8 de janeiro de 2017

Capítulo Oito

— Max, nós precisamos conversar — falei ao entrar na cozinha. Cyndi estava fazendo um café da manhã completo, com panquecas, bacon e ovos. Meu estômago roncou alto quando senti o cheiro.
Ela apontou para a mesa enquanto Max enchia um prato com todos os itens. Eu me sentei como um elefante — minhas pernas, cansadas demais de segurar o peso dos meus fardos, tinham entrado em colapso.
— Aqui, coma. Nós precisamos te explicar algumas coisas — ele disse, bruscamente.
Antes que eu pudesse começar, foi a vez de Cyndi:
— Eu sei que você deve estar brava — disse enquanto colocava uma xícara de café na minha frente. Com uma eficiência que eu sabia que nunca teria, ela adicionou duas colherinhas de açúcar e um pouco de creme, lembrando exatamente como eu tomava meu café. Fatos como esse realçavam sua beleza natural. Ela prestava atenção nas pequenas coisas. Os detalhes que faziam uma pessoa se sentir confortável, tipo como ela gostava do café. — Eu preciso começar dizendo que lamento muito — Cyndi anunciou.
— Não, você não lamenta — falei, observando seu rosto para ver se havia ao menos um pingo de remorso.
Seus olhos azuis se reviraram. Ela parou e colocou a mão na barriga, a espátula do ovo pairando no ar na outra mão.
— Tem razão. Eu não lamento. Você precisa da sua irmã aqui, e nós precisamos conhecer os dois.
Eles precisavam conhecer os dois. Aquela parte me deixou confusa.
— Por quê? O que acontece entre mim e a minha irmã não tem nada a ver com você, o seu marido e os negócios dele. — Encarei Max, que olhou para baixo, tendo um grande trabalho para evitar a conversa e empurrando os ovos pelo prato. O fato de Max não devorar a comida era outra coisa estranha. O homem gostava de comer. Toda vez que eu o via à mesa, ele limpava dois pratos antes que qualquer um terminasse o primeiro.
Ele suspirou profundamente, seu corpo estremecendo com o esforço.
— Nós todos nos afeiçoamos muito a você, Mia. Dá pra aceitar e deixar acontecer?
Bufei, peguei uma fatia de bacon e a coloquei na boca. A textura crocante e salgada da carne deliciosa cobriu meu paladar como um manto de perfeição. Bacon, o alimento perfeito. Mastiguei por alguns momentos, pensando em como encararia a questão. Sim, eles estavam sendo gentis, ainda que de forma exagerada. Mas — e aqui cabia um enorme mas — eles tinham feito aquilo sem me consultar. Era a minha vida, a minha família, não deles. Eles precisavam entender a gravidade do que tinham feito.
— Escutem, Max e Cyndi... — Fiz um gesto para os dois. Ela colocou a espátula no fogão, desligou o fogo e se aproximou do marido. Ele passou um braço em volta de sua cintura enquanto ela o abraçava. Eles apresentaram uma frente unida, e algo naquilo não me caiu bem. Independentemente disso, eu tinha um ponto a tratar e, por Deus, o deixaria bem claro. — Vocês não podem se intrometer na minha vida. Eu estou aqui para trabalhar. E vocês pagaram uma bolada para eu fazer isso. Mesmo que tenhamos nos tornado amigos, isso não dá a vocês o direito de se meter nos meus problemas. Você é meu cliente. Eu sou uma funcionária, não sou parte da família. O que vocês fizeram, convidando a Maddy e o noivo para virem aqui, foi tão sem sentido, tão fora de propósito... — Balancei a cabeça, sem saber como terminar o que eu precisava falar sem crucificá-los. — Vocês passaram dos limites. — Minha voz tremeu, a raiva borbulhando no cerne do problema.
Max inalou e assentiu.
— Eu falo por nós dois quando digo que lamentamos a forma como invadimos a sua vida. Mas, por favor, saiba que as nossas intenções foram as melhores.
— É, de boas intenções o inferno está cheio. — Franzi os lábios e puxei um joelho até o peito, me equilibrando na cadeira. — Por favor, vamos esclarecer as coisas. Acho que as linhas estão se confundindo aqui. Estou fingindo ser alguém para ajudar a enganar os investidores até você encontrar a sua irmã verdadeira. Por mais que eu quisesse que fosse verdade... eu não sou sua irmã. Você não pode agir como o irmão mais velho salvando a irmãzinha.
Dizer aquilo deixava tudo às claras, preto no branco. Max apertou a mandíbula e fechou os olhos. Cyndi se inclinou, beijou sua testa e sussurrou em seu ouvido algo que soou como “Conte a ela”, mas não pude ter certeza.
