8 de janeiro de 2017

Capítulo Dez

Droga! Pela quinta vez tentei ligar para Wes. Nada além de caixa postal. Infelizmente, eu havia recebido uma mensagem no mesmo dia em que descobri que Maxwell era meu irmão, dizendo que Wes precisou ir até uma locação. Desta vez, tinha sido para um local remoto em pleno coração da Ásia. Aparentemente, um ator do set havia sofrido um grave acidente de carro, o que significava que Wes precisaria reformular algumas de suas cenas no campo de batalha. Logo imaginei que ele estaria inacessível por um tempo, mas isso não me impediu de tentar contatá-lo diariamente durante os últimos cinco dias.
Não ter Wes para compartilhar minha descoberta me magoou. Eu tinha passado a contar muito com ele em pouco tempo. Talvez fosse esse o caminho do verdadeiro amor. O casal se apoiava um no outro até que não houvesse outra fonte com o mesmo efeito. Claro, eu tinha Ginelle, mas não iria sobrecarregá-la com isso ainda. Além do mais, Maddy merecia saber de tudo antes da minha melhor amiga. Isso a afetava, e eu ainda não tinha descoberto a melhor maneira de contar que Maxwell era nosso meio-irmão. O que eu fiz, porém, foi roubar sua escova de cabelo e pedir a Max que mandasse seu pessoal fazer o mesmo teste de DNA. Eu queria algo com o nome dela, em que ficasse comprovado que ele era realmente seu irmão. Não que eu não acreditasse que fosse verdade. Quanto mais tempo eu passava com os dois, mais me sentia uma forasteira.
Eles não eram parecidos só fisicamente, mas também nos gestos. Por exemplo, a forma como inclinavam a cabeça enquanto pensavam, ou como passavam os dedos incansavelmente pelo cabelo, sem nenhuma outra razão além de tocá-lo. A maneira fácil e frequente como os dois sorriam. Eles compartilhavam algo que eu não conseguia entender. Nem queria. Maddy sempre tinha sido minha, e agora eu teria que dividi-la. Ainda bem que Max era incrível.
Ele já me tratava como irmã mais nova, embora tenha se segurado por causa da Maddy. Felizmente, ele respeitava o nosso relacionamento e tudo de que eu havia desistido ao longo dos anos, e não tentou passar por cima daquilo. Todos os dias perguntava quando contaríamos a ela. Tínhamos mais dois dias antes que ela e Matt fossem embora, e mais alguns antes que eu voltasse para Malibu. Naquele ponto, eu não tinha certeza de que Wes estaria lá. Nem sabia como seria ficar naquela casa enorme sozinha. Claro, supostamente era minha casa agora, mas eu ainda não tinha tido tempo suficiente para senti-la como minha. Agora era o local para onde eu voltava entre um cliente e outro. Mais cedo ou mais tarde, eu deixaria minha marca.
Uma batida soou na porta do meu quarto.
— Entre.
Fechei o diário em que estava escrevendo meus pensamentos e sorri quando Max apareceu. Sua estrutura era tão grande que quase preencheu o quarto, mas o que me surpreendeu foi a mulher que o seguiu. Era a advogada, Ree Cee Zayas. Merda, ela estava chiquérrima de novo. E eu ali sentada, de legging, camiseta e pés descalços. O cabelo estava preso num coque bagunçado e eu estava sem maquiagem, enquanto ela entrou usando um tailleur vermelho poderoso, combinando com os lábios pintados na mesma cor. Seus olhos negros como carvão pareciam suaves quando ela colocou a maleta sobre a cama.
— Hum, o que está acontecendo? — Olhei de Max para Ree Cee.
— Tenho algumas informações alarmantes sobre o teste de DNA que você e o sr. Cunningham solicitaram da srta. Madison Saunders.
O jeito como ela falou enviou uma pontada de medo para minha coluna, me fazendo endireitar a postura dolorosamente.
