7 de janeiro de 2017

Capítulo Cinco

Quando entramos na cobertura, Anton e Maria não estavam sentados de braços cruzados. Não. Eles estavam no meio da sala de estar, dançando.
— E aí o seu personagem faz isto aqui. — Maria fez uma série de passos complicados, girou o corpo, remexeu os quadris, tocou o chão e voltou a girar, batendo o pé em seguida, fazendo um barulho alto. — “Monte em mim, baby, monte.”
Anton repetiu perfeitamente os movimentos dela, mas, quando o fez, nós três ficamos hipnotizadas. Usando uma calça de linho larga e nada além de um coração incrustado de diamantes balançando no peito suado, o cara era lindo de doer. Uma obra de arte viril.
Heather limpou a garganta. Dois pares de olhos se concentraram em nós.
— Você precisa da gente para alguma coisa? — A timidez em sua voz me incomodou. Aquilo estava longe de fazê-la conquistar credibilidade com as duas personalidades impetuosas à nossa frente.
De forma corajosa, eu me intrometi:
— O que a Heather quer dizer é que ela tem algumas ideias que esteve trabalhando com o coreógrafo anterior e gostaria de compartilhar com a turma. — Olhei para Anton, que me encarou e inclinou a cabeça. Fiz um sinal de “se liga” com os olhos e um leve arquear de ombros.
Demorou um minuto, mas ele finalmente entendeu a mensagem. Pegou uma toalha de rosto que estava pendurada no encosto do sofá e limpou o suor da testa.
— Ah, é, H? Por que não me disse antes? — Suas sobrancelhas se estreitaram em uma acusação velada.
A boca de Heather se apertou e ela travou a mandíbula.
— Anton, eu tentei falar com você sobre as minhas ideias várias vezes. Você pediu para eu desenvolver as coisas com o coreógrafo que você veria o resultado final.
Foi então que Maria e eu percebemos que eles não paravam de se encarar. Maria se intrometeu:
Mi amiga, já que você me contratou como a nova coreógrafa, que tal me contar suas ideias? Podemos discuti-las no jantar. Suena bien?
— Posso pedir comida pelo telefone — ofereci.
— Esse é o meu trabalho. — Heather suspirou.
— Esta noite, não. O que vocês acham de sushi? — Fiz uma dancinha, que foi mais uma confusão de membros, com um remelexo de ombro.
Maria observou a exibição e gemeu, sussurrando tão baixo em espanhol que mal pude ouvi-la:
Tengo mucho trabajo por delante.
— O que ela disse? — Apontei um dedo acusador para Maria ao falar com Heather. Os olhos da coreógrafa se iluminaram com malícia e um sorriso atrevido.
Heather me deu um tapinha no ombro e me entregou seu cartão de crédito.
— Relaxa. Ela só disse alguma coisa sobre ter muito trabalho pela frente. Nada ofensivo.
Fuzilando a coreógrafa com os olhos, rosnei:
— Estou de olho em você.
Anton e Maria riram e caminharam em direção à cozinha.
— Quer uma bebida, Mia? — Anton perguntou.
— Sim, o que vocês forem tomar está bom. — Eu me virei e fui para a sala de estar. Peguei o telefone e abri o aplicativo iFood. Na hora, o Yummy Sushi Bar apareceu com mais de cem avaliações positivas, a maioria cinco estrelas. E o melhor... entrega grátis! Temos um vencedor. Sushi para o jantar!
***
— Não, não, não. Você não entendeu! — As palavras de Heather eram cortantes, estimuladas pela vodca de excelente qualidade que estávamos bebendo. Ela se levantou e caminhou até o centro da sala. A terceira rodada de martínis estava na mesa à nossa frente, cortesia das habilidades-fantásticas-de-bartender da Mia. Eu me dei os parabéns e esperei Heather concluir. — A minha ideia era uma coisa totalmente Michael Jackson em Billie Jean com Billy Joel em Uptown Girl.
Maria observou suas anotações, chacoalhando a cabeça de um lado para o outro. Ao fundo, a nova música de Anton estava no repeat, para manter a criatividade fluindo.
Sí, sí, entendo. A Mia pode entrar desfilando e se exibindo, assim. — Ela imitou uma caminhada sensual. — Aí o Anton vai atrás dela, seguindo um pouco da influência do balanço dos quadris e dos pés rápidos do Michael Jackson, mas com o seu próprio estilo de mistura latina com o hip-hop — ela concluiu, animada.
