8 de janeiro de 2017

Capítulo Nove

O capô da caminhonete estava frio ao toque, resfriando a palma das minhas mãos quando me inclinei sobre ele, me curvando, olhando para os pés.
Apenas respire. Inspire... expire... inspire... expire. Repita. Tudo vai fazer sentido em breve.
Repeti o mantra sem parar até que o cascalho rangeu atrás de mim. Um par de botas pretas de caubói apareceu em meu campo de visão. Ele não falou nada durante um longo tempo, e eu apreciei aquilo. Finalmente as batidas aceleradas do meu coração voltaram a um fluxo normal. Eu me endireitei e me virei, deixando que a parte dianteira da caminhonete me segurasse.
Max estava diante de mim, os ombros caídos e uma carranca profunda marcando consideravelmente seu rosto. Os olhos, espelhos dos meus, eram como dias nublados e incertos.
— Mia, eu...
Levantei a mão para impedir quaisquer desculpas.
— Você sabia e não me contou.
Ele inalou, trouxe as mãos para cima e estalou os dedos.
— Eu não tenho desculpa. Só queria te conhecer, passar um tempo com você e talvez permitir que a verdade saísse naturalmente...
— Naturalmente, em uma sala cheia de estranhos, quando eu não posso reagir?! O que você estava pensando, Max? — gritei, sem conter a raiva. — Só consigo me perguntar por que você quis me machucar. — Respirei com dificuldade quando as lágrimas ameaçaram cair novamente.
Max levantou as mãos e se aproximou de mim. Eu não pude me virar ou fugir quando seus braços me seguraram contra o metal da caminhonete, me impedindo de fazer qualquer movimento.
— Mia, eu nunca quis te machucar. Não devia ter sido assim. Eu não sabia que a Sofia ia fazer todas aquelas perguntas. Tudo aconteceu muito rápido. — Ele balançou a cabeça. — Deus do céu. Você é minha irmã. Meu anjo, eu já te amo. — Seus olhos claros ficaram escuros e tempestuosos quando a mandíbula apertou e um músculo contraiu no queixo marcado. — Mia, eu morreria antes de permitir que algo te machucasse.
Fechei os olhos, incapaz de ver a honestidade nos partindo ao meio. Ele me amava. Meu irmão. Eu tinha outra vida, um irmão de verdade. Puta merda, aquilo era intenso demais, e eu não fazia ideia de como lidar com a situação. Tudo o que eu sabia é que precisava sair de lá.
— Me leve pra casa.
— Para Las Vegas? — Sua voz falhou.
— Não. Meu Deus! — Soltei um suspiro. — Para o rancho. Eu preciso de um tempo. E preciso descobrir como vou contar isso para a Maddy.
Max assentiu, destrancou a porta da caminhonete e a abriu para mim. Entrou e deu partida. Quando estávamos a cerca de dez minutos do rancho, ele cobriu meu joelho com a mão.
— Eu sei que isso não significa muito agora, e sei que você está tentando digerir tudo isso, mas estou muito feliz por você ser minha irmã. Depois que o meu pai morreu, antes de encontrarmos o testamento dele, eu fiquei completamente perdido. Quando descobri que tinha uma irmã, alguém com o mesmo sangue, isso me deu um novo propósito. Alguma coisa boa e certa para me concentrar. Quando vi a sua foto no site, tão parecida com a minha mãe... eu soube que as coisas aconteceriam como tinha de ser. Que finalmente eu não me sentiria mais sozinho.
— Mas você tem a Cyndi e a Isabel, e logo vai ter o seu filho. Você nunca está sozinho. — Cobri a mão sobre meu joelho e a apertei, o gelo em meu coração derretendo com sua confissão.
Ele assentiu.
— Sim, e eles são a parte mais perfeita do meu futuro. Mas tem algo especial em compartilhar o pai ou a mãe da gente. Como se fôssemos dois lados da mesma moeda. Como eu te disse, eu também tive esse sentimento. Então, quando vi que você lembrou que tinha me encontrado algumas vezes há muito tempo, eu soube que era verdade.
Umedeci os lábios e olhei pela janela.
— A minha vida toda eu sonhei com você. Bom, eu não sabia que era você, mas um menino que brincou comigo em um parquinho. — Então eu ri, lembrando da caçada que fizemos. — E que nós andamos por lá tentando encontrar uma nova mãe para você.
