12 de janeiro de 2017

Capítulo Dois

Os moradores da cidade costumavam ir ao Zane’s Tavern para se divertir, se aquecer, tomar uma cerveja e comer asinhas de frango picantes. Era o que dizia o site do lugar e, segundo Wes, a descrição estava correta. Quando estava na faculdade, depois de passar o dia esquiando, ele e os colegas de fraternidade iam a esse pub, onde pegavam as “marias-esquis” que ficavam ali, esperando a chance de agarrar um macho rico que as levasse para o chalé da família. Naquela época, Wes só queria curtir. Agora ele estava me levando pelos degraus íngremes, ao fim dos quais um conjunto de portas verdes nos recebeu. Uma grande placa retangular indicava, em relevo dourado contra o fundo preto, que havíamos chegado ao Zane’s Tavern.
Parecia um contrassenso ter que descer uma escada para entrar no estabelecimento, uma vez que neva muito nessa parte do país. Faria mais sentido subir, assim a neve não se acumularia na entrada. Talvez fosse uma forma de manter todo mundo dentro do pub, gastando, sem parecer sacana.
Wes abriu a porta para mim. O local era aconchegante e imediatamente me fez lembrar do Declan’s, em Chicago, onde estivéramos com Hector e Tony no Dia de São Patrício.
Aquele dia foi uma das muitas razões pelas quais Wes e eu estávamos juntos. Ele apareceu do nada, me proporcionou uma noite inesquecível e partiu, deixando para trás o cheiro de homem e de sexo. Eu sabia que havia algo mais entre nós, ainda que fizesse o máximo para combater aquele sentimento. Cheguei a passar uma noite com Alec em abril. Quando descobri que Wes estava transando com Gina DeLuca, a estrela de seu filme mais recente, fiz questão de me distanciar. Passei um mês desfrutando de um belo pau samoano para tentar esquecer o surfista sexy. Não funcionou. Na verdade, isso me fez ter mais consciência do que eu queria no fim das contas.
A mão do meu noivo estava quente em minhas costas quando ele me levou para o porão. Havia várias TVs ao redor do salão transmitindo um jogo de futebol americano. Por causa da distância, eu não saberia dizer quem estava jogando, mas a quantidade de clientes usando camisetas de time e os olhos colados nas telas indicavam que era uma partida importante.
Wes me levou para o bar e me ajudou a tirar o casaco, colocando-o no encosto da banqueta.
— A que horas esse cara vem nos encontrar? — Ele olhou para o relógio enquanto ajustava sua banqueta e se inclinava sobre a bancada. Numa época em que as pessoas podem checar o horário no celular, ver alguém usando relógio de pulso significa alguma coisa. Wes era mais tradicional e antiquado do que gostava de deixar transparecer.
— Acho que às sete.
Ele anuiu.
— Vamos tomar uma cerveja. São seis e quarenta, então nós temos algum tempo.
— Uma bebida cairia bem, com certeza. — Suspirei e apoiei o cotovelo no balcão brilhante.
Wes colocou a mão no meu ombro e apertou.
— Linda, não vai acontecer nada. Você está segura comigo. Se esse cara for um babaca, eu vou colocá-lo na linha. Não se preocupe com nada além de tomar um drinque com o seu noivo. Entendeu?
— Sim. Obrigada. — Coloquei a mão sobre a dele e me inclinei o suficiente para beijar o pedaço de pele em seu pulso onde a blusa térmica havia subido.
— O que você quer?
Apertei os lábios e olhei para a grande variedade de chopes.
— Na verdade eu vou tomar uma sidra, se eles tiverem.
O barman se aproximou.
— Ei, Weston Channing! Caramba, como você está, irmão?
O homem, com um sorriso largo no rosto, tinha uma longa barba e bigode avermelhados. Seus dentes eram perfeitos. Os olhos eram quase da mesma cor do cabelo, castanho-avermelhados. Ele usava uma camisa xadrez preta e vermelha, com um botão aberto que deixava a camiseta branca aparecer por baixo, um jeans que já tinha visto dias melhores e botas de amarrar sujas. Esse homem não era do tipo que se senta atrás de uma mesa. Não. Ele provavelmente fazia mesas com as próprias mãos, usando madeira de árvores que ele mesmo cortava. Era um cara grande, que se encaixava muito bem no estilo lenhador.