— O quê? O que houve? Ela está bem? — Eu não fazia ideia do que um teste de DNA poderia revelar. Qualquer coisa, mesmo a mera sugestão de que pudesse haver algo “alarmante”, me fez agarrar o cobertor com as duas mãos.
Max se sentou ao meu lado e colocou um braço sobre o meu ombro.
— Meu anjo, relaxe. A Maddy está ótima. O que ela encontrou no teste referente à nossa genética é que é chocante. Eu a trouxe aqui para lhe contar pessoalmente, e eu queria estar presente para que você saiba que estou com você a cada passo do caminho.
Engoli em seco e apertei sua mão, trazendo as duas para o meu peito.
— Max, você está me assustando. — Seus ombros cederam, ele segurou meu rosto e levou os lábios à minha testa, onde deu um beijo prolongado.
— Está tudo bem. Todo mundo está bem. — Ele limpou a garganta. — Vá em frente, sra. Zayas. Compartilhe o que descobriu.
O quarto inteiro estava quieto. O ar ao redor era denso, como se uma névoa tivesse nos envolvido enquanto eu observava a mulher pegar um conjunto de papéis e colocá-los na cama.
— É mais fácil se eu lhe mostrar. — Ela alinhou três documentos à minha frente, para que eu pudesse vê-los facilmente. Um tinha o nome de Mia Saunders, o seguinte Maxwell Cunningham, e o último Madison Saunders. Eram os mesmos papéis que haviam sido mostrados na tela de LCD na reunião da semana anterior. Os quadrados e as linhas eram familiares. — Consegue ver aqui, onde os seus marcadores genéticos correspondem aos do sr. Cunningham? — Assenti. Ela mudou para o papel de Max e apontou para o de Maddy. — Agora, veja como estes marcadores genéticos se igualam. — Eram quase idênticos, um a cópia do outro.
— Sim. E o que isso quer dizer? — Fiz uma careta ao tentar juntar todas as peças.
— Certo, agora compare o seu com o da srta. Madison Saunders.
Ela colocou o meu ao lado do de Maddy. Nem todas as caixas correspondiam, mas várias delas, sim.
Dei de ombros.
— O que isso significa?
Max esfregou minhas costas enquanto eu tentava encontrar a resposta que eles obviamente queriam que eu enxergasse sem a necessidade de palavras.
Ree Cee suspirou.
— Srta. Saunders, este teste foi feito três vezes para termos certeza. O sr. Cunningham pediu três testes, para que os resultados não pudessem ser contestados.
— E? — Balancei a cabeça. — Fale logo. Já sabemos que a Maddy é irmã do Max também. O que há de tão surpreendente?
Maxwell fechou os olhos, mas esperou que a advogada respondesse:
— Srta. Saunders, isso mostra que Madison Saunders e Maxwell Cunningham são cem por cento consanguíneos. Eles compartilham a mesma mãe e o mesmo pai. Você compartilha a mesma mãe com os dois, mas tem um pai diferente.
O mundo à minha volta parou. Cada músculo, cada respiração, cada átomo dentro de mim ficou paralisado. Por vários minutos, minha visão ficou piscando, e meu coração batia tão forte que pensei que alguém estivesse pisando no meu peito.
— Meu Deus, ela vai desmaiar. — Foi a última coisa que ouvi antes que tudo ficasse preto.
***
Acordei sentindo um calor na lateral e minha mão direita completamente dormente. Algo a estava prendendo, enquanto o lado esquerdo do meu corpo estava muito quente. Pisquei algumas vezes, olhando o teto do quarto de hóspedes no rancho dos Cunningham. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas por uma lâmpada suave no canto.
Um murmúrio ia e vinha, como rajadas de vento transportando sons em trechos. Com esforço, pude ouvi-lo do lado direito.