Anton foi para trás de Maria conforme ela repetia os movimentos. Enquanto ela balançava os quadris, prestei muita atenção, pois aquele seria o meu papel quando estivéssemos na frente das câmeras.
— Venha aqui, Mia. — Fiquei de pé, meio alta por causa do álcool, limpei os dedos grudentos de martíni na calça jeans e me aproximei. Ela se virou e segurou meus quadris, como se fosse um homem dançando comigo. — Agora, finja que eu não estou aqui e movimente o quadril quando eu der um tapinha nele.
Demos alguns passos e ela bateu. Balancei para a frente e para trás, pegando o ritmo.
— Agora pare e se curve, tocando os dedos dos pés lentamente, como se fosse amarrar o sapato. Depois acaricie suas pernas, seguindo pela cintura e pelos seios.
Fiz o que ela mandou.
Tan caliente — Anton murmurou, então segurou meus quadris e esfregou a virilha no meu traseiro. Ele não estava duro, mas aquela vibração nojenta me atingiu do nada e eu comecei a suar.
— An-ton — avisei. Meu lábio tremeu, expondo o medo que devia estar evidente em meus olhos, dizendo algo que não fui capaz de verbalizar, pois suas mãos me soltaram como se tivessem sido queimadas.
— Desculpe, muñeca.
Eu me virei e coloquei a mão em seu peito.
— Não, eu é que peço desculpas. Estamos só ensaiando. Vai ficar mais fácil. Prometo. — Fechei os olhos e fiz uma oração silenciosa para conseguir superar logo aquela coisa de toque. Meu trabalho dependia disso.
Do outro lado da sala, ouvi meu celular anunciando uma nova mensagem. Anton ergueu o queixo, como que aprovando que eu desse uma pausa. Corri até a bolsa, em cima do balcão, peguei o telefone e li a mensagem de Wes.

De jeito nenhum. Sem chance de eu perder o
seu aniversário. Aceita de uma vez. Vou estar em
Miami daqui a uma semana. Vamos fazer isso da
maneira fácil ou da mais difícil. O que você
preferir, linda. Mas você não vai se livrar de me
ver.

Mal sabia eu que tinha plateia. Heather nem disfarçou que estava lendo a mensagem sobre o meu ombro.
— Quem é Wes? Seu namorado?
Quem era Wes? De fato, era uma excelente pergunta. Meu amigo, amante, namorado, homem dos sonhos? De certa forma, ele era todas essas coisas e muito mais.
— Hum, definitivamente amigo, meio namorado, eu acho. Nós não temos nenhum rótulo por enquanto. Estamos indo devagar. Sabe como é.
Ela bufou.
— Eu? Hum, não. Sou a rainha dos casos de uma noite. Com o meu trabalho, não tenho espaço para uma pessoa especial, embora espere ter, um dia.
Anton passou um braço ao redor do ombro de Heather.
— Ah, nem vem, H. Tinha aquele cara em cima de você algumas semanas atrás. Lembra? Ele ficou doido quando eu entrei no seu apartamento sem interfonar.
Ela gemeu.
— Eu lembro, Anton. Não precisa me contar.
Ele riu e deu um tapa na coxa.
— Você estava montando aquele pônei com vontade! O que aconteceu com ele?
— Você! Você aconteceu com ele, Anton. Assim como com o Reece, o David, o Jonathan. Toda vez que eu me aproximo de um cara, você estraga tudo com as suas exigências, ou entrando no meu apartamento sem interfonar. Você assusta os caras antes mesmo de eu ter chance de pensar em algo mais. — Ela pigarreou e fez beicinho.
Os olhos de Anton se arregalaram até parecerem dois pontos incandescentes.
— Está de sacanagem. Você está me culpando por não ter sorte no amor?
Ela cruzou os braços.
— Não. Eu não estou de sacanagem! Quando o maior cantor de hip-hop do país entra na sua casa sem mais nem menos, com a sua aparência e me chamando de baby, isso não deixa a melhor das impressões para os futuros pretendentes. — Ela levou a mão à testa e apertou o indicador e o polegar nas têmporas. — Por que eu aturo isso? — resmungou, baixinho.
Os ombros de Anton caíram e ele ergueu o queixo.
