8 de janeiro de 2017

Capítulo Cinco

— Max, qual é o problema? — perguntei enquanto ele se levantava, ia até a janela e passava as mãos enormes pelos cabelos loiros.
Ele limpou a garganta.
— Hum, nada. — Fungou, tentando se recompor.
Eu estava perplexa. Ele havia começado a falar sobre negócios no ramo do petróleo, depois entrou na minha vida pessoal e, em um giro de cento e oitenta graus, estava em lágrimas. Não fazia sentido. Quer dizer, eu meio que percebi que ele tinha um fraco por coisas de família, mas nada que eu tivesse dito poderia ter feito um grandalhão como aquele surtar e chorar.
Eu me levantei, fui até a janela e coloquei a mão em seu ombro. Era firme, indicando sua força. Ele definitivamente não passava os dias por aí sem fazer nada. Não. Eu tinha a impressão de que Max era do tipo que colocava a mão na massa, e muito.
— É o seu pai?
Seus olhos mostraram dor quando as sobrancelhas se estreitaram e ele assentiu. A tensão irradiava de seu corpo como uma parede de energia magnética. Antes que eu percebesse, estava sendo puxada para seus braços, com o rosto aconchegado em seu peito. Ele me segurou enquanto seu corpo enorme tremia. Para um cara do seu tamanho, aquilo significava que toda a terra parecia tremer com ele. O que uma garota deveria fazer numa situação como aquela? Aguentar aquilo, ou ser engolida pela força do seu luto? Eu aguentei firme e sussurrei palavras de conforto:
— Está tudo bem, Max. Você vai ficar bem. Ele está em um lugar melhor. — Aquele comentário final fez com que ele me apertasse ainda mais. — Calma. Lembre-se que você tem uma esposa linda, uma filha adorável e uma família que te ama. — Seus braços tensionaram e depois ele foi afrouxando o aperto a cada respiração.
Max tossiu, deu um passo atrás e se virou. Enxugou o rosto, limpou a garganta e tossiu de novo. Querendo ser atenciosa, caminhei pela sala, dando a ele algum espaço para esfriar a cabeça e se recompor.
Após um instante, ele falou:
— Desculpe, Mia. Eu, hum, não percebi que tinha escondido tudo debaixo da armadura. — Bateu o punho contra o peito. — Eu agradeço se você não comentar sobre isso com ninguém. — Abaixou a cabeça e olhou para longe.
Dei de ombros.
— Ei, todo mundo tem problemas, Max. O seu só é mais recente.
Sua postura e a forma como ergueu o queixo revelaram o poder sob a superfície.
— Venha. Vou te apresentar o restante do campus.
— Você primeiro. — Estendi o braço, mostrando que estava pronta.
Passamos por Diane ao sair do escritório. O sorriso dela era brilhante e grande. Suas mãos estavam entrelaçadas contra o peito. Ela sorriu quando Max ofereceu o braço mais uma vez para que eu o segurasse. Eu ri e me inclinei na direção dele, tanto para seu benefício quanto para o meu. Acho que ele precisava de uma amiga em quem se apoiar.
Por algumas horas, ele me acompanhou de departamento em departamento, me apresentando sempre como sua irmã. Eu podia jurar que, a cada apresentação, o nível de orgulho em sua voz se tornava mais verdadeiro. Todo o cenário confundiu minha mente e me fez sentir estranha, como se eu fosse um barco sem âncora nem remo. Eu não tinha nada além da força dos meus braços para remar na água fria e me levar de volta à margem.
Maxwell me levou ao departamento de engenharia, onde me apresentou a uma mulher esbelta de cabelo castanho comprido, preso numa trança embutida. Ela usava óculos sem aro e tinha uma expressão tensa. No momento em que entramos em sua sala, uma névoa de desconfiança pairou no ar. Eu soube imediatamente que ela representaria um problema para o nosso joguinho de esconder-a-verdadeira-irmã.
— Mia, esta é a minha prima, Sofia Cunningham. Ela coordena o departamento de engenharia e faz parte do conselho de investidores, já que tem interesse pessoal na empresa.