— Por favor, faça ela ficar bem. Não posso perdê-la agora, acabei de encontrá-la. Não posso. Por favor, faça ela ficar bem. — Era Max falando aquelas palavras suaves, que soavam abafadas. Ao me virar, eu o vi inclinado sobre a cama, a testa encostada em nossas mãos entrelaçadas. Ele a segurava com tanta força que parecia que meu sangue havia parado de circular. Mexi os dedos e sua cabeça se levantou. — Graças a Deus! — Ele se moveu para a cabeceira da cama e espalhou vários beijos em minha testa. Seus olhos estavam úmidos quando se inclinou para trás. — Você nos assustou demais. Apagou por uma hora.
Tentei virar, mas meu lado esquerdo ainda estava imobilizado pelo peso em cima de mim. Virei o olhar e encontrei Maddy aconchegada ao meu lado, com um braço ao redor da minha cintura. Sua cabeça estava em meu peito, a respiração saindo em suspiros suaves contra meu pescoço.
— O que aconteceu? — sussurrei, sem querer estragar o momento. Fazia muito tempo que eu não abraçava a minha menina assim.
— Você desmaiou e caiu em um sono profundo. Chamei um médico e pedi que ele viesse examiná-la. Ele disse que você estava bem, apenas dormindo um sono pesado. Disse que às vezes o corpo faz isso, quando se depara com informações extremas, difíceis de a mente lidar. Desculpe, Mia. Eu não imaginei que o que ela disse faria isso com você.
Balancei a cabeça.
— Bobagem. Eu estou bem. Não tenho dormido direito porque ando preocupada com tudo isso. — Fiz um gesto para o quarto, mas ele sabia o que eu queria dizer. — E estava preocupada com o meu namorado. Não tenho notícias dele há vários dias, ele está na Ásia, em uma locação. Então a sua advogada veio com isso... Acho que eu só desliguei.
Ele assentiu, solidário e compreensivo. Maddy se agitou e seus olhos se abriram.
— Ei, você está bem? — ela perguntou, se sentando.
Passando os dedos por seus cabelos, analisei cada faceta bonita do rosto: os olhos que combinavam com os meus, o narizinho arrebitado e os lábios vermelhos como os de um querubim. Independentemente de qualquer coisa, ela ainda era minha irmã, mesmo que pela metade, o que representava uma nova série de problemas.
— Estou bem. Vamos sentar. Precisamos conversar sobre uma coisa com você.
Recostei-me na cabeceira e brinquei com as linhas na colcha. Eu apostaria um bom dinheiro que Cyndi tinha costurado aquilo sozinha. Isso não me surpreenderia. Ela era a personificação da perfeita esposa do campo. Max se sentou ao pé da cama e colocou a mão quente sobre meu joelho. Eu estava começando a me acostumar com o gesto de conforto do meu irmão mais velho.
— Maddy, amor, surgiram algumas informações sobre a gente e a nossa família.
As sobrancelhas dela se estreitaram.
— Que informações?
— Bem, acontece que a nossa mãe teve um filho antes da gente. — Sua cabeça recuou e a boca se abriu. — Eu sei, acredite em mim, isso também me chocou. Mas, hum... minha menina, o Max... ele é nosso irmão. — Tentei abrandar o assunto. Eu esperava que daquela forma seu lado compassivo aflorasse. De nós duas, ela era definitivamente a mais gentil.
Os olhos de Maddy se arregalaram e ela fez algo que eu não esperava. Um lento sorriso deslizou em seu rosto.
— Você é nosso irmão de verdade? — perguntou, a incredulidade permeando cada palavra.
Max assentiu.
— Sim, querida, eu sou.
— Mas como? — As palavras saíram incertas.
— Eu encontrei algumas informações no testamento do meu falecido pai deixando quase metade da empresa da minha família para uma mulher chamada Mia Saunders.
— Não acredito! — Ela colocou a mão sobre a boca.
Max riu suavemente.
— Sim, acredite. Enfim, eu contratei um investigador para localizar a Mia Saunders certa. Quando vi a foto da Mia, eu soube que ela era minha irmã. Nós até nos encontramos antes, no passado, quando o meu pai foi para Las Vegas, antes de você nascer.