Ele sorriu.
— Sim, eu pensei muito naquela primeira vez, me perguntando o que tinha acontecido com aquela mulher que parecia estar envolvida com o meu pai e a filha dela. Agora faz mais sentido. Pelo que eu entendi, o meu pai estava perseguindo a nossa mãe, mas ela não queria ser encontrada.
Bufei e cruzei os braços.
— É, e o meu pops também não conseguiu segurá-la. Você sabe onde ela está?
Maxwell balançou a cabeça e manobrou o carro, desviando de um gambá morto na estrada.
— Eu nunca tentei encontrá-la.
— Com o seu dinheiro e os seus contatos, imagino que seria muito fácil.
Ele olhou para mim de soslaio, mas manteve o foco na estrada.
— Seria. O único problema, meu anjo, é que, quando uma mulher vai embora, abandonando seu bebê, volta a se casar e tem outra família durante anos, para depois deixá-la também, obviamente é sinal de que ela não quer fazer parte da vida de nenhum deles, senão não teria ido embora. Às vezes as pessoas simplesmente não querem ser encontradas, ou então não fugiriam.
Repassei a lógica em minha mente enquanto seguíamos para o rancho. Aquilo definitivamente fazia sentido, mas a sensação persistente que eu tinha sobre a forma como minha mãe partira, especialmente depois do que me recordei no sonho da noite anterior, me fez considerar outra alternativa.
— Você já pensou que talvez ela quisesse que alguém corresse atrás dela?
Max desligou a caminhonete, tirou o chapéu e passou os dedos pelo cabelo.
— Nunca pensei nisso dessa forma. O que você acha? — Ele se virou de lado no banco. Olhamos um para o outro por alguns momentos.
— Acho que a nossa mãe fez muita besteira. Quando alguém costuma fazer bobagens, muitas vezes não quer que os problemas estraguem as únicas coisas boas que tem na vida. Talvez ela amasse a gente mais do que imaginamos.
Max fechou os olhos e franziu a testa.
— Se for esse o caso, talvez a gente devesse pelo menos procurar por ela.
— Eu concordo.
Decisão tomada. Max usaria seus recursos e nós iríamos procurar a nossa mãe. Eu tinha algumas perguntas para fazer a ela. A primeira era por que ela nunca nos contou que tínhamos um irmão.
***
No momento em que a porta da limusine se abriu e o cabelo loiro da minha irmã voou com a brisa, perdi a capacidade de respirar. Madison Saunders, minha irmã caçula, era uma bela visão, vestida com calça cropped, sandália plataforma e uma camiseta regata simples. Maddy estendeu a bolsa e Matt quase não compreendeu quando ela saiu correndo em minha direção, os braços tão abertos quanto o sorriso. Eu me preparei e esperei que seu peso batesse em mim. Quando o fez, foi como se uma nuvem de amor tivesse nos envolvido, me enchendo de alegria.
Maddy deu gritinhos no meu ouvido. Normalmente eu a giraria e bancaria a irmã mais velha pateta, mas desta vez a abracei tão apertado que seria necessário um pé de cabra para nos afastar. A sensação de medo que tive ao pensar em soltá-la, em não tê-la por perto, se acumulou ao meu redor como um nevoeiro espesso. A menina sempre foi o meu tudo, e eu sabia que, apesar de estar muito animada em vê-la, havia o fardo da verdade pairando naquela visita.
Soltando-se dos meus braços, Maddy franziu o cenho, segurou meu rosto e encostou a testa na minha.
— Qual é o problema? Por que você está triste? — Ela secou a umidade do meu rosto, enxugando as lágrimas que eu não percebi que estavam lá.
Limpando a garganta, soltei lentamente a respiração.
— Só estava com saudade. — Tentei acalmá-la.
Suas pálpebras se estreitaram.
— Você não está sendo sincera comigo. Não gosto disso, mas vou descobrir quando estivermos sozinhas.
Eu ri e bufei ao mesmo tempo.
— Certo, menina. Me deixe olhar pra você! — Eu me afastei o suficiente para poder examiná-la, e ela se iluminou como o sol entre as nuvens em um dia nublado. — A menina mais linda do mundo, mas...