Vários minutos excruciantes de um silêncio desconfortável se passaram até que, finalmente, Max abriu os olhos e soltou a esposa.
— Certo, Mia. Entendi. Vamos fazer as coisas do seu jeito.
— Max, amor... — Cyndi começou, mas ele ergueu a mão, cortando-a.
Seus olhos estavam focados em mim como um laser.
— Podemos seguir em frente? — ele me perguntou. Seu tom agora era o de um empresário duro e rápido.
Anuí e brinquei com meu guardanapo, sentindo que estava errando de alguma forma. A conversa mudou tão rapidamente que eu nem tive chance de comentar sobre os sonhos ou lembranças antes que ele se levantasse abruptamente, arrastando a cadeira no piso de cerâmica.
— Vá se preparar para o trabalho, Mia. Hoje é dia de usar terno.
— Terno?
Seu queixo se projetou.
— Vamos encontrar os investidores. Hora de assumir a fachada de irmã — ele resmungou de um jeito que fez espetos pontiagudos perfurarem a barreira resistente ao redor do meu coração. A barreira que eu havia erguido naquela manhã, depois de descobrir que eles tinham me enganado. Eu precisava admitir: suas palavras magoaram. Machucaram de verdade. Minhas preocupações eram válidas, e foi ele quem extrapolou seu papel, não eu. Então, por que eu me sentia como a escória na sola do sapato de um trabalhador de aterro sanitário?
— A que horas vamos? — perguntei, com a boca cheia.
— Em quarenta e cinco minutos. Cyndi, amor, estou na varanda. Preciso de um pouco de ar — ele murmurou e se afastou.
Terminei o café da manhã e pensei em como faria para trazê-lo de volta ao espírito jovial em que estivera na maior parte do tempo desde que eu havia chegado, mas não consegui pensar em nada. E, claro, agora, com a tensão entre nós, teríamos uma reunião com o conselho de investidores para apresentar a nova relação entre irmãos, e precisávamos que ela fosse crível o suficiente para que ninguém se opusesse, pelo menos por enquanto.
***
A viagem para a Cunningham Óleo e Gás foi sufocante. Max ligou o som e não pronunciou uma palavra sequer durante todo o caminho. De vez em quando o ar mudava e eu o via intensificar ou relaxar o aperto no volante. Aquilo me fazia pensar que ele ia dizer alguma coisa, mas então ele expirava e se concentrava na estrada novamente.
Quando saiu da caminhonete, veio até o meu lado, cavalheiro como sempre, e me ajudou a descer. O tailleur me serviu perfeitamente. Eu me senti forte, poderosa e pronta para encarar um grupo de empresários indigestos. A saia lápis era de um comprimento aceitável e tinha uma fenda decente na parte de trás. Nada muito provocante. A blusa era num tom verde-menta que destacava meus olhos. O blazer acinturado e a cor cinza realçavam meu cabelo lindamente. Quem o escolheu havia feito um ótimo trabalho.
Quando entramos no edifício, todas as mulheres num raio de quinze metros olharam para Max. Ele parecia delicioso no terno preto com camisa branca imaculada. No pescoço havia uma espécie de gravata de couro preto trançado, presa com uma peça de metal em formato de estrela, que combinava com o logotipo da empresa. Ele arrematou o visual com um perfeito chapéu preto sobre os cabelos loiros. Sorri e apertei sua mão. Um choque de eletricidade e familiaridade formigou na minha palma.
— Sentiu isso? — perguntei, querendo mais do que tudo saber se ele percebia aquela conexão entre nós. Não era de natureza sexual, como eu havia experimentado com outros homens com quem tive intimidade. Eu me sentia bem de mãos dadas com ele. Como se o universo tivesse nos juntado e devêssemos estar ali, naquele momento, juntos. Ligados de uma forma que eu não conseguia entender.
Ele inclinou a cabeça em minha direção.
— Meu anjo, eu sinto essa conexão com você há muito tempo. Desde que te vi pela primeira vez, quando nós éramos pequenos.
Engoli o soluço que queria rasgar meus pulmões.
— Você sabia?
Ele assentiu.
— Lembrei no momento em que você apareceu no aeroporto, mas é mais que isso. Eu senti um tranco, por assim dizer. Como se fosse uma parte que faltava em mim e que estivesse por aí, se movendo ao redor da Terra. Uma parte que eu não podia ver nem tocar, mas sabia que estava lá.
Assenti e apertei sua mão.