— E o Max fez testes de DNA em mim e em você, e confirmou que nós somos irmãos biológicos.
Maddy ficou de joelhos e colocou as mãos sobre as coxas. Seu corpo inteiro se iluminou como fogos de artifício. Ela estava aceitando aquilo melhor do que eu tinha imaginado.
— Isso é tão legal! — Ela jogou os braços ao redor de Maxwell. — Eu sempre quis ter um irmão! — gritou de alegria. Sim, muito melhor do que eu pensava. E eu passei a semana inteira estressada com aquilo tudo. Só que não era só isso.
Bati nas costas de Maddy e Max a soltou. Ela enxugou as lágrimas e sorriu.
— Minha menina, tem mais uma coisa. Mas não estou realmente certa de como te contar isso.
Seu sorriso desapareceu e ela inclinou a cabeça para o lado.
— Apenas me conte, Mia. O que você já revelou é uma notícia incrível. A nossa família é maior do que a gente pensava. Não somos só você e eu. Agora nós temos um irmão e uma cunhada... e... ah, sim — ela bateu palmas —, temos uma sobrinha e um sobrinho a caminho! Não vejo a hora de contar para o Matt e o pops. Este vai ser o melhor ano de todos. Vamos querer vocês no casamento. A Isabel pode ser a minha daminha... — ela continuou falando.
Suspirei e Max colocou a mão no ombro dela.
— Querida, a sua irmã está tentando compartilhar uma informação que pode não ser tão fácil de engolir. Estou contente, aliás, estou eufórico por você ficar tão feliz por nós sermos uma família. Eu compartilho desses sentimentos.
Maddy sorriu para ele como só ela podia. Merda. Por que diabos tinha que ser tão difícil? Era como se eu fosse sempre a portadora das más notícias. Pelo menos uma vez eu gostaria apenas de ter descoberto que Maxwell era nosso irmão, assim poderíamos comemorar, nos reunir em família e nos conhecer melhor. Mas não. Isso tinha que vir acompanhado do fato de que o homem que ela sempre considerou seu pai não era realmente seu pai. Ah, por falar nisso, seu verdadeiro pai estava morto e ela nunca teria a chance de conhecê-lo.
As lágrimas corriam sem controle pelo meu rosto. Inspirei profundamente e as deixei cair.
— Mads, a advogada encontrou mais uma coisa na sua genética. — Limpei as lágrimas, irritada por elas ainda estarem caindo e eu não ser capaz de segurá-las.
Max estendeu a mão para mim, os olhos traindo sua tristeza. Ele sabia o que me custaria dizer aquilo, e estava lá, compartilhando minha dor. Ele odiava saber que eu estava sofrendo, e que o que eu tinha de contar só traria mais tristeza. Ele sempre quis uma grande família, e agora estava ganhando duas irmãs para adicionar ao seu rebanho.
— Posso? — ele perguntou, e ficou claro ali que eu realmente não estava sozinha. Max podia ter se tornado meu irmão havia apenas uma semana, mas estava pronto para entrar de cabeça e segurar as rédeas, dizer o que precisava ser dito, tirar o peso da dor de cima de mim. Assenti, sem saber o que mais fazer. Meu corpo estava torturado. Era como se cada soluço fosse um golpe punindo meu peito. — Maddy, querida, o que a Mia está tentando dizer é que a advogada descobriu que você e eu temos os mesmos pais.
Ela piscou algumas vezes, mas não se mexeu.
— Você quer dizer que nós três temos os mesmos pais? Mas isso significa que o pops é seu pai também, e ele nem te conhece? — Suas sobrancelhas se ergueram até a linha dos cabelos.
Uma sensação angustiante de medo borbulhou quando falei as palavras que mudariam sua vida para sempre:
— Não, minha menina. O pops não é seu pai. Você e o Maxwell têm o mesmo pai. Isso significa que o seu verdadeiro pai era Jackson Cunningham.