Wes apertou a mão enorme do homem. Meu noivo tinha altura acima da média e era forte. Esse cara, no entanto, parecia poder quebrar uma tora ao meio com as mãos e um pouquinho de força. Seria páreo duro para meu irmão, Max, na categoria brutamontes.
— Alex Corvin! Como vai, cara? — Wes exclamou, apertando uma das mãos do homem e segurando a outra. Eu adoro quando os caras fazem isso. Para mim, demonstra que eles realmente se importam com a pessoa.
O barbudo balançou a cabeça, o que teve o efeito ímpar de fazer sua barba balançar também. Eu não conhecia ninguém que arrasava com uma barba grande, mas esse cara arrasava, e com muito estilo. Eu tinha de admitir que ele era sexy. Eu gosto do estilo lenhador — aposto que a maioria das mulheres gosta. Esse pensamento me fez sorrir. Eu precisava tirar uma foto dele para enviar a Gin. Ela ia me matar com suas palhaçadas, e, do jeito que eu estava nervosa, seria ótimo rir um pouco com minha amiga.
Wes colocou o braço ao meu redor.
— Alex, esta é a minha noiva, Mia Saunders. Mia, este é o Alex. Nós fizemos faculdade juntos.
Estendi a mão, e a sua engoliu a minha. Uau.
— Prazer, Mia. Nossa, Wes. — Alex sorriu e mordeu o lábio inferior. — Você arrumou uma vencedora, hein?
— Em oposição a uma perdedora? — ironizei, incapaz de segurar a língua.
Os dois caíram na risada.
Alex coçou a barba como eu tinha visto o Papai Noel do shopping fazer muitas vezes quando estava fingindo pensar se uma criança tinha sido malcriada ou boazinha.
Wes sorriu e beijou minha têmpora.
— Ah, eu definitivamente consegui a mulher certa.
Alex apoiou os cotovelos no bar e olhou para mim com ar conspiratório, então indicou Wes com a cabeça.
— Se esse cara não te tratar bem e você precisar de um homem de verdade, já sabe aonde ir, tá? — Sua voz era um grunhido sedutor.
Wes ergueu a mão e o empurrou, com a palma contra a testa dele.
— Sai fora!
Os dois riram.
— Sério, Alex, a última vez que eu te vi, você estava trabalhando em Wall Street. Não nessa vibe louca de homem das montanhas. O que deu em você para querer ficar aqui no nosso reduto, servindo cerveja e hambúrguer? — Wes perguntou, curioso.
Alex limpou o balcão à nossa frente.
— Me deixe servir vocês primeiro e eu já volto pra explicar.
Fizemos os pedidos. Ele me serviu uma sidra de pera, uma Guinness para Wes e atendeu outro casal antes de voltar para nós.
— O negócio é o seguinte. — Ele cruzou os braços fortes e mexeu na barba antes de continuar. — Eu ganhei uma boa grana em Wall Street, certo?
Wes assentiu e tomou um gole da cerveja escura. Um pouco da espuma ficou em seu lábio superior, e eu olhei para sua boca macia como se ela tivesse todas as respostas do universo. Incapaz de me controlar, me inclinei para a frente, limpei-o com o polegar e lambi. As sobrancelhas de Wes se levantaram e seus olhos escureceram.
— Não comece — ele avisou, obviamente percebendo o desejo em meu olhar.
Espantei a sensação e voltei a atenção para Alex, que tinha parado de falar.
— Continue — Wes pediu.
— Tem certeza? Ela parece animada. Eu tenho uma mesa muito boa nos fundos. Fiquem à vontade se as coisas esquentarem demais.
Meu rosto explodiu de calor. Eu tinha certeza de que a vermelhidão cobria meu peito e meu pescoço, chegando às bochechas.
— Não, cara. Não precisa. Ela vai conseguir o que está querendo quando nós chegarmos em casa. — Wes piscou para mim. Piscou. Para. Mim. O cretino ia se ver comigo. Fez parecer que só eu sentia tesão. Encostei a taça de sidra no rosto, apreciando a sensação de frio contra calor, enquanto Alex continuava.
— Acontece que eu odeio trabalhar com números, a menos que eles estejam no cheque de alguém. E adoro trabalhar com o público, conhecer gente, proporcionar um lugar agradável para as pessoas chegarem e ficarem. O estresse, a tensão, cara, tudo isso estava me matando. Então eu saí fora.
Wes quase engasgou com a cerveja.
— Você simplesmente largou tudo? Não estava ganhando uma grana preta?