— H, baby, vamos conversar?
— Conversar?! Vamos conversar, então. Me ofereceram outro emprego. E eu acho que vou aceitar. Que tal esse tipo de conversa? — Sua voz estava alta.
— O quê?! Você não vai me deixar! — ele gritou.
Ah, não. Maria e eu demos alguns passos para trás, até chegarmos à beira do balcão. Heather apontou o dedo para ele.
— Estou cansada de você não me ouvir. De não me promover! — sua voz se elevou, e eu levei meu martíni aos lábios. Maria fez o mesmo enquanto víamos a briga se desenrolar.
— Ouvir você? Você é a única pessoa que eu ouço! — ele respondeu. — E nunca pediu para ser promovida! O que você quer? Mais dinheiro? Feito!
O rosto de Heather se contorceu numa careta, uma expressão tão dolorida que pude sentir o calor da sua raiva.
— Nem tudo tem a ver com a porra do dinheiro! Ai, você é tão irritante. — Ela sacudiu o cabelo e se virou para a parede envidraçada com vista para o oceano Atlântico. — Talvez seja melhor eu ir embora.
Anton deu dois passos e colocou as mãos em seus ombros.
— Não. Eu não vou deixar. — As palavras estavam cheias de pesar.
— Talvez você não tenha escolha. É a minha vida — ela sussurrou, e as lágrimas encheram seus olhos.
— Você é tudo pra mim. Eu não posso trabalhar com mais ninguém.
— E eu não posso ser sua assistente pra sempre.
Ele fez uma careta.
— Você não é a porra da minha assistente. É verdade, você cuida de mim, mas você faz tudo! O que você quer de mim? Basta pedir, H. Eu não consigo ir pra lugar nenhum sem ter você do meu lado.
Maria me cutucou.
— Eles transam? — Se eu não soubesse a verdade, teria presumido a mesma coisa. Balancei a cabeça. — Talvez eles devessem — ela comentou.
— Que nada, é briga de irmãos. Tipo uma discussão entre melhores amigos. Você tem algum amigo?
Um enorme sorriso iluminou seu rosto e a deixou ainda mais bonita. Vaca. Eu queria odiá-la, mas ela era muito legal e provou ser uma força a ser admirada. Também era totalmente profissional, além de ser boa no que fazia.
— Três irmãs de alma. Aquelas vadias mandam em mim. Me deixam completamente loca. É igual a esses dois, só que parece que eles nunca falaram da importância deles um para o outro. E nós estamos vendo a consequência desse erro.
Seus lábios formaram um O silencioso enquanto continuávamos assistindo à discussão. Infelizmente, tudo acabou muito rápido, com Heather saindo feito um furacão e batendo a porta. Droga. Devo ter perdido a melhor parte.
— Merda! — Anton gritou. — Terca puta mujer! — acrescentou.
Olhei para Maria.
— Acho que é a nossa deixa.
Ela assentiu.
— Quando um homem está gritando por causa de uma mulher maluca e teimosa, é melhor sair da frente e deixá-lo esfriar a cabeça.
Na ponta dos pés, saímos da sala e da cobertura. Estávamos hospedadas em apartamentos mobiliados para convidados, por isso descemos no mesmo andar. Maria foi para um lado, e eu, para o outro.
— Ei — eu a chamei.
— Sim?
— Você acha que eu vou ser capaz de fazer esse trabalho direito?
— Claro que vai. Você tem a mim para te ensinar. — Ela piscou, abriu a porta e acenou.
***
O motor roncou embaixo de mim quando saí da garagem para as ruas de Miami. Anton pilotava a Icon Sheene. A moto era preta, com detalhes cromados. Ele usava calça jeans e jaqueta de couro pretas e camiseta branca. Eu estava exibindo meu jeans Lucky Brand gasto e macio nos lugares certos. Ou seja, na bunda. Meu traseiro ficava excelente naquela calça, e eu sabia disso. Meu cabelo estava trançado e enfiado na jaqueta de couro que eu usava por cima de uma camiseta regata vermelha, branca e preta do White Stripes que comprei quando Ginelle e eu fomos ao show em Vegas. “Seven Nation Army” ainda era uma das minhas músicas favoritas.
A KTM Super Duke laranja e preta zumbia entre minhas coxas, acariciando meu ponto central melhor do que um amante faria. Havia algo absolutamente belo e libertador em pilotar uma moto.