Estendi a mão para ela, que olhou com desdém antes de segurá-la com muita força, me fazendo me encolher e dar um passo para trás, me soltando de suas garras.
— É um prazer conhecer você — menti.
— Aposto que sim. Então esta é a Mia, a irmã desaparecida que ninguém conhecia. — O comentário malicioso atingiu o alvo, que era Max, não eu. Ele gemeu. Quanto a mim, eu podia me segurar, então olhei para ela com a expressão vazia, sem permitir que ela percebesse qualquer indício do que eu sentia. — Onde você estava esse tempo todo?
Imediatamente revirei os olhos. Não pude evitar por mais tempo.
— Hum, Vegas — respondi com franqueza, já que era o lugar onde estive a maior parte da vida. Se alguém pesquisasse, saberia que era verdade.
— É mesmo? — Ela apoiou o peso em uma perna e empurrou os óculos para cima no nariz. — Interessante o meu tio morrer de repente e deixar para você metade daquilo em que temos trabalhado tanto na última década.
Sabendo que com aquele tipo de mulher eu não podia recuar, afastei o cabelo do rosto, enganchei o braço no de Maxwell e a encarei com desprezo.
— Acho que eu tenho sorte, não?
Sofia pigarreou e nos indicou uma mesa. Apontou para uma grande folha de papel com várias coisas escritas, que podiam muito bem estar em outro idioma, já que eu só conseguia ver linhas, fórmulas e marcas.
— Max, esses esquemas precisam ser revisados pelo conselho e pelo jurídico. O financeiro precisa liberar a verba para darmos andamento ao projeto da fábrica na Ásia. Quando você vai estar livre para ver isso?
Max passou um braço sobre o meu ombro.
— Sof, eu acabei de encontrar a minha irmã. Só tivemos um dia juntos. Talvez você possa me dar alguns dias para conhecê-la melhor antes de me pressionar com assuntos de trabalho. Eu avisei que, quando ela estivesse aqui, eu iria me afastar por um tempo.
Ela suspirou e seus lábios fizeram beicinho.
— Você sabe que eu não gosto de adiar coisas de trabalho. Isso é importante, Max. Mais importante que uma estranha — ela meio que rosnou.
O corpo dele ficou rígido.
— Sofia, você sabe o que a família significa pra mim, e eu não vou deixar você falar assim da minha irmã. Ela é da família também, assim como você. Só porque acabamos de descobrir a existência dela, isso não muda esse simples fato.
— Sim... Bem, veremos essa coisa de irmã.
— Você vai analisar as credenciais dela?
As sobrancelhas de Sofia se ergueram até a linha do cabelo.
— Talvez. O que você diria sobre isso?
Ele se inclinou, apoiando o antebraço na mesa, e se aproximou do rosto dela.
— Analise o que quiser, prima. Não há o que encontrar. Mas fique à vontade. Faça a sua pesquisa. Eu sei o que você está fazendo. Eu sei que você vai ter uma participação no ganho dos quarenta e nove por cento, mas o testamento está aí. Fale com o jurídico. Verifique os detalhes. Procure quanto quiser. Você não vai encontrar nada além da verdade. — Ele enrolou os papéis que ela havia mostrado e os colocou debaixo do braço. — Vou dar uma olhada nisto quando puder. Quando não estiver ocupado com a visita da minha irmã.
Com isso, ele se virou, colocou a mão nas minhas costas e me levou para fora da sala.
— A sua prima sempre foi uma vaca? — perguntei, sem malícia no tom. A última coisa que eu precisava era irritá-lo depois daquela conversa.
Ele começou a rir e abraçou meus ombros, me puxando para perto do seu corpo grande mais uma vez enquanto caminhávamos por um dos enormes corredores. Eu odiava admitir, mas gostava da proximidade do que parecia ser a ligação entre um homem e uma mulher sem o aspecto sexual para confundir a simples conexão humana. Com Maxwell, era fácil. Aquilo funcionava em um nível que eu não esperaria se não estivesse ali para experimentar por mim mesma. Max era um cara bom, e, quanto mais tempo eu passava ao seu lado, mais certeza tinha de que realmente gostava de sua companhia. Eu gostava do fato de ele ser simples e direto. Um homem de verdade.