— Só quando sorri — Matt entrou na conversa. Ele segurou sua cintura, puxando-a para seu lado e afastando-a do conforto dos meus braços. Ele pagaria por aquele movimento. Apertei os olhos para ele.
— Essa fala é minha!
Ele riu.
— Eu sei. — Balançou as sobrancelhas. — A Maddy me disse isso um milhão de vezes! Não vejo a hora de ouvi-la dizer as mesmas palavras para os nossos filhos um dia. — Ele esfregou o nariz no da minha irmã, e eu quis vomitar e abraçá-lo ao mesmo tempo.
A voz potente atrás de mim pigarreou ou amaldiçoou. Eu não estava bem certa.
— Maddy, tem, hum... algumas pessoas que eu gostaria que você conhecesse. — Virando-me, encontrei Maxwell abraçando a esposa, Cyndi. Isabel estava pulando nos degraus da varanda, atrás dos pais, perdida em seu próprio mundinho, como era comum à maioria das crianças de quatro anos.
Os olhos de Max estavam enormes, a boca aberta de forma pouco atraente. Os olhos de Cyndi também pareciam estar assustados, só que ela tinha uma mão cobrindo a boca aberta. Nenhum dos dois disse uma palavra enquanto eu segurava a mão de Maddy e a levava para mais perto.
— Hum, gente, oi? — Acenei com a mão na frente de ambos, e eles pareceram sair do transe ao mesmo tempo.
— Jesus... — Max sussurrou.
Cyndi ofegou de forma gutural.
— Ah, meu Deus.
Eu me virei para Maddy.
— Eles geralmente não são esquisitos assim, mas este é Maxwell Cunningham e esta é sua esposa, Cyndi. Pessoal, esta é a minha irmã caçula, Madison Saunders, e o noivo dela, Matt Rains.
As sobrancelhas de Maddy se ergueram quando Max e Cyndi continuaram a encará-la. Os olhos de Maxwell não deixaram seu rosto. Era como se ele estivesse atordoado por causa de uma arma de choque, a boca entreaberta e os olhos observando tudo lentamente.
Cyndi falou primeiro, mas o que ela disse não fez nenhum sentido para Maddy.
— Ela parece... Jesus, ela é idêntica a você — ela afirmou, como se também tivesse sido atingida por uma arma de choque.
— É inacreditável — Max finalmente disse, inclinando a cabeça para o lado.
Matt passou um braço ao redor da cintura de Maddy e a puxou para o lado.
— O que está acontecendo? Parece que vocês dois viram um fantasma.
Ele disse exatamente o que eu estava pensando. No entanto, devia ser bem estranho ver sua irmã pela primeira vez, especialmente uma que se parecia tanto com a gente.  Entrelacei os dedos enquanto os dois avaliavam Maddy. Fiquei preocupada com a possibilidade de eles revelarem tudo antes que eu tivesse a chance de contar a ela. Ela precisava saber por mim que tinha um irmão.
Finalmente, Isabel apareceu entre as pernas dos pais e olhou para a nova hóspede.
— Uau! Você é bonita como uma princesa.
A garota deu um tapinha na perna de Maddy. Ela se abaixou, ficando de joelhos para que a menina pudesse vê-la de perto. Nós duas sempre tivemos jeito com crianças, mas a Maddy tinha poderes especiais. Elas eram atraídas para minha irmã como um adolescente para jogos. A menina segurou uma mecha do cabelo de Maddy e seus olhinhos se arregalaram.
— Amarelo como o meu e o do papai!
Olhei para o rosto dela, percebendo a semelhança entre as duas, em seguida olhei para Maxwell com novos olhos. Seu cabelo era do mesmo tom dourado. Até mesmo o tom de pele e o formato do rosto combinavam. Eles realmente pareciam irmãos, enquanto Max e eu tínhamos poucas semelhanças. Lado a lado, os dois eram assustadoramente parecidos.
Maddy olhou para Max e sorriu. Foi quando aconteceu. O reconhecimento. Não apenas o zumbido de familiaridade no ar ao redor da gente, mas, ao ver o rosto da pequena Isabel ao lado do de Maddy, os sorrisos idênticos, vi exatamente o mesmo em Maxwell. Era como olhar em um microscópio e ler um código genético, só que desta vez era ao vivo e a cores. Fisicamente, Maxwell, Maddy e Isabel compartilhavam o mesmo sorriso, mas não era igual ao da nossa mãe nem ao meu. Repetidamente me diziam que Meryl e eu tínhamos o mesmo sorriso. Sempre achei que Maddy tivesse algumas características do pops, mas naquele momento eu não conseguia lembrar uma única vez em que houvesse comparado os dois e os achado parecidos.
