10 de janeiro de 2017

Capítulo Oito

A semana toda havíamos conseguido evitar contato com a imprensa. A única vez que Wes saiu de casa foi para ir comigo à gravação na casa dos Ryan, que ficava no meio do nada, um lugar ignorado pela mídia de Hollywood. Infelizmente, parecia que alguém na Century Produções — o doutor, produtores, ou quem sabe Brandy-do-jeito-normal — tinha avisado a imprensa. Devem ter achado que seria bom Wes ser visto saindo da produtora com alguém associado ao médico-celebridade. Fazia sentido, pois o dr. Hoffman e sua esposa top model estavam bem na saída quando tentamos ir embora. Assim que passamos pela porta, a quantidade de flashes foi surpreendente.
Eu havia experimentado a fama e tido alguns encontros com paparazzi enquanto estava com Anton, em Miami, mas aquilo estava muito longe de ser algumas câmeras e fotógrafos barrigudos e bajuladores, experientes em clicar um milhão de vezes por minuto para capturar a pior imagem possível e estampar as revistas de fofocas. Aquilo era uma coletiva de imprensa. Um frenesi absurdo.
— Weston, como foi ser sequestrado por terroristas? — um deles gritou.
— Você matou alguém enquanto estava lá?
— Onde eles te machucaram?
— O que você sentiu ao ver o Trevor morrer na sua frente?
— Eles machucaram a sua namorada, a Gina?
— O que a Mia Saunders é sua?
O dr. Hoffman se aproximou da multidão com a esposa. Ela passou de loira burra para supermodelo muito bem paga e esposa-troféu em menos de um segundo, ao seu lado, segurando seu braço.
Estávamos atrás deles, procurando uma saída.
— Por favor, por favor, nos deixem em paz. O nosso amigo, sr. Channing, e a noiva dele, srta. Saunders, merecem um pouco de privacidade depois do que passaram, vocês não acham? Tenham um pouco de decência.
Noiva? A palavra rolou como uma onda no meio da multidão de jornalistas. Algumas pessoas sussurravam e outras gritavam tão alto que era impossível acompanhar. Eu não esperava que alguém descobrisse que eu ia me casar com Wes. Eu ainda nem tinha uma aliança.
— Dr. Hoffman, dr. Hoffman, o sr. Channing e a srta. Saunders vão falar sobre o sequestro no seu programa? — um repórter gritou a plenos pulmões.
O médico abriu um sorriso enorme. Filho da puta. Babaca. Ele adorava aquela atenção e com certeza havia planejado tudo.
— Bem, a srta. Saunders é contratada do meu programa. Ela vai apresentar um quadro toda sexta-feira. Vocês deviam assistir. É brilhante, especialmente porque o noivo dela ajudou a produzir.
— É verdade, sr. Channing? — Os repórteres foram à loucura. — Você já está voltando ao trabalho depois de vários homens da sua equipe terem sido mortos?
Chega. Peguei Wes pela mão, abrimos caminho pela multidão e corremos. Corremos pela nossa vida. Ainda assim, tantos fotógrafos vieram atrás de nós que era difícil ver a floresta através das árvores, ou, nesse caso, o estacionamento onde minha moto, Suzi, estava parada.
Pulei em cima dela e dei partida enquanto Wes enfiava o capacete na minha cabeça e passava um braço ao redor da minha cintura.
— Não vá pra casa. Só acelere, baby — Wes rosnou no meu ouvido, me segurando apertado. — Acelere.
Com certeza eu ia me casar com aquele homem. Ponto-final.
***
Naquela noite, Weston acordou com um grito surpreendente. Desta vez ele sacudiu a cama, e nós dois acordamos assustados. Ele estava ofegante quando acendi a luz e me levantei, sem saber o que encontraria ou se deveria ficar ao alcance dele. Seus olhos eram buracos negros. As narinas abriam e fechavam, e um grunhido curvou seus lábios. Ele me olhou como se não comesse havia dias e eu fosse sua próxima refeição. Não, dias não. Semanas.
— Wes... — Tirei a camisola, permitindo que o tecido roçasse em meu corpo e caísse a meus pés. Desde que os pesadelos começaram, eu não me preocupava mais em usar lingerie. Ele rasgava todas as peças, e às vezes aquilo resultava em marcas no quadril, uma vez que ele as puxava com força.
O homem que eu amava não era ele mesmo naquele momento. Ele estava indo bem e não tinha pesadelos havia dois dias. Imaginei que eles voltariam, mas estava esperando por mais tempo.