— Eu não entendo. É como se eu te conhecesse, mas não conheço.
Max colocou o braço em volta dos meus ombros e me puxou para perto de seu peito. Uma sensação de paz e serenidade encheu meu coração e me aqueceu.
— Vai dar tudo certo. Nós vamos dar um jeito. Primeiro precisamos passar pela reunião de hoje. Está na hora, querida. — Ele me conduziu para o elevador. Minha mente vivia uma mistura de passado e presente.
Fechei os olhos e vi o menino dos meus sonhos, seus olhos correspondendo tão intimamente aos meus. Afastando os pensamentos, ergui o queixo e apertei a mandíbula. Estufando o peito ao endireitar a coluna, me preparei para a batalha. Não importava o que estava acontecendo entre mim, Max e nosso passado nebuloso: o presente era agora. Seu direito de nascença, a empresa que sua família possuía há gerações e havia construído do zero, dependia de que aqueles investidores acreditassem que eu era sua irmã. Segurei sua mão com força quando ele abriu a porta de vidro que dava acesso à enorme sala de reuniões com vista para a paisagem exuberante do campus, além dos hectares de árvores.
— Manda ver! — sussurrei e ele riu.
Max me levou a uma cadeira na frente da sala. Havia apenas duas vazias, e pelo menos duas dúzias ocupadas com pessoas que também usavam terno. Sofia Cunningham estava a três cadeiras da minha. Seu desprezo e antipatia por mim eram palpáveis quando alisei a parte de trás da saia e me sentei, ereta. Max não se sentou. Em vez disso, ficou atrás da sua cadeira e colocou as mãos no encosto.
— Senhoras e senhores, eu convoquei a reunião de hoje para trazer à tona uma revelação emocionante. Como todos se lembram, há vários meses, meu pai, Jackson Cunningham, surpreendeu todos nós com a sua vontade. Quando ele faleceu, nós fomos informados de que quarenta e nove por cento da Cunningham Óleo e Gás havia sido deixada para a minha meia-irmã, uma mulher cinco anos mais nova que eu, cuja existência eu não conhecia.
Murmúrios e falatório soaram entre pequenos grupos por toda a sala.
— Silêncio, por favor! — Max abriu os braços e a conversa parou. — Como seu último desejo, meu pai anotou o nome e a data de nascimento da mulher com quem eu divido minha linhagem. O nome dela é Mia Saunders. Nascida em 14 de julho, cinco anos depois que eu nasci. Esta pessoa à minha esquerda é essa mulher. Estou imensamente orgulhoso de apresentar a vocês a minha irmã, uma mulher que só recentemente eu conheci, mas por quem já sinto um vínculo familiar. Srta. Mia Saunders. Levante, mana.
Eu me levantei e todos os olhares na sala se voltaram para mim. Vários comentários sussurrados reverberaram pelo local:
Eles não se parecem em nada.
— Dá pra ver pelos olhos.
— Ela é linda.
— A semelhança está lá.
— Ela não pode ser irmã dele. Olhe para ela.
— O cabelo dela é preto. O dele é loiro. Eles não têm o mesmo sangue.
Desta vez, para silenciar a sala, Maxwell soltou um poderoso rugido:
— Basta!
Os rostos ao redor da mesa pareciam desgostosos, e alguns realmente deixaram transparecer. Finalmente, Sofia levantou a mão.
Maxwell olhou para ela.
— Sofia? Você tem algum comentário?
Ela colocou as mãos delicadamente em cima da mesa de mogno. Era a imagem perfeita da razão.
— Como parte desta família e investidora, me sinto na obrigação de dizer que você não pode esperar que todos os membros do conselho e os investidores nesta sala aceitem a sua palavra como verdade sobre esse assunto. São bilhões em jogo, e gerações de Cunningham colocaram nisto o seu nome. Que provas você tem de que essa é realmente uma relação de sangue?
Olhei para Max e o observei apertar os dedos, enterrando-os na cadeira de couro com força suficiente para deixar a marca das unhas.
— Minha palavra e minha honra como presidente desta empresa e chefe da família deveriam ser suficientes, não é? — Ele a desafiou na frente de todo mundo.
Os olhos de Sofia brilhavam como fogo, e o sorriso diabólico provou o que eu já tinha adivinhado. Nada além de uma prova sólida e irrefutável seria suficiente para fazê-la recuar. A mulher queria sangue e sua parte do dinheiro. Uma onda de choque e medo percorreu minha coluna enquanto eu apertava os dedos no colo, retorcendo-os, imaginando como Max os despistaria.
Ele inclinou a cabeça e olhou para a prima.