Maddy acariciou os cabelos de Isabel.
— E qual é o seu nome? — perguntou.
— Isabel, mas também me chamam de Bell.
Maddy tocou o nariz da criança.
— Bom, eu acho que você é a menininha mais bonita que eu já vi. Por isso, se você acha que eu pareço uma princesa, isso deve fazer de você uma rainha! — Ela suspirou e colocou a mão no peito. Isabel riu de um jeito doce. — Talvez a gente possa brincar enquanto eu estiver aqui, depois que eu conhecer melhor os seus pais e passar algum tempo com a minha irmã. O que acha?
— Vai ser tão divertido! — a menina gritou e bateu palmas. Em seguida, como um tiro no meio da noite, girou e correu até as escadas, gritando: — Vou pegar a minha coroa! — enquanto subia os degraus de madeira e batia a porta de tela, correndo para dentro da casa.
Maddy riu e se levantou, esticando a mão.
— Estou feliz por conhecer os amigos da Mia. E obrigada mais uma vez por mandarem o avião e a limusine. Foi a primeira vez que estive num carro desses! — E sorriu.
— O prazer foi todo meu, querida. Venha, vamos entrar. — Max estendeu o braço, liderando o caminho até a varanda. — A Cyndi fez alguns dos melhores pratos da roça. Frango frito, quiabo refogado, macarrão com queijo e torta de nozes.
Depois de ter passado as últimas duas semanas comendo as refeições de Cyndi, minha boca se encheu de água.
— Sério, a comida dela é a melhor. Vamos.
— Vocês primeiro — Maddy respondeu.
Entrelacei a mão na dela e cutuquei seu ombro.
— Obrigada por ter vindo. Senti sua falta. — Maddy se inclinou contra meu ombro, da maneira como tinha feito uma centena de vezes ao longo dos anos.
— Eu preciso aproveitar qualquer oportunidade que tenho de te ver. Especialmente quando é pra voar em um jatinho particular! — Ela riu. — Ah, meu Deus, você devia ter visto. Serviram champanhe pra gente... em um avião! — Sua voz se ergueu com a empolgação. — E nem pediram a nossa identidade! — ela sussurrou para que apenas eu ouvisse.
Segredos de irmãs eram comuns entre nós, mas aquilo estava prestes a mudar. Uma pontada acertou meu coração. Max também era seu irmão agora, e eu tinha a responsabilidade esmagadora de encontrar uma maneira de contar isso a ela.
Sempre fomos só Maddy, pops e eu. O trio de corações solitários e abandonados, sabe Deus por quê. Agora eu sabia que havia uma parte inteiramente nova de nós, algo que teria repercussões sobre quem éramos e o tipo de família que seríamos no futuro. Ainda não tinha conseguido me acostumar nem com a entrada de Matt para a família. Gostaria de saber se Maddy havia conseguido lidar com a carga horária na faculdade e todas as mudanças recentes em sua vida.
Era muito para uma jovem de vinte anos: o pai em coma, a irmã se divertindo ao redor do mundo como acompanhante, ficar noiva, ir morar com o noivo, e agora um irmão entrava em cena. Um irmão que ela jamais soube ter. Era difícil compreender aquilo. Fiquei preocupada com a possibilidade de ser um ponto crítico para Mads. Ela era frágil de um jeito que eu não era. Essa era uma parte dela que a fazia especial, embora muitas vezes ela me lembrasse de que não era uma boneca de porcelana e não quebraria sempre que uma má notícia surgisse. Só que tinha sido minha responsabilidade, durante os últimos quinze anos, protegê-la de todas as merdas que a vida pudesse jogar em seu caminho. E eu ainda não tinha descoberto se aquela era uma notícia ruim ou não. Pensar em Max e em sua família como mais um dos nossos problemas me fez sentir uma megera de coração frio, mas essa era a verdade. Havíamos lidado com uma realidade bastante dura ao longo dos últimos anos, e aquele fato novo caiu sobre nós como uma bomba de um daqueles programas de barracos familiares.