A onda de lágrimas a atingiu com força, correndo em linhas suaves pelo rosto. Era como assistir a um deslizamento de terra de uma montanha na Califórnia, vendo seu rosto desmoronar em uma confusão de lágrimas, coriza e soluços destruidores.
— Mas, mas o pops... Eu não estou entendendo. — Ela cobriu o rosto enquanto chorava. Eu a puxei para o meu colo, e seu rosto foi direto para o meu pescoço, como sempre fazia em tempos de turbulência. — Mas você ainda é a minha irmã. — Ela soluçou.
— Sim, meu amor, nós ainda somos irmãs biológicas, mas pela metade.
— Pela metade não! — ela gritou, molhando a pele da minha clavícula com suas lágrimas quentes.
Beijei sua têmpora e a acariciei o tempo todo, sussurrando que a amava, que sempre estaria lá, que nada mudaria entre nós. Tentei focar no lado positivo, dizendo que teríamos Max como irmão, para tentar tirá-la do colapso emocional. Finalmente ela parou de tremer, e sua respiração se tornou lenta e uniforme. Ela chorou até dormir. Essa reação não era incomum. Quando os meninos a magoavam na escola, ela fazia o mesmo.
Max se levantou e andou de um lado para o outro.
— Será que ela vai ficar bem? — Ele parecia um animal enjaulado. O corpo estava tenso, as mãos apertadas em punhos e em posição de batalha. Ele nem nos conhecia e já estava na defensiva, pronto para proteger sua nova família.
— Sim, ela vai ficar bem. Imagino que tenha sido um golpe duro para ela. Até mesmo pra mim, mas nós estamos acostumadas a sobreviver a coisas difíceis.
Aquilo foi a coisa errada a dizer, pois ele fez uma careta e olhou para mim, seus olhos claros como uma máscara de gelo verde.
— Não mais. Agora vocês têm o dinheiro da nossa família e conexões.
Fiz uma careta.
— Nós não queremos o seu dinheiro nem as suas conexões.
— Não importa. Você vai ficar com a sua parte. Os advogados já estão trabalhando para transferir os quarenta e nove por cento para você.
— O quê? Você só pode estar brincando.
Ele parou e colocou as mãos nos quadris.
— Nada mudou, Mia. O testamento é válido. Meu pai obviamente não sabia sobre a Maddy, mas você vai receber quase metade da empresa.
— Eu não quero!
— Você não quer fazer parte da minha família? — Sua voz estava tensa, pesarosa.
— Claro, nós vamos ser uma família. Mas eu não preciso da sua empresa pra ser sua irmã. Além disso, tem a Maddy. Ela é sua irmã de verdade! — Meu tom era duro e implacável.
— Assim como você! Metade ou cem por cento, é tudo a mesma coisa pra mim.
Fechei os olhos e tentei pensar, mas havia muitas emoções girando em minha mente.
— Quero dar a minha metade pra ela, então.
Max riu. Uma grande gargalhada, inclinando a cabeça para trás e segurando a barriga, quase com histeria.
— Você vai dar bilhões de dólares em ações e tudo o que vem com isso para a nossa irmã caçula?
Eu me encolhi e apertei os lábios.
— Ela é a única pessoa que importa.
Ele bufou.
— Então você está se matando para pagar os estudos dela, indo de um lugar a outro para fingir ser qualquer coisa que alguém precise para saldar a dívida do seu pai, mas não vai aceitar um dinheiro que é seu por direito? Você é demais, meu anjo.
— Eu mesma vou falar com a advogada.
— Tarde demais. Já pedi para ela esboçar um documento para dividir a empresa em três partes. Em breve, você e a Maddy vão ser mulheres muito ricas, mas vamos levar de seis meses a um ano para cumprir as condições estabelecidas no testamento. Depois disso, nós dois vamos assinar a partilha.
— Mas o Jackson não era meu pai. Por que eu deveria ter qualquer participação nisso? Divida a empresa entre vocês dois.
