tudo bem. Eu vou ter que pensar no seu papel e em como vamos apresentá-la para as câmeras. Você não estaria aqui para um clipe de hip-hop se o Anton não quisesse você nesse papel. Vamos contornar as suas eventuais deficiências.
Não parecia tão ruim. Pelo menos ela não me cortou totalmente da produção. Teria sido muito mais fácil, e eu ainda teria recebido meu pagamento, já que a cláusula de não devolução continuava em vigor. De qualquer forma, a ideia de falhar ou decepcionar Anton, Heather ou tia Millie ao ser mandada para casa não me caía bem. Fiquei surpresa quando notei que estava feliz por permanecer no clipe. Mesmo com a coisa de não-sei-dançar e tudo o mais.
Maria trabalhou com o restante dos dançarinos. Havia poucos na sala quando Anton entrou.
Mamacita! — ele cumprimentou Maria com um abraço entusiasmado. — Mama, você está muito linda. — Ele examinou as outras pessoas que estavam por ali, se alongando na barra de balé e repassando uma série de passos. — Estou vendo que você limpou o salão.
Maria sorriu.
— Anton, você sabia que eu ia dispensar a maioria deles. Você não precisa de muitos dançarinos para o que eu tenho em mente. Eu ouvi a música várias vezes no avião. Com base no conceito que desenvolvi, nós vamos precisar principalmente dela. — Ela apontou um dedo na minha direção. — E talvez de mais uns dois, além dos que sobraram aqui. — As sobrancelhas de Heather se ergueram, mas ela se manteve em silêncio, atrás de onde Anton e Maria estavam conversando. Fiquei um pouco afastada, sem querer bancar a enxerida, mas ainda tentando não perder nenhum detalhe.
— Vamos conversar em particular. A menos que você queira trabalhar hoje à noite. — A pergunta pairou no ar, à espera da resposta dela.
Maria bateu nos lábios com um dedo.
No, vamos a dejar descansar esta. Van estar muertos de los pies con lo que he planeado para el resto de la semana — falou num espanhol rápido e seus lábios se curvaram para cima.
Anton assentiu e sorriu, conduzindo Maria e Heather para fora do estúdio.
Usted es una mujer malvada. Me encanta. — Quando chegaram à porta, ele se virou e me encarou. — Lucita, você vai aonde eu for, a menos que um de nós — ele apontou para si e para as duas mulheres — diga algo diferente. Entiendes?
Concordei, coloquei as mãos nos bolsos de trás da calça jeans e os segui. Ele segurou a porta aberta. Seus olhos deixaram meu rosto, seguiram um curto caminho para baixo, observando meus seios, e deram uma olhada em minha bunda quando passei.
Maria riu.
— Ah, sim, ela é uma seductora, com certeza.
Enquanto caminhávamos, bati o ombro no de Heather.
— Eu gostaria de saber o que eles falaram em espanhol lá no estúdio.
Ela mexeu no cabelo enquanto caminhávamos, ajeitando algumas mechas.
— Ah, a Maria basicamente disse que os dançarinos não iam trabalhar hoje à noite porque precisam descansar. Ela vai tirar o couro deles no resto da semana. — Abri a boca, mas as palavras não saíram. — Aí o Anton respondeu que ela era má... — o timbre da sua voz mudou quando ela terminou com: — e ele adora isso nela.
— Uau, você fala espanhol?
Heather sorriu.
— Comecei a estudar logo que vim trabalhar como assistente do Anton, depois que me formei na faculdade, há quatro anos. Uma semana foi suficiente para eu perceber que, para me encaixar no mundo dele, eu precisaria saber, o tempo todo, exatamente o que ele estava falando. Só que o espanhol de Porto Rico é um pouco diferente do mexicano e até do europeu. Na maior parte do tempo eu entendo o que eles falam, mesmo quando as palavras ou o estilo são diferentes. É que nem os diferentes dialetos e gírias que existem dependendo de onde você mora nos Estados Unidos, seja no leste, no meio-oeste ou no sul.
— Ah, que legal. Eu percebi que você significa muito para o Anton.
Heather ficou vermelha e olhou para baixo antes de encolher os ombros.
— Talvez você esteja vendo algo que não existe.
Franzi as sobrancelhas e a detive com a mão em seu cotovelo. Anton e Maria avançaram para pegar o elevador.
— Vocês vêm? — Anton segurou a porta.
— Hum, pode nos dar um minuto? — perguntei.
— Tudo bem — ele concordou e continuou a conversar em sua língua nativa com Maria.
— O que está rolando? Você está agindo de um jeito estranho desde que a Maria chegou.
Heather mordeu o lábio inferior e encostou na parede.
— Com ela aqui, todas as ideias e os conceitos que eu desenvolvi para o clipe vão ser completamente esquecidos. Eu tinha convencido o antigo coreógrafo a incluir algumas das coisas novas que pensei, mas agora... — Ela parou de falar. A decepção escorria de cada frase como uma torneira enferrujada vazando.
— Você comentou com o Anton sobre as suas preocupações? — perguntei.
Ela balançou a cabeça com veemência.
— Não. De qualquer forma, ele não me ouviria. Agora que ela está aqui, todo mundo só vai prestar atenção no que ela diz e faz.
Eu me encolhi.
— Mas eu achei que você quisesse a Maria aqui. Você foi toda proativa, ligou correndo pra ela e a trouxe pra cá.
— Porque ela é a melhor. O Anton merece o melhor.