Um irmão. Pior, um irmão mais velho que tivemos antes mesmo de nascer. Nossa mãe sabia que ele existia e nunca se preocupou em mencionar para nós. Cacete, eu encontrei o menino duas vezes. Ela teve a chance de contar a verdade e optou por não falar nada. Aquilo me fez pensar se o pops fazia ideia. Rejeitei o pensamento instantaneamente. Não, ele não devia saber. Se soubesse, teria nos contado. A família era muito importante para ele, mesmo que tivesse um jeito estranho de demonstrar isso.
Por outro lado, e o pobre Max? Nossa mãe o tinha abandonado quando ele era praticamente um bebê. Ele nem se lembrava dela. Assim como Maddy. Ela não recordava nada sobre a nossa mãe. Quanto a mim, eu lembrava de tudo. Com todas as merdas de detalhes. Quanto mais eu pensava nisso, mais raiva tinha. Como ela ousara deixar Max do jeito que fez? Fugir para Vegas, ter uma filha, casar com pops, ter outra filha e depois repetir o padrão de abandono? O que havia com seus filhos que tornava tão fácil para ela ir embora?
Olhei para Maddy, rindo de alguma piada que Max tinha contado, segurando a mão de Matt por cima da mesa de jantar. A luz em seus olhos, quando brilhavam com humor, era etérea; difícil não ser envolvido por ela. Seu sorriso... Caramba, eu não era poeta, mas senti que podia recitar alguns sonetos de Shakespeare só de ver aquele sorriso, capaz de transformar qualquer coisa sombria em brilhante. Nunca, nem em um milhão de anos, eu abandonaria o amor e a confiança de Maddy. No entanto, a nossa mãe fez isso, não apenas com uma, mas com três crianças. E pior: ela havia nos negligenciado de forma ainda mais imperdoável, por não ter nos contado a respeito do outro. Max tinha trinta anos. Eu tinha vinte e cinco, e Maddy, vinte. Aquilo era mais de duas décadas de tempo perdido que jamais recuperaríamos.
Enquanto eu me sentava e pensava sobre todos os feriados, aniversários, formaturas e reuniões de família perdidos, a raiva começou a se instalar dentro de mim. O monstro irado da vingança rosnou, arranhou e cresceu em meu ventre. Exigiu tudo de mim não tomar nenhuma atitude em relação a isso. Meryl Colgrove-Saunders, minha mãe, tinha cometido os piores pecados que uma mulher pode cometer.
Partiu o coração de dois homens e, de quebra, a crença deles no amor.
Abandonou seus três filhos.
Negou a eles o amor dos irmãos.
Observar Maddy e Max interagindo, pensar em todas as vezes em que ela deveria estar lá, fez o monstro em mim rosnar e se preparar, pronto para lutar, mutilar e causar danos. Mais do que nunca, eu queria encontrar a minha mãe. Eu precisava, na verdade. Desta vez ela seria responsabilizada por suas ações, não pelos homens que abandonou, mas pelos filhos. Eu me senti mal por mim, Maddy e Maxwell. As três crianças que ela rejeitou.
Ao longo dos anos, eu sempre quis saber por que ela nos deixou. O que eu tinha feito para tornar sua vida tão ruim? O que a pequena e doce Maddy poderia ter feito? O que o pops devia ter aprontado para fazê-la nos deixar? Agora que eu sabia que ela tinha abandonado Jackson e Maxwell, um ódio profundo deslizou por cada nervo e poro do meu corpo.
— Mia, pegue essa. — Mads me entregou uma cerveja gelada. — Vamos brindar.
— Vamos brindar a quê? — Max questionou, nossos olhares se encontrando de lados opostos da mesa. Seus olhos pareciam felizes e tristes ao mesmo tempo, e imaginei que provavelmente era assim que eu estava nos últimos quinze anos.
— Não há nada mais importante que o presente. É por isso que se chama presente — falei, e todo mundo levantou sua cerveja.
— Vou beber a isso — Max falou, suas palavras nubladas por emoções que apenas Cyndi e eu entendíamos.
— Ao futuro. Que seja tão incrível quanto o dia de hoje! — disse Maddy, a felicidade revestindo seu tom.
— Ao futuro.

Que seja tudo o que nós sempre sonhamos.

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