Claro que, com esse pensamento, minha mente vagou para o meu próprio caubói moderno. Achei que ele poderia gostar de Max. Eles tinham muito em comum. Os dois valorizavam a família e apreciavam as coisas simples da vida, mesmo convivendo com o luxo. Ambos trabalhavam duro, e era nítido que amavam muito suas mulheres. A lembrança dos braços de Wes em mim no aeroporto atravessou meu subconsciente como um trem de carga.

Os braços de Wes estavam ao redor da minha cintura. Seus dedos faziam círculos na pele sensível, na parte inferior das minhas costas.
— Eu não quero que você vá — ele disse, como se eu já não soubesse o que ele estava pensando. Desde que tínhamos admitido nossos sentimentos um pelo outro, eu sentia seu humor e analisava seus pensamentos muito mais rápido. Talvez eu tivesse bloqueado esse lado da nossa relação antes, sem querer permitir esse nível de proximidade.
— Vou estar de volta em três semanas, e vamos nos falar todas as noites.
— Promete? — A maneira como ele pediu fez meu coração bater depressa, num ritmo que enfraqueceu meus joelhos. Eu me inclinei, soltando o peso contra seu peito. Ele murmurava aquele som de contentamento, o que me fez ronronar e esfregar o nariz em sua camisa, garantindo que seu cheiro ficasse em mim durante o voo para Dallas. Bastava inspirar profundamente e eu o sentiria.
— Em três semanas vou estar de volta. A menos que você me peça para te encontrar em outro lugar, estou planejando voltar para casa.
Toda vez que eu mencionava sua casa em Malibu como casa, um sorriso maravilhoso enfeitava seu rosto.
— Eu adoro quando você se refere à nossa casa. — Ele deslizou as mãos até a minha bunda e a apertou, me pressionando contra sua virilha. Seu membro estava semiereto.
— Eu sei. Dá pra ver que você vai ficar com saudade. — Me esfreguei em seu pau duro. Ele resmungou um palavrão e deslizou as mãos pelo meu cabelo, puxando com firmeza e forçando minha cabeça para trás. Eu estava completamente à sua mercê e amando cada segundo.

— É tão agradável ter você por perto, mana — Max falou, me arrancando da lembrança de dois dias antes. Olhei ao redor para ver se alguém estava olhando. Os corredores estavam tranquilos. Murmúrios soavam através de cada porta pelas quais passávamos. Uma conversa ao telefone, uma voz alta, alguém batendo uma revista enrolada na mão enquanto caminhava. Até o som da digitação de um teclado soou alto, mas não havia ninguém em nosso campo de visão.
Então, por que ele me chamou de mana? Talvez estivesse tentando se acostumar com o termo carinhoso. Embora eu tenha percebido, um pouco tarde demais, que gostava de ouvi-lo falar daquele jeito, mais do que deveria. Se ele continuasse, eu acabaria esquecendo que não era realmente sua irmã, mas alguém desempenhando um papel. Uma atriz de aluguel.
Brinquei, dando um tapinha em seu ombro, ou melhor, no bíceps, já que ele era muito alto. Ele me conduziu pelo edifício enorme em direção ao refeitório. Só que não era um refeitório comum. O lugar tinha quatro restaurantes, uma máquina de salgadinhos e mesas de madeira com cadeiras de assento macio para quem trazia comida de casa.
Max apontou para os restaurantes. Havia um de comida italiana, um americano, um oriental e o último era um tex-mex, especializado em comida mexicana com um toque texano.
— Onde você gostaria de comer? São todos de graça.
— De graça? — perguntei, chocada, enquanto considerava as opções.
Eu estava no Texas. Seria louca se não escolhesse o tex-mex pelo menos uma vez, então apontei para o restaurante com a grande pimenta e um sombrero no letreiro.
— Sim. Meus funcionários trabalham em turnos de doze a dezoito horas. Além disso, alguns passam a noite no que chamamos de abrigo, para tirar algumas horas de descanso e em seguida voltar ao trabalho.
Eu me encolhi.