— Preciso de você — ele rosnou.
— Por quê? — Eu tocava meus mamilos, mais para seu prazer do que para o meu. Embora não fosse um sacrifício. Meu cabelo estava solto e caía pelas costas em ondas negras, do jeito que ele gostava.
Seus dentes cerraram e eu podia jurar que ouvi um zumbido baixo, um aviso na parte de trás de sua garganta.
— Minha — ele grunhiu.
Balancei a cabeça.
— Não, não é o suficiente. Diz que me ama.
— Eu te amo — ele disse instantaneamente, mas o tom não foi amoroso. Wes dizia que me amava de inúmeras formas: doce, suave, macia, desesperada e muito mais, mas não naquele tom. Eu não o aceitaria. Aquele inferno selvagem não era o homem que eu amava. Esse homem era uma réplica quebrada de alguém, mas não era ele. Sua mente estava perdida em uma cabana, numa área que havia sido dizimada pelo exército americano.
— Não. Por que você me ama? — perguntei, caminhando ao redor da cama, me aproximando.
Os olhos de Wes pareciam seguir cada passo.
— Porque você acaba com isso que eu sinto?
Esse tom desesperado me amoleceu até o ponto em que meu lado emocional geralmente cedia.
Pelo menos estávamos chegando a algum lugar. O suor escorria por sua pele, caindo em direção ao torso esculpido e ao longo dos músculos que compunham o belo abdome.
— E como eu faço pra acabar com isso? — Movi o quadril nu para o lado. Seus olhos acompanharam o movimento. — Você não está sendo machucado, certo? Não aqui, na nossa cama.
Ele se encolheu e balançou a cabeça.
— Wes?
Ele ergueu o olhar e estremeceu.
— Eu pareço estar machucada?
Wes precisava enxergar a verdade. Se conectar com a realidade mais uma vez. Ele olhou para o meu corpo nu com segundas intenções, mas também com aquele toque de familiaridade, de conexão. Estava voltando, lenta, mas seguramente. Eu tinha feito o meu trabalho. Por sorte, sempre o trazia de volta para mim.
— Não. Você parece boa o suficiente pra trepar. — O linguajar vulgar viajou até o meu núcleo e eu amoleci, me preparando para ele. Eu precisava ser forte. Precisava chegar ao fim daquilo antes de aproveitar do mesmo jeito que ele queria.
— E por que você quer trepar comigo? — retruquei.
— Porque você é tudo de bom e certo no mundo. Eu consigo respirar perto de você. — Sua voz era corajosa e indomável, toda máscula.
Meu coração se abriu e lágrimas ameaçaram cair, mas eu me mantive firme. Por ele. Por mim. Por nós.
— E por que você consegue respirar perto de mim? Será que é porque você está seguro, em casa, na nossa cama?
As palavras pareceram ressoar em sua mente, porque ele piscou várias vezes e a escuridão se dissipou. Seus olhos voltaram ao verde habitual, engolindo toda a escuridão.
— Mia, linda, venha aqui. — Wes estava falando num tom que eu adorava. Um tom que eu percorreria um longo caminho para ouvir todos os dias.
Balancei os quadris com um gingado extra enquanto me aproximava da cama, então engatinhei até ele e o montei. Seu pau estava tão duro quanto granito em minha coxa.
— Isso é pra mim? — perguntei, colocando a mão ao redor da base.
— Você sabe que é. — Ele sorriu. De terror noturno para um sorriso?
Clap, clap, clap. Muito obrigada. Bom trabalho, Mia.
— E o que eu devo fazer com ele? — perguntei, tímida, umedecendo os lábios e decidindo se deveria escolher a boca ou o calor palpitante entre minhas coxas.
Eu esperava uma resposta brincalhona, mas ele levantou a mão e enfiou os dedos no meu cabelo. Com a outra, segurou meu rosto, e o polegar suave acariciou minha mandíbula quando ele olhou diretamente nos meus olhos.
— Você vai me amar. Do jeito que você quiser. Enquanto quiser. Até que tudo desapareça. Porque é o que você faz. Minha Mia. Meu tudo. Você afasta todas as lembranças horríveis e as substitui por novas.
Lágrimas se formaram em meus olhos, mas eu as segurei. Agora era hora de amor, de união, não de sofrimento e tristeza.
— Faça amor comigo — implorei suavemente.
— Achei que você nunca fosse pedir.
Eu ri quando ele me beijou, o riso se transformando em gemidos, que se transformaram em gritos de prazer durante a noite toda.