Alex sorriu.
— Sim. O suficiente para comprar este bar e uma casa aqui. Agora eu posso respirar ar puro, livre de poluição. Todo. Santo. Dia. Eu amo a minha vida.
— E você tem alguém? — Wes perguntou.
Os ombros de Alex desabaram. Para um homem do seu tamanho, foi como deixar cair dois sacos de areia no chão.
— Um dia eu vou ter — respondeu, de um jeito que me fez acreditar que realmente aconteceria, porque ele estava aberto a isso.
Wes colocou a mão no braço do amigo, em um gesto de apoio.
— Fico feliz por você.
Alex sorriu e fez um gesto de cabeça em minha direção.
— E eu, muito feliz por você.
— Não posso me queixar. — Wes passou um braço ao meu redor, me puxando contra seu peito.
***
Assim que terminamos nossas bebidas, Wes pediu mais. E, antes que eu percebesse, havia uma pessoa tocando meu ombro.
— Hum, Mia Saunders? — uma voz profunda perguntou atrás de mim.
Girei a banqueta e olhei para cima. Mais para cima. Para o rosto robusto de um homem de cabelo grosso e escuro, que caía nos olhos. O queixo quadrado estava barbeado e tinha um daqueles furinhos que fazem uma mulher desejar colocar o dedo lá quando o beijasse. Pelo menos eu beijaria aquele homem se fosse uns trinta anos mais velha e estivesse precisando de um coroa bonitão. Ele usava camiseta térmica de manga comprida com uma camisa xadrez aberta por cima. Talvez fosse o estilo lenhador chique, pois Alex estava vestido do mesmo jeito e era uns vinte e cinco anos mais novo.
— Claro que você é a Mia. — Seus olhos pareciam esquadrinhar cada uma das minhas características, cabelo, rosto e corpo, mas de maneira superficial. Ele passou muito mais tempo observando meus olhos, o que fez um arrepio subir pela minha coluna.
Wes se levantou e ficou à minha frente, protetor como de costume. Só que dessa vez eu gostei, porque o cara olhava para mim como se me conhecesse. E isso era desconcertante.
— Você é o Kent? — Wes perguntou.
Ele estendeu a mão.
— Kent Banks. Eu sou a razão de vocês estarem aqui — respondeu de modo automático.
Wes apertou sua mão e se apresentou. Eu fiz o mesmo.
Kent apontou para uma das mesas.
— Se importam de nos sentarmos para conversar?
— Claro. Obrigada — eu disse, segurando meu copo de sidra. Wes fez o mesmo com sua Guinness quase cheia.
Kent escolheu um lugar onde não havia tanto barulho. O bar estava um pouco agitado, com o jogo no terceiro tempo. Havia brindes, aplausos e conversa alta. Eu estava acostumada com isso, tendo crescido em Las Vegas e trabalhado em bares por boa parte da vida. O barulho não me incomodava, eu conseguia facilmente me desligar.
Nós nos sentamos, e eu fui direto ao ponto.
— Então, sr. Banks, se importa de explicar por que o senhor pagou um dinheirão para que eu, especificamente, viesse até aqui fazer uma matéria com artistas da região, sendo um desses artistas a sua esposa?
Kent franziu o cenho.
— Eu não paguei um centavo para você vir até aqui. — Ele soltou um risinho incrédulo e se recostou na cadeira, cruzando os braços.
Olhei para Wes, que parecia tão confuso quanto eu.
— A assistente do meu chefe disse que o senhor pagou para garantir que eu viesse fazer uma matéria com a sua esposa.
O homem balançou a cabeça.
— Não é verdade.
— Hum, acho que é um mal-entendido, então. O senhor não me requisitou? — perguntei, incerta. Se ele não tinha me requisitado, por que eu estava ali? E por que ele havia ido me encontrar para conversar antes da entrevista?
— Requisitei, sim, mas não da maneira que você está dizendo.
Wes estendeu a mão para mim quando abri a boca para contra-argumentar. Nada fazia sentido, e o cara estava enrolando. Eu odeio quando as pessoas fazem isso. Me faz sentir uma idiota.
— Sr. Banks, o que a minha noiva e eu queremos saber é o motivo de ela ter sido chamada aqui. Ela, especificamente.
Kent brincou com o cardápio sobre a mesa.