— Por que você faz com que eles trabalhem tanto?
Ele me levou até o restaurante, que era exatamente igual a qualquer outro, exceto pelo fato de não ter caixa ou hostess. Sentamos no lugar que escolhemos e o cardápio já estava sobre a mesa.
— Não é de propósito, mas, meu anjo, alguns dos nossos projetos são extremamente urgentes. O tempo de duração pode causar uma diferença significativa no custo do barril de petróleo. Isso representa tempo e dinheiro perdido para nós, o que, inevitavelmente, é repassado para o consumidor, geralmente no posto de gasolina. — Anuí e peguei o cardápio. — O trabalho é duro, não vou mentir. Mas a minha equipe é muito bem remunerada por qualquer inconveniente. Por exemplo, a comida nos restaurantes é de graça. Nós temos uma creche, uma academia e uma sala de jogos para que eles possam descarregar as energias quando a pressão é demais. Além disso, temos um jardim zen para as pessoas fazerem caminhadas e se sentirem em contato com a natureza.
— Uau, você cuida mesmo do seu pessoal.
Ele sorriu e acenou para um dos garçons que passavam.
— Nós tentamos. Eu quero que a minha equipe, independentemente do cargo, trabalhe duro e saiba que é apreciada e valorizada, entende?
Assenti.
— Bem, eu entendo na teoria, mas nunca tive esse tipo de experiência. Pelo menos até agora. A Millie cuida bem de mim.
— Millie?
— Ah, desculpe. A sra. Milan, como ela prefere ser chamada. Na verdade ela é minha tia.
— Do lado do seu pai? — Max perguntou imediatamente.
Girando o saleiro, balancei a cabeça.
— Não. Da minha mãe.
Max apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na mão.
— Me fale sobre ela.
Se eu estivesse pensando do jeito normal, sem ser influenciada pelo ambiente legal e pela facilidade com que me vi conversando com ele, teria achado estranho seu interesse. Quem se importava com uma tia qualquer da outra pessoa?
— Hum, acho que, pra começar, eu diria que pareço com ela e com a minha mãe.
— Isso é verdade — ele disse, e eu estreitei os olhos. Como ele poderia saber se aquela afirmação era verdadeira?
Antes que eu pudesse perguntar, fomos interrompidos pela garçonete. Nós tínhamos pedido a mesma coisa: um combinado de tortilla e enchilada de queijo, e Max acrescentou dois tacos. O cara era como uma parede maciça, precisava de muita comida. Provavelmente consumia todo o estoque da despensa em casa.
— Continue. A tia Millie é irmã da sua mãe e gerencia a Exquisite Acompanhantes de Luxo, certo? Foi assim que você entrou no negócio?
— Sim. Eu precisava ganhar muito dinheiro, e rápido.
— Posso perguntar por quê?
Bufei.
— Eu não entendo por que você se importa.
Ele olhou para longe, o rosto rosado.
— Digamos que eu esteja curioso. Eu gosto de você, Mia. Já posso dizer que você é gente boa, e quero que o seu tempo aqui valha alguma coisa. No mínimo, quando voltar para casa, que você tenha outra pessoa com quem contar. Eu gostaria de ser essa pessoa.
Aprendi com esta jornada a não ser tão cética a respeito dessas coisas. Tai, naturalmente, tinha sido do mesmo jeito. Um homem que protegia as mulheres, todas elas, não por alguma ideia ultrapassada, mas porque se importava. Max tinha esse jeito também. Respirei fundo e decidi ser honesta. Colocar tudo para fora, e, se ele pensasse algo diferente a meu respeito, paciência. Eu precisava correr alguns riscos na vida. Riscos reais com pessoas e relacionamentos, se quisesse ter quem se importasse comigo a longo prazo.
— O meu pai se envolveu em alguns problemas. Ele é alcoólatra na maior parte do tempo, e viciado em jogo o tempo todo. Normalmente ele deixava em casa o suficiente para cobrir o aluguel, e só. O resto, alimentação, roupas, coisas de que a gente precisa para viver com conforto, tinha que ser pago de outra maneira.