Anton fazia gestos com as mãos, levando-me por Miami e South Beach. Quando parávamos nos faróis, ele me contava coisas interessantes sobre as diferentes regiões.
— É aqui que os moradores e os turistas balançam o culo. — Apontou para um fluxo interminável de clubes na Washington Avenue. Em seguida, atravessamos a Collins Avenue, onde ele mostrou restaurantes e hotéis.
Claro que passamos pela Ocean Drive. Um lado era repleto de edifícios quadrados, estilo art déco, que Heather havia apontado quando cheguei, quase duas semanas antes. O outro lado era uma vasta extensão de grama pontilhada de palmeiras até o ponto onde a areia começava, e depois só havia o mar.
Paramos em um lugar frequentado por turistas e moradores, chamado Gelato-Go. Eu nunca tinha provado aquilo, mas Anton jurou que era bom.
Um pouco deslocados, entramos na pequena sorveteria. Acho que funcionava bem para Anton, pois ele geralmente era muito fácil de reconhecer. Ali dentro, ele continuou de óculos escuros. Ergui os meus enquanto analisava as opções.
— Gelato é tipo um sorvete?
Ele assentiu.
— É, sim. Sorvete estilo italiano, só que não é feito com creme, e sim com leite. E eles batem muito menos, deixando com menos ar dentro. Isso faz o sorvete parecer mais denso. Eu prefiro, porque os sabores são mais encorpados e é mais saudável.
Observei todas as opções. O de chocolate era muito escuro, me fazendo pensar que devia ter o gosto daquele cannoli amargo oferecido em restaurantes italianos. Blergh. Eu odeio cannoli.
Um cara magro porém definido se aproximou de mim. Seu cabelo era alto e penteado para trás, de um jeito muito estiloso. Ele usava uma camiseta em que se lia: “Gelato-Go, fresco todos os dias, saudável, leve, baixo teor de gordura, delicioso e cremoso”. A etiqueta com seu nome dizia “Fresh Francesco”, e, embora ele pudesse muito bem ser italiano, era difícil dizer.
Bella signora, como Francesco pode ajudá-la hoje? — O sotaque era definitivamente italiano. Fim do mistério.
— Não sei. Meu amigo aqui — apontei para Anton, que mais parecia o Exterminador do Futuro que o seu alter ego Latin Lov-ah — disse que o gelato daqui é de matar. Como eu nunca tomei gelato, o que você recomenda?
Fresh Franny sorriu como um maníaco.
— Ah, signora, você vai amar tudo. Fazemos os sorvetes diariamente, com receita caseira, pouco açúcar e nenhum creme gorduroso. Você vai manter esse corpinho por anos se tomar o nosso gelato — ele prometeu e eu ri.
Apontei para o verde com pedacinhos em cima.
— Que sabor é esse?
— Ah, boa escolha. O nosso famoso pistache. Nós trazemos as sementes da Sicília. É por isso que ele é tão especial.
Anton se inclinou para mim e sussurrou em meu ouvido:
— É surpreendente e muito saboroso. Mas eu recomendaria algo um pouco mais simples. Gosta de caramelo?
— Um apostador gosta de dinheiro? — Lancei a ele meu olhar “está-de-sacanagem-comigo”, que era minha marca registrada. Ele riu. Ah, como eu amei aquela risada. Me fez lembrar outro cara muito gostoso que estaria aqui no dia seguinte. — Tenho certeza de que noventa e nove por cento da população adora caramelo. Quem disser que não está mentindo. Normalmente pela necessidade de evitar uma coisa que pode fazer engordar só de olhar.
Francesco aguardou pacientemente enquanto discutíamos os méritos de cada sabor. Como o fato de morango ser muito sem graça para começar, já que eu queria tentar algo novo e incomum. Eu queria começar com tudo. Vá com tudo ou vá pra casa, como dizem.
— Fresh Franny, eu quero o de caramelo com dulce de leche, por favor.
— Excelente escolha! — Ele serviu uma porção da delícia cremosa no maior pote.
Tenho certeza de que meus olhos se arregalaram quando ele me entregou o sorvete.
— Eu devia ter pedido o pequeno — declarei, avaliando a sobremesa gigantesca.
Ele balançou a cabeça. Seu cabelo sacudiu com o esforço, mas continuou perfeito.
— Todo mundo volta para pedir mais. Vai com tudo.