Ele negou com fervor.
— Não era o que o meu pai queria. Ele sabia quem você era, sabia que não era dele e queria que você recebesse de qualquer forma. Agora, se ele soubesse que a Maddy era dele, eu sei, do fundo do coração, que ele desejaria dividir entre nós três. Ele era esse tipo de homem. Honra e família significavam tudo para ele.
— Você não vai mudar de ideia, não é? — sucumbi.
— Não.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Mandão e teimoso? — Um lento sorriso deslizou em meus lábios, embora eu não quisesse.
Ele sorriu, se sentou na cama e pegou minha mão.
— Quando se trata da minha família, pode apostar.
***
O zumbido do celular me acordou de um sono pesado. O tipo de sono que acontece depois de tomar dois comprimidos de Benadryl. Procurei o aparelho e atendi sem verificar quem era. Provavelmente era Millie. Eu tinha enviado uma mensagem para ela pedindo que me mandasse os detalhes do próximo cliente, mas para me dar alguns dias em Malibu antes. Ela concordou, e eu não tinha nem me preocupado em saber quem era o novo cliente. Não pareceu importante antes, mas ela provavelmente devia estar querendo saber se estava tudo certo, já que eu voaria para Malibu no dia seguinte. Maddy e Matt estavam voltando para Vegas, no jatinho particular de Maxwell, com as novas informações de que ela tinha um irmão, estava prestes a se tornar uma mulher muito rica e o homem que a havia criado não era seu pai.
— Alô, Mia Saunders? — Uma voz anasalada rompeu minha felicidade sonolenta.
Limpei a garganta.
— Hum, sim. Sou eu. Quem é?
— Aqui é Wilma Brown, do Hospital e Clínica de Convalescença Kindred, em Las Vegas. — Eu me sentei, como se um balde de água gelada tivesse sido atirado em mim.
— Qual é o problema com o meu pai? — perguntei rapidamente, necessitando ouvir que ele estava bem.
— Srta. Saunders, receio que o seu pai esteja piorando. Ele contraiu uma infecção viral que se espalhou pelo sistema nervoso. Infelizmente, nós não tínhamos acesso a nenhum histórico médico dele e lhe demos o antibiótico mais forte possível para combater a infecção.
Ah, não. Ah, não. Eu podia ouvir no tom da sua voz que aquilo era ruim. Muito ruim.
— Ele vai ficar bem? — eu a cortei.
— Sinto muito, srta. Saunders, mas ele é alérgico ao antibiótico. Ele teve algumas convulsões antes que pudéssemos lhe dar medicação adicional para neutralizar os ataques e a reação alérgica. Mas ele também é alérgico ao medicamento de rebote e teve uma parada cardíaca.
O coração. Dele. Parou.
O coração dele parou.
O coração dele... parou.
Não importava quantas vezes ou maneiras diferentes aquela frase rolasse na minha cabeça, ela ainda tinha a capacidade de me roubar o fôlego.
— Srta. Saunders? Ele está vivo, mas em estado crítico. A situação não é favorável. Lamento dizer, mas é grave. Você e a sua família deveriam vir para cá o mais rápido possível.
— O quê? — Ele estava bem da última vez que o vi. Maddy havia me dito que ele estava ótimo, que os médicos estavam confusos sobre o fato de ainda não ter acordado.
— Ele pode não ter muito tempo. Vocês precisam vir logo, se quiserem se despedir.
— Obrigada. Vou pegar o próximo voo. Por favor, faça tudo o que puder — implorei.
— Nós vamos fazer. Até logo, srta. Saunders.
Estado crítico. Não é favorável. Venha logo. Se despedir.
Fechei os olhos, e as palavras se moveram pelas minhas pálpebras como legendas na parte inferior da tela.

Não importava quantas vezes eu visse as palavras, repetindo-as silenciosamente, o resultado ainda era o mesmo. Meu pai estava morrendo.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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