Os olhos de Maxwell ficaram gelados.
— E como é que essas coisas eram pagas quando você era criança?
Baixei o rosto e olhei para o chá gelado que o garçom colocou na minha frente, com o açúcar e o limão.
— Geralmente eu trabalhava para ganhar o que faltava. Comprava roupas para a Mads e para mim em brechós. Eu tinha muito cuidado com as minhas roupas, porque sabia que a Maddy iria usar um dia. E sabe que ela nunca reclamou? Ela é a melhor de nós duas, a minha menina.
Falar em Maddy fez meu coração doer. Assim que voltássemos para o rancho, eu ligaria para ela. Fazia muito tempo... Eu precisava conversar com minha irmã e contar que tinha me mudado para a casa de Wes. Talvez eu pudesse fazer com que ela e Matt fossem nos ver no Natal. Acho que tudo dependeria de onde eu passaria o feriado. Eu ainda tinha uma grande dívida para pagar.
— Vocês duas devem ser muito unidas. — Sua voz estava rouca, emocionada, daquele jeito que passei a reconhecer nele.
— Sim, unidas demais. Nós praticamente só tínhamos uma à outra depois que a minha mãe foi embora e o pops começou a beber. Ele nunca se recuperou dessa perda.
Max fez uma careta e murmurou alguma coisa que eu podia jurar que era:
— Eu conheço esse sentimento. — Mas desconsiderei imediatamente. Ele não conhecia a nossa mãe, mas também disse que não conhecia a dele, então talvez fosse isso que ele quis dizer.
Houve uma longa pausa enquanto Max rasgava pedaços de seu guardanapo e eu me perdia no passado. Lembrando de alguns dos momentos em que Maddy e eu teríamos adorado o consolo de uma mãe, uma mulher que cuidasse de nós à medida que nos tornávamos mulheres.
O garçom entregou nossa comida, e por alguns instantes nos concentramos nela. Max comeu uma porção gigante de sua enchilada e largou o garfo. Depois de mastigar e engolir, juntou as mãos na frente do rosto, apoiando o queixo sobre elas.
— Você pode me contar sobre a Madison? — Sua voz saiu suave, quase necessitada.
Como eu era praticamente uma mãe coruja, não tive nenhum problema em falar sobre a minha menina.
— Eu a chamo de Maddy, ou Mads. — Ele sorriu e pegou o garfo mais uma vez, como se estivesse se entrincheirando na história e na refeição ao mesmo tempo. — Ela é linda. Cabelo loiro comprido, muito alta e magra. Os olhos são iguais aos meus. Ela está se tornando mais mulher a cada dia.
— Ela não é morena? — ele zombou. Achei estranho, mas não falei nada.
— Não, ela é o oposto de mim. — Olhei para seu rosto chocado e observei cada uma de suas características. — Sabe — eu ri —, ela parece mais com você do que comigo. Você deveria ter escolhido a Maddy para fingir ser sua irmã.
Sua mandíbula se apertou.
— O seu pai é loiro?
— Não, o cabelo dele também é escuro. A Mads puxou a nossa avó, eu acho. Pelo menos foi o que o pops disse.
— Hum. Certo, e o que mais? Você disse que ela está na faculdade?
Sentei-me um pouco mais reta.
— Ela vai ser cientista e doutora! — Não havia nenhuma vergonha em meu comentário. Minha irmãzinha faria algo surpreendente com a própria vida, e eu não poderia estar mais orgulhosa.
— Você parece muito animada com isso.
Inclinando a cabeça para o lado, eu o observei revirar a comida no prato.
— Por que não estaria? Passei a vida estimulando a Mads a fazer coisas incríveis. Eu tive que ser mãe, pai e irmã nos últimos quinze anos. E estou pagando pela educação dela, trabalhando duro de cidade em cidade para garantir os estudos da minha irmã e salvar o nosso pai.
Sua testa se franziu e os olhos se estreitaram.
— Me conte em que tipo de problema o seu pai se meteu. Você disse que ele jogava. Aconteceu alguma coisa?
Dei uma garfada na tortilla, apreciando a crocância da alface e a mistura de carne assada, queijo, salsa verde e feijão. Muito bom. Max esperou pacientemente enquanto eu mastigava.