***
Bizz. Bizz. Bizz.
Dei uma pancada perto do rosto e funguei de volta para o calor de Wes.
Bizz. Bizz. Bizz.
Puta merda. Abri os olhos lentamente e verifiquei o relógio. Cinco da manhã. Sério? Wes e eu tínhamos terminado nossa maratona sexual em algum momento perto das três.
Achei que o telefone pararia de tocar enquanto eu tentava voltar para a terra dos sonhos. Errado.
Bizz. Bizz. Bizz.
Modo “não perturbe”. É isso que as pessoas normais fazem. Elas colocam o celular no modo “não perturbe”, ou o deixam em outro cômodo. A idiota aqui tinha que deixar a porcaria do aparelho ao lado da cama. Ele soava como uma multidão de abelhas furiosas enquanto vibrava na mesinha de madeira. Esticando-me, consegui pegá-lo com um movimento que deixaria ginastas olímpicos orgulhosos. Apertei o botão e o levei para debaixo do cobertor.
Wes, como de costume depois de um episódio de terror noturno, estava prendendo metade do meu corpo. Era como se ele usasse o dele todo como um escudo. Empurrá-lo, tentando me mover sutilmente, só o fazia me segurar com mais força. Aprendi aquilo da pior maneira. E, como eu queria ficar na mesma cama que o meu homem, tinha que lidar com o peso e o calor. Naturalmente, me acostumei com aquilo. Preferia ficar presa sob seu peso a deixá-lo pensar que morreria em um país de terceiro mundo.
— Alô — murmurei.
— Mia, meu anjo, ele chegou! — a voz em êxtase de Max rugiu através da linha. — Ele é tão grande. Um brutamontes, o meu menino! Olhe as suas mensagens, querida. Eu te mandei uma foto.
Eu ri e pisquei algumas vezes, afastando o celular, acessando as mensagens e abrindo a primeira das doze enviadas por Max.
O peso que me pressionava no colchão se moveu. Wes se inclinou para trás, puxou as cobertas do meu esconderijo e enterrou o rosto no meu pescoço para que também pudesse ver. A barba rala raspou ao longo do meu pescoço de forma deliciosa.
Murmurei enquanto examinava as fotos. Uma mais linda que a outra.
— É o Max? — Wes perguntou. Sua voz era um estrondo baixo.
Minha garganta estava fechada, cheia de emoção, enquanto eu olhava para o bebê Jackson. Só que não foi o querubim minigigante que me chamou a atenção. Bem, primeiro foi ele. No entanto, uma das fotos mostrava uma imagem dele enrolado, deitado no berço claro do hospital. Havia um quadrinho acima dele em que estava escrito “MENINO”. Mas não foi isso que fez as lágrimas escorrerem silenciosamente pelo meu rosto. Maxwell e Cyndi tinham dado a Maddy e a mim um presente. Um presente que eu sabia que iria nos conectar pelo resto da vida. Acima do bebê mais adorável de todos estava o seu nome. Em letras elegantes e perfeitas, o quadrinho dizia claramente:

Primeiro nome: Jackson
Nome do meio: Saunders
Sobrenome: Cunningham
Peso: 4,7 quilos
Altura: 57 centímetros

— Max... — falei o nome dele, mas acho que saiu como uma tosse ininteligível.
Wes traçou o nome na tela e beijou minha bochecha.
— Bom homem — sussurrou para mim enquanto eu olhava para o meu sobrinho.
— O melhor — resmunguei para Wes e, em seguida, levei o celular à orelha.
— Você viu? Viu a surpresa? — Max perguntou, com mais orgulho e amor do que eu poderia aguentar. Meu coração estava prestes a explodir.
Umedeci os lábios e limpei o nariz, que escorria sobre o lençol. Ainda bem que a sra. Croft o trocava regularmente. Embora ela provavelmente fizesse isso porque sabia muito bem o que acontecia sobre eles.
— Max, não sei o que dizer... — Ninguém nunca tinha me dado um presente como aquele.
— Ah, mana, não precisa dizer nada. Só diga que ele é perfeito.
Olhei para o pequeno rosto de Jackson, os cabelos loiros parecendo uma auréola ao redor da cabeça.
— Ah, ele é. Muito perfeito. E o nome dele... Obrigada.
Max respirava pesadamente no telefone.