Encostando a palma das mãos uma na outra, pensei no assunto por um momento. Será que havia algo mais ali do que ela estava admitindo?
— Você está apaixonada pelo Anton? — A pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse pensar em ser mais sutil.
Os olhos de Heather se arregalaram e ela se inclinou, com as mãos apoiadas nos joelhos, enquanto todo o seu corpo tremia. Em seguida, uma gargalhada saiu de seus pulmões conforme ela se endireitava, com as bochechas vermelhas. Ela bufou e uivou, com uma alegria desenfreada.
Aparentemente, eu estava muito errada.
— Acho que a resposta é não — falei.
— Desculpe, não. — Ela enxugou as lágrimas e respirou fundo, enchendo os pulmões. — Meu bem, eu nunca me apaixonaria por ele. Eu quero um homem para quem eu seja uma prioridade, não uma opção. — Ela riu. — Nós duas sabemos que o Anton ama todas, mas não se compromete com nenhuma.
Ama todas, não se compromete com nenhuma. Em minha memória recente, não encontrei nada mais verdadeiro que aquilo. Anton não parecia ser do tipo que se
acomoda ou se compromete com uma mulher, por qualquer período de tempo.
— Então por que você não conversa com ele?
— Não sei. Toda vez que eu abordo o assunto da direção criativa de um projeto, ele ergue muros de pedra antes que eu possa expressar minhas ideias. Eu estou num ponto da minha carreira, Mia, em que preciso crescer ou seguir em frente.
Assenti.
— E o que você vai fazer?
— Bem, aqui entre nós — ela olhou para um lado, na direção do salão, e em seguida para o outro, se certificando de que não tivesse ninguém ouvindo. — Eu fui sondada por um agente para outra banda. Uma pessoa está disposta a me dar o cargo de diretora criativa, logo abaixo do empresário deles. É um grupo de hip-hop de New Jersey. Eles têm muito potencial para fazer sucesso. Com os contatos que eu tenho e os conceitos que esbocei, o cara me quer. Está disposto a pagar quase o dobro do meu salário para eu deixar o Anton.
Meus olhos se arregalaram.
— Uau, Heather! Isso é incrível. O que você está esperando?
Ela mordeu novamente o lábio carnudo. Seus lindos olhos azuis desviaram para o lado e ela chutou o chão com a ponta do sapato, arrastando-o ao longo do tapete.
— Hum, é difícil. Eu estou com o Anton há quatro anos. Ele sempre foi o meu foco. Quer dizer, eu não tenho família de verdade. Sou filha única. Meus pais morreram quando eu era muito nova. Fui criada pelos meus avós, que também já se foram.
— Mas o que isso tem a ver com tomar a decisão de trabalhar em outro lugar? Em um lugar onde vão te dar carta branca para você fazer o que quiser, usando a formação que batalhou tanto para conseguir? Para ter a carreira que você sacrificou a sua vida para ter?
Ela passou a mão pelo cabelo loiro e indisciplinado.
— Mia, é tão difícil. O Anton é o mais próximo de uma família que eu tenho. Mesmo que eu não seja a prioridade dele, ele ainda é a minha. — Seus ombros caíram. — Ele é o meu melhor amigo, o meu único amigo.
— Ah, querida — acariciei seu braço.
— Não é triste? Eu sou leal a um homem que não dá a mínima pra mim, mas ele é tudo que eu tenho.
Segurando Heather pelo braço, puxei-a e a abracei. Ela me apertou forte. Curiosamente, seu toque não me provocou um mini ataque de pânico. As lágrimas escorriam por suas bochechas enquanto ela se agarrava ao meu corpo e fungava contra o meu pescoço. Acariciei seu cabelo e disse várias vezes que tudo ia ficar bem. Com o tempo, os soluços se transformaram em risadinhas. Dando um passo para trás, limpei as lágrimas dela com a ponta dos dedos e olhei em seus olhos.
— Você é inteligente, bonita, e o Anton dá mais atenção às suas ideias do que você imagina. Converse com ele.
Ela suspirou profundamente e assentiu.
— Eu vou conversar. Obrigada, Mia.
— As coisas vão funcionar como devem, mas você tem que ser honesta consigo mesma e com o Anton. Ele não vai saber como é que você se sente se você não contar. E ele, definitivamente, não vai mudar nada se não souber das suas necessidades e do fato de que você tem outras oportunidades em vista.
— Você acha que ele vai ficar bravo? — ela perguntou enquanto caminhávamos para o elevador. Apertei o botão e ele zumbiu em algum lugar acima de nós.
— Você conhece o Anton melhor do que eu. Acho que ele vai ficar muito preocupado por você não ter falado com ele. Você estava pensando em sair sem dar a ele a chance de consertar as coisas. Pelo que eu pude perceber, você é a única pessoa que ele escuta.
Heather balançou a cabeça.
— Não. Ele faz o que quer, quando quer.
— Acho que isso é um pouco duro e não muito verdadeiro.
Ela revirou os olhos e cruzou os braços sobre o peito.
— Talvez.
Sorri e entrei no elevador quando as portas se abriram.
— Vamos, garota. Vamos ver o que o demônio está fazendo com a srta. Dança dos Famosos.
Heather riu.
— Não deixe a mulher ouvir você dizer isso. É bem capaz de ela chutar o seu traseiro. Ouvi dizer que ela tem um temperamento difícil.

— Heather, meu bem, eu também. Eu. Também.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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