— Acontece que ele estava devendo uma bolada para um agiota. E não tinha como pagar, pra variar. Deram uma surra nele e o deixaram em coma. Lá no hospital, eles me encurralaram e disseram que, se não recebessem o dinheiro, iam matar o meu pops. Depois iriam atrás da Maddy e de mim. Chamaram de “dívida herdada”. — Eu me mexi e afastei o cabelo do rosto. — Infelizmente, eu conheço o cretino que emprestou o dinheiro. Ele é meu ex, e é implacável. Pode facilmente acabar comigo, com o meu pai e a minha irmã se não receber. Então eu estou fazendo o que precisa ser feito para pagá-lo.
— Qual é o valor da dívida?
Uma pessoa normal provavelmente manteria essa informação para si, mas eu estava cansada de guardar segredos. Às vezes você precisa deixar a merda sair ou engoli-la de uma vez.
— Um milhão de dólares. — Os olhos de Max se arregalaram. — Eu sei. Loucura, né?
Ele fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás.
— E a sua taxa é de cem mil por mês. Então você está pagando em parcelas?
Coloquei um dedo na ponta do nariz.
— Bingo! — Eu ri, mas ele nem chegou a esboçar um sorriso.
— Quanto você deve ainda?
Remexendo a comida, pensei no assunto.
— Incluindo este mês, quatrocentos mil.
Ele bufou.
— Então é por isso que você não tem dinheiro na conta. Qualquer extra que sobra, você manda para a sua irmã, certo?
— Certo mais uma vez. Você está ficando bom neste jogo, Maximus!
Ele riu.
— Maximus?
Examinei sua forma gigante.
— Você é enorme. O apelido combina.
— Mia. — O tom de Max era muito sério. Quando ele colocou a mão sobre a minha na mesa, eu sabia que algo estava acontecendo. — Eu gostaria de pagar a dívida total. Um milhão. Assim você pode ter o seu dinheiro de volta. Você não deveria ter que pagar pelos pecados do seu pai.
Umedecendo os lábios, puxei a mão e olhei diretamente em seus olhos. Eu nunca entenderia por que homens como Max pensavam que podiam resolver todos os problemas do mundo com dinheiro. Só podia ser por causa da caraterística de donzela em perigo, o que fazia todos os homens da minha vida ultimamente se tornarem cavaleiros de armadura brilhante.
— Por que você faria isso? — perguntei de forma irreverente, mas Max não levou numa boa. Todo o seu corpo ficou tenso, e ele apertou a mandíbula com tanta força que fiquei preocupada que ele quebrasse um dente.
— Porque eu posso. — As palavras saíram estranguladas, do mesmo jeito que um alho passa pelo espremedor.
Eu me recostei na cadeira e olhei em seus olhos, garantindo que ele soubesse que eu estava falando sério.
— Isso não vai acontecer.
Ele também se recostou e apoiou um braço no encosto, como se estivesse se posicionando de maneira bem confortável.
— Seria inteligente da sua parte aprender a aceitar um presente.
Um presente. Ele era insano, completamente doido, igual àquelas pessoas que encantam cascavéis.
— Diga isso ao meu namorado rico. Eu tive uma ideia. Que tal vocês começarem um clube? O clube do “nós temos mais dinheiro que juízo”, para dar os seus “presentes” a pessoas que realmente precisem de ajuda. Eu estou muito bem, e vou continuar muito bem depois de pagar essa dívida, mudar de vez para Malibu e ver a minha irmã receber o seu diploma e a porcaria do ph.D. Agora podemos mudar de assunto? Você está me irritando, e eu estava curtindo um bom almoço grátis. Que, por sinal, para comida de graça... — dei outra garfada na tortilla mais crocante que já tinha experimentado — ... é surpreendente!
Max olhou para mim como se tivesse aparecido um terceiro olho na minha testa.
— Como quiser, meu anjo — ele disse, com um sorriso.

Meu anjo. Ele ganha o apelido superlegal de Maximus, e eu ganho meu anjo? Deprimente.

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Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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