— Se você precisa de provas, é o que terá.
Ele acenou com a mão e a pequena Diane, sua alegre assistente, entrou rapidamente na sala com um controle remoto na mão. Logo atrás dela vinha uma mulher negra bem vestida em um terninho branco. A roupa estava tão brilhante contra sua pele escura que uma onda de inveja me invadiu. As negras têm uma pele incrível, e aquela mulher era de tirar o fôlego. Seu cabelo estava preso em uma série de tranças apertadas desde o couro cabeludo e juntas na nuca, onde caíam pelas costas até a cintura. Lindo.
— Obrigado, Diane. — Maxwell sorriu e ela retribuiu, deu um tapinha no peito dele, sobre o coração, seguiu para as cadeiras no canto da sala e se sentou em uma delas.
A linda mulher negra a seguiu, deslizando a pasta ao lado da cadeira e se sentando com as costas eretas. A sola vermelha de seu Louboutin altíssimo brilhou quando ela cruzou as pernas de maneira graciosa. Eu precisava arranjar umas amigas daquele jeito. Elas sempre pareciam saber se vestir. Eu poderia aprender algumas coisas sobre ser chique com uma mulher daquelas.
Max apertou alguns botões no controle remoto e uma tela de LCD deslizou na parede do fundo, a luz no centro da sala brilhando na tela em branco. Mais alguns toques no controle, e a imagem da minha carteira de motorista de Nevada apareceu.
Sem perder o ritmo, Max falou:
— Você quer a prova? Anexo A. A carteira de motorista de Mia Saunders provando não apenas que o nome dela é exatamente o mesmo que foi escrito no testamento, mas sua data de nascimento também.
Aquilo me confundiu. Achei que Millie e Max tivessem confirmado que o nome havia sido escrito de maneira um tanto quanto ilegível. Eu teria que verificar aquilo depois.
— Isso é suficiente para você, ou precisa de mais? — A pergunta foi dirigida a Sofia.
— Qualquer um pode falsificar uma carteira de habilitação. — Ela acenou com a mão para a tela, parecendo descartar aquilo totalmente.
— Certo, então. Anexo B. Cartão da previdência social de Mia Saunders, provando seu nome e sua cidadania. Devo continuar?
Sofia bufou e respondeu com altivez:
— Vá em frente. Você está fazendo um ótimo trabalho. Embora eu não tenha visto nada que não possa ser refutado em um tribunal.
O próximo slide me fez perder o fôlego. Lágrimas se formaram e ameaçaram cair. Toquei o canto dos olhos e olhei para a tela, perdida em um turbilhão de memórias.
— Esta é uma fotografia que o meu pai tinha da minha mãe comigo no colo. Ao lado, uma foto da Mia. A semelhança é extraordinária. — Ele resmungou e limpou a garganta.
Como podia ser? Aquela mulher com certeza era minha mãe. Muito mais jovem, mas ainda assim era ela. Eu poderia reconhecê-la em qualquer lugar. Na foto, ela estava segurando uma criança de cerca de um ano, com cachos loiros como um halo em torno da cabeça. Balancei a minha, e as lágrimas caíram sem parar.
O volume de conversas atingiu um patamar bastante alto. A voz de Sofia estava tensa, no entanto ela seguiu em frente. Eu tinha que dar crédito àquela mulher. Ela era a definição da palavra “persistência”.
— Muitas pessoas são parecidas, Max.
Ele assentiu.
— É verdade. Mas tem mais. — Estendeu a mão para a mulher elegante e fez um gesto para que ela se pronunciasse.
— Membros do conselho, meu nome é Ree Cee Zayas e eu sou advogada do falecido Jackson Cunningham e de Maxwell Cunningham. O sr. Cunningham me contratou para provar a legitimidade do direito de nascença de Mia Saunders e sua linhagem familiar. — Sua voz era calma e educada. Gostei dela instantaneamente, mas logo temi as próximas palavras que ela diria. — Se olharem para a tela, vão ver uma cópia da certidão de nascimento de Maxwell Cunningham, de Dallas, Texas, ao lado da certidão de nascimento de Mia Saunders, de Las Vegas, Nevada. Como vocês podem ver, a mulher apontada como mãe, Meryl Colgrove, e seu número de previdência social, mostrado claramente em ambos os documentos juridicamente validados, são exatamente os mesmos. Este documento seria incontestável em um tribunal e prova que Maxwell Cunningham e Mia Saunders compartilham a mesma mãe.