— Eu achei que seria uma boa divulgação para a minha esposa. O trabalho dela é muito bom, e você faz matérias com pessoas que criam beleza. Provavelmente pelo fato de você ser tão bonita, isso flui com facilidade. A minha esposa, hum, viu o seu programa e ficou... animada. — Ele olhou ao redor do salão. Havia alguma coisa que ele estava escondendo. Em Vegas, você aprende a ler a expressão facial das pessoas, ou seus tiques, como se diz no pôquer. Kent Banks definitivamente não estava dizendo toda a verdade.
— Animada? — perguntei.
— Sim. Ela não é o tipo de mulher que se deixa levar facilmente. Quando ela te viu na TV, eu... hum... tive certeza de que precisava te trazer aqui.
— Por que eu?
Mais uma vez, seus olhos pareciam me analisar detalhadamente. Era inquietante. Eu me senti insegura, querendo saber se faltava alguma coisa no que ele via. Eu não gostava da sensação. Normalmente eu era confiante, mas, sendo analisada por aquele homem da montanha, me senti... pequena.
— Não precisava ser necessariamente você. Podia ser qualquer um.
Ele estava tentando parecer indiferente, mas eu sabia que era mentira. Já tinha sido enrolada por homens como meu pai, Blaine e outros. Aquele cara estava sendo deliberadamente vago, e eu não sabia por quê.
— Me fale sobre você. — Eu precisava saber mais a respeito da pessoa que tinha me feito ir até ali, antes de ligar para Shandi e dar um esporro nela.
Cada vez mais parecia que aquela vaca tinha armado para mim. Provavelmente ela me queria fora do estúdio por um tempo, para poder ter o dr. Hoffman só para ela. Garota estranha. Ele era apaixonado pela esposa, uma atriz iniciante de Hollywood, mas sua assistente estava fazendo o que podia para me manter longe dele. Ela sabia que eu era louca por Wes, mas ainda assim fazia questão de me deixar longe do estúdio o máximo de tempo possível.
Então surgiu um homem de uma montanha qualquer contando uma história. Não fazia sentido. Nada disso. Quando as coisas não se encaixavam, meu pai sempre me dizia... procure mais fundo. Como Kent havia me trazido ali, tinha que haver mais. Alguma coisa que estava faltando.
Ele acenou para a garçonete e pediu uma cerveja. Depois que ela saiu, ele suspirou.
— Eu sou militar reformado. Servi em quatro missões no exército. Me formei em arquitetura depois e usei os meus contatos no governo para conseguir alguns trabalhos grandes. Eu faço isso há quinze anos, e foi o que me deu a vida que eu queria: uma companheira, dinheiro no banco, uma casa confortável e terra para cuidar. Estou vivendo o sonho americano. É tudo o que eu sempre quis.
— Filhos? — perguntei.
Seus olhos se estreitaram.
— Não. Eu sempre quis ter. Mas não tive.
— Por que não?
— Nunca era a hora certa. Eu servi até os trinta e cinco anos. Conheci a minha mulher quando estava com quarenta. Ela não quis ter filhos.
Tomei um grande gole de sidra.
— A sua mulher é artista?
Ele assentiu.
— Ela tem uma galeria na Main Street chamada 4M.
— Quatro M, o número e a letra? — Eu quis confirmar, assim saberia aonde ir no dia seguinte.
— Sim.
— O que significa?
Ele balançou a cabeça, com uma expressão sombria no rosto.
— Não tenho certeza. Uma vez ela disse que representava algo importante que ela deixou para trás.
Wes inclinou sua Guinness e terminou de beber o líquido cor de café, colocando o copo de volta na mesa.
— Bom, isso aqui não foi exatamente divertido. Olha, sr. Banks, eu tenho certeza que você é um cara legal. Pelo menos parece ser. Mas a Mia não deveria estar aqui nessas circunstâncias estranhas.
— O que isso significa? — O tom de Kent ficou áspero, quase duro.
— Significa que eu não vou deixar a minha futura esposa ser conduzida por uma assistente imatura e mal informada. Mia, linda, se você ligar para o dr. Hoffman, nós podemos esclarecer tudo isso e voltar para Malibu antes do Natal.
— Malibu. Você é de lá? — Ele pareceu surpreso, como se achasse que eu tinha vindo de outro lugar.
— Sim — respondi, pensando na oportunidade perdida de ter um Natal com neve. Eu não queria ir embora.