— Se você está dizendo...
— Com certeza.
Anton, é claro, pediu o de pistache, o que me deixou louca da vida. Ele havia me feito desistir daquele sabor e depois o pediu.
— Filho da mãe! — xinguei.
— O quê? — Ele ergueu os óculos e enfiou uma colherada enorme entre os lábios. Humm, eu poderia vê-lo tomar gelato pelo resto dos meus dias. Ele era gostoso. De repente, começou a me dar calor. Tirei a jaqueta e a coloquei sobre o encosto da cadeira. Ele fez o mesmo.
Por um tempo, ficamos em silêncio aproveitando o gelato mais gostoso do mundo. Claro que foi o meu primeiro, mas eu não podia imaginar nada melhor que aquilo. A textura e a maciez pareciam um misto de sorvete e frozen iogurte. Virei fã.
— O que você vai fazer sobre a Heather? Ela ainda está brava?
— Furiosa. Quase não está falando comigo. — Ele franziu a testa e deu outra colherada. — Não sei o que fazer. Não posso deixá-la ir embora.
— E se for isso o que ela precisa?
Ele estreitou as sobrancelhas e se encolheu.
— Eu já sou famoso. Trabalhar comigo vai trazer mais reconhecimento do que com alguém que está tentando crescer.
— E você está preparado para dar a influência de que ela precisa?
— Influência?
— Você sabe, o respeito. O cargo.
Seus olhos e seu nariz franziram.
— É disso que se trata? De ela não querer ser minha assistente?
Eu queria dizer “dããã”, mas me abstive, já que ele obviamente não havia entendido.
— A Heather me parece muito inteligente. — Ele assentiu. — Linda. — Mais uma vez, ele concordou. — Mas ela é muito mais do que a sua assistente. Naquela noite, você mesmo disse que ela resolve tudo. Ou pelo menos está envolvida em tudo.
— Sim, e daí? Aonde você está querendo chegar? Me diga, Lucita.
Dei uma colherada no gelato e o deixei derreter na língua, então coloquei a colher no pote.
— Acho que ela quer ser sua agente e empresária. Não sei o suficiente a respeito da indústria para dizer com toda a certeza, mas, se ela marca seus shows, comanda a sua equipe e cuida de você — peguei a colher e a apontei para ele —, então me parece que já está fazendo esse trabalho, mas sem o pagamento, o respeito e o título no currículo, além de se desdobrar para tentar fazer tudo sozinha. Talvez ela precise de um assistente! — ri. Ele colocou as mãos no rosto, deslizando-as sobre a testa e passando-as pelo nariz e os lábios, demonstrando frustração.
— Você está certa, Mia. Cristo en una cruz, tienes razón. — Entendi bem, sem precisar pedir que traduzisse.
— A garota não tem vida, só cuida de você. Sabe, ela me disse que não tem nenhum amigo além de você. Que você é a única família que ela conhece. O melhor amigo dela.
— Ela disse isso? — Seus olhos escureceram e ele segurou o queixo com a palma da mão. Assenti. — A H sempre foi a minha melhor amiga mesmo.
— Você já disse isso a ela?
— Eu supus que ela soubesse. — Seu tom revelou que ele estava destruído pela infelicidade de Heather.
Eu ri.
— Você sabe o que dizem sobre pessoas que fazem suposições, né?
Seus olhos endureceram e ele mordiscou o lábio enquanto balançava a cabeça.
— Supor te leva a fazer papel de idiota.
Anton tomou um pouco mais do seu sorvete verde.
— Você é louca. Alguém já te disse isso?
— O tempo todo. Mas normalmente a minha melhor amiga, Ginelle, usa uma versão mais colorida dessa palavra.
Quando eu disse as palavras “melhor amiga”, Anton pareceu desanimado novamente. Ele pegou seu gelato inacabado e o jogou no lixo. Uma linha dura se formou entre suas sobrancelhas e uma ligeira carranca desfigurou seu rosto bonito.
— Vamos. Você tem o ensaio, e eu preciso falar com a minha garota.
Vibrei por dentro, fazendo uma dancinha feliz.

Então olhei para a Super Duke que eu estava pilotando e comemorei mais uma vez.

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NÃO ESTRAGUE A SURPRESA
Dar spoilers é muita crueldade com quem está lendo, por isso, jamais os dê!
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