— Mia, ter você e a Maddy na nossa vida... Não consigo nem dizer o que isso significa pra mim. Eu estava tão perdido depois que o meu pai... — Sua voz ficou embargada. — Descobrir que você e a Maddy são minhas irmãs... Meu anjo, essa é só uma forma de a Cyndi e eu mostrarmos para vocês que nós estamos ligados para sempre. Está me ouvindo? Para sempre. Vocês duas são minhas irmãs, e o sobrenome Saunders é uma parte de vocês. Não quero que exista nada de errado entre nós. Essa é a minha maneira de dizer que nada vai separar a gente.
— Eu te amo, Max. Você é o melhor irmão do mundo. E Jackson Saunders Cunningham é um nome lindo. Forte e bonito, assim como o pai dele. Eu estou louca para ver o bebê.
Max riu.
— Foi bom você mencionar isso. A Cyndi e eu pensamos que talvez vocês todos pudessem vir para o rancho no Dia de Ação de Graças. Se, hum, você não estiver trabalhando.
Ação de Graças. O feriado. Coisas com as quais eu nunca tinha me preocupado até agora. Estávamos nos aproximando do feriado. Como seria a demanda do programa? Se eles me mantivessem até novembro, e isso era um grande se, eu podia me matar para tentar fazer o quadro em alguns dias e ir para o Texas no feriado.
Um verdadeiro feriado de Ação de Graças em família. Mas Wes poderia querer que nós ficássemos com a família dele. Merda, eu não sabia. São coisas que normalmente se combinam com o companheiro.
— Hum, parece divertido, mas sem promessas, tá? Preciso conversar com o Wes e ver o que vai acontecer no programa. Tudo bem se eu disser que preciso de um pouco de tempo pra descobrir para onde vamos?
Max riu. Não uma daquelas risadinhas afetadas que as pessoas dão, mas uma risada tão alta que ecoou através do telefone, indo direto para o meu peito.
— Claro, meu anjo. Você precisa combinar com o seu namorado e com a Maddy. Imagino que ela precise combinar também com a família do Matt. São boas pessoas. Talvez eu convide todo mundo.
— Vai com calma, garotão. Vocês acabaram de ter um bebê. A Cyndi pode não querer uma casa cheia de gente pouco mais de um mês depois de ter tido um filho. — Achei importante mencionar. Não que eu soubesse como é ter um bebê, mas todos os programas de TV e filmes fazem parecer que os primeiros meses são desgastantes.
— Foi a Cyndi que sugeriu! — ele disse.
— São os hormônios da gravidez falando. Ei, curta o bebê Jack. E, por favor, continue me mandando fotos. Quero a minha caixa de mensagens cheia de imagens do menino mais bonito do mundo, para que eu possa babar bastante.
— Pode deixar! — Max disse, alegre. A felicidade em sua voz era incomparável. Eu gostaria de poder estar lá para abraçá-lo e dizer como estava feliz por ele. Estar a dois mil quilômetros de distância naquele momento era um saco.
— Mande o meu amor pra Cyndi e diga que ela fez um belo trabalho! Esse menino é um leitão! Mais de quatro quilos. Caramba!
— Ah, é de família. Meu pai disse que eu nasci com quase isso também. Você e o seu namorado que se cuidem. — Ele riu ao celular. Eu queria atravessar a linha e beliscá-lo.
— Você é mau. Retiro tudo o que eu disse — bufei.
— Desmancha-prazeres! Ainda bem que você gostou da surpresa. Eu te amo, mana.
E as lágrimas estavam de volta. Jesus, eu sentia como se minha vida tivesse se tornado uma série de cartões da Hallmark. Cada um que eu pegava era uma luta com as lágrimas.
— Eu também te amo, Maximus. Se cuida.
— Pode deixar. Volte pra cama. O que está fazendo no telefone tão cedo?
Antes que eu pudesse responder de forma vingativa, ele desligou. Droga, primeiro Gin ganhou a batalha ao telefone, e agora Max. Eu estava perdendo o jeito.
Suspirei assim que braços me envolveram e me aninhei no peito de Wes.
— Ei. — Eu me aconcheguei em seu calor como um filhotinho de gato que encontra um local confortável. Ele acariciou meu cabelo e sussurrou.
— A sua família está bem?
Assenti em seu peito.
— Sim. A Cyndi está bem, o bebê tem um nome incrivelmente legal e eu sou tia pela segunda vez.
— E como é isso? — Wes murmurou, mas parecia estar muito longe. O esgotamento havia cobrado seu preço. Mesmo que a notícia fosse boa e eu quisesse gritar do telhado, estava quase cochilando.

— É... é perfeito.

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