— Bom, você está bem longe de casa para não fazer o que veio fazer. A minha esposa é talentosa, e eu tenho certeza que, se você visitar a galeria dela e conhecer os outros artistas da região, pode encontrar algo que vem procurando há tempos. Um pedaço de si mesma — ele disse, de um jeito enigmático. — A arte tem o poder de fazer isso. Abrir a alma e deixar a luz entrar, quando antes só existia escuridão.
Eu me virei rapidamente para ele.
— Você está insinuando que eu tenho a alma escura?
Ele piscou lentamente.
— De jeito nenhum. Por que você chegou a essa conclusão?
— Bom, acho que está na hora de ir embora. Obrigada por vir se encontrar conosco, sr. Banks. Essa coisa toda é... parece... não sei... — balancei a cabeça e afastei o cabelo do ombro — ... estranha, de alguma forma.
Ele se levantou, colocou as mãos nos bolsos e me olhou. Mais uma vez, seus olhos me avaliaram, mas não me provocaram arrepios. Era como se ele estivesse vendo alguém que se parecia muito com uma pessoa que ele conhecia. Uma sósia. Maddy me disse uma vez que todo mundo tem um sósia, um irmão gêmeo por aí.
— Espero que você decida ficar, Mia. Eu tenho uma sensação boa, de que você pode encontrar algo que não esperava.
Dei risada.
— Você é vidente ou coisa parecida?
Ele sorriu.
— Não. Só um velho que sabe das coisas.
— Velho? Você não pode ter mais de cinquenta anos.
— Cinquenta e cinco.
— Ainda assim, não é velho. Jovem de coração.
— Acho que todo mundo é governado pelo coração, de uma forma ou de outra — ele falou daquele jeito esquisito que, honestamente, era bem estranho vindo de um militar aposentado/arquiteto. — Espero que você decida ficar. Eu consideraria uma bênção se você visitasse a galeria.
Uma bênção. Que escolha estranha de palavras.
Wes me ajudou a vestir o casaco.
— Vamos ver.
— Certo. Eu acho que muitos olhos vão ser abertos nos próximos dias.
Apertei os lábios.
— Tá bom.
Wes enganchou o braço no meu. Eu me virei e acenei para o homem gigante. Ele levantou a mão e moveu os dedos lentamente, como se não quisesse dizer adeus.
Wes me guiou até o carro e me ajudou a entrar. Lá dentro, se virou e olhou para mim.
— Eu não entendi qual é a desse cara.
— Ele é inofensivo. Eu vou dar um esporro na Shandi por nos mandar nesta missão inútil. Isso não foi legal.
— Não, não foi. E agora, o que você quer fazer? A equipe de filmagem chega amanhã à noite. A nossa família chega no fim da semana pra ficar até depois do Natal. Você quer cancelar e voltar pra casa? Natal na praia? — Ele balançou as sobrancelhas sugestivamente.
Fiz beicinho e olhei para ele, piscando lentamente.
Seus ombros caíram.
— Natal na neve?
Abri um largo sorriso.
— Natal na neve.
— Tudo bem, baby. Então nós vamos ter um Natal na neve. Você quer fazer a matéria? — ele perguntou.
Ponderando sobre isso, pensei se poderia recusar. Normalmente eu usava minhas próprias ideias, mas entrevistar os artistas da cidade não era ruim. Os fãs iriam gostar, especialmente nesta época do ano, quando as pessoas se animam com assuntos relativos a artesanato e decoração.
— Eu acho que deveria — Wes refletiu. — Seria fácil. Visitar as galerias, entrevistar alguns artistas e mostrar a bela cidade onde a arte é feita. Se encaixa no clima da temporada.
— É verdade. Além disso, eu fiquei interessada em conhecer a mulher desse cara. Você não?
Wes balançou a cabeça.
— Na verdade não. Eu sinto que tem urucubaca aí.
Dei uma risada.
— Urucubaca?
— É. Sabe, tipo... ziquizira.
— Você é louco! — eu ri.
— Essa fala é minha.
— Não é mais. Acabei de passar o troféu de louco pra você.
Ele ergueu as mãos, como se estivesse carregando um troféu.
— Dedico este prêmio à minha linda esposa, Mia, cuja loucura não conhece limites. Ela é ótima em fazer loucuras, me chupa até me deixar louco... enfia tudo até...
Bati no espaço entre suas mãos.
— Me devolve o meu troféu!

Passamos o resto do trajeto rindo e falando sobre loucuras. Todos os tipos de loucuras. Quando chegamos ao chalé, nós dois estávamos meio loucos.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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