A sala ficou em silêncio. Absolutamente nada podia ser ouvido. A onda de choque me bateu com força. Parei de respirar e tremi sob a prova que me encarava. Com a enxurrada de emoções que me golpeou em uma confusão emocional, as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Maxwell ouviu quando engoli um soluço. Agachou-se ao meu lado, apoiando um joelho no chão e apertando minhas mãos dolorosamente. Eu não me importava. Estava dormente, abalada até o âmago.
Max beijou minhas mãos várias vezes.
— Eu devia ter te contado a verdade — sussurrou. — Me p-perdoe. — Seus próprios sentimentos sobrecarregaram as palavras de tal forma que ele gaguejou com o esforço de colocá-las para fora.
Eu me sentia incapaz de responder, mas ainda não havia acabado. Não. A bela mulher, que mais tarde eu viria a chamar de “anjo negro de eventos que mudam a vida”, não parou por aí.
— Em razão da natureza extrema do direito de nascença e do valor monetário em jogo nesta empresa, achei que seria prudente ir mais a fundo, e um teste de DNA foi feito. Uma amostra de cabelo foi retirada da escova da srta. Saunders, e os resultados foram comparados com aqueles do sr. Cunningham. Vocês podem ver na tela que os resultados são conclusivos: Maxwell Cunningham e Mia Saunders compartilham marcas genéticas maternas idênticas que comprovam, sem sombra de dúvida, que ambos são filhos da mesma mãe.
Foi então que eu me perdi, assim como o resto da sala. Eu não podia sequer ouvir meus pensamentos com o barulho das conversas na mesa. Simplesmente fiquei ali, imóvel, tentando juntar os pedaços da minha vida em algo parecido com uma realidade que eu pudesse entender. Nada veio. Nenhum lampejo surpreendente de sabedoria, nenhuma analogia bem orquestrada para explicar como os pequenos diagramas e linhas na tela à minha frente tinham, em última análise, mudado minha vida... para sempre. Eu não era mais Mia Saunders, a garota que cuidou da irmã caçula, cuja mãe a abandonou aos dez anos com um pai viciado em jogos e alcoólatra. Eu não era só uma mulher que se apaixonou por um homem muito melhor que ela. Estava se tornando claro para mim que eu era mais que isso.
Eu, Mia Saunders, era irmã biológica de Maxwell Cunningham. Um homem à frente de um império e de uma família sobre quem eu não sabia absolutamente nada. A documentação era incontestável. Max era meu meio-irmão.
— Mia, Mia, meu anjo. Por favor, diga alguma coisa. Qualquer coisa — Max pediu de joelhos à minha frente. Olhei para baixo, para os mesmos olhos verdes que minha mãe havia dado a mim, a Maddy e a ele.
— Você é meu irmão. — As palavras saíram da minha boca em um suspiro.
— Sou. — Ele examinou meu rosto, como se estivesse olhando diretamente para minha alma e vendo um pedaço de si.
— Meu irmão de verdade — repeti.
— Sim. E você... você é minha irmãzinha. — Ele engoliu em seco e umedeceu os lábios. As linhas ao redor dos olhos pareciam mais pronunciadas sob o peso de manter aquilo escondido.
— Meu Deus. Eu não consigo... — Respirei fundo. — Maddy! — As lágrimas escorriam pelo meu rosto, que ele segurou e enxugou com os polegares, acariciando as bochechas.
— Sim. Agora você entende por que era tão importante trazê-la aqui. Ela também merece saber a verdade.
Fechei os olhos e pensei em Maddy, no que essa informação faria com ela e com a dinâmica da nossa família. Em um floreio, empurrei a cadeira, e as mãos de Max foram para o chão, para segurar o peso de seu grande corpo. De pé, observei o local em busca da saída mais próxima.
A necessidade de fugir era grande, uma sensação dolorosa e espinhosa, como um nervo exposto sendo bombardeado com impulsos elétricos. Percebi a gravidade da situação. Aquilo não era mais faz de conta. Max tinha me trazido ali porque sabia dessa informação o tempo todo e esperou até que estivéssemos na frente de todos aqueles estranhos para revelar a verdade.
Eu havia desejado ser a verdadeira irmã de Maxwell. Tinha pensado nisso várias vezes ao longo dos últimos dez dias. Naquele momento, as coisas estavam desordenadas no meu cérebro. Eu queria gritar, esbravejar e uivar até que tudo em minha vida e, o mais importante, a verdade voltassem para o seu devido lugar e aquela caixa de Pandora fosse trancada e enterrada para sempre.

Saí da sala com um único pensamento: Cuidado com o que deseja, porque pode se tornar realidade e deixar o seu mundo inteiro de cabeça